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“Sí, nosotros podemos”
– A mudança chega a El
Salvador
Larry Hufford
[Tradução:
Eva Paulino Bueno]
No
dia 15 de março, a mudança chegou a El Salvador quando Mauricio
Funes, um apresentador de televisão muito conhecido, foi eleito
presidente com 51,3% dos votos. Funes era o candidato do partido
político FMLN.
A Frente de Libertação Nacional
Farabundo Martí – Frente Farabundo Martí
para la Liberación Nacional – foi criada em 1980 como uma
organização que reunia cinco facções rebeldes. A terrível guerra
civil de El Salvador durou 12 anos (de 1980 a 1992), com o FMLN
emergindo como o segundo maior partido nacional do país depois que
se assinaram os acordos de paz.
O partido perdedor, ARENA, tinha estado
no poder por vinte anos. O candidato do partido conservador, Rodrigo
Avila, tinha sido o chefe da polícia nacional. A ARENA foi criada em
1981 pelos oficiais militares e alguns membros da oligarquia
econômica. O major Roberto D’Aubuisson foi a pessoa que liderou o
esforço para criar a ARENA. Naquele tempo, ele estava a cargo da
guerra de inteligência do exército. De acordo com documentos
americanos de-classificados, o major D’Aubuisson foi quem deu as
ordens para que os agentes da inteligência da polícia salvadorenha
assassinassem o arcebispo Oscar Romero.
Com as memórias da guerra civil ainda
vivas na mente do povo salvadorenho, seria de se esperar que as
campanhas fossem negativas, especialmente aquelas feitas no rádio e
na televisão. Mas os estudos feitos mostraram que dois terços da
propaganda negativa foi feita pela ARENA. O tema desta propaganda
era previsível. Dizia que uma vitória da FMLN significaria que El
Salvador ficaria sob a influência e controle de Hugo Chávez, da
Venezuela. Dizia que quarenta e seis senadores republicanos
americanos tinham assinado uma carta dizendo que uma vitória da FMLN
requereria uma mudança nas relações dos Estados Unidos com El
Salvador, já que “Chávez e a Venezuela estão ligados ao Iran, uma
nação terrorista.” Outras propagandas ligavam Funes com os irmãos
Castro e com Daniel Ortega da Nicarágua.
A campanha de Funes foi uma réplica da
campanha de Obama. O tema não era simplesmente mudança, mas mudança
responsável. O candidato da FMLN se referia constantemente ao
presidente do Brasil, Lula da Silva, como seu modelo.
Na verdade, as plataformas dos dois
partidos políticos eram bastante moderadas. A ARENA, reconhecendo as
recentes eleições de presidentes esquerdistas através da América
Latina, desenvolveu uma plataforma partidária muito diferente das
que usou em eleições passadas. A oligarquia econômica reconheceu que
a ARENA perderia demais a não ser que conseguisse convencer os
eleitores pobres que se importava com sua situação econômica.
A plataforma da ARENA
A pobreza era a principal prioridade da
plataforma da ARENA. A sua primeira ação seria desenvolver um
programa para o alívio da pobreza nas 100 comunidades rurais e nos
80 bairros urbanos mais pobres e marginalizados. A parte central
deste esforço era aliviar a “extrema” pobreza rural (famílias
vivendo com menos de $2 dólares por dia), e consistia de um programa
em três partes:
1. Uma transferência direta de
fundos para a educação e o atendimento pré-natal.
2. Fundos para uma infra-estrutura
municipal (água, eletricidade e estradas).
3. Extensão de crédito para a
agricultura e para o setor de serviços.
O programa para os pobres das áreas
urbanas consistia de:
1. Um
subsídio de $4.000 dólares para a moradia de famílias que viviam
abaixo do nível mínimo de pobreza, que viviam em casas
construídas de diversos materiais, para que estas famílias
pudessem construir uma nova casa com piso de concreto, paredes
de madeira e telhado de alumínio corrugado. As casas teriam
eletricidade e gás.
2. Fundos para canchas de esportes.
3. Fundos
para o desenvolvimento comunitário para combater a delinquência
e fortalecer a segurança.
O programa para o alívio da pobreza a
ser desenvolvido pela ARENA também teria um aspecto internacional
destinado ao crescimento da economia. Este programa continha:
1. O investimento público em portos,
aeroportos, sistema de irrigação e estradas.
2. A
melhoria de condições para o investimento direto de pessoas
físicas estrangeiras.
3. A
subvenção de fertilizantes, grãos e treinamento técnico para o
setor da agricultura.
4. O
aumento de crédito para os negócios e indústrias de pequeno e
médio porte. A meta era incentivar e aumentar os setores de
exportação.
O segundo assunto de maior importância
para a ARENA era a segurança pública. Nesta área, sua plataforma
indicava a necessidade de reestruturação do sistema judicial, do
escritório do Promotor Público, do escritório do Ombudsman, e a
introdução de tecnologia de ponta para a polícia na área de perícia.
Como El Salvador tem um problema sério com quadrilhas, a plataforma
da ARENA pedia um fortalecimento da família, fortalecimento da
presença das igrejas em bairros e a institucionalização de
cooperação regional para combater o tráfico de drogas.
Com respeito à educação, a ARENA aprovou
a escola secundária grátis e propôs que isto se tornasse uma
garantia constitucional. A educação pré-escolar (idades 4 a 6)
universal foi proposta. De acordo com a ARENA o currículo
educacional precisa refletir melhor a realidade salvadorenha. Isto
significaria uma ênfase maior na educação vocacional tanto no
colegial como na universidade, e o fortalecimento de programas
universitários de engenharia e ciências da computação.
Na área de saúde, a ARENA indicava a
criação de centros hospitalares em todo o país, com programas de
saúde específicos para mulheres e crianças.
A plataforma de política exterior da
ARENA propunha a assinatura de acordo de mercado livre com a União
Européia, o fortalecimento de laços com Taiwan ao mesmo tempo que a
expansão do comércio com a China, a certificação dos direitos
políticos dos salvadorenhos vivendo fora do país, e a aprovação das
medidas de reformas de migração.
A plataforma da FMLN
Em junho de 2007, a FMLN iniciou um
processo de base de consulta com as comunidades e membros do
partido, para abrir o diálogo sobre os assuntos mais importantes que
deveriam fazer parte da plataforma do partido na eleição
presidencial. A metodologia estava baseada na pedagogia do educador
brasileiro Paulo Freire. A plataforma da FMLN foi finalizada em
dezembro de 2008.
Para a FMLN, a extrema pobreza é o
assunto mais importante do país. A FMLN diferia da ARENA ao
enfatizar a necessidade do pobre transcender o trauma psicológico
causado por uma vida levada em extrema pobreza. Para a FMLN, o
crescimento econômico não é sinônimo de desenvolvimento econômico
sustentável, o que indica uma aproximação mais abrangente ao
problema da pobreza. A FMLN acredita que o desenvolvimento do
capital humano deve preceder o desenvolvimento do capital produtivo.
A plataforma da FMLN enfatizava a
necessidade de um programa imediato de alimentação e nutrição,
porque muitos salvadorenhos não têm uma dieta alimentar que chegue
ao mínimo de calorias diárias. Portanto, a FMLN pedia a subvenção da
produção de alimentos para o consumo doméstico. Também tinha uma
chamada para o fim dos subsídios da ARENA que beneficiam mais os
ricos que os pobres, por exemplo, os $203 milhões de subsídios para
a gasolina e a eletricidade que atualmente beneficiam os ricos.
A FMLN pedia um plano de saúde integral
que daria a todos os 14 departamentos—estados—no país acesso a
tratamento médico básico. A ênfase seria posta na educação sanitária
para prevenir doenças comuns, focalizando mulheres e crianças. A
plataforma da FMLN também pedia o aumento do gasto com a saúde de
1,6% do PIB pra 3 % do PIB de 2014. Em relação a uma população
saudável a FMLN também indicava a necessidade do aumento dos gastos
com uma infra-estrutura para o tratamento de água e esgotos, de 0,3%
do PIB para 1,5% do PIB em 2014. A educação e uma população saudável
também estão relacionadas. No momento, El Salvador gasta 2,7% do seu
PIB em educação, enquanto que a média para países desenvolvidos é de
6%. A FMLN reconhece que mais recursos devem ser destinados à
educação, mas que a proporção 6% do PIB não será alcançada em cinco
anos.
A criação de empregos estaria focalizada
na juventude que está entrando no mercado de trabalho. A plataforma
da FMLN reconhece que há poucos empregos para os que têm diplomas do
colegial e da universidade, e que 63% dos jovens estão subempregados
ou desempregados. As quadrilhas têm muito sucesso em recrutar os
seus membros entre estes jovens que estão desencantados,
desiludidos. Portanto, a FMLN propôs o subsídio do salário de um/a
jovem por um ano, quando empregado/a por um negócio ou uma
indústria.
O tema do crime é mais complexo para a
FMLN. A plataforma do partido se refere a três tipos de crime: crime
de rua, sindicatos organizados, e crime “white collar.” Um exemplo
que a FMLN dá deste último tipo de crime é a acusação que $262
milhões de dólares desapareceram do sistema público de água. A
posição da FMLN é que qualquer política sobre atividades criminais
devem ser tão duras contra os crimes de “white collar” e corrupção
pública como contra as quadrilhas e os sindicatos organizados. A
FMLN apóia um aumento de cooperação com os Estados Unidos para
tratar destas atividades criminais transnacionais. Para o partido, o
crime organizado representa uma ameaça à soberania de El Salvador.
Em relação à política externa, a FMLN,
referindo-se ao fato de que El Salvador enviou tropas ao Iraque,
indicou que quer uma política externa não ideologicamente
comprometida. A FMLN quer que as forças militares do país possam
participar de operações pacíficas da ONU. O programa também quer o
estabelecimento de uma integração econômica centro-americana. A FMLN
quer que as nações da América Central se unam para que possam
negociar um novo relacionamento com os Estados Unidos. Por exemplo,
os remédios receitados são atualmente mais caros em El Salvador que
nos Estados Unidos. A esperança é que, se a América Central falar
com uma única voz, a região poderá negociar melhores preços.
A realidade econômica
Alfonso Goitia, professor de economia na
Universidade Jesuíta da América Central (UCA), apresenta uma análise
dura da realidade salvadorenha. A projeção mais otimista para o país
é que seu crescimento econômico será de 1% em 2009. Recentemente,
30.000 empregos foram perdidos quando fábricas foram fechadas.
Projeta-se mais perda de empregos neste setor este ano. Em relação à
remessa de dinheiro ao país pelos seus cidadãos que moram e
trabalham fora, houve uma diminuição significativa nos últimos cinco
meses de 2008 em comparação com 2007. Normalmente este envio, que
foi de $3,57 bilhões de dólares para El Salvador em 2007, em geral
cresce de 7 a 8% anualmente. Em 2008, a taxa de crescimento foi de
2,5%. Projeta-se que este crescimento será de zero por cento em
2009. Aproximadamente 22% das famílias de El Salvador recebem envios
de dinheiro que têm um impacto na estabilidade, levantando famílias
da pobreza e impedindo comoções sociais massivas.
A crítica de Goitia contra as remessas é
que elas não se constituem em uma maneira sustentável de cultivar a
economia. As remessas não são equivalentes a um desenvolvimento
humano sustentável. Elas criam uma dependência instável e insalubre!
A moeda de El Salvador agora é o dólar
americano.
A dolarização no meio de uma crise econômica global apresenta
desafios para o país. O governo chegou a uma situação econômica em
que teve que pedir empréstimos do FMI. Entretanto, porque o país
dolarizou a economia, El Salvador não tem um banco central ou o
equivalente a uma reserva federal. Portanto, o governo não tem a
habilidade de designar uma política monetária nacional em um tempo
de crise. Enquanto o governo pedia empréstimos ao FMI, o dinheiro
era dado aos grandes bancos transnacionais, especialmente ao
Citigroup e ao Scotia Bank. Assim, os bancos transnacionais
determinam o que farão com o dinheiro e que tipos de empréstimos
eles darão ao povo. Como Goigia assinalou, se o governo americano
tomar o controle de Citigroup, os Estados Unidos estarão tomando
decisões que limitariam a capacidade do governo salvadorenho
desenvolver políticas que considere que são do interesse do país.
Isto significa que o presidente eleito, Funes, tomará posse com um
braço preso nas costas. Enquanto Funes daria prioridade a
empréstimos para a agricultura e empresas de pequeno e médio porte,
as transnacionais talvez não aprovem esta estratégia.
Os dois últimos anos foram devastadores
para os salvadorenhos devido às crises dos produtos alimentícios e a
do petróleo. De acordo com um estudo da ONU a crise dos alimentos
levou 104.000 famílias ao estado de extrema pobreza em El Salvador.
As famílias pobres estão atualmente gastando 13% menos em comida que
há dois anos. Em uma modesta mercearia em San Pedro Perulapan, uma
cidadezinha pobre, um galão de leite custa $4,05, três litros de
óleo de cozinha $12,85, 30 ovos $2,57, um pão $2,17, e uma libra de
café barato $2,04. Doze rolos de papel higiênico custam $6,05.
Em El Salvador o dinheiro necessário para dar a uma família um
padrão de vida de classe média baixa é de $800. Em San Pedro
Perulapan o ganho familiar médio é $190. Em áreas rurais remotas as
famílias frequentemente vivem com menos de $60 por mês.
Em uma pesquisa recente dos jovens de 16
a 18 anos de idade mostrou que mais que 60% deles têm como objetivo
emigrar para os Estados Unidos. Eles não vêem nenhum futuro em El
Salvador. Os estudos descobriram que mais de 500 pessoas saem de El
Salvador diariamente! O economista Goitia disse que mais
salvadorenhos saíram a rumo dos Estados Unidos desde que a guerra
terminou que durante a guerra. A ARENA, ele diz, teve duas décadas
de exportação de trabalhadores ao invés de construir uma economia
sustentável. A política da ARENA era a de exportar a pobreza do
país.
A emigração produz muitos problemas,
começando com a ruptura da família, fazendo com que os filhos
estejam mais suscetíveis a drogas. A quadrilha mais forte e mais
violenta é a Mara Salvatrucha, ou MS-13. Ela começou em um bairro
salvadorenho em Los Angeles no final dos anos 80. Com o programa de
deportação no qual os Estados Unidos retornaram os membros de
quadrilhas a El Salvador, MS-13 cresceu e se transformou em uma
organização transnacional. O FBI diz que a MS-12 agora funciona em
42 estados nos Estados Unidos.
Outra maneira em que a ARENA conteve o
descontentamento público foi ao ignorar o setor informal da
economia. Este setor é responsável por 52% da economia. Os negócios
no setor informal não pagam impostos, e as pessoas que trabalham no
setor informal não recolhem ao sistema de segurança social e do
fundo de pensão. Quando eles se aposentam, os que pagam ao fundo de
pensão recebem um pouco menos que $100 mensalmente.
Análise pessoal
A minha primeira viagem a El Salvador
foi em janeiro de 1986, no meio da guerra civil. Eu retornei ao país
todos os anos, até que os Acordos de Paz foram assinados. A viagem
para ser um observador das eleições para a eleição presidencial do
último 15 de março foi a minha décima primeira a este país com o
nome do salvador.
Admito que tenho vínculos emocionais com
El Salvador. Na primeira viagem, o nosso grupo de sete pessoas foi
abruptamente retirado da embaixada americana por haver questionado a
mulher responsável por escrever o relatório sobre os direitos
humanos para o Departamento de Estado dos Estados Unidos. Esta
oficial dos direitos humanos nos disse que, por causa da guerra, ela
tinha conseguido suas estatísticas sobre as violações aos direitos
humanos através das notícias publicadas nos jornais salvadorenhos.
Nossas perguntas ficaram mais específicas e a jovem oficial do
Serviço Estrangeiro não estava dando respostas convincentes, então o
seu supervisor, que estava ouvindo a nossa discussão de outra sala,
de repente apareceu onde estávamos conduzindo nossa entrevista, e
nos mandou sair da embaixada.
Em 1988 eu entrevistei o Irmão Ellacuria,
o padre jesuíta que era então o presidente da Universidade da
América Central. Ele disse que os grupos/instituições mais poderosos
dentro do país eram:
1. A
embaixada americana
2. Os
militares salvadorenhos
3. O
FMLN
4.
A oligarquia econômica
5. O
governo salvadorenho
O Irmão Ellacuria disse que o assunto
mais importante era como fazer com que os números 1 e 5 trocassem de
lugar.
Infelizmente, tive outras experiências
com a embaixada americana.
Em uma ocasião o Diretor de Assuntos
Públicos respondeu uma pergunta sobre o massacre de El Mozote
dizendo que o pessoal da embaixada não estava convencido que um
massacre tinha acontecido, porque aquela era uma área remota e de
difícil acesso. E, ele disse, se explicando, “Tem uma guerra lá
fora.” Eu respondi que de fato era uma zona de difícil acesso,
porque o nosso grupo tinha levado um dia para chegar a El Mozote,
mas nós tínhamos entrevistado o único sobrevivente. E, eu disse,
“Ainda há luta naquela área.”
O verão antes que os seis padres
jesuítas, sua empregada e sua filha foram assassinados (dia 16 de
dezembro de 1989), este mesmo oficial dos serviços estrangeiros
disse que aquilo tinha sido “um incidente desagradável,” que não
tinha sido planejado, mas que tinha sido causado pela imensa pressão
que um homem — o coronel Benavides — estava sofrendo. Dizer que o
assassinato não tinha sido planejado era, dizendo-o de forma
educada, no mínimo um insulto.
Nos verões de 1988 e 1989, eu
entrevistei Herbert Ernesto Anaya, o diretor da CDHES, uma ONG de
direitos humanos. Um estudante de Mahatma Gandhi e de Martin Luther
King Jr., ele defendia a resistência não-violenta aos militares e ao
governo. Anaya foi assassinado em 16 de outubro de 1987. Ele tinha
acabado de deixar seus filhos na escola. Eu me lembro de uma vez
ter-lhe perguntado porque, já que ele tinha recebido ameaças de
morte, ele não levava sua família ao Canadá onde todos poderiam
receber asilo político. Eu perguntei, “com o que sua família vai
ficar se você for assassinado?” Ele respondeu, “com meus
princípios.”
Eu também tive a sorte de estar em El
Salvador em julho de 1991, quando o deputado americano Joseph
Moakley, em pleno campus da Universidade de Central América (UCA),
leu o seu relatório sobre o assassinato dos jesuítas. A sala estava
cheia. Na primeira fila estava o embaixador Americano Walker, o
presidente de El Salvador, e Rene Emilio Ponce, o comandante das
forças armadas. Moakley fez uma palestra corajosa, dando o nome do
General Ponce entre os responsáveis pela institucionalização da
violência. O Irmão jesuíta Jon Sobrino leu uma comovente resposta à
apresentação de Moakley.
Eu poderia seguir com histórias, que são
numerosas, mas este é o pano de fundo para minha alegria quando
Funes e a FMLN ganharam a eleição. Eu acredito que a vitória da FMLN
é boa para El Salvador. Ela fortalece a transição para a democracia.
Quando Funes tomar posse, isto vai marcar a primeira significativa
transição de poder político na história de El Salvador. Se a vitória
da FMLN foi psicologicamente curativa para mim, eu mal posso
imaginar a profundeza dos sentimentos dos salvadorenhos que votaram
no partido.
Funes vai ter que trabalhar com uma
assembléia controlada por um bloco controlado pela ARENA. Embora o
partido da FMLN tenha ganhado 35 cadeiras nas eleições do
legislativo em janeiro, ela ainda não tem a maioria na assembléia de
84 lugares. Dois terços dos votos são necessários para que passe
qualquer legislação, então muito do sucesso de Funes dependerá de a
ARENA decidir cooperar em legislação chave, ou, pelo contrário, se
decidir bloquear todos os planos de Funes. A FMLN tentará
constantemente convencer um ou mais dos associados do bloco da ARENA
a sair do bloco e juntar-se a eles. Não há nada radical no programa
da FMLN, mas ela promove políticas que dão uma opção preferencial ao
pobre.
A caminho do aeroporto, quando íamos
sair de El Salvador, nós paramos para comer tamales de café da manhã
na casa de Maria Julia, cujo filho era o afilhado da líder do nosso
grupo, Ann Butwell. Maria e sua família tinham mudado para El
Salvador nos anos 80 depois que um terremoto destruiu a aldeia em
que viviam. Ela e outros da comunidade tinham tomado posse de um
terreno desocupado, e moram ali deste então. A casa tinha um telhado
de lata, assoalho de cimento, e três quartos. Seu filho mais jovem,
Arsenio, é estudante universitário e está se preparando para ser
professor e administrador de escolas. Sua filha morreu com menos de
30 anos e deixou uma filha que está sendo criada por Maria Julia.
Ann nos contou que Maria Julia tinha voltado à escola e tinha
acabado de ser aprovada nos exames da nona série. Maria Julia disse,
“Eu fiz isto para poder ajudar os meus netos a fazer a tarefa da
escola.” Ela não tinha uma mensagem de “vítima.” Maria Julia estava
cheia de esperança para o futuro e dava graças a Deus por todas as
bênçãos recebidas. Ela estava contente que o FMLN ganhou a
presidência. Eu perguntei se ela tinha alguma esperança específica
para a presidência de Funes. Ela respondeu, “Eu tenho uma. Eu quero
que Funes dê a mim e às outras famílias em nossa comunidade (23
famílias no total), o título de propriedade da terra onde temos
nossa casa. Os presidentes da ARENA nunca fariam isto.” Se Funes não
fizer nada mais do que dar o título de propriedade da terra onde
Maria tem sua casa, eu marcaria sua presidência como bem sucedida.
El Salvador tem problemas econômicos e
sociais sérios, e eles ficarão piores em 2009, mas no meio de todo o
sofrimento, eu continuo a encontrar pessoas que têm esperança.
Portanto, eu também devo ter esperança. No verão depois da morte dos
jesuítas, sua empregada e sua filha, eu perguntei ao Irmão Jon
Sobrino, que vivia em comunidade com os que tinham sido
assassinados, como eu poderia demonstrar solidariedade com os
salvadorenhos quando eu retornasse aos Estados Unidos. Ele me olhou
nos olhos e disse com uma voz gentil, “ Você leciona em uma
universidade católica. Quando você vai a formaturas e vê os alunos
que você ensinou receberem seus diplomas, pergunte a você mesmo se
aqueles estudantes vão ser parte do problema ou parte da solução. Se
eles vão ser parte do problema, você precisa reavaliar o que está
ensinando, e se os estudantes vêem você como parte do problema ou
parte da solução.” Através da história de El Salvador como um país,
os Estados Unidos têm sido parte dos problemas daquele país. Se os
Estados Unidos agora querem ser parte da solução, eu devo aceitar
minha responsabilidade de trabalhar para fazer disto uma realidade.
Sim, nós podemos.
Dr. Larry Hufford é professor de Relações Internacionais na
St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ele foi um
observador oficial da eleição presidencial em 15 de março de
2009 em El Salvador.
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