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Lobbying no Congresso Nacional:
estratégias de atuação dos grupos de interesse empresariais e de
trabalhadores no Legislativo brasileiro
Andréa Cristina Oliveira Gozetto
Introdução
A criação e implementação de políticas
públicas está condicionada ao processo de tomada de decisões
estatal, em que numerosos fatores relevantes interagem de forma
complexa e no qual a sociedade civil tem atuado enquanto agente
catalisador de mudanças. Porém, no Brasil, as instituições
tradicionais de representação estão em crise e há um conseqüente
esvaziamento dos espaços formais de poder, o que leva atores da
sociedade civil organizados em grupos de interesse a se apropriar do
espaço público a partir de uma lógica própria.
Idealmente os grupos de interesse atuam
dentro de faixa própria de interesses de seus associados em um
ambiente supra-ideológico e supra-partidário.
Diferenciam-se dos partidos políticos, pois não buscam o exercício
direto do poder, uma vez que não competem no processo eleitoral para
obtê-lo.
A percepção por parte dos grupos de
interesse de que as decisões tomadas pelo Estado, tanto no âmbito do
Poder Legislativo quanto no do Executivo os influenciavam e podiam
ser influenciadas por eles e o processo de redemocratização pelo
qual passou o país em 1985 são alguns dos fatores responsáveis pela
modificação do formato de representação de interesses no Brasil.
Durante a elaboração da
Constituição de 1988 mais de
383 grupos de interesse atuaram com o intuito de verem os seus
interesses atendidos. Essa atuação incomum até aquele momento dado
aspectos inerentes ao sistema político brasileiro fez com que o
interesse sobre o papel institucional dos grupos de interesse
ressurgissem, notadamente frente ao poder Legislativo. (Aragão,
1994)
Apesar
do enfoque da mídia estar voltado comumente para formas ilícitas de
representação de interesses, como a corrupção ou o tráfico de
influência onde atores sociais oferecem dinheiro e/ou outros
benefícios aos tomadores de decisão, em troca de diversos tipos de
recompensas ilegais, em nosso trabalho enfocamos a atividade de
lobbying que é realizada de forma lícita e que tem como objetivo
esclarecer o legislador ou a autoridade
pública sobre as decisões ou propostas que possam vir a ser
encaminhadas como um mecanismo operacional de persuasão. Assim, o
lobbying deve ser visto como informação objetiva disponível
para, em tempo hábil, instrumentar a melhor decisão.
Entendemos
lobbying como o processo pelo qual os grupos de interesse
buscam participar do processo estatal de tomada de decisões,
contribuindo para a elaboração das políticas públicas de cada país.
Para isso, os grupos de interesse exercem pressão política a fim de
alcançar seus objetivos. Lobbying, no entanto, não é pressão
simples . Há todo um envolvimento do ator político no processo de
produção legislativa, que compreende desde o monitoramento dos
projetos apresentados, a análise técnica das propostas, até a tomada
de posição diante das proposições mais relevantes para o grupo de
interesse.
As estratégias de atuação comumente
utilizadas pelos grupos de interesse e/ou pressão para a consecução
de seus objetivos são: a) identificação do problema e do objetivo
pretendido; b) construção e compreensão do cenário político
brasileiro atual; c) monitoramento legislativo ou tracking;
d) análise do monitoramento legislativo; e) monitoramento político;
f) criação da estratégia de ação, que consiste em identificar como
resolver o problema ou otimizar a oportunidade, apresentando uma
proposição, projeto de lei ou emenda; traçar uma estratégia de
comunicação, marcando audiências, levando os tomadores de decisão a
eventos educacionais ou visitas às instalações dos grupos de
interesse; apresentando informação imparcial e confiável, baseada em
estudos acadêmicos e pareceres técnicos e g) execução do
corpo-a-corpo, momento por excelência da pressão e que consiste em
procurar aliados e inimigos dos interesses defendidos, a fim de
convencê-los a contribuir para o alcance do fim pretendido.
É importante ressaltar que, no que tange
ao Poder Legislativo, o sucesso de uma ação empreendida por um grupo
de interesse e/ou pressão pode se traduzir tanto na aprovação da
proposição elaborada pelo grupo ou por um de seus aliados quanto
pela rejeição, retirada ou arquivamento da proposição à qual os
interesses do grupo eram contrários.
O objetivo de nosso trabalho é discutir
a estratégia de ação dos grupos de interesse no legislativo federal
brasileiro tendo em vista os fatores institucionais que moldam a sua
ação. Para a análise do caso brasileiro nos centraremos na estrutura
e ação dos grupos empresariais e de trabalhadores, e para isso
analisaremos a ação da CNI (Confederação Nacional da Indústria) e do
DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar).
Optamos por um estudo etnográfico em que
se aliou uma ampla pesquisa bibliográfica, análise de documentos e
entrevistas com os representantes dos grupos de interesse.
A corrente de pensamento que melhor
analisa o comportamento dos grupos de interesse, de nosso ponto de
vista é o neo-institucionalismo.
Contemporaneamente o
neo-institucionalismo tem sido a abordagem metodológica predominante
nos estudos sobre Poder Legislativo e isso acontece porque o olhar
dos pesquisadores está voltado para o fato de que as instituições
moldam as relações sociais e políticas que se formam a partir delas
e porque condicionam outras variáveis relevantes, como os incentivos
políticos dos legisladores. Assim, as instituições são tomadas como
as responsáveis por dar estabilidade ao sistema político e por
moldar o comportamento parlamentar, levando-se em consideração tanto
os incentivos oferecidos por instituições externas e o sistema
eleitoral quanto à estrutura institucional do próprio Congresso. A
própria retomada do Poder legislativo como lócus de defesa de
interesses pelos grupos foi fortemente influenciada pelo processo de
redemocratização brasileiro.
Para os
neo-institucionalistas históricos, corrente que consideramos mais
adequada ao nosso objeto de estudo, a política gira em torno da
competição entre grupos, mas essa competição e os resultados gerados
por ela são influenciados pela estrutura institucional da economia
política. Assim, o Estado possui um papel muito importante, haja
vista que é em seu âmbito que muitas das instituições relevantes são
definidas. Instituições e tomadores de decisão não são atores
neutros. Os tomadores de decisão tendem a moldar os resultados de
acordo com suas preferências e as instituições que são criadas por
políticos e burocratas recebem essa influência, uma vez que há
interesse em moldá-las.
O ponto principal a
ser destacado acerca do neo-institucionalismo está relacionado ao
reconhecimento por parte de seus teóricos de que os atores agem
racionalmente e de forma estratégica, mas as alternativas de ação
percebidas por eles são elas próprias moldadas socialmente.
As instituições perduram e isso ocorre
porque a capacidade de alterar a estrutura institucional é pequena
devido à trajetória histórica e à forma pela qual ela restringe o
arsenal de alternativas relevantes.
Grupos de interesse em ação
A representação de interesses
empreendida pelos grupos de interesse empresariais e de
trabalhadores junto ao Poder Legislativo é vista como lícita e
legítima tanto por parte dos parlamentares quanto por parte da
sociedade civil.
Dois fatores são responsáveis por essa
percepção. O primeiro fator está relacionado ao fato de que tanto
CNI quanto DIAP defendem apenas os interesses consensuais e
majoritários de seus filiados. Assim, questões particularistas são
trabalhadas pelos próprios filiados isoladamente, como no caso do
DIAP que orienta as entidades filiadas a agir, traça estratégias de
ação e, inclusive, ministra cursos sobre processo legislativo e
intervenção política. Já a CNI orienta suas entidades filiadas a
procurarem a assessoria de um escritório de consultoria e
lobbying.
O segundo fator está relacionado à
capacidade de mobilização de suas bases e a conseqüente visibilidade
pública que essa capacidade garante as duas entidades guarda-chuva.
A CNI conta com o RedINDÚSTRIA que é uma rede de informação e
mobilização envolvendo a CNI e Federações das Indústrias. Dessa
forma, o empresariado industrial pode ser mobilizado rapidamente
através do RedINDÚSTRIA quando é necessário influenciar no destino
das proposições legislativas no Congresso Nacional.
O DIAP, por sua vez mobiliza as bases
através de seus diversos canais de comunicação e dá preferência a
grandes mobilizações populares que congreguem milhares de
trabalhadores e atraiam a imprensa. Ele também é capaz de mobilizar
os trabalhadores rapidamente já que 90 de suas entidades filiadas,
ou seja, 10% do total de filiados estão sediadas em Brasília.
Esses dois fatores aliados fazem com que
haja um arrefecimento do estigma de marginalidade que a atividade de
lobbying carrega e dessa forma, os lobistas de CNI e DIAP
possuem mais e melhor acesso aos tomadores de decisão do que
lobistas que defendem interesses particularistas de outros grupos de
interesse.
Os grupos de interesse dependem de uma
série de atividades anteriores ao delineamento de sua estratégia de
ação.
Assim, a identificação dos objetivos a
serem alcançados, a apreensão do cenário político nacional, o
monitoramento legislativo ou tracking, a análise das
informações coletadas pelo monitoramento legislativo e o
monitoramento político são ferramentas de grande importância para os
grupos. É esse trabalho prévio dos grupos de interesse e/ou pressão
que possibilita que suas estratégias de ação sejam traçadas.
Apesar dessa etapa anterior de coleta e
análise de informação ser muito importante, ela não pode ser
caracterizada como uma estratégia de ação propriamente dita, uma vez
que apenas agrega elementos que subsidiam o processo de delineamento
da estratégia de ação dos grupos.
Caracterizamos como estratégias de ação
utilizadas pelos grupos de interesse empresariais e de
trabalhadores: identificação do ato legislativo correto e redação de
proposições, projetos de lei e emendas, a marcação de audiências com
os tomadores de decisão, a elaboração de estudos e pareceres
técnicos, a organização de visitas às instalações de seus filiados,
ciclos de palestras ou seminários sobre o assunto em discussão, a
redação de discursos para os parlamentares que possuem um interesse
natural similar ao do grupo de interesse e os requerimentos que
fazem para determinar a escolha do relator que efetuará o parecer do
projeto de interesse do grupo e que está sendo avaliado nas
comissões da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.
O conjunto dessas estratégias só pode
ser conduzido após o trabalho árduo da coleta e análise de
informações que subsidiam a ação dos grupos de interesse e/ou
pressão.
O quadro abaixo sistematiza uma
comparação entre as estratégias de ação utilizadas pelos grupos
empresariais e de trabalhadores.
Quadro 1 – Forma de atuação da CNI e
DIAP
Forma de atuação
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CNI/DIAP
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Identificação do problema e
objetivos dos filiados |
Tanto CNI quanto DIAP estão
abertos às demandas de seus filiados. Para a formulação do
conceito que irá nortear todas as ações que serão
empreendidas, a CNI convoca todas as federações para uma
reunião em que esse conceito é discutido e elaborado
conjuntamente. Desde 1984, o DIAP promove encontros
nacionais e organiza seminários, a fim de debater as
principais questões pertinentes ao movimento sindical. |
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Apreensão do cenário político |
CNI e DIAP contam com equipes
fixas de especialistas que formulam cotidianamente o cenário
político brasileiro. |
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Monitoramento Legislativo ou
Tracking |
Com a Internet, o monitoramento
legislativo tem se mostrado algo bem mais simples. CNI e
DIAP têm equipes fixas que efetuam o monitoramento
legislativo, parte importante de seus trabalhos. |
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Quando os lobistas da CNI
decidem que determinada proposição ou projeto de lei deve
ser acompanhado, um resumo da proposição ou projeto de lei é
publicado no Informe Legislativo. Dessa forma, as bases são
permanentemente informadas sobre projetos de interesse da
indústria. No DIAP, o processo é o mesmo e as bases são
informadas pelo Jornal do DIAP, Boletim do DIAP e Agência
DIAP. Após o recebimento da informação, as bases podem
informar o grau de prioridade que cada uma das proposições
ou projetos de lei tem para seu sindicato ou setor. |
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Monitoramento político |
É através do monitoramento
político que se saberá a quem entregar as informações
adequadas sobre o tema de seu interesse. Tanto a CNI quanto
o DIAP utilizam-se dessa estratégia de ação. No entanto, com
a série Quem foi Quem, Os Cabeças do Congresso
e Agenda para falar com os poderes, o DIAP se
diferencia nessa área. |
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Estratégias de ação:
a)
Identificação do ato legislativo
correto e redação de proposições, projetos de lei e emendas;
b)
marcação de audiências com
autoridades;
c)
elaboração de estudos e
pareceres técnicos. |
a)
Tanto a CNI quanto o DIAP
costumam redigir proposições, projetos de lei e emendas para
que parlamentares as apresentem. Diferentemente da CNI, no
entanto, o DIAP chegou a apresentar uma Emenda Popular sobre
os Direitos dos Trabalhadores na Assembléia Nacional
Constituinte;
b)
É comum a utilização dessa
estratégia. O acesso aos parlamentares e autoridades é
facilitado dada a visibilidade pública e legitimidade que as
entidades classistas possuem junto à opinião pública. Porém,
nem sempre o acesso é garantido;
c)
Estratégia essencial na defesa e
representação de interesses. Tanto CNI quanto DIAP
tornaram-se referências em suas áreas de atuação oferecendo
aos tomadores de decisão informações imparciais e
confiáveis. CNI e DIAP possuem legitimidade e suas posições
são claras. |
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Corpo-a-Corpo |
Tanto a CNI quanto o DIAP
afirmaram não fazer corpo-a-corpo para seus filiados. Isso
ocorre por que essas entidades não se envolvem com os
interesses específicos deles. Se os filiados da CNI têm um
interesse específico, o mesmo deve procurar a assessoria de
um escritório de consultoria e lobbying. Já as
entidades filiadas ao DIAP contam com a sua orientação que
oferece cursos de treinamento. Os lobistas da CNI e DIAP,
quando estão defendendo causas consensuais de suas entidades
filiadas, costumam fazer corpo-a-corpo com autoridades. A
CNI conta com três lobistas e o DIAP com um. As ações podem
ser individuais ou então, as bases podem ser mobilizadas
para aumentar a pressão. |
Considerações finais
Acreditamos que as instituições moldam a
ação dos grupos empresariais e de trabalhadores. A influência das
novas condições institucionais geradas pelo processo de
redemocratização brasileiro com o fortalecimento do Poder
Legislativo nos deixa ver claramente essa influência.
No entanto, há outros fatores
institucionais que podem ser elencados, como: a) a centralização do
processo decisório no Poder Executivo, b) um sistema partidário
fragmentado, em que os parlamentares sobressaem aos partidos, c) a
existência do Colégio de Líderes na Câmara dos Deputados e c) a
organização da Câmara dos Deputados (regras de seleção das
lideranças, detentores do poder de estabelecer a pauta do dia,
cronograma e duração do debate). Importante notar que esses fatores
institucionais são capazes de garantir maior ou menor acesso dos
grupos de interesse ao processo de tomada de decisões, determinando
assim seu grau de influência.
Uma das questões
centrais que
nossa análise
mostrou foi o caráter reativo da atuação
da CNI. Apesar de
apresentar
diversas emendas e
notas
técnicas, a CNI se abstém de apresentar projetos
originais. Dessa maneira,
podemos afirmar que a ação da CNI é sempre
uma reação a
proposição
do poder
Executivo
e é possível
ver, mais uma vez, como
a ação
das instituições políticas é
determinante para o
comportamento
dos agentes
privados.
Para nós, o DIAP possui uma ação
propositiva, pois apresentou os Projetos Um, Dois e Três durante a
Assembléia Nacional Constituinte e também uma Emenda Popular.
Atualmente, o DIAP não se restringe a acompanhar
os poderes da
República;
ele também
faz uma tentativa de
pautar
a agenda desses poderes e forma opinião
através da ampla divulgação de suas publicações.
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Grupos de pressão no Congresso Nacional: como a sociedade pode
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