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CARLOS POMPE
Jornalista
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Marx e Darwin, há 150 anos marcando a visão
científica do mundo
Carlos Pompe
Em
1859 apareceram dois livros que, até nossos dias, são referências
para as discussões científicas, da sociedade e da natureza: Para
a crítica da economia política (em junho), de Karl Marx, e A
origem das espécies (24 de novembro), de Charles Darwin, autor
nascido em 12 de fevereiro 1809. O livro do alemão, que quase uma
década depois teria continuidade com O Capital, não teve
pronta repercussão. Mas o do inglês foi um marco imediato nas
ciências naturais e, comenta-se, teve sua primeira edição esgotada
em 24 horas. Gigantes do pensamento do século XIX, Marx e Darwin
tinham compromissos de classe diferenciados. O primeiro abraçou a
causa socialista e a luta do proletariado. O segundo, integrante da
classe dominante inglesa, abastado, investidor em ferrovias,
convivendo com o clero e com a aristocracia, evitava os debates
políticos públicos. Os dois respeitavam-se, contudo, como cientistas
que desejavam ''sinceramente a ampliação do saber e, a longo prazo,
é certo que isso contribuirá para a felicidade da humanidade'', como
escreveu Darwin na sua única carta conhecida endereçada a Marx.
Marx escreveu Para a crítica da
economia política após 15 anos de investigação científica. Era
sua intenção elaborar uma grande obra econômica, que seria publicada
em fascículos. O primeiro seria esta obra. No entanto, em vez dos
fascículos seguintes, publicou em 1867 O Capital, onde voltou
a expor as teses fundamentais deste “fascículo”. No prefácio da obra
de 1859, Marx expôs, sucintamente, pela primeira vez, a sua teoria
materialista da história, afirmando que ''na produção social da sua
vida os homens entram em determinadas relações, necessárias,
independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem
a uma determinada etapa de desenvolvimento das suas forças
produtivas materiais. ... O modo de produção da vida material é que
condiciona o processo da vida social, política e espiritual. Não é a
consciência dos homens que determina o seu ser, mas, inversamente, o
seu ser social que determina a sua consciência. Numa certa etapa do
seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade
entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o
que é apenas uma expressão jurídica delas, com as relações de
propriedade no seio das quais se tinham até aí movido. De formas de
desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se
em grilhões das mesmas. Ocorre então uma época de revolução social.
... Uma formação social nunca decai antes de estarem desenvolvidas
todas as forças produtivas para as quais é suficientemente ampla, e
nunca surgem relações de produção novas e superiores antes de as
condições materiais de existência das mesmas terem sido chocadas no
seio da própria sociedade velha. Por isso a humanidade coloca sempre
a si mesma apenas as tarefas que pode resolver, pois que, a uma
consideração mais rigorosa, verificar-se-á sempre que a própria
tarefa só aparece onde já existem, ou pelo menos estão no processo
de formar-se, as condições materiais da sua resolução. Nas suas
grandes linhas, os modos de produção asiático, antigo, feudal e,
modernamente, o burguês podem ser designados como épocas
progressivas da formação econômica e social. As relações de produção
burguesas são a última forma antagônica do processo social da
produção, antagônica não no sentido de antagonismo individual, mas
de um antagonismo que decorre das condições sociais da vida dos
indivíduos; mas as forças produtivas que se desenvolvem no seio da
sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais
para a resolução deste antagonismo. Com esta formação social
encerra-se, por isso, a pré-história da sociedade humana''.
Trata-se de uma visão nova,
revolucionária, sobre a história, que abrange as relações sociais e
políticas e os modos de organização da vida econômica. É o método
dialético aplicado à história.
Adeus, Gênesis
Já o descobrimento da seleção natural,
apresentado por Darwin no A origem das espécies, foi
imediatamente adotado pelos estudiosos mais avançados e combatido
pelo clero e demais religiosos. O homem não foi criado por Deus ou
pelos deuses, mas é um produto da natureza. O sítio com a obra
completa do pesquisador na Internet (em inglês:
http://darwin-online.org.uk ) expressa, não sem razão:
''Provavelmente ninguém influenciou nosso conhecimento sobre a vida
na Terra tanto quanto o naturalista inglês Charles Darwin
(1809-1882)''.
No seu Anti-Dühring, Friedrich
Engels, que com Marx fundou o socialismo científico, faz uma
apreciação a obra do inglês e faz uma breve exposição de sua teoria:
''Darwin trouxera de suas viagens
científicas a ideia de que as espécies vegetais e animais, longe de
serem permanentes, são variáveis. Para continuar, já na Inglaterra,
a trabalhar essa ideia, o campo mais favorável que se lhe oferecia
era o da experimentação em animais e plantas. Ora, a Inglaterra é
justamente a terra clássica destas experiências. Os resultados
obtidos nesse terreno em outros países, – a Alemanha, por exemplo –
estão longe de atingir os que se têm conseguido na Inglaterra. De
mais a mais, os grandes sucessos, neste ramo, nestes últimos cem
anos,” (Engels escreveu este texto entre 1877-8) “pertencem à
Inglaterra, e a comprovação dos fatos oferece poucas dificuldades.
Darwin descobriu, assim, que a experimentação havia artificialmente
provocado em animais e em plantas da mesma espécie diferenças
maiores que as encontradas entre as espécies geralmente conhecidas
como distintas. Provava-se, assim, de um lado, a variabilidade
relativa das espécies e, de outro, a possibilidade da existência de
antepassados comuns de seres com caracteres específicos e
diferentes. Darwin procura saber, então, se não haverá na natureza
causas que, de modo geral, sem a intenção consciente do criador,
produziram, nos organismos vivos, mudanças semelhantes às que o
tratamento artificial provoca. Essas causas ele as encontrou na
desproporção entre o número formidável dos germes criados pela
natureza e o pequeno número de organismos que chegam a
desenvolver-se. Mas, como cada germe tende a desenvolver-se, resulta
dessa desproporção necessariamente uma luta pela existência, que se
manifesta não só sob uma forma direta e física, mediante batalhas,
em que uns organismos morrem devorados por outros, mas também, mesmo
nas plantas, sob a forma de luta pelo espaço e pela luz. É evidente
que nessa luta os indivíduos que têm maiores possibilidades de
atingir a maturidade e perpetuar-se são aqueles que possuem alguma
particularidade individual, por mais insignificante que seja,
vantajosa na luta pela existência. Daí resulta que essas
particularidades individuais tendem a transmitir-se hereditariamente
e, quando se encontram em vários indivíduos da mesma espécie, tendem
a acentuar-se pela hereditariedade acumulativa; quanto aos
indivíduos que não possuem tais particularidades, sucumbem mais
facilmente na luta pela existência e pouco a pouco desaparecem.
Dessa maneira, as espécies transformam-se pela seleção natural, pela
sobrevivência dos mais aptos.''
Mundo natural, história social
Darwinismo e marxismo são diferentes em
aspectos fundamentais, mas eles têm em comum a crença que o
comportamento humano pode ser compreendido através da ciência e que
a vida ocorre sob determinadas leis. Enquanto Darwin busca a
compreensão biológica dos humanos e, no mesmo caminho, dos outros
animais, Marx pesquisa seu desenvolvimento social.
Marx leu A origem das espécies em
1860, um ano após a publicação. Ele viu o darwinismo como uma
explanação materialista do homem, e ele buscava teorias da evolução
das sociedades humanas que também explicassem o processo em termos
de mudanças na natureza da produção e reprodução humana. Esta
evolução da sociedade humana poderia explicar que mecanismos levavam
à produção das ideias, princípios e processos que governam o
capitalismo, como surgiram, como se desenvolveram e, ultimamente,
como estavam em declínio. E, como muitos outros antropólogos de seu
tempo, Marx via o estudo da sociedade humana como uma continuação da
evolução biológica, mas não acreditava que o processo histórico
humano era igual ao processo da seleção natural. Em suas obras, Marx
e Engels demonstraram como os homens são diferentes dos demais
animais, porque atuam em termos de ideias e conceitos que se
formaram em suas mentes e, portanto, a história humana difere da
história natural.
Em dezembro, Marx escreveu a Engels que
o livro continha ''a base de história natural para nossa visão'' – a
teoria do materialismo dialético –, que tinha desfeito a teologia,
mas que fora escrito à ''maneira inglesa crua de apresentação''. No
ano seguinte, comentou com Ferdinand Lassalle, outro socialista
alemão, que ''o livro de Darwin é muito importante e me serve de
base, na ciência natural, para a luta de classes na história''.
Meses depois, em nova carta a Engels, registra uma crítica dessa
obra de Darwin, tendo como pressuposto a sociedade vitoriana: ''É
notável como Darwin reconhece entre animais e plantas sua sociedade
inglesa com sua divisão de trabalho, competição, abertura de novos
mercados, 'invenções' e a 'luta pela existência' malthusiana. É o 'bellum
omnium contra ommnes' (guerra de todos contra todos) de Hobbes, e
lembra a Fenomenologia de Hegel onde a sociedade civil é
descrita como um 'reino animal e espiritual', enquanto em Darwin o
reino animal figura como sociedade civil''.
Em carta a Ludwig Kugelman, de 1866,
Marx comenta que ''em Darwin o progresso é meramente acidental” e
A origem das espécies não rendeu muito ''em relação à história e
à política'', embora pudesse ter ''uma tendência socialista
inconsciente''. Considera que tem ''fraqueza de pensamento'' quem
queira fazer a história humana depender da expressão darwiniana de
''luta pela sobrevivência''.
O pensamento econômico que Darwin
esposava era o do economista inglês Thomas Robert Malthus. No
Ensaio sobre o princípio da população (1798), Malthus afirmou
que a população crescia em progressão geométrica, enquanto os meios
de subsistência cresciam em progressão geométrica – o que acarretava
a fome entre os humanos e a necessidade de epidemias e guerras para
estabelecer a correspondência entre o número de habitantes e a
quantidade de meios de subsistência (ainda hoje há quem pense
assim). A influência dessas ideias é confessada pelo próprio Darwin,
em sua Autobiografia: “Em outubro de 1838, isto é, quinze
meses depois de eu ter iniciado minha pesquisa sistemática, tive
oportunidade de ler a visão de Malthus sobre população e me preparar
melhor para apreciar a luta pela existência que havia continuamente
observado em toda a parte nos hábitos de animais e plantas e, de
repente, me chamou a atenção que em circunstâncias favoráveis há
variações que tendem a ser preservadas e as negativas a ser
destruídas. O resultado do presente seria a criação de novas
espécies. Aqui, então, eu tinha finalmente obtido uma teoria com a
qual trabalhar”.
Marx x Malthus
Marx, por sua vez, considerou que a tese
malthusiana era inconsistente e reacionária. Em O Capital,
mostrou que não existe uma lei natural única da população para todas
as etapas de desenvolvimento da sociedade humana, que “cada modo de
produção histórico particular tem na realidade as suas leis
particulares de população, que têm caráter histórico”. Marx vai mais
além e mostra que o capitalismo se beneficia de um excedente de
população: “A superpopulação relativa existe sob os mais variados
matizes. Todo trabalhador dela faz parte durante o tempo em que está
desempregado ou parcialmente empregado. As fases alternadas da vida
industrial fazem-na aparecer ora de forma aguda, nas crises, ora em
forma crônica, nos período de paralisação. Mas, além dessas formas
principais que se reproduzem periodicamente, assume ela,
continuamente, as três formas seguintes: flutuante, latente e
estagnada”.
No Anti-Dühring, Engels aborda a
influência do malthusianismo no naturalista: ''Darwin não sonhou
sequer em dizer que a origem da ideia da luta pela existência era a
teoria de Malthus. O que ele diz é que a sua teoria da luta pela
existência é a teoria de Malthus aplicada a todo mundo vegetal e
animal. Por maior que fosse o deslize cometido por Darwin de
aceitar, na sua ingenuidade, a teoria malthusiana, vê-se logo, a um
primeiro exame, que, para perceber-se a luta pela existência na
natureza – que aparece na contradição entre a multidão inumerável de
germes engendrados pela natureza, em sua prodigalidade, e o pequeno
número desses germes que podem chegar à maturidade, contradição que,
de fato, resolve-se em grande parte numa luta, às vezes extremamente
cruel, pela existência – não há necessidade das lunetas de Malthus.
E, assim como a lei que rege o salário conservou o seu valor muito
tempo depois de estarem caducos os argumentos malthusianos sobre os
quais Ricardo'' (David Ricardo, 1772-1823, inglês, um dos fundadores
da ciência econômica – CP) ''a baseava, a luta pela existência pode
igualmente ter lugar na natureza sem nenhuma interpretação
malthusiana. De resto, os organismos da natureza têm, também eles,
as suas leis de população, que estão pouco estudadas, mas cuja
descoberta será de importância capital para a teoria do
desenvolvimento das espécies. E quem, senão Darwin, deu o impulso
decisivo nessa direção?''
Numa carta a Kugelmann, de 27 de junho
de 1870, Marx volta a tratar desse tema. Escreve ele: “Herr Langer (Ueber
die Arbeiterfrage, etc., 2ª edição) tece-me louvores em tom
alto, mas o objetivo de fazer-se ele próprio importante. Herr Lange,
veja você, fez uma grande descoberta. A totalidade da história pode
ser expressa sob uma simples grande lei natural. Essa lei natural é
a frase (neste aplicação a expressão de Darwin torna-se apenas uma
frase) ‘a luta pela vida’ e o conteúdo dessa frase é a lei
malthusiana de população ou, antes, de superpopulação. Assim, em vez
de analisar a luta pela vinda como representada historicamente em
formas diversas e definidas da sociedade, tudo o que deve ser feito
é traduzir toda luta concreta pela frase ‘luta pela vida’ e essa
mesma frase pela fantasia malthusiana sobre população. Deve-se
admitir que este é um método muito impressionante – pela bazófia,
simulação científica, ignorância bombástica e ociosidade
intelectual”.
Em 1873, Marx enviou a Darwin, ''da
parte de seu sincero admirador'', um exemplar de O Capital,
com uma referência ao efeito ''memorável'' de A origem.
Darwin leu apenas algumas páginas do livro, mas respondeu:
''Agradeço-lhe por ter-me honrado com a remessa de sua grande obra
sobre o capital, e, de todo o coração, gostaria de ser mais digno de
recebê-la, tendo uma compreensão melhor do tema profundo e
importante da economia política. Conquanto nossos estudos tenham
sido muito diferentes, creio que ambos desejamos sinceramente a
ampliação do saber e, a longo prazo, é certo que isso contribuirá
para a felicidade da humanidade''.
Ao contrário do que escreveram alguns
biógrafos do pensador alemão, inclusive Isaac Berlin, Marx nunca
esteve para dedicar O Capital a Darwin. A confusão aconteceu
porque Darwin enviou carta a Edward B. Aveling (que depois seria
genro de Marx) recusando a dedicatória que este, Aveling, faria para
ele no folheto Darwin para estudantes, de 1881.
A teoria da evolução apresentada por
Darwin, como toda teoria científica viva, é complementada a
aperfeiçoada a cada nova descoberta possibilitada pelos avanços
técnicos e científicos. Segundo Martin Gardner, ''a moderna teoria
da evolução abrange a genética e todas as outras descobertas
importantes da ciência do século 20. Darwin foi um lamarckista que
aceitou a hoje abandonada ideia da herança dos traços adquiridos.''
Fraqueza de pensamento
Avanços e recuos da compreensão do mundo
e da luta de classes levaram a que, no século passado, o marxismo
deixasse de ser referência para muitos cientistas. Isso se refletiu
nos que continuaram na trilha aberta por Darwin de compreensão da
natureza, sem a correspondência com a compreensão das vicissitudes
da história social. Mesmo pensadores progressistas e envolvidos nos
debates dos grandes temas do momento, como o darwinista Richard
Dawkins, tratam a conduta moral do homem (sua religiosidade,
inclusive) como um aspecto da conduta natural, biológica.
Desconsideram as classes sociais e a luta e relações que elas travam
entre si. Não levam em conta o desenvolvimento histórico na formação
e realizações humanas. As qualidades e defeitos morais seriam
instintivos, encontrados tanto nos humanos como nos animais. Aliás,
Darwin chegou a escrever que os animais experimentam quase todos os
sentimentos dos homens, como amor, lealdade etc. Quando muito, esses
cientistas, tratam do enfrentamento entre o racionalismo (ciência) e
anti-racionalismo (religião, crenças, preconceitos etc.) na
sociedade.
Esta concepção tem a ''fraqueza de
pensamento'' apontada pelo pensador alemão. Para os materialistas
dialéticos e históricos, o homem é criador e transformador da
natureza, conhece e conquista a sua própria natureza e transforma a
realidade que o cerca. Por isso, a indicação de Marx de apropriar-se
das descobertas de Darwin ''para a nossa visão''. Daí a compreensão
de conjunto apontada por Engels, no discurso diante do túmulo de
Marx, em 1883: ''Assim como Darwin descobriu a lei da evolução na
natureza humana, Marx descobriu a lei da evolução na história
humana''.
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