|
RAYMUNDO DE LIMA
Formado em Psicologia, Mestre em Psicologia Escolar (UGF) e
Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP).
Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na
área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de
Maringá (UEM)

|
compartilhe... indique este
artigo...
|
|
|
O ensino da Teoria da Evolução e os
criacionistas – notas para comentar o filme "O vento será tua
herança"
Raymundo de Lima
"El sueño de la razón
produce monstruos"
A
historiadora das religiões Karen Armstrong em seu livro "Em
nome de Deus" (2001) relata que: "Em 1920, o político
democrata e presbítero Willian J. Bryan [1860-1925] lançou uma
cruzada contra o ensino da teoria da evolução nas escolas e
faculdades. Achava que o responsável pelas atrocidades da 1a.
Guerra Mundial fora o darwinismo”.
Esse pseudo-argumento contra a teoria de
Darwin seria reaproveitado após a 2a. Guerra Mundial, com
a revelação do holocausto dos judeus e a divulgação de que os
nazistas tinham intenção de realizar uma "seleção da sociedade"
fundado no arianismo; desse modo, "o darwinismo teria
influenciado diretamente o militarismo alemão e a decisão da
Alemanha declarar guerra" (ARMSTRONG, op.cit., p. 203).
Desde os anos 1920, os
fundamentalistas
– termo originariamente dirigido aos cristãos presbiterianos, que
definia cinco dogmas religiosos fundamentais pelos presbiterianos,
em 1915 – temendo que o darwinismo levasse os jovens a perderem sua
fé em Deus, na Bíblia, ou na doutrina ‘fundamental’ do cristianismo,
vem criando mecanismos legais proibindo o ensino da Teoria da
Evolução nos estados norte-americanos da Flórida, Mississipi,
Lousiana e Arkansas etc.
Foi no Tennessee, na cidade de Dayton,
que um jovem professor, John Scopes, confessou ter infringido a lei
numa aula de biologia, atitude que o levaria ser símbolo em favor da
liberdade de expressão e da evocação da Primeira Emenda da
constituição dos Estados Unidos. Em julho de 1925, o professor
Scopes foi levado a julgamento, e em sua defesa criou-se uma
sociedade, a American Civil Liberties Union (ACLU), que
enviou uma equipe de advogados encabeçada pelo racionalista Clarence
Darrow [1857-1938]. A pedido dos fundamentalistas cristãos, Willian
J. Bryan concordou em defender a “sua” lei. Segundo Armstrong
(ibid.), o julgamento extrapolou o âmbito das liberdades civis e
assumiu a dimensão de um embate entre Deus e a ciência, com grande
repercussão nos jornais e rádios. Dos 12 jurados, 11 eram
fundamentalistas, um era analfabeto, e nem um deles sabia qualquer
coisa sobre ciência ou evolução (apud Hellman, 1999). Era um
julgamento cuja sentença já se sabia a priori. Essa história
também é contada nas três versões dos filmes Inherit the Wind.
O jornalista mais influente da época H.
L. Mencken – que aparece no filme sempre ironizando e debochando dos
criacionistas – escreveu que, apesar de Scopes ter sido condenado,
venceu o pensamento claro e racional de Darrow que soube derrotar o
"paranóico" Bryan, representante do obscurantismo fundamentalista
cristão que, por exemplo, achava que o mundo tinha apenas 6 mil anos
de existência. Após o julgamento, Mencken continuou denunciando os
fundamentalistas como "o flagelo da nação" e "inimigos da ciência e
do progresso da humanidade".
Neil Postman em Tecnopólio (1994,
p. 58) compara o julgamento ‘de brincadeira’ de Scopes ao julgamento
de Galileu. Guardado as devidas proporções em termos de virada na
história da ciência, tanto o julgamento de Scopes como de Galileu
são expressões de uma luta apaixonada entre duas tendências entre a
ciência e a fé, entre os
que sustentavam a validade de um sistema de crença, cuja origem de
tudo estava escrito na Bíblia – “na palavra de Deus” – ameaçada
pelas novas idéias levantadas pela ciência. Em ambos estão em jogo
duas visões de mundo opostas que se enfrentam, cara a cara, em
conflito aberto, instrumentalizadas em palavras e atos.
Todavia, segundo Postman, existe algo
paradoxal presente no movimento fundamentalista cristão, no
julgamento de Scopes. Escreve: “Quase setenta anos depois, não é
impróprio dizer uma palavra em defesa deles: aqueles
‘fundamentalistas’ não eram ignorantes nem indiferentes aos
benefícios da ciência e da tecnologia. Tinham automóveis,
eletricidade e roupas feitas à máquina. Usavam a telegrafia e o
rádio, e entre eles havia homens que poderiam ser chamados, com
razão, de cientistas reputados. Estavam ansiosos para compartilhar
das dádivas da tecnocracia americana, ao que vale dizer que não eram
nem luddites nem primitivos. O que os preocupava era o
assalto que a ciência fez na história antiga, na qual nasceu seu
senso de ordem moral. A batalha estabeleceu a questão, de uma vez
por todas: da definição de verdade, a grande narrativa da ciência
indutiva assume precedência sobre a grande narrativa do Gênesis, e
aqueles que não concordam devem permanecer na contracorrente
intelectual”.
Criacionistas nas políticas de ensino
Revogadas as leis de inspiração
religiosa fundamentalismo cristão evangélico, a nova estratégia dos
criacionistas consistia em infiltrar seus adeptos nos
Conselhos
das escolas ou assediando os professores de biologia e textos
didáticos para prevalecer sua doutrina ou suprimir as idéias
evolucionistas. Sistematicamente eles pregam slogans:
“aceitar a Teoria da Evolução é abandonar Cristo”, “o homem não veio
do macaco”. Taticamente, eles ocupam espaços da mídia (rádios,
televisão, Internet, imprensa escrita), onde associam Darwin
ao diabo, e fazem uso de estratagemas retóricos para boicotar o
ensino da teoria da evolução, e as demais teorias consideradas
produtos do agnosticismo.
A Creation Research Society, fundada em
1963, toma a linha de frente das organizações criacionistas e
consegue aprovar em algumas leis, por exemplo, uma que exige nos
livros escolares a advertência de que "a origem e criação do homem e
seu mundo não é um fato científico". A Bíblia era designada, uma vez
mais, como texto de referência. A Associação Nacional do Professores
de Biologia recorre e vence na Suprema Corte, em 1968 (TAMBOSI,
1999).
Em Grantsburg, Wisconsin um comitê
“revisou” o currículo para ensinar "modelos científicos diversos de
teorias da origem da vida". Fazendo mal uso do termo “paradigma” de
Thomas Khun, os criacionistas consideram a teoria da evolução um
mero paradigma a ser superado por outra teoria. Essa tática
aparentemente simples tenta elevar o criacionismo ao status
de ciência, e justifica o direito de ser ensinada nas escolas nas
disciplinas de ciências, história, antropologia.
Em algumas regiões dos Estados Unidos, por iniciativa da direção da
escola ou dos comitês fundamentalistas os livros escolares contêm
uma tarja com a inscrição "evolução é uma teoria, não um fato".
O criacionismo com outro nome "Intelligent
Design"
Como os criacionistas não conseguiram
banir a teoria da evolução das escolas e da mídia, sua mais recente
investida está na invenção do que eles consideram “uma nova teoria”:
a Teoria do Design Inteligente("Intelligent Design Theory").
Nela, fazem uso de uma linguagem como se fosse “ciência”:
"ciência da criação", “criacionismo científico”, “nova teoria da
criação”. Promovendo um intenso marketing e até “debates”
supostamente científicos (na verdade pregações religiosas),
convidando especialistas anti-evolucionistas como Duane Gish – um
PhD em bioquímica – os ‘novos’ criacionistas reivindicam o mesmo
espaço reservado à "ciência da evolução", e, ao mesmo tempo, o CSRC
desenvolve campanhas em que atribui ao evolucionismo a "decadência
moral dos valores espirituais", a "destruição da saúde mental" e o
aumento dos divórcios, do aborto e, até, das "doenças venéreas"! (R.
Numbers).
Segundo esse
ponto de vista, a vida é tão complexa que sua origem só poderia ser
dirigida por um ator sobrenatural. Deus criou o universo do
nada (ex nihilo), isto é, criou-o sem matéria preexistente, e
também teria daí criado uma alma imortal para o indivíduo.
Para alguns analistas, o Intelligent
design exerce uma dupla função: no campo cientifico e no campo
do ensino escolar. No campo científico, sua influência inclui desde
o reconhecimento de ser também “ciência”, como até mesmo um ou outro
membro da seita merecer o Premio Nobel por alguma descoberta (Cf.:
COLUCCI, 2003).
Contra a laicização do ensino público e particular, seus agentes
trabalham com o objetivo influenciar o conteúdo dos livros
didáticos, tanto fazendo uso dos mecanismos de censura dirigido à
teoria da evolução, como apontando “furos” nessa teoria; muitas
vezes, seus agentes distorcem algumas idéias dos epistemologistas
visando incluir Intelligent design como teoria científica.
Conforme foi dito acima, a estratégia de ação dos criacionistas hoje
está voltada para o reconhecimento do suposto “novo” paradigma, i.é,
como se o Intelligent design fosse “ciência”. Esse
reconhecimento formal dos cientistas genuínos abriria as portas para
Intelligent design ser ensinado
nas disciplinas científicas escolares, e não ficar restrita ao
ensino religioso.
Para além do ensino
A partir do governo Ronald Reagan os
grupos de extrema direita como a Identidade Cristã se sentem
reforçados para agirem para além do âmbito do ensino. Ou seja, a
oposição agressiva dos fundamentalistas evangélicos extrapola o
debate entre criacionismo e darwinismo, por exemplo, fazem oposição
cerrada ao marxismo e a psicanálise,
condenam o homossexualismo e o aborto, e exercem forte influência
por uma legislação contra a pornografia e outras práticas
consideradas imorais. Os membros mais raivosos se sentem autorizados
a impedir mulheres de fazerem abortos em clínicas legalizadas, ou
destruí-las com por meio de incêndios, bem como também perseguem e
espancam homossexuais etc. Esses efeitos ainda são noticiados pela
imprensa.
Apesar de caminharem contra os avanços
científicos – mas não os avanços tecnológicos, como sinaliza Postmam,
acima – o movimento criacionista conquistou um considerável espaço
político no governo G. W. Bush, um cristão “renascido”, cujo
discurso ganhou status de doutrina geopolítica contra o
fundamentalismo islâmico. Com essa doutrina são justificadas, por
exemplo, a crença de que o governo Bush é agente do “bem” contra o
“mal”, e o apoio dogmático a Israel, considerado o país do “bem”,
mas manifestam a expectativa de o próprio um dia também se converter
em cristão “renascido”.
Após os ataques de 11 de setembro de
2001, a tendência fundamentalista retornou com mais força de
argumentos e nova doutrina dos “ataques preventivos” dos EUA e da
“guerra contra o terrorismo”, cujo discurso presidencial está
impregnado de palavras extraídas da Bíblia: "cruzada do Bem contra o
Mal", "justiça infinita", "iremos libertá-los do Mal", etc.
Portanto, não se trata apenas de slogans vazios, mas sim, de
intenções políticas racionalizadas para “converter” o mundo, desde o
ensino escolar e universitário até a diplomacia internacional
redirecionada para a evangelização de um mundo próximo ao ateísmo.
Ainda que alguns analistas observem que
o criacionismo hoje representa um “ruído” ou “falsa-ciência”,
portanto, sem nenhuma credibilidade no meio científico convencional,
um rápido balanço desse movimento aponta algumas vitórias
significativas: a) no campo político, eles influenciaram nas
eleições norte-americanas elegendo três presidentes (G. Bush, R.
Reagan e G. W. Bush) que os apoiaram principalmente nas políticas de
ensino fundadas em princípios teológicos; b) no campo
sócio-educativo, eles conseguiram aumentar a ignorância do americano
comum sobre as questões científicas. Nesse sentido, Carl Sagan, que
dedicou boa parte de sua vida visando desmistificar a ciência e
denunciar a pseudociência em livros, artigos jornalísticos,
entrevistas, palestras, documentários para televisão, etc., no livro
“O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como vela no
escuro” (1996), Sagan escreve: “95% dos norte-americanos são
‘cientificamente analfabetos’”; “dos 535 membros do Congresso dos
Estados Unidos, raramente 1% chegou a ter alguma formação científica
significativa no século XX. O único presidente cientificamente
alfabetizado foi talvez Thomas Jefferson”; “O Japão, com metade da
população dos Estados Unidos, forma anualmente duas vezes mais
cientistas e engenheiros com diplomas superiores”; “durante quatro
anos da escola secundária, os alunos norte-americanos dedicam menos
de 1500 horas a disciplinas como matemática, ciência e história. Os
japoneses, franceses e alemães gastam com elas mais do que o dobro
desse tempo”.
* * *
Essas notas
tinham como propósito enfocar como as teorias de Darwin despertaram
o fanatismo religioso e moralista; terminou mais tratando do
movimento criacionista, infelizmente. O debate criacionismo X
evolucionismo não é reconhecido nos meios escolares e científicos no
Brasil. Parece que nesse ponto somos mais críticos do que os
norte-americanos. Mas, tal debate tem aparecido com mais freqüência
na mídia, ora noticiando que a Escola Mackenzie adota o criacionismo
no seu ensino, ora divulgando que o governo Rosinha (Rio de Janeiro)
introduziu o ensino criacionista nas escolas públicas.
Também seus agentes oferecem palestras gratuitas em universidades e
escolas do país, visando ganhar adeptos para sua cruzada
anti-evolucionista.
Ainda que seu
discurso seja supérfluo e falacioso, o movimento criacionista parece
estar organizado internacionalmente contra os avanços das pesquisas
científicas, como aquelas que usam células-tronco. Recentemente a
mídia deu visibilidade a esse movimento em Brasília, curiosamente
sem nomeá-los como criacionistas.
Referências
ARMSTRONG, K. Em nome de Deus: o fundamentalismo no
judaísmo, no cristianismo e no islamismo. São Paulo: C. Letras,
2001.
AS BRUXAS. [The witches]. Documentário produzido e dirigido por
Michael Tretrick.
Dove Point Entertinment
the learing channel. EUA/Inglaterra [Brasil: GNT, 2001).
COLI, J. O sono da razão produz monstros. In: A crise da razão.
São Paulo: C. Letras, 1996, p. 301-12.
FREIRE-MAIA, N. A ciência por dentro. Petrópolis:
Vozes, 1997.
_________. Teoria da evolução: de Darwin à teoria
sintética. Belo Horizonte/S. Paulo: Itatiaia/ Edusp, 1988.
JAPIASSU, H. Desistir do pensar? Nem pensar! São
Paulo: Letras & Letras, 2001.
MONROE, P. A tendência científica moderna. In: História da
educação. São Paulo: Nacional, 1984.
NOVA ENCICLOPÉDIA DA FOLHA DE S. PAULO. v. 1. Folha de S. Paulo,
1996, p. 377.
NEVES, M. C. D. Disponível em:<http://www.jornaldaciencia.org.br/index2.jsp>
PIERUCCI, A.F.
Criacionismo é
fundamentalismo. O que é fundamentalismo?.
Disponível
em: <http://www.comciencia.br>
(2004).
SAGAN, C. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista
como vela no escuro. São Paulo: C. Letras, 1996.
TAMBOSI, O. A cruzada dos criacionistas
contra Darwin e o evolucionismo. Disponível em: <www.observatoriodaimprensa.com.br>
(1999) Tb.: <http://criticanarede.com/html/filos_darwin.html>
(2004).
“Noutras palavras, fundamentalista é quem se apega à
letra da palavra revelada como sendo a única verdade,
quem nutre a convicção de que o texto escriturístico está
livre de erros humanos, e só a interpretação literal tem
cabimento e validade. Quer dizer que só pode ser
fundamentalista quem erige na centralidade de sua fé a
letra, a literalidade de uma Escritura Sagrada divinamente
inspirada por um Deus único. Antes de ser fundamentalista é
preciso ser monoteísta. O muçulmano pode ser
fundamentalista, o judeu, o protestante, até mesmo o
católico. Já o hindu ou o taoísta, dificilmente. Para o
adepto do candomblé ou da umbanda, religiões sem livro
sagrado, é impossível ser fundamentalista” (Pierucci, 2004).
Cf.: MARTINS, M.V. O criacionismo chega às escolas
do Rio de Janeiro: uma abordagem sociológica. Disponível
em:
http://www.comciencia.br
. (2003).
|
|
versão para imprimir (arquivo em pdf)
|