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EVA PAULINO BUENO
Eva Paulino
Bueno é paranaense de Cafeara. Morou em Maringá até 1975, e se
graduou em Letras pela UEM (1975). Tem mestrado em Língua
Inglesa pela UFRJ (1986), e Ph. D. em Hispanic Languages and
Literatures pela Universidade de Pittsburgh (1991). Atualmente é
professora de Espanhol e Português na St. Mary’s University, em
San Antonio, Texas. É autora de vários livros e artigos sobre
literatura brasileira, cultura popular, e estudos da mulher. Seu
livro mais recente é uma enciclopédia, Latin American Women
Writers, An Encyclopedia (Routledge).
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A sobrevivência do mais modificado: o que
diria Darwin?
Eva Paulino Bueno
Como sabemos, durante seu trabalho como
naturalista a bordo do navio H.M.S.
Beagle, o inglês Charles Darwin encontrou nas ilhas Galápagos
algo que todos nós, em algum momento da nossa vida, sonhamos
encontrar: uma natureza que não foi modificada pelo ser humano. Isto
possibilitou ao escritor-cientista a possibilidade de desenvolver
suas teorias sobre a sobrevivência do mais forte, e de como algumas
características são mantidas e outras eliminadas dentro de uma
espécie.
Como eu não seja cientista — embora
tenha estudado as informações contidas nas latas de alimento e visto
que estou consumindo uma porção de coisas que nem sei o que são —
fico me perguntando como reagiria o grande Darwin se voltasse ao
nosso mundo neste momento.
Logicamente, ele voltaria ao mundo a um
determinado lugar e, como ele foi inglês a primeira vez, as chances
são muito boas que voltaria como inglês de novo. Mas poderia viajar
muito mais rapidamente do que viajou no seu tempo, graças aos nossos
avanços em aviões, navios, submarinos. Então ele poderia analisar o
“habitat” de muitas espécies em pouco tempo.
Uma coisa que ele veria imediatamente,
em “vistazo general,” é que as pessoas estão agora muito mais gordas
que no seu tempo. De maneira geral, no mundo inteiro, o consumo
calórico aumentou incrementalmente. Até em países que em geral
considerávamos habitado por pessoas magras, como a China, estão
vendo um aumento da obesidade. O Japão mostra a mesma tendência.
Aqui nos Estados Unidos, existe até uma categoria, os “obesos
mórbidos,” gente de mais de 400 quilos. São seres humanos, pensam,
falam, reclamam, como todos nós. Mas são, de uma certa forma, uma
espécie de mutantes. E, para quem disser que os gordos não vivem
muito, basta lembrar que pelo menos vivem o suficiente para
procriar. Seus filhos levarão consigo a tendência a engordar. Com o
aumento exponencial do número de gordos e obesos, seria possível que
eles são os mais fortes e vão eventualmente desaparecer os seres
humanos magros do planeta?
Logicamente, ser magro hoje em dia é
realmente um luxo no mundo ocidental. Somente os que têm acesso a
alimentos de alta qualidade, um estilo de vida saudável, são magros.
Basta olhar as capas das revistas: “thin is beautiful” — magro é
bonito, do mesmo jeito que uma vez se dizia que “black is beautiful”
— negro era bonito.
Isto nos coloca na direção de uma
pergunta inevitável: se magro é bonito, como podemos explicar que
tanta gente é gorda?
Duas possibilidades de resposta se
apresentam. A primeira, é que sempre se considera bonito aquele
modelo ideal, nem sempre atingível. Veja-se no Brasil a insistência
da beleza da mulher loura num país de moreninhas, negras e mulatas.
E a segunda, é que o magro eventualmente se transforma em gordo, é
inevitável. A não ser, como eu disse acima, que haja muito dinheiro.
Os modelos de beleza variam com os
tempos, e com os lugares. Por exemplo, em um lugar na África, a
mulher mais cobiçada é a que tem um vão entre os dentes da frente.
Na China antiga, a beleza estava sempre ligada à idéia do lazer, e
por isto a última imperatriz da China tinha as unhas de quase um
metro. (O que nos leva a pensar que ela realmente não tinha que
fazer absolutamente nada, nem se vestir, nem fazer a própria higiene
pessoal. Dá-lhe decadência.)
*
A
grande controvérsia hoje em dia, na área da agricultura, é sobre os
transgênicos. Há um grupo de cientistas que afirma que esta é a
maneira de enfrentar os problemas trazidos pelas mudanças no meio
ambiente, assim como pela propagação de pragas devido ao transporte
de sementes e insumos de um lugar ao outro praticamente em todo o
planeta. Já há outro grupo que diz que os produtos alimentícios
geneticamente modificados representam grandes perigos.
O perigo inicial seria para a
biodiversidade do planeta. E, depois, para os seres humanos que
consomem estes produtos geneticamente modificados.
Como eu entendo a questão da perda da
biodiversidade, ela se daria da seguinte maneira: quando uma planta
geneticamente modificada é plantada na região em que existe da mesma
planta em forma não modificada, eventualmente, através da
polinização (através do vento, insetos), todas as plantas desta
região serão geneticamente modificadas. Isto quer dizer que
desapareceriam as plantas na sua forma “original.”
Logicamente, poderíamos dizer, “e daí?”
Não estamos fazendo isto com as plantas desde que o primeiro ser
humano (acho que foi uma mulher), colocou uma semente no solo e viu
o resultado quando aquilo cresceu e deu uma espiga cheia de
sementes? Não vimos modificando a natureza desde aquele tempo, para
fazê-la funcionar do jeito que queremos? Não temos desviado rios,
aberto clareiras em florestas, escavado minas, coberto a terra de
asfalto e tijolo e impedido que a chuva passe diretamente aos
lençóis de água subterrâneos? Na verdade, os seres humanos são
talvez a maior praga que este planeta já teve, porque nos espalhamos
por todos os cantos (ainda não habitamos o fundo dos oceanos, mas
chegaremos lá, se tivermos tempo), impusemos nossas necessidades,
fizemos barreiras, rasgamos montanhas, forçamos a terra a produzir,
os animais a dar-nos sua carne, seu pelo, seus ossos, seus chifres,
seu trabalho, e, no caso dos mais sortudos, sua companhia.
Mas a questão dos produtos agrícolas
modificados geneticamente parece que mexe com um outro nível da
nossa relação com a natureza. Na página da Action Bioscience,
por exemplo, há um artigo escrito por
Arpad Pusztai,
“Genetically Modified Foods: Are They a Risk to Human/Animal Health?,
em que ele dá um relatório resumido das pesquisas feitas com
diversas plantas, e mostra que não há conclusões finais ainda,
porque as pesquisas ainda estão na fase inicial. O que parece ser
possível, pelos resultados preliminares, é que as plantas
geneticamente modificadas têm reações quando são usadas como
alimentos de ratos. Há diferentes reações às plantas geneticamente
modificadas. Por exemplo, “toxinas foram encontradas em ratos
alimentados com batatas geneticamente modificadas,” e, num outro
caso, ratos jovens e saudáveis foram alimentados com dietas
balanceadas de batatas cozidas ou cruas contendo dois genes
alterados. Mais tarde, foi observado que a grossura da mucosa
intestinal destes ratos tinha aumentado significativamente, em
comparação com ratos não alimentados com batatas alteradas.
O cientista, depois de um ensaio muito bem documentado, conclui que
antes que se conclua que as plantas geneticamente manipuladas são
ruins, “precisamos de mais ciência, e não menos.”
Mas parece
que, em alguns casos, não podemos esperar tantos anos de pesquisa
com ratos de laboratórios. Vejamos, por exemplo, o caso de Honduras.
Ali, um dos lugares onde a cultura milenar meso-americana se baseia
no cultivo do milho, há uma tendência agora a utilizar os
transgênicos. Veja na foto, a diferença entre o milho “natural” e o
milho no qual foram injetados genes de uma toxina que mata os
insetos que destruiriam a planta. Neste artigo, originado de uma
série de discussões na Rádio Pública Nacional em agosto de 2008, no
programa “Morning Edition,” se afirma que muitos países do terceiro
mundo baniram o uso de plantas geneticamente modificadas, mas que
Honduras agora decidiu utilizá-las. A decisão é econômica: as
sementes deste milho, que foram injetadas com o gene de um tipo de
bactéria que mata o inseto. Se o inseto começa a comer a planta, ele
morre.
Para uma
pessoa leiga em ciência, como eu, tudo pode parecer perfeito à
primeira vista. Qual lavrador não quer uma colheita sem problemas,
em que o milho, o algodão, a soja, as ervilhas, etc, nascem,
crescem, amadurecem, sem ter que ficar colocando herbicida,
inseticida e outras coisas? E que tal seria se inventassem uma
planta que precisa menos água? Ou que resistisse ao calor? Ao frio?
E qual seria o problema se, como eu já disse acima, já temos feito
isto há milhares de anos quando escolhemos o que plantar e onde?
Outra vez,
vem aquela questão que pode inclusive parecer ética e até mesmo
religiosa: quando nós entramos no mais ”intimo” da natureza, e
começamos a interferir nela neste nível genético, não estamos
entrando num campo que não é nosso? Estamos brincando de Deus? Quais
serão as possíveis consequências?
*
Outro dia, no
programa noturno do Jay Leno, ele fez uma piada sobre as mulheres de
Hollywood, porque, segundo ele, por lá a porcentagem de mulheres com
seios de silicone é muito alta. Por que uma mulher se submete a tal
operação, arrisca a própria saúde, para ficar com os seios mais
grandes? Em termos da função original dos seios femininos—amamentar
o bebê — o tamanho não influi. Mas, como sabemos, o homem parece ter
fixado a idéia que seios maiores indicam que a mulher é mais “sexy.”
A beleza dela aumenta. A atração dela aumenta. Será que isto é algo
que o homem tem no seu DNA dizendo que a mulher com seios maiores
poderá amamentar mais, e que portanto os filhos que ele tiver com
ela serão mais fortes, e portanto o DNA dele terá mais possibilidade
de sucesso e continuarão se reproduzindo, levando o DNA para outras
gerações? Tal é o caso na natureza, em que os animais de uma espécie
usam de todos os recursos para chamar atenção para si, para
conseguirem parceiros com os quais procriarem. Então, aquelas
mulheres que escolhem fazer plástica e aumentar o seio (em Hollywood
— em outras partes, não sei qual é a moda), estão fazendo uma
alteração que terá consequências positivas?
*
 Tenho
dois cachorros, os quais adotei por razões diferentes. A primeira
cachorra, Nora Inu, eu escolhi porque, de centenas de outros cães
latindo e tentando chamar a atenção, ela foi a única que, quando eu
retornei ao seu canil, veio e me lambeu as mãos. Ela é a rainha do
quintal, e não permite que ninguém entre, seja pessoa ou animal. O
segundo cachorro é um Border Collie que foi abandonado no meu
bairro, e decidimos ficar com ele porque sabemos algo desta raça, e
ele não desapontou: Buddy é fiel, companheiro, carinhoso, protetor.
Nós temos estes dois cães porque eles preenchem um perfil
psicológico para nós. Mas, a primeira cachorra já veio esterilizada,
e o segundo cachorro nós levamos ao veterinário para fazer a
operação. Obviamente, a linha genética destes dois animais termina
aqui, quando eles morrerem. Mas cada um deles representa um
experimento genético de milhares de anos. Como eu sei disto? Porque
ambos têm um defeito genético que se manifesta em um problema no
quadril, causado, de acordo com os especialistas, por seleção
genética. Ambos já tiveram uma cirurgia para remover a cabeça de um
osso da perna. Cada um deles, de raça “pura” estão muito longe dos
seus ancestrais. Os “vira-latas,” que são o resultado de mistura sem
controle, em geral são muito mais fortes que os cachorros “de raça,”
porque têm genes com informações variadas. Entre eles, sim, os mais
fortes sobrevivem. Por outro lado, os que têm mais características
determinadas, e pertencem a raças distintas e reconhecida, em geral
têm mais oportunidade de serem “adotados” ou “comprados.”
Os cães vêm
todos da família dos lobos. A uma certa altura da história da
humanidade, alguém “adotou” lobinhos e os criou. E foi fazendo uma
seleção genética ao permitir que os que tinham certas
características positivas procriassem. Assim, o ser humano foi
determinando qualidades como a habilidade de ser protetor, se ter
bom faro, de ter velocidade, de ter pelo branco, ou preto, ou pernas
compridas, ou curtas. Mas foi somente no século XIX que houve uma
explosão de raças caninas diferentes, conseguidas através do
cruzamento seletivo.
Atualmente existem 400 raças diferentes de cachorros, e todas vieram
de um único ancestral. Nós, seres humanos, somos responsáveis por
estas diferenças.
Isto não
constitui engenharia genética?
*
Estou
novamente pensando em Darwin, e no que ele diria se pudesse voltar
ao mundo neste momento. Temos que supor que teria a mesma mente que
tinha quando publicou A origem das espécies, em 1859,
e que se recordaria de como eram as pessoas no seu tempo. Acho que
ficaria surpreso, talvez até amedrontado, ao ver o nosso tamanho
agora! Ficaria chocado ao saber que temos inseminação artificial de
animais, de pessoas, e que uma mulher deu à luz oito bebês ao mesmo
tempo. Ficaria talvez triste ao saber que estamos perdendo espécies
de plantas e de animais numa velocidade antes impossível de
imaginar.
Será que ele
se preocuparia com o fato que estamos agora intervindo nas plantas a
nível de DNA e fazendo híbridos nunca antes imaginados? Difícil
dizer. O que sabemos ao certo é que o corpo de Darwin está enterrado
na Abadia de Westmister, em Londres. Sabemos também que seu
trabalho, feito com pura ciência, tem causado um alvoroço desde
então, tanto por parte da comunidade científica como da religiosa.
Quanto
àquelas mulheres de seios gigantescos em Hollywood, uma coisa é bem
possível: se em centenas de anos abrirem seus túmulos, os seios
ainda existirão, em forma de bola plástica. De uma certa forma,
terão sobrevivido! Isto talvez seja a prova cabal que os mais
fortes, ou mais plásticos, ou mais modificados, são os que
sobrevivem.
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