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THIAGO
MORATO DE CARVALHO
Mestre em
Geomorfologia, pesquisador do BIOSE/UFS e
Ecologia
e manejo dos recursos naturais das savanas de Roraima/INPA-RR

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Síntese de campo do trecho Peixe a Ipueiras, rio
Tocantins:
uma contribuição à Exploratória Rio Tocantins
Thiago Morato de Carvalho
Introdução
O rio Tocantins é bastante peculiar
desde o ponto de vista geomorfológico, ou seja, campo da ciência que
busca compreender a origem, evolução e os processos dinâmicos da
paisagem; da ecologia e aspectos sociais que influenciam de forma
direta e indiretamente nos ambientes naturais como o rio Tocantins.
Trata-se de um rio que drena por dois grandes domínios
morfoclimáticos, o cerrado e o amazônico, estes também são
conhecidos como os dois grandes ecossistemas brasileiros (figura 1).
Porém, quando falamos de grandes sistemas naturais aos quais
queremos dar enfoque nos seus aspectos físicos e ecológicos, como a
geomorfologia (formas da paisagem), clima e vegetação, devemos nos
referir aos domínios morfoclimáticos, termo discutido pelo
geomorfólogo, Aziz Nacib Ab´Saber. A partir de estudos e pesquisas
entre os anos de 1954 a 1961, Aziz Ab´Saber delineou os grandes
domínios morfoclimáticos da América do Sul, e em particular os do
Brasil, levando em consideração alguns fatores determinantes para
caracterizar estes domínios e sua área “core” (núcleo), como o
relevo, hidrografia, solos, vegetação e clima (Ab´Saber 1967, p.45 e
1970, p.19). Neste aspecto a bacia
hidrográfica do rio Tocantins está inserida em sua maior parte no
domínio morfoclimático de cerrado, ambiente que proporciona
condicionantes que modificam o ambiente de forma diferenciada do
domínio amazônico, como a dinâmica de produção de sedimentos e seu
transporte e deposição ao longo da bacia hidrográfica. Também é uma
região favorável para a agropecuária e potencial energético devido a
condicionantes do meio físico do centro-oeste, relevo acidentado e
regiões de áreas planas.
Em síntese, a vegetação característica é
a de cerrado, onde ocorrem áreas abertas e fechadas. Com fisionomias
características de vegetação, como o cerradão, constituído por matas
altas e encorpadas, campos com arbustos esparsos ou agrupados e
gramíneas altas, matas de galeria margeando os rios, e os buritizais
cortando as áreas abertas, geralmente encontrando-se com a mata
galeria de um rio. O cerradão, hoje pouco comum devido às ações
antrópicas, ocorre em áreas com características físico-químicas do
solo de modo a propiciar o desenvolvimento de espécies arbóreas
frondosas, podendo chegar a algumas de dezenas de metros. As áreas
abertas de cerrado, com a presença marcante da lixeira, a
Curatella americana, podem apresentar um estrato apenas
graminoso; dois estratos, um graminoso e outro com arbustos,
geralmente a Curatella; e três estratos, graminoso, arbustivo
e arbóreo. O relevo é formado pelas características chapadas, morros
testemunhos do relevo do passado e vales bem drenados. Esta paisagem
em Goiás é conhecida como Mato Grosso de Goiás, formado por manchas
de vegetação que evidenciam a transição entre o domínio dos cerrados
e a mata amazônica. As plantas têm raízes profundas que permitem
buscar água nos lençóis de água subterrânea. A presença da canga, a
laterita, evidencia os ciclos paleoclimáticos pelos quais passou a
região dos cerrados. Num clima úmido o ferro é remobilizado para a
superfície e num clima seco formam-se as concreções lateríticas,
aflorando em muitas regiões. Também durante as glaciações do
Pleistoceno o ar ficou seco e a mata amazônica regrediu, formando
áreas cobertas por vegetação do tipo cerrado, como a região de
Santarém, na boca do rio Tapajós. Matas ciliares, também conhecidas
como ribeirinha, e as de galeria são fitofisionomias características
de ambientes fluviais, sendo assim se desenvolvem nas planícies de
inundação de rios e córregos.
Figura
1 – Localização da bacia hidrográfica do rio Tocantins. O limite em
marrom representa a região do cerrado, em azul a bacia hidrográfica
do rio Tocantins. A área pesquisada está delineada em vermelho.
Materiais e métodos
Para analisar as feições
topográficas/geomorfológicas manipularam-se diversas rotinas no
ENVI 4.0, as quais já foram aplicadas em diversos estudos
geoambientais (CARVALHO 2007ab p.46, p.57; CARVALHO e LATRUBESSE
2004, p.85; ALVES e CARVALHO, 2007, p.83) . A base raster foram
imagens IfSAR (imagens de radar por interferometria) oriundas da
missão de radar topográfico (SRTM), estas são largamente conhecidas
como “imagens SRTM”. Estas imagens são distribuídas com resolução de
90 metros, por este motivo foi feita uma reamostragem dos pixels
para 30 metros. Os produtos necessários à interpretação do relevo
foram: i) sombreamento do relevo (shaded-relief); ii)
fatiamento altimétrico (density slice); iii) perfis
topográficos (topographic profile); iv) cruzamento de dados
geológicos, de drenagem e estradas.
Resultados e discussão
As formas mais características que
afloram na superfície do rio, conhecidos como “praias” são as dunas
de fundo, que, quando o rio está baixo, estas afloram formando as
barras de areia. Estas barras podem ser centrais e laterais. As
barras laterais estão em processo de anexação com a margem do rio.
Quando ocorre uma estabilização das barras de areia, ou seja, assim
que os sedimentos formados por cascalhos, areias, silte e argila são
fixados e durante as cheias este material permanece no local
promovendo a perda de energia do fluxo de água (devido ao
barramento), então ocorre o processo de estabilização para formar
uma ilha, quando já possui colonização da vegetação.

Figura 2 – Hipsometria da planície do rio Tocantins no trecho
navegado entre Peixe e Ipueiras, TO.
Figura 3 – Imagem sombreada do relevo do trecho navegado entre Peixe
e Ipueiras, TO.
Na figura 3, é possível observar algumas
das unidades morfoestruturais adjacentes à planície fluvial do rio
Tocantins. Os limites em amarelo marcam a planície aluvial do rio
Tocantins com dissecação muito fraca; em vermelho o sistema de
estruturas dobradas formando serras do tipo hogbacks e morros
e colinas com dissecação muito forte; 1 – representa as áreas das
planícies aluviais dos afluentes do rio Tocantins, com dissecação
fraca e muito fraca, intercaladas por colinas com dissecação média e
pequenos morros isolados; o traçado em preto indica o encaixamento
do rio, devido aos sistemas estruturais, em diversos pontos o rio
apresenta afloramento de rochas, estas pertencem a estes sistemas
estruturais que promovem o encaixamento do rio.
É importante o conhecimento de campo
para que possa ser visto e mostrado o quanto são delicados e
importantes os sistemas naturais, como o do rio Tocantins. São
ambientes autoreguláveis, porém existe um limite que este sistema
pode suportar, o excedente de material sedimentar, por exemplo, irá
causar mudanças no canal, no entanto, deve-se ter cuidado em usar
termos como “assoreamento”, esta palavra significa que o rio está
passando por um processo de aceleramento na deposição de material
sedimentar (areias, siltes e argila), mas que deve ser atribuído à
ação antrópica. Todo rio possui seu próprio sistema regulador, passa
por períodos de extrema seca e grandes cheias, por vezes estes
períodos levam décadas a milênios para se repetirem, mudam o canal
de lugar ao longo do tempo vagando pelas terras adjacentes (termo
conhecido como “avulsão”) e também possuem uma vida útil. Certos
rios podem transportar grandes quantidades de sedimentos, e ele deve
depositar este material em certas áreas, formando os bancos de área
e ilhas, dependendo da época o rio irá depositar mais material e em
outras áreas irá retirar (erodir), pois sempre está em busca de um
equilíbrio, mas que nunca irá alcançá-lo, pois é exatamente esta
tendência de qualquer sistema natural, estar em busca de seu
equilíbrio é que gera a sua dinâmica, proporcionando suas constantes
modificações e assim evoluindo. É por este motivo que em certos
períodos os rios passam a depositar e erodir em determinados locais
e muitas vezes com velocidades notórias, porém é um processo natural
e que não deve ser confundido como “assoreamento”. Para que possamos
entender e saber se realmente um determinado sistema fluvial esteja
passando por processos de “assoreamento” é preciso ter estudos
minuciosos e cautelosos, pois de certa forma o homem está afetando o
sistema, mas muitos esquecem que este sistema é auto-regulador, ou
seja, é capaz de se ajustar às modificações impostas pelo homem, no
entanto este ajuste muitas vezes é desastroso, provocando inundações
e erodindo construções próximas às margens. A chave da questão está
em saber até onde podemos afetar este sistema e o quanto, e para
isso, precisamos de ciência não somente no meio acadêmica mas para a
sociedade. Temos que saber fazer uso deste sistema de forma
adequada, controlando situações como acampamentos armados nos bancos
de areia, uso irracional da terra, promovendo surgimentos de
processos erosivos como ravinas e voçorocas, as quais aceleram o
transporte de sedimentos para os rios e logo acarretando em
problemas de assoreamentos dos canais. Este artigo apresentou de
forma resumida os objetivos da Exploratória Rio Tocantins e a futura
Expedição Rio Tocantins, as quais objetivam analisar este sistema
fluvial, importante para o Estado do Tocantins, seja como fonte de
alimento, fonte de energia e turismo, e mostrar sua importância e
problemas ambientais para a sociedade através de ciência.
Referências
AB´SABER, A.N. Domínios Morfoclimáticos e Províncias Fitogeográficas
do Brasil. Orientação, v.3, p.45-48. 1967.
AB´SABER, A.N. Províncias Geológicas e Domínios Morfoclimáticos no
Brasil. Geomorfologia, v.20, p.1-26.1970.
ALVES, T.M.; CARVALHO, T.M. Técnicas de Sensoriamento Remoto para
Classificação e Quantificação do Sistema Lacustre do Rio Araguaia
entre Barra do Garças e Foz do Rio Cristalino. Revista Geográfica
Acadêmica, v.1 n.1. p.79-94. 2007.
CARVALHO, T.M. MÉTODOS DE SENSORIAMENTO REMOTO APLICADOS À
GEOMORFOLOGIA. Revista Geográfica Acadêmica, v.1 n.1. p.44-54. 2007.
CARVALHO, T.M. QUANTIFICAÇÃO DOS SEDIMENTOS EM SUSPENSÃO E DE FUNDO
NO MÉDIO RIO ARAGUAIA. Revista Geográfica Acadêmica, v.1 n.1.
p.55-64. 2007.
CARVALHO, T.M.; LATRUBESSE, E. Aplicação de Modelos Digitais do
Terreno (MDT) em Análises Macrogeomorfológicas: o Caso da Bacia
Hidrográfica do rio Araguaia. Revista Brasileira de Geomorfologia,
v.1, p.85-93. 2004.
Mestre em geomorfologia, pesquisador do BIOSE/UFS e
Ecologia
e manejo dos recursos naturais das savanas de Roraima/INPA-RR
(tmorato@infonet.com.br)
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