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PATRÍCIA
CAMINI
Pedagoga, Mestranda pelo Programa de
Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (UFRGS),
orientada pela Profª. Drª. Iole Maria
Faviero Trindade.

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Dos modismos pedagógicos: as práticas em
alfabetização na sociedade de consumidores
Patrícia Camini
“Na
hierarquia herdada dos valores reconhecidos, a síndrome
consumista degradou a duração e promoveu a transitoriedade.
Colocou o valor da novidade acima do valor de permanência”
(BAUMAN, 2007, p.110).
Zygmunt Bauman, um dos teóricos de maior
expressão no cenário das idéias que versam sobre a centralidade do
consumo na sociedade contemporânea, já há algum tempo utiliza a
metáfora da liquidez para referir-se à fluidez e fugacidade que vem
caracterizando os tempos atuais. Tais características advêm de
movimentações culturais históricas, que culminaram no esfacelamento
das grandes e sólidas narrativas que sustentavam a modernidade.
Avanços tecnológicos e a conseqüente
expansão do acesso à internet a uma grande massa da população
mundial produzem e dão contornos a esse momento histórico atual, que
certamente influíram nas nossas percepções espaço-temporais. O
boom de desenvolvimento de softwares e a conseqüente
conexão da sociedade cada vez mais em rede agilizaram uma série de
serviços pelos quais, há não muitos anos, tínhamos que esperar muito
mais tempo do que atualmente. Urnas eletrônicas, nesse caso, são um
bom exemplo. Televisão, jogos eletrônicos, celulares cada vez
menores e com mais funções, também fazem parte desse cenário, em que
se produzem novas formas de relacionamentos com o espaço e o tempo,
através de imperativos como os da ordem da simultaneidade, da
flexibilidade e da transitoriedade.
Estes imperativos, segundo a
argumentação consistente de Bauman em Vida para consumo
(2008), não podem ser vistos de forma desvinculada de uma série de
modos de organização da sociedade para nos tornar consumidores que
desejam cada vez mais. Na referida obra, o autor nos traz pistas
para pensarmos como a sociedade deslocou a capacidade de produção,
outrora seu eixo central, para a capacidade de consumo, o que o leva
a argumentar que estaríamos vivendo em uma sociedade de
consumidores. É-se interpelado como consumidor, não mais como
produtor. Nessa conjuntura, o desejo adquire preponderância sobre a
necessidade: somos seres desejantes. Todavia, o prazer da conquista
é fugaz, e, para os consumidores, “a linha de chegada sempre se
move mais veloz que o mais veloz dos corredores” (BAUMAN, 2001,
p. 86), uma vez que somos constantemente convocados a consumir
novidades que, por vezes, ainda nem estão disponíveis no mercado.
Seria ingênuo pensarmos que o consumo
não existia. A diferença reside no fato de que ele agora organiza as
nossas vidas. Dessa forma, o consumo torna-se um “sistema de
valores central na vida cotidiana” (ROCHA, 2006, p. 15).
Investigar seus significados, assim, “é como abrir uma janela com
vista panorâmica para dimensões essenciais do imaginário da cultura
contemporânea” (ibid.).
Entre esses valores, vem chamando a
atenção a vulnerabilidade dos valores de permanência do que
consumimos, o que incorre em uma transitoriedade permanente das
coisas (BAUMAN, 2008). Estes seriam alguns dos efeitos do consumismo
na vida cotidiana, o qual dissemina modos de ser e estar sujeito na
contemporaneidade. E estar professor na contemporaneidade, como
estaria sendo afetado por tais valores? Em um cenário em que os
objetos tornam-se obsoletos antes mesmo de conseguirmos adquiri-los,
as práticas pedagógicas estariam sendo afetadas de que formas? Mais
especificamente, neste espaço interessa-me investigar os efeitos do
imperativo da transitoriedade nas práticas pedagógicas na
alfabetização, uma vez que estas historicamente foram centradas na
busca constante por um método que resolvesse os problemas
encontrados pelos alunos na aprendizagem do código escrito (MARZOLA,
2003).
O consumo dos métodos de
alfabetização
“De
onde pode vir este deplorável dispêndio de tempo e de esforço,
senão de um método defeituoso?” (COMENIUS,
2001, p. 150)
Para aqueles que já alfabetizaram ou
ainda alfabetizam, a pergunta não é nova: por onde começar a
alfabetizar? Pelas letras? Pelas sílabas? Pelas palavras? Tais
perguntas decorrem de um questionamento histórico entre os
alfabetizadores: qual é o melhor método de alfabetização? Nesta
seção, faço uma leitura acerca de como chegamos a tais questões,
levando em conta o contexto histórico que as produziram e alguns de
seus efeitos visíveis nas práticas em alfabetização.
Em sua única obra publicada no Brasil,
Cook-Gumperz (1991) nos diz que a escolarização da alfabetização foi
o principal meio utilizado pelo Estado para civilizar as massas e
controlar as múltiplas formas de alfabetização que ocorriam em
âmbito doméstico. A escola, então, se consolidou como o lugar de
preparo dos mais jovens, predominantemente através do acesso à
escrita.
No contexto gaúcho, Trindade (2004), em
sua tese de doutorado, nos mostra que, no início da escolarização da
alfabetização no Rio Grande do Sul, no final do século XIX,
importaram-se cartilhas portuguesas para serem empregadas na
alfabetização em escolas dessa região. A partir de então, surgem os
primeiros registros em relação à polêmica dos métodos, tendo em
vista que as primeiras cartilhas importadas propunham ensinar a
partir de métodos sintéticos,
enquanto a cartilha que empregava o método elaborado pelo poeta João
de Deus, importada em seguida, pautava-se no método analítico,
considerado à época o mais científico e moderno. A
autora também relata uma querela posterior, quando alguns
defensores de vertentes dos métodos analíticos, diferentes da de
João de Deus, passaram a denominar suas propostas como mais
modernas.
Atualmente, uma nova querela
envolve os defensores do construtivismo pedagógico e os do método
fônico. O construtivismo, proposta hegemônica na alfabetização,
passou a ser contestado. Na esteira do projeto de ampliação do
Ensino Fundamental para nove anos, o Ministério da Educação resolveu
rever as suas orientações acerca da alfabetização, concentradas
principalmente nos Parâmetros Curriculares Nacionais, que possuem
forte acento do discurso construtivista. Daí a visibilidade ganhada
pelo método fônico, que passou a ser estudado pelo governo federal
como uma alternativa para a alfabetização, como mostra o relatório
encomendado pela Câmara Federal a Fernando Capovilla, um dos
principais defensores do fônico no Brasil, intitulado “Os novos
caminhos da alfabetização infantil” (2005). Esse relatório, entre
outras coisas, frisa o sucesso do método fônico em outros países,
como os Estados Unidos. Aliás, é interessante notar que nesse
relatório os autores acusam o construtivismo do mesmo que o
construtivismo, através de Ferreiro e Teberosky (1991), acusaram
outros métodos de alfabetização: de não serem científicos. Ficam
aqui, então, alguns questionamentos: o que pode ser considerado
científico ao falarmos de alfabetização? A quem e por que interessa
essa denominação? O estatuto adquirido pela ciência na modernidade,
como uma metodologia cabal de comprovação do que pode ser entendido
como verdadeiro, é disputado tanto pelo construtivismo como pelo
método fônico como forma de adquirir um selo contra o que estaria no
extremo oposto do científico: o falho, o incerto.
Se
retrocedermos um pouco mais na história das idéias pedagógicas,
veremos que estas discussões sobre métodos de alfabetização guardam
relações muito próximas com o ideal comeniano de “ensinar
tudo a todos”, ou seja, de pôr em prática uma didática magna,
submetendo a escola a um princípio de ordenação rigoroso. Uma das
críticas feitas por Comenius à escola do século XVII referia-se ao
fato de serem utilizados diversos métodos de ensino. A didática
magna, então, seria capaz de resolver os problemas educacionais
(NARODOWSKI, 2006), substituindo a heterogeneidade dos métodos
empregados por apenas um. E tal método único pretendia ser
universalmente válido, pautado basicamente na instrução simultânea e
na gradação dos conhecimentos, princípios estes que são seguidos até
hoje pelos métodos de alfabetização.
A busca
permanente por novos métodos, de acordo com Marzola (2003), tem
raízes na lógica moderna de substituição do obsoleto pelo novo, de
forma que o último método a surgir seria sempre melhor do que aquele
que praticamos. Tal processo de obsoletização das coisas é relatado
por Bauman (2008, p. 125) como algo que vem se intensificando
vertiginosamente na sociedade de consumidores, tendo em vista que
somos convocados continuamente a consumirmos o novo:
E assim o
que era perfeito para o mês passado é tudo menos isso neste mês,
da mesma forma que o destino do último verão está a anos-luz do
destino deste outono. “Sapatilha de balé? É hora de se livrar
delas.”; “Alças espaguete? Não há lugar para elas nesta
estação.”; “Esferográficas? O mundo fica melhor sem elas.” O
apelo a “abrir sua nécessaire e dar uma olhada lá dentro”
deve ser seguido pela exortação de que “a próxima estação
tem a ver com cores muito fortes”, por sua vez seguida de perto
pela advertência de que “o bege e seus parentes seguros, mas
monótonos, já tiveram a vez deles... Jogue-os fora agora
mesmo”.
Semelhantemente, também somos convocados a jogar fora nossos métodos
de alfabetização, cedendo lugar ao “método da vez”. Assim como no
âmbito da moda, revistas especializadas na área da educação também
convocam os professores a se atualizarem para estarem sempre à
frente. Pode ser considerado um exemplo disso o excerto de uma
reportagem da revista Nova Escola, encontrado na pesquisa de Marzola
(2000, p. 103) sobre os sentidos da alfabetização na referida
publicação:
[...] numa proposta construtivista
de ensino, não entram cartilhas ou livros didáticos, embora a
sala de aula se transforme totalmente, criando-se o que se chama
de ambiente alfabetizador. Ou seja, valoriza-se a palavra
escrita através de livros, revistas, cartazes, rótulos. [...] As
expressões certo e errado desaparecem do vocabulário e o
professor não mais pode valer-se da avaliação tradicional para
acompanhar o desenvolvimento do aluno.
Dessa forma,
podemos entender a obsoletização constante relatada por Bauman como
algo que faz parte de uma racionalidade maior da sociedade e que
afeta as nossas práticas cotidianas, como a prática de alfabetizar
crianças, jovens e adultos. O excerto acima, publicado na revista no
ano de 1991, convocava os professores a jogarem fora as cartilhas;
atualmente, o método fônico pede o retorno de instrumentos
semelhantes às cartilhas, como livros preparados com passos
previamente estipulados para alfabetizar, levando as crianças, a
partir do domínio dos fonemas da língua, à associação destes com os
grafemas do sistema alfabético de escrita, semelhantemente ao
proposto no início da década de 1960 pelo que ficou conhecido como
método da abelhinha.
Novo ou não,
o fato é que o método fônico, representado especialmente pelo
Instituto Alfa e Beto, que comercializa um repertório imenso de
materiais referentes ao método fônico, utiliza a mesma estratégia
que, de acordo com Bauman (2008), moveria a economia do consumo: a
difamação e a ridicularização dos objetos de ontem. Tal prática
garantiria a circulação necessária à economia do consumo. A
entrevista de Fernando Capovilla a Antonio Góis (2006), jornalista
da Folha de S. Paulo, é exemplo disso:
Baseados em pesquisas de ponta,
documentos oficiais franceses, ingleses e americanos defendem a
alfabetização fônica e condenam as práticas construtivistas como
nocivas à aprendizagem. Declaram que seus alunos, sob o
construtivismo, amargaram mais de uma década de mediocridade, e só
prosperaram com o fônico. Entre 1995 e 1997, quando o mundo
civilizado condenava o construtivismo como lesa-juventude, o Brasil,
na contramão, o entronizava nos PCNs em alfabetização.
Trocando de método: uma estratégia
para não ver-se jogado no lixo?
“Não se
compra apenas comida, sapatos, automóveis ou itens de
mobiliário. A busca ávida e sem fim por novos exemplos
aperfeiçoados e por receitas de vida é também uma variedade do
comprar [...]” (BAUMAN, 2001, p. 87).
Podemos
pensar que, hoje, cada vez mais somos influenciados por uma sensação
de inadequação constante (BAUMAN, 2008) também como professores em
relação às metodologias que escolhemos. Nóvoa (1997) acredita que o
como ensinamos diz muito a respeito de quem somos.
Pensando nisso, consumindo um método estaríamos ao mesmo tempo
consumindo os signos que os representam e, assim, constituindo a
nossa identidade docente com os signos de tal repertório. Quem
gostaria de ver-se associado ao que é taxado de ultrapassado e
inadequado? Na mesma obra, Nóvoa entende que “os professores são,
paradoxalmente, um corpo profissional que resiste à moda e que é
muito sensível à moda”. Esta sensibilidade, segundo o
autor, é o que teria levado este corpo de profissionais “a
criarem ortodoxias como defesa contra o abastardamento dos seus
métodos ou técnicas” (ibid, p. 17).
Porém, o
efeito moda parece alavancar-se cada vez mais, já que, em tempos
de cibercultura e de comunicação generalizada, nossos referenciais
sobre qualquer assunto ampliaram-se consideravelmente e todos
sentem-se autorizados a opinar sobre qualquer assunto (VATTIMO,
1992).
Diferentemente de outros tempos, qualquer professor alfabetizador
hoje possui um supermercado de ofertas de métodos ao alcance de
alguns cliques do mouse. No site “Mercado Livre”, por
exemplo, a entrada “alfabetização” dá acesso a um número expressivo
de metodologias disponíveis para compra em forma de apostilas,
cartilhas e cds, como os seguintes: “Alfabetização: saberes e
linguagens”, “Brincando com letrinhas”, “Método Léa Dupret”,
“Alfabetização silábica Tin-Do-Lê-Lê”, “Etno alfabetização Yanomama:
da comunicação oral à escrita”, entre outras.
Conseqüentemente, também podemos ter acesso a um supermercado de
outros componentes para as nossas identidades docentes enquanto
alfabetizadores, diferentemente de outros tempos, em que ficaríamos
com um número muito mais restrito de metodologias.
Aliás, esta
parece ser uma das estratégias encontradas por alguns professores:
utilizar um método eclético, no qual cada alfabetizador faz a
sua composição com o que considera mais eficiente em cada método que
conhece. Como exemplo, cito a revista Vamos alfabetizar!, que
em seu primeiro número, publicado em agosto de 2008, traz como
matéria de capa uma reportagem com o título seguinte: “Ensinar a
ler e a escrever com métodos próprios”. Isso também nos mostra
que há quem também ache nessa polêmica entre os métodos uma forma de
ganhar dinheiro, convocando os professores a comporem o seu próprio
método. Ou seja: tal estratégia parece ser a de que não é necessário
dominar um método em especial, até porque, quem sabe, em seguida ele
já estará fora de moda, e o professor que sempre deseja estar na
vanguarda ver-se-á jogado no lixo junto com o seu método, como nos
sugere Bauman (2007, p. 9-10) ao dizer que há uma necessidade na
sociedade líquido-moderna de ”correr com todas as forças para
permanecer no mesmo lugar, longe da lata de lixo que constitui o
destino dos retardatários”. Dessa forma, na medida em que algo
passa a ser caracterizado como lixo e eu vivo desse lixo, no caso do
método considerado ultrapassado, eu passo a ser esse lixo (ibid.).
Considerações finais
Discuti neste
espaço que, mais do que procurar comprar novos métodos e práticas em
alfabetização, há uma série de discursos que produzem e organizam a
sociedade para uma certa compulsão pelo consumo de novas marcas
identitárias que os docentes intentam possuir para sentirem-se mais
atuais e menos “tradicionais”, palavra esta que no meio educacional
freqüentemente é associada a atraso. Ser visto como um professor
tradicional, sem dúvida, é o que poucos desejariam. E em meio a
tantos modismos pedagógicos que, tal qual uma roupa, logo caem em
desuso, fica um questionamento: com que outras questões estaríamos
deixando de nos preocupar por estarmos tão ocupados em saber qual
método é o melhor, o mais eficaz?
Interessa-me
aqui assinalar, finalizando esta discussão, que mais do que uma
prática econômica, o consumo é uma prática de significação (ROCHA,
2006). Ele possui um ethos terapêutico (BAUMAN, 2008), nos fazendo
acreditar que, através do consumo de determinados produtos,
estaremos melhorando, por exemplo, as nossas práticas docentes em
alfabetização e, conseqüentemente, nos narrando como professores
melhores. Ou seja: consumindo um novo método, se estaria fazendo um
investimento em si mesmo, já que “os membros da sociedade de
consumidores são eles próprios mercadorias de consumo” (ibid.,
p. 76), e, para se colocar no mercado de alfabetizadores, seja para
ser admitido em escolas privadas ou para responder a questões de
concursos públicos, esses professores devem, no mínimo, de alguma
forma consumir o que determinada época produz como sendo o mais
avançado em termos de métodos de alfabetização. E esta é a
ambigüidade da sociedade de consumo: enquanto consumimos, também
somos consumidos (ibid.).
O que
estaremos, então, fazendo da alfabetização em tempos em que a
sociedade se organiza centralmente em torno do consumo? O apelo para
que os professores troquem suas práticas pedagógicas por uma
supostamente mais atual e moderna pode ser encontrado em qualquer
esquina, onde facilmente encontramos bancas com uma série de
revistas destinadas a vender atividades de letramento, por exemplo,
filiadas a um discurso bastante em voga na literatura acadêmica que
versa sobre alfabetização na atualidade. Mas o que se passa nos
interstícios dessa comercialização de métodos é o que também devemos
estar atentos.
Referências
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______. Vida para consumo: a transformação das pessoas em
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VAMOS ALFABETIZAR!
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VATIMO, Gianni.
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