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JOÃO FÁBIO
BERTONHA
Doutor
em História, Professor
do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá/PR
e Pesquisador do CNPq.

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O fim da era Bush e Obama:
uma nova era para os Estados Unidos, sua
política externa e sua sociedade? Parte 2
João Fábio Bertonha
No último artigo, procurei fazer uma
avaliação dos oito anos de George W. Bush na presidência dos Estados
Unidos. Como sempre acontece em História, não é impossível que
algumas de suas políticas e iniciativas sejam reavaliadas no futuro,
para melhor ou pior, mas, na avaliação datada e imediata que fiz,
creio que ficou clara a minha antipatia por ele e seu governo e a
imensa gama de problemas e questões que ele deixou para seu
sucessor, Barack Obama.
Mesmo incorrendo em possíveis erros,
contudo, avaliar o governo Bush é um pouco mais simples hoje do que
era em 2004 ou 2007, já que é uma experiência concluída e nós já
sabemos, ao menos em linhas gerais, tudo o que ele fez e tentou
fazer e os resultados obtidos ou, ao menos, os imediatos. Analisar
processos históricos já datados e finalizados, ainda que com
repercussões ainda em curso, é, realmente, muito mais simples do que
prever o futuro. Ainda assim, é o que tentarei fazer neste espaço,
lançando idéias no ar que só saberemos se terão algum sentido no fim
do mandato de Obama, em 2012 ou 2016.
O primeiro grande problema que
identifico para a presidência Obama é a enorme expectativa que ela
traz. Chegar à presidência numa espiral de popularidade que, se não
chega a ser total, é inédita na história recente dos EUA, é um
capital político imenso. Por outro lado, ela também traz uma
cobrança inacreditável e, se as demandas gerais dos eleitores não
forem atendidas, e em curto prazo, Obama ficará numa situação bem
difícil. O grande senão é que as condições estruturais para atender
estas demandas parecem bem limitadas.
Em algumas questões, acredito que Obama
vai agir com rigor e rapidez, como está agindo, pois elas dependem
apenas, em essência, da atuação do presidente. Já há estudos em
andamento com vistas a alteração da política federal frente a
questões ambientais e trabalhistas, por exemplo. Os sonhos de alguns
ambientalistas mais radicais, como uma América se locomovendo em
bicicletas ou a total renúncia ao petróleo são, com certeza, utopias
sem sentido que Obama vai ignorar. Do mesmo modo, as leis
trabalhistas deverão continuar muito distantes, por exemplo, das
européias, pois a tradição norte-americana é muito mais
individualista. Mas é provável que suas iniciativas neste sentido
agradem a maior parte da população e, perto do governo Bush, serão
imensos avanços.
O mesmo pode ser dito quanto aos
direitos individuais das pessoas e ao Estado de direito.
Dificilmente ele renunciará a algumas leis de reforço do poder
presidencial aprovadas pelo Congresso durante o governo Bush, pois
nenhum líder se animaria a perder capacidade de ação. Mas a tortura
legalizada, o total desrespeito aos direitos humanos e outros
tópicos já foram questionados por ordens presidenciais e isto
representa um alívio considerável para a imagem da América e para a
sua sociedade. Ao mesmo tempo, tudo leva a crer que a direita cristã
perderá espaço no país, o que há de se refletir no avanço da ciência
(como na pesquisa em células tronco) e numa moral menos invasiva. A
paranóia também deve diminuir, ainda que os veículos de comunicação
da direita façam o possível para não permiti-lo.
Enfim, são todos tópicos de importância
por si só e simbólicos, pois representam uma virada na sociedade
estadunidense. Obama agiu rápido e com decisão, ainda que com
cautela. Não espanta, aliás, como as ordens presidenciais assinadas
por Obama proibindo a tortura e o desrespeito aos direitos humanos
tenham sido assinadas em meio a muita publicidade, enquanto outras,
como as que permitem financiamento federal a organismos que aceitam
o aborto, tenham sido promulgadas com mais discrição. Isso permite a
sua administração mostrar a cara da mudança, mas sem melindrar
demais os opositores que, no caso do aborto, são numerosos.
Os problemas de Obama aumentam quando
ele tiver que lidar com temas mais complexos e estruturais e que
demandam mais do que algumas assinaturas para resolver. Os Estados
Unidos já são o país mais desigual do Primeiro Mundo e este problema
só cresce com o tempo. A resposta européia para diminuir a
desigualdade foi um sistema duplo, com impostos que tributam mais os
ricos e uma rede de ajuda social, especialmente no campo da saúde e
previdência, que atende os mais pobres. Um sistema injusto até certo
ponto e cheio de problemas, como a sua manutenção num contexto de
envelhecimento populacional, mas que permite uma razoável
estabilidade e excelente nível de vida aos europeus.
A implantação de um sistema como este
seria um maná dos céus para boa parte dos americanos, desamparados
frente a um sistema de saúde essencialmente privado e além do
alcance da maioria. O grande dilema é que isto custaria montanhas de
dinheiro e onde obtê-lo é o grande problema. A administração Obama
está revertendo uma parte dos cortes de impostos promovido pelos
republicanos (e que davam esmolas à classe média e fortunas aos
muito ricos), mas isso nem de longe seria suficiente para levantar
as imensas somas necessárias.
Outra hipótese seria aumentar realmente
a tributação nos EUA, tradicionalmente baixa frente ao padrão
europeu, por exemplo. Neste caso, os recursos estariam disponíveis,
mas o aumento de tributação teria que ser imenso, na faixa de vários
pontos percentuais do PIB, no mínimo. Isso representaria um
rompimento com a tradição individualista e de baixa presença do
Estado nos EUA, aumentaria ainda mais o problema fiscal (e isso num
momento, como destacarei abaixo, em que o Estado já está no limite
dos seus recursos) e geraria um verdadeiro terremoto político.
Duvido que Obama se atreva a tanto e,
mesmo que o faça, os resultados seriam duvidosos. Ele provavelmente
se limitará a algumas mudanças que favoreçam os necessitados frente
aos planos de saúde privados e a algum aumento da generosidade dos
programas federais de ajuda. A pergunta, claro, é se os eleitores se
contentarão com isto quando a expectativa é por muito mais.
O mesmo pode ser dito quando pensamos
nos problemas de imigração e integração racial. Como primeiro
presidente negro dos EUA, e que foi apoiado pela maioria dos latinos
e outras minorias, seu dilema será de difícil resolução. Se mantiver
uma postura de presidente de “todos os americanos”, será visto como
uma decepção pelos negros e outras minorias. Mas, se lançar
iniciativas em apoio a eles ou aos imigrantes, será acusado de ser
presidente dos negros e não presidente negro dos EUA. Um problema de
difícil solução, mas que, provavelmente, será de menor importância
frente ao realmente grave, ou seja, o da economia.
Este será, com certeza, seu grande
desafio, ou seja, como lidar com esta grande crise econômica,
provavelmente a maior do capitalismo desde 1929. Haverá, com
certeza, maior regulamentação da atividade financeira e intervenção
do Estado na economia, além de um festival de gastos públicos. Com a
exceção dos liberais radicais, não há praticamente ninguém, no
espectro político americano (e mundial, na verdade) hoje, que
acredite que os mercados devem ser deixados em paz para que se
ajustem. Eles, como indicado no artigo anterior, efetivamente se
ajustariam, mas a um custo social que nenhum político na Terra
aceitaria e que, na verdade, ninguém quer.
Os dilemas, na verdade, surgem a partir
do momento em que estas constatações gerais devem se transformar em
políticas. Deve-se regulamentar o mundo financeiro, mas até que
ponto e como? Não há nenhum consenso a respeito. O Estado também
deve intervir na economia para minimizar esta crise, mas em que
sentido e como? Dando empréstimos para os mutuários falidos pagarem
seus débitos ou comprando títulos dos bancos? Investindo montanhas
de recursos públicos em obras de infraestrutura, mesmo que
desnecessárias, ou criando milhões de empregos públicos, para
ampliar a demanda? Deve-se apelar ao protecionismo, como alguns dos
primeiros atos da presidência Obama podem indicar, ou isso seria
desastroso e será evitado, fora algumas atitudes para consumo
interno?
Na verdade, ninguém sabe, seja nos EUA,
seja no resto do mundo, o que deve ser feito e o risco de Obama,
mesmo com toda a boa vontade do mundo, cometer erros, e até piorar a
situação, é imenso. A única certeza razoável é que ele não é nem
Lênin nem Hugo Chávez chegando à Casa Branca e talvez nem mesmo um
social-democrata europeu. Ele vai intervir, e forte, na economia,
pois é o que todos querem, incluindo os empresários, mas muito menos
do que outros dirigentes em outros países farão e sem ameaçar, nem
de longe, o capitalismo americano. Mesmo as possibilidades do
capitalismo dos EUA, sob Obama, se tornar mais parecido com o da
Europa, social-democrata, parecem pequenas. Vão se aproximar um
pouco, mas não muito.
O outro dilema é que, mesmo que seja
preciso na sua avaliação da situação e reaja de forma correta,
talvez a ação do governo Obama seja incapaz de reverter a crise.
Isso tanto pelo seu tamanho e disseminação mundial, como pelo fato
que crises são normais no capitalismo, cujas fases de crescimento
parecem ser regularmente sucedidas por crises de superprodução e
especulação que culminam num colapso geral, o qual rearticula as
forças econômicas para o recomeço. A ação da equipe econômica de
Obama pode reverter essa crise, impedir que ela seja maior do que
deveria, não mudar em nada a situação ou ainda piorá-la. Em qualquer
caso, as pessoas estarão pouco interessadas se a culpa pelos
empregos perdidos ou famílias em crise é do sistema ou de algo
maior. Os eleitores esperam que ele resolva o problema e o punirão
se ele não o fizer, seja ou não seja possível fazê-lo.
A situação de Obama seria mais simples,
claro, se a situação fiscal dos Estados Unidos não fosse tão grave.
Tivesse ele sucedido a Bill Clinton, quando havia um imenso
superávit público, quaisquer políticas de ampliação do serviço
médico público ou de estímulo à economia poderiam ser efetivadas a
um custo menor, pois haveria gordura a queimar. George Bush,
contudo, com seus cortes de impostos e guerras, deixou um imenso
buraco nas contas do Estado e saber como combinar essa falta de
recursos com as novas demandas é a grande questão. O Tesouro pode
continuar a imprimir dólares e, enquanto o mundo os quiser, não
haverá problemas sérios. Mas cria-se uma situação complicada, que
pode explodir no governo Obama ou no futuro.
Enfim, em termos de política interna,
Obama combina imensas expectativas da população com instrumentos
insuficientes para lidar com elas. Quais resultados ele obterá e
como os eleitores os avaliarão é o grande x da questão para 2012,
mas tenho dúvidas se há razões para otimismo.
Em termos de política externa, talvez as
chances de Obama de modificar a posição dos Estados Unidos no mundo
sejam muito maiores. Em primeiro lugar, porque a crise econômica
mundial vai ajudar, inevitavelmente, a moderar, pela simples falta
de dinheiro, alguns dos maiores inimigos dos Estados Unidos na era
Bush, como a Venezuela, o Irã e a Rússia. Em segundo, porque a sua
disposição em ouvir os aliados e exercer o poder de forma mais
multilateral tende a aproximar os EUA dos velhos aliados da Europa e
da Ásia. Por fim, a imagem dos EUA só tende a melhorar com uma
equipe de política externa muito menos militarista e mais disposta a
negociar antes de usar o poder militar.
Isso não significa que a administração
Obama será um ninho de pombos, com a recusa ao uso da força. O
terrorismo será combatido, as ameaças aos interesses americanos
anuladas e Washington continuará a exercer seu poder no mundo, se
necessário de forma unilateral. O que – imagina-se – irá acontecer é
que este uso da força bruta será menos ostensivo, os atos
unilaterais serão a exceção, e não a regra, e a busca pelo consenso
será maior. Prenuncia-se uma política externa mais inteligente,
combinando soft e hard power, e não uma baseada apenas
em bombardeios e ameaças.
Claro que nem tudo vai depender da
posição da presidência americana. Uma Casa Branca mais neutra e
ativa pode colaborar na resolução do conflito palestino-israelense,
na melhora das relações com Hugo Chávez ou na diminuição das tensões
com Teerã, entre outras possibilidades. Mas se nem palestinos nem
israelenses quiserem realmente a paz, se Chávez preferir a
confrontação (verbal) ao diálogo ou se Teerã quiser realmente uma
bomba atômica, os EUA ou preferirão não se envolver ou utilizarão
seu poder em defesa do que consideram necessário ou certo. A
presidência Obama não será a de um pacifista radical ou de alguém
que só pensa em valores e ideais, como nem poderia ser. Ela tem
tudo, contudo, para tornar a relação dos Estados Unidos com o resto
do mundo muito melhor.
Mesmo a promessa de Obama de sair do
Iraque tem que ser vista com cuidado. Se ele pudesse, com certeza,
os soldados já estariam entrando nos aviões, para alegria das mães
destes e dos contribuintes. Mas uma retirada unilateral poderia
transformar o Iraque num campo de batalha entre potências regionais
ou vários grupos internos e seria um desastre para o prestígio e a
credibilidade dos EUA. Se a situação continuar, como parece estar,
melhorando, e as condições de segurança o permitirem, ele, com
certeza, cumprirá a sua promessa. Mas tudo depende mais das
condições locais do que simples vontade política.
De qualquer forma, parece-me uma aposta
segura dizer que as chances de sucesso de Obama na política externa
tendem a ser maiores do que na interna, salvo algum acontecimento
imprevisto.
Em resumo, Obama, a meu ver, tem poucas
possibilidades de fazer uma administração “morna”. Ou ele será
lembrado como um dos melhores presidentes já vistos nos EUA ou
poderá sair da Casa Branca ainda mais desacreditado e execrado do
que Bush, o que, aliás, abalará as chances de outro afro-americano
chegar à Presidência por anos. Tudo depende das decisões corretas
(sendo o grande problema saber, a priori, quais são elas), de como a
conjuntura mundial evoluirá e, especialmente, da capacidade dos
eleitores em avaliar o que é responsabilidade do presidente e de sua
administração, o que foi uma herança do período anterior e o que
estava além do seu alcance e poder.
Como tentei demonstrar neste artigo,
creio que as chances maiores para Obama nos quatro próximos anos são
de relativo sucesso na política externa e relativo fracasso na
interna, entendendo-se, por política interna, acima de tudo, a
recuperação econômica. Como os eleitores americanos tendem a olhar
muito mais para o próprio umbigo do que para fora e como eles, como
no resto do mundo, raramente fazem o exercício mencionado no último
parágrafo e tendem a jogar toda a culpa e responsabilidade do que
ocorre de mal em que está no poder, o prognóstico para Obama não me
parece bom.
Eu diria que este, em 2012, será um
presidente americano festejado fora dos EUA e pouco popular em casa,
com riscos de não se reeleger. Mas só saberemos disto em algumas
dezenas de meses, quando a História se construirá e o futuro e o
presente se tornarão passado, terreno mais firme para construir
opiniões e fazer análises. |
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