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MAURÍCIO
DE AQUINO
Mestre em História: religiões e
visões de mundo (UNESP/Assis) e docente da Universidade Estadual
do Norte do Paraná, campus Jacarezinho

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Santo Antônio no tempo de
Vieira
Maurício de Aquino
Resumo:
Partindo do pressuposto histórico dos vínculos entre imaginário
religioso, práticas devocionais e sociedade, pretende-se apontar e
discutir sucintamente as alterações nas “especialidades” miraculosas
de Santo Antônio no Catolicismo Brasileiro a partir da análise de
alguns textos de Padre Vieira e do diálogo com a historiografia
pertinente.
Palavras-chave:
Catolicismo, Imaginário, Padre Vieira.
Abstract:
Leaving of the historical
estimated one of the bonds between imaginary religious, practices
and society are intended to point and to argue the alterations in
the miraculous “specialties” of Saint Antonio in the Brazilian
Catholicism from the analysis of some texts of Vieira and the
dialogue with pertinent literature.
Key-words:
Catholicism, Imaginary, Vieira.
“Imperador da língua
portuguesa”, eis como Fernando Pessoa, também dessa imperial
família, se refere a António Vieira. Ele nasceu em 1608 na cidade de
Lisboa. Chegou ao Brasil ainda criança, com 06 anos de idade,
acompanhando o pai, escrivão da Inquisição. Entre idas e vindas no
percurso Portugal-Brasil, Brasil-Portugal, tornou-se famoso orador,
além de conselheiro de reis, confessor de rainhas, preceptor de
príncipes, diplomata, defensor de índios e cristãos-novos. Faleceu
na Bahia, em 17 de Junho de 1697. (BOSI, 2001, p. 119)
Vieira deixou-nos um
patrimônio cultural admirável, digno de um majestoso intelectual.
Seus sermões ainda hoje fascinam pela elegância e eloqüência. Atraem
também, sobretudo a nós historiadores, pela riqueza de informações
sobre as relações sociais de seu tempo: o agitado século XVII. Para
os propósitos e limites deste trabalho, interessa-nos as informações
de Vieira acerca de seu santo predileto: Santo Antônio. Por que
Vieira lhe era tão devoto? Quais os títulos e os poderes atribuídos
a este orago? Quais os vínculos destes títulos e poderes com a
realidade social, econômica, política e religiosa da época? Estas
questões permeiam e balizam a discussão ensejada por esse texto de
caráter ensaístico.
O nosso
sant’Antoninho, como era carinhosamente chamado no tempo de
Vieira (MOTT, 1997, p.187), nasceu em Lisboa, no dia 15 de Agosto de
1195, e morreu na Itália, em 13 de Junho de 1231. Batizado com o
nome de Fernando teve uma exemplar formação cristã. Ainda jovem
associou-se à Ordem de Santo Agostinho. Em 1220, contudo, tornou-se
frade franciscano. Daí em diante, entre 1220 e 1231, fará reputação
como taumaturgo, profeta e grande pregador. Sua fama sanctatis
é tão densa que menos de um ano após a sua morte será canonizado
por Roma. Sua devoção tomará toda a cristandade. Em 1946 será
declarado Doutor da Igreja Universal.
A fama sanctatis
de Santo Antônio, seu poder simbólico sobre as pessoas, sempre foi
disputada por portugueses e “italianos”: Santo Antônio de Pádua,
onde morreu, ou de Lisboa, onde nasceu? Veremos que para
Vieira – homônimo do Santo, o nosso Sant’Antoninho é
genuinamente português. Esse “campeão da devoção popular em toda a
cristandade” (MOTT, 1997, p.186) tinha uma extensa lista de títulos
e poderes que lhe eram atribuídos no tempo de Vieira, como aponta
esta ladainha do século XVII:
Filho de Serafim,
Gadelha de Portugal, Luz da Itália, Glória de Pádua, Resplendor
da França, Admiração da Espanha, Arca do Testamento, Martelo dos
Hereges, Trono de Deus, Maravilha dos Anjos, Assombro do
Inferno, Sol de todo o Mundo. (MOTT, 1996, p.110).
O campeão da devoção
popular da cristandade, como afirmou o antropólogo e historiador
Luiz Mott, era tratado, entrevisto na ladainha, como verdadeiro
Deus. De fato, Vieira, que dedicou inúmeros sermões a seu patrono
celeste, proclamava-o como Santo Universal: “sendo um só, é todos os
santos juntos, pois nas seis hierarquias celestes, em todas tem
(sic) eminente lugar, tendo sido patriarca, profeta, apóstolo,
mártir, confessor e virgem” (VIEIRA, 1959, p.32). E mais, para o
“imperador da língua portuguesa” Santo Antônio era maior que o
próprio Cristo, afinal, sant’Antoninho é equiparado ao Sol,
enquanto Cristo a uma candeia; o santo português havia convertido 22
ladrões em uma pregação e Cristo apenas um (VIEIRA, 1959, p.122).
Vieira põe em ação todo
o seu arsenal retórico a favor do santo lusitano. Segundo Bosi, o
trabalho de nosso “imperador” caracteriza-se, sobretudo, pela
ativação de uma rede de analogias, associada ao método de
enumeração, com fins pragmáticos (BOSI, 2001, p.121-31). Percebemos
tais analogias nos fragmentos citados anteriormente, há certa
enumeração de hierarquias e em um sermão a Santo Antônio, pregado no
Maranhão em 1663, ele explicita segundo esse método a vasta
especialidade de Santo Antônio, que no tempo de Vieira era o santo
de todas as causas como se percebe a seguir:
“se vos adoece um
filho, Santo Antônio; se vos foge um escravo, Santo Antônio; se
requereis o despacho, Santo Antônio; se aguardais a sentença,
Santo Antônio; se perdeis a menor miudeza de vossa casa, Santo
Antônio; e, talvez se quereis os bens alheios, Santo
Antônio”.(apud AUGRAS, 2005, p.87)
Para além de explicitar
o método de enumeração de Vieira, esse excerto identifica o campo de
intervenção de sant’Antoninho na sociedade luso-brasileira da
época. Ele é invocado para solucionar os inúmeros problemas do
cotidiano: da doença à fuga de um escravo. Mais adiante voltaremos a
discutir esse imaginário religioso.
Por ora, detenhamo-nos
na seguinte questão: como explicar a calorosa devoção de Vieira por
Santo Antônio? Algumas possibilidades. Primeira, tal veneração
decorre do fato de Vieira ter se formado à sombra de um complexo
emaranhado teológico, retórico e devocional impregnado por
referências ao santo lisboeta, exemplo de cristão que condicionava
os nomes de pia, como o do próprio Vieira. Depois, porque o Santo
Universal fora um grande orador, ofício do jesuíta Antônio. Por fim,
mas, talvez, principalmente, porque Santo Antônio era o português
que dominava o mundo (“Sol de todo o Mundo”).
Estando em todos os
altares e bocas, conquistando corações e mentes, sobrepondo-se as
fronteiras, unindo pessoas em todas as partes do mundo, Santo
Antônio era profeticamente a metáfora de seu Reino natal. Tal
percepção se insere na profecia sebástica de Vieira, exposta em
carta de 1659 ao bispo do Japão. Nesta explicita sua sebastiânica
Teoria do Quinto Império, segundo a qual Portugal estaria
predestinado a ser a cabeça de um grande império do futuro.
Destarte, Santo Antônio é importante pelo que faz e pelo que pode
fazer. Por isso atrai Vieira, afinal, como assevera Alfredo Bosi: “O
horizonte do nosso orador é pragmático, passando rapidamente das
máximas universais às aplicações particulares que lhe interessavam
de perto” (BOSI, 2001, p.127).
Por outro viés, os
títulos e os poderes atribuídos a Santo Antônio no tempo de Vieira,
entrevistos na ladainha e no sermão de 1663, não apontam para o
principal atributo de sant´Antoninho em nossos dias, a saber,
sua fama de santo casamenteiro. Historicidade do imaginário. Mas, o
que entendemos por imaginário? Recorramos ao historiador francês
Jacques Le Goff que escreveu inúmeros textos acerca desta temática e
enfrentou o problema da conceitualização do termo imaginário. Em
O imaginário medieval, publicado pela primeira vez em 1985, Le
Goff reconhece a pouca nitidez deste termo e sugere defini-lo por
meio de três grandes referências. Vejamos.
O primeiro conjunto de
referências diz respeito aos conceitos. É comum definir imaginário
restringindo-o e confundindo-o com noções aproximadas, tais como:
representação, simbolismo e ideologia. É verdade que o imaginário
tem uma íntima relação com essas noções, todavia, não se resume a
elas. Transborda-as. Assim, enquanto a representação engloba
quaisquer traduções mentais de uma realidade exterior percebida,
tradução abstrata, intelectual, o imaginário, por sua vez, situa-se
como tradução mental não reprodutora, criadora e poética. Se só
podemos falar de simbólico quando o objeto considerado é remetido
para um sistema de valores subjacente, não podemos, então,
identificá-lo simplificadamente com o imaginário, este capaz de
subverter criativamente os códigos simbólicos estabelecidos. O mesmo
se pode dizer dos contatos com a noção de ideologia. Esta
caracteriza-se como uma imposição de determinada concepção do mundo.
Como quadro conceitual que condiciona a atribuição de sentido a
realidade, a ideologia se aproxima muito do imaginário, que,
entretanto, não se limita a esta noção (LE GOFF, 1994, 11-12).
O segundo conjunto de
referências aponta para a índole dos documentos do imaginário. Todas
as fontes, vestígios do passado na acepção de Marc Bloch, podem ser
utilizadas pelo historiador do imaginário. Mas, existem documentos
privilegiados, documentos que são produções do imaginário: as obras
literárias e artísticas. Estas produções não devem ser tratadas como
os demais documentos. Elas não respondem a quaisquer questões. Elas
são específicas, id est, indicam questões históricas ligadas
ao imaginário, as percepções, as visões de mundo etc.
(LE GOFF, 1994, p.12-13)
O terceiro conjunto de
referências vincula-se ao truísmo de que no imaginário deve haver
imagem. Esta quase obviedade é importante para distinguir imaginário
de ideologia e de representação – essas abstratas e
intelectualizadas. As imagens já constituem a algum tempo objeto de
análise da iconografia. Mais recentemente tem se desenvolvido,
outrossim, a iconologia, mais rica analiticamente, preocupada com os
significados traduzidos e transmitidos pelos ícones (LE GOFF, 1994,
p. 13-14).
Após traçar as nem
sempre claras fronteiras do imaginário, Le Goff assevera que as
imagens que o compõe
(...) não se
restringem às que se configuram na produção iconográfica e
artística: englobam também o universo das imagens mentais. E, se
é verdade não haver pensamento sem imagem, tão pouco deveremos
deixar-nos afogar no oceano de um psiquismo sem limites. As
imagens que interessam ao historiador são imagens coletivas,
amassadas pelas vicissitudes da história, e formam-se,
modificam-se, transformam-se. Exprimem-se em palavras e temas.
São-nos legadas pelas tradições, passam de uma civilização a
outra, circulam no mundo diacrônico das classes e das sociedades
humanas. (LE
GOFF, 1994, p.16)
Agora podemos retornar
ao objeto desse nosso sucinto estudo. Vimos que no tempo de Vieira o
nosso sant´Antoninho não tinha seus poderes celestes
associados, única e preponderantemente, a tarefa de arrumar marido
para as solteironas de plantão. No imaginário religioso daquele
tempo, o santo das moçoilas era São Gonçalo, cuja biografia ou
hagiografia é envolta em lendas. Alguns duvidam de sua existência.
Lusitano, teria nascido em 1187 e falecido em 1259. Entre os séculos
XV e XVII sua devoção no Império Português só perde em intensidade e
esplendor para a da Virgem Maria e de Santo Antônio. A faculdade de
casamenteiro foi imputada a São Gonçalo em virtude de sua prática
missionária entre as prostitutas. Acredita-se que ele se vestia de
mulher e tocava sem parar, pedindo que se formasse uma coreografia
em forma de Roda, daí essa dança denominar-se Roda de São Gonçalo,
criada para extenuar as mulheres por ocasião, sobretudo, da Páscoa
impedindo-as de pecar. Todavia, esta Roda ensejava encontros
amorosos e favorecia o enlace dos casais. Assim, a Festa de São
Gonçalo, celebrada em 16 de Janeiro (em 1970 passou a ser celebrada
em 10 de Janeiro em virtude de uma orientação da Cúria Romana que
unificou a festa aos santos a partir de suas datas de falecimento),
era concorrida e se apresentava como ótima oportunidade para
momentos de intensa relação entre os sexos. (AZZI, 1978, p.130-2;
AUGRAS, 2005, p. 80; HOORNAERT, 1974, p. 82)
De fato, no tempo de
Vieira o dúlcido santinho casamenteiro era Gonçalo, enquanto Santo
Antônio era, sobretudo, uma espécie de divino capitão-do-mato,
militarizado, recebendo até patente e soldo de Portugal, Império em
crise, cujo esplendor de outrora fora projetado para um futuro
escatológico ou para a pretensa universalidade de seu Santo – último
bastião da glória lusitana.
Com o advento da
República brasileira e seus corolários, a Igreja, agora separada do
Estado,
passou por inúmeras transformações: ereção de dioceses,
centralização clerical, valorização de práticas sacramentais entre
outras. Efetivou-se um novo modelo de Igreja, consagrado pela
historiografia com o nome de Catolicismo Romanizado ou
Ultramontano. Uma das estratégias de implantação desse novo
modelo eclesial consistia na ressignificação das antigas devoções (BEOZZO,
1996, passim). A necessidade de atrair o povo (muitos
descendentes de escravos) e o contexto histórico-eclesiológico das
primeiras décadas do século XX ensejaram novas práticas e
representações que aos poucos alteraram as imagens sociais acerca de
Santo Antônio. Sem escravos para perseguir ou reis absolutistas para
combater, sofrendo a concorrência de São Longuinho na busca de
coisas perdidas, coube a Santo Antônio – também orago festeiro- o
poder e a tarefa de “arrumar marido” para suas devotas.
Simbolicamente mais poderoso, Antônio substituiu e eclipsou
paulatinamente seu patrício Gonçalo no imaginário religioso
brasileiro de nosso tempo – um Santo Antônio bem diferente daquele
do tempo de Vieira.
Referências
AUGRAS, Monique. Todos
os santos são bem-vindos. Rio de Janeiro: Pallas, 2005.
AZZI, Riolando. O
Catolicismo Popular no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1978.
BEOZZO, José Oscar. A
Igreja do Brasil. 2.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996.
BOSI, Alfredo. Vieira ou a
cruz da desigualdade. In:______. Dialética da Colonização.
4.ed. São Paulo: Cia. das Letras, 2001. p.119-48.
HOORNAERT, Eduardo.
Formação do Catolicismo Brasileiro – 1550-1800. Petrópolis:
Vozes, 1974.
LE GOFF, Jacques. O
imaginário medieval. Tradução de Manuel Ruas. Portugal: Estampa,
1994.
MOTT, Luiz. Cotidiano e
vivência religiosa: entre a capela e o calundu. In: SOUZA, Laura de
Mello e (org.). História da Vida Privada no Brasil: cotidiano
e vida privada na América Portuguesa. São Paulo: Cia. das Letras,
1997. v.1. p.155-221.
______. Santo Antônio, o
Divino Capitão-do-Mato. In: REIS, João José; GOMES, Flávio dos
Santos (orgs.). Liberdade por um fio: história dos quilombos
no Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1996. p.110-38.
Site da Universidade de
Aveiro, Portugal, acerca do IV Centenário de Vieira.
www.ua.pt/vieira2008
VIEIRA, Pe. Antônio.
Sermões. Portugal: 1959.
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