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ALEXANDER MARTINS VIANNA
Mestre em História Social e Doutor pelo PPGHIS -UFRJ

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Estudo
introdutório ao discurso de posse do Presidente norte-americano
Barack Obama
Alexander Martins
Vianna
Em
seu discurso de posse para o seu primeiro mandato presidencial,
Barack Obama explora muitas tópicas bíblicas num estilo de prosa que
lembra muito a tradição retórica protestante do rei James I e de
John Burnyan, particularmente na forma de evocar exemplos de
virtudes para o governante e seus súditos, definir ameaças a serem
superadas e desafios em face ao futuro incerto. No entanto, desde o
início, esta tradição retórica é preenchida semanticamente com
imagens canônicas da história dos EUA que possam servir como
inspiração para a unidade do povo e para a cobrança de persistência
em enfrentar dificuldades, sem abrir mão dos “preceitos de
liberdade” dos “Pais Fundadores” e da Constituição.
É também possível
perceber que o primeiro “presidente negro” dos EUA – filho de
americana branca protestante e de pai queniana muçulmano, como se
enfatizou tantas vezes durante a campanha presidencial – escolhe
temas da história americana que possibilitem figurá-lo como
“autêntico americano” e “vencedor” através das “virtudes caras à
América” – que, em sua visão, seria um país forte justamente por ser
obra de uma imigração multicultural de pessoas laboriosas e
crentes. Nisso residira a sua força e distinção histórica em
relação às hordas do terrorismo integrista.
No entanto, a sua
forma de celebrar e selecionar temas da história americana segue o
atual cânone “WASP” democrata, que celebra o imigrante
(independentemente de sua origem étnica ou racial), mas silencia
para o fato de que o processo de ocupação do território pelos
“heróicos imigrantes” significou o genocídio dos índios – os
imigrantes primordiais da América Setentrional. Portanto, Obama olha
para o passado para legitimar parte de sua própria história pessoal
e criar ganchos conciliatórios para a nação num momento de alta
rejeição à gestão Bush – cujas ações, como sugere Obama, puseram em
risco os próprios “princípios fundamentais” da pátria.
Nesse sentido, as
lembranças das dificuldades e sacrifícios do “passado” – luta de
independência, guerra civil e segregação racial – são bastante
instrutivas no discurso de Obama, pois devem servir como inspiração
para enfrentar os problemas do presente – o que envolve a imigração
ilegal, o terrorismo, a recessão, o desemprego e a pobreza (que
ainda está racialmente circunstanciada) –, mas sem abrir mão dos
“princípios fundamentais” da pátria.
Tal recorrência
tópica é estratégica em seu discurso, pois, como conciliador da
América, ou como “pai da esperança e da virtude”, Barack Obama
pretende distinguir-se da gestão de George W. Bush, mas sem
demonstrar fraqueza no que tange os desafios da política de
segurança e da liderança mundial. Os “valores da terra da
liberdade” devem permanecer caros e inspirar o mundo, pois é o seu
destino, definido por Deus, levar a liberdade, a segurança e a
prosperidade para o mundo através da economia de mercado. Em todo
caso, parte de seu discurso quer demonstrar que é possível enfrentar
os problemas internos e externos atuais dos EUA de uma forma
distinta daquela do governo Bush.
A estratégia
preventiva e o unilateralismo da gestão Bush, que restringiram, por
exemplo, direitos civis dentro dos próprios EUA e em bases militares
no exterior – com escandalosos casos de restrição à imprensa nos EUA
e de tortura e estupro em Guantánamo, Iraque e Afeganistão –,
mostraram-se ineficazes para construir qualquer estabilidade ou
legitimidade para as suas matérias políticas e econômicas no mundo,
evidenciando a necessidade de ações coletivas com efetiva cooperação
e consenso com outros países.
Por isso, a
estratégia preventiva e o unilateralismo da gestão Bush são
apresentados por Barack como uma escolha equivocada (“velho dogma”)
para se conseguir a paz, a segurança, a defesa dos interesses
estratégicos dos EUA e a prosperidade, pois teriam criado uma
equação perigosa: para aumentar a segurança seria necessário
diminuir os direitos civis fundamentais, o que (1) tornava vazia a
sua retórica “livre-mundista”, (2) ameaçava os “princípios
fundamentais” da Constituição/Fundação dos EUA e (3) aumentava a
maré anti-americana pelo mundo. Assim, a recorrência das imagens
canônicas da Constituição e da Independência no discurso de Obama
demonstraria que Bush estaria sendo efetivamente “menos
americano” do que Barack.
Dentro desta
avaliação, outro equívoco estratégico teria sido o fato de o governo
Bush portar-se como o herói do “livre-mundismo” nos termos seletivos
dos interesses do lobby do petróleo, o que, além dos
desgastes materiais, humanos e emocionais no Iraque e Afeganistão,
criou uma onda interna de perda de confiança em relação ao governo e
suas instituições, particularmente depois das eleições de 2004.
Ademais, como a gestão Bush suscitou uma maré mundial de rejeição
anti-americana, isso aumentava o risco de novos ataques terroristas
que, por sua vez, serviam para justificar restrições seletivas a
direitos civis e humanos dentro e fora do país, assim como,
orçamentos militares muito elevados às custas da seguridade social.
Portanto, este ciclo vicioso ou “velho dogma” deveria ser
rompido.
A vinculação da
política externa norte-americana aos interesses do lobby do
petróleo representou um retrocesso nas metas de redução de emissão
de gás carbônico na atmosfera, na política de preservação do
meio-ambiente e na busca de fontes de energia alternativas, limpas,
renováveis e sustentáveis. Por outro lado, o aumento do orçamento
militar – que beneficiou os complexos industriais e de serviços que
se vinculavam em contratos com o Ministério de Defesa – significou
uma transferência de renda pública para os setores A e B da
população, que viveu a sua onda especulativa desregulada de
prosperidade nos mercados financeiros, de crédito e imobiliário,
enquanto os setores C, D e E da população sentiam os efeitos
imediatos do aumento da desigualdade social e da redução nos gastos
sociais, que se refletiam na precarização do acesso a hospitais e
escolas públicas de qualidade e livres da violência urbana.
Ora, tudo isso
explica a recorrência das “tópicas de virtude” que Barack explora em
seu discurso para demonstrar que pretende romper o ciclo vicioso
da gestão Bush, pois esta estaria na contramão da herança dos “Pais
Fundadores” que, de forma exemplar, mesmo estando em meio às ameaças
tangíveis da Guerra de Independência, ofereceram ao seu povo a
Constituição, em vez da restrição dos direitos civis. Ora, lembrar
isso significava demonstrar que todas as conseqüências jurídicas,
civis e ideológicas da “estratégia preventiva” eram traições
evidentes aos ideais da Nação. Assim, colocando-se como o defensor
efetivo dos “fundamentos americanos do livre-mundismo”, o governo
barackiano da virtude propõe um ciclo de redenção
para a América e para o mundo. Vejamos:
(1) Se durante o
governo Bush houve um aumento exponencial de investimentos militares
visando a proteger os americanos das ameaças externas terroristas e
houve também a suspensão de alguns direitos civis em 2001-2002, a
alternativa a isso seria firmar os princípios constitucionais, nunca
trocá-los por “mais segurança” devido a ameaças externas, pois os
“Pais Fundadores” exemplarmente escreveram a Constituição em meio à
Guerra de Independência. Por outro lado, cada cidadão deveria ter a
consciência de que uma nação, por mais poderosa que seja, não
poderia se proteger sozinha, dependendo da cooperação e entendimento
com outras nações; e o governo deveria fazer um uso prudente de seu
poder, permanecendo aberto ao diálogo, pois, de outro modo,
deixaria de ser um exemplo legítimo de virtude, humildade e
auto-contenção.
(2) Se durante o
governo Bush houve a invasão do Iraque e do Afeganistão, com o
conseqüente desrespeito à soberania de seu povo e a indistinção
entre alvos civis e militares, a alternativa a isso seria devolver,
de forma responsável, ambos os países a seus povos, assegurando uma
paz duradoura, a soberania, os canais de diálogo e o interesse mútuo
com o mundo muçulmano em geral.
(3) Se durante o
governo Bush houve a arrogância em relação aos fóruns mundiais e a
indiferença em relação aos problemas sociais, econômicos e
ambientais das nações mais pobres, a alternativa a isso seria que
todas as nações ricas, em cooperação, investissem nos países pobres
de forma responsável, para que uma ampla parcela da população
mundial pudesse sair do risco social, ter emprego assegurado e
freqüentar boas escolas. Deste modo, poder-se-ia evitar que os
jovens fossem recrutados por grupos integristas, pelo narcotráfico,
por guerrilhas ou que se envolvessem em empreitadas arriscadas de
imigração e trabalho ilegais, prostituição ou tráfico de mulheres,
crianças e órgãos.
(4) Se durante o
governo Bush houve negligência em relação ao protocolo de Kioto, a
alternativa a isso seria conseguir dos governos dos países ricos o
compromisso de uma prática de consumo responsável, para não se
esgotar os recursos ou a sustentabilidade econômica e ambiental do
planeta.
(5) Se durante o
governo Bush o interesse do lobby do petróleo teria aumentado
a dependência dos EUA em relação aos inimigos que supostamente
estaria combatendo, a alternativa a isso seria justamente valorizar
a pesquisa de outras fontes de energia que possibilitassem a
autonomia na matriz energética e a sustentabilidade e preservação do
meio-ambiente, pois isso diminuiria a dependência dos EUA em relação
ao Oriente Médio, Venezuela/Colômbia e Ásia Central – o suposto
“eixo do terrorismo”, definido desde a presidência de Bill Clinton.
(6) Se durante o governo Bush a
especulação financeira e os gastos com segurança teriam aumentado a
desigualdade social e o desemprego nos EUA [1],
a alternativa a isso seria aumentar o controle sobre os usos das
reservas do país e sobre o sistema de crédito bancário e as práticas
financeiras, além de se valorizar a parte “mais laboriosa” da
população, como as pessoas de formação média e os cientistas,
através de investimentos em pesquisa, educação e construção civil,
pois isso não apenas geraria empregos imediatos, mas também criaria
infra-estrutura para investimentos produtivos futuros – o que
Obama chama de “novos fundamentos para o crescimento econômico”.
Para Obama, o
“livre-empreendorismo” dos homens anônimos e comuns – aqueles que
efetivamente “fizeram a América” – seria algo importante a ser
lembrado no presente, pois seria o contraste tipológico-moral em
relação àqueles que buscam riqueza e fama fáceis – i.e., sem
esforço, sem virtude e tomando atalhos. No discurso de Obama, a
exploração de tais tópicas retóricas representa o uso estratégico de
emblemas éticos nostálgicos, que se reportam, na verdade, às noções
artesanais oitocentistas da “respeitabilidade social” do
“trabalhador honrado”. Aliás, é digno de nota o fato de o discurso
de Obama recorrer a metáforas e expressões artesanais rancheiras
para expressar conceitos ou idéias políticas elaboradas, por
exemplo: “our
patchwork heritage is a strength, not a weakness”
ou “we
have tasted the bitter swill of civil war and segregation”.
Ao proceder assim, o
objetivo de seu discurso é construir um senso de empatia com o
“homem médio” desempregado, ou com aquele que virtuosamente aceita
reduzir os seus salários ou turnos de trabalho para não ver um
“companheiro de labuta” perder o seu emprego. Em outras palavras, os
homens anônimos e comuns – as principais vítimas da recessão e do
mercado livre da especulação financeira dos ricos nas bolsas de
valores – deveriam ter paciência, continuar a ser laboriosos e
voltar a ter confiança na América e em suas instituições.
Além disso, Obama
apela, paradoxalmente, para noções da tradição
democrata-rooseveltianas de resgate da América através da
cooperação entre classes, sem questionar um mecanismo cruel
da América pós-industrial da desregulamentação econômica: o
fato de que as grandes empresas nos EUA demitem porque não querem
reduzir as suas margens de lucro e pretendem pressionar
politicamente o governo com a ameaça do desemprego em massa para,
com isso, conseguir algum tipo de subsídio (empréstimos a juros
baixos), proteção fiscal-alfandegária ou redução de encargos
trabalhistas e fiscais, para, no final das contas, quando muito,
manterem os trabalhadores com salários baixos, turnos reduzidos
e sem plano de saúde, ou seja, precarizados em vez de
desempregados, ou simplesmente sujeitos ao pútrido
dispositivo de transferência de renda pública para o setor privado
através do sistema workfare.
Como pretende
conciliar forças sociais contraditórias num momento de crise, Obama
não questiona as virtudes do mercado e seu poder de gerar
riqueza e expandir a liberdade – i.e., o núcleo duro da tópica
“livre-mundista” desde o fim da II Guerra Mundial (1939-1945) –, mas
é taxativo em afirmar que suas operações não podem acontecer sem
nenhum controle e que é importante pensar em investimentos ou
subsídios que se revertam para o trabalhador médio americano na
forma de emprego. Por isso mesmo, este horizonte de nacionalismo
econômico é estrategicamente combinado com apelos de sacrifício,
confiança e paciência ao cidadão médio – ou seja, o status quo
não é questionável, mas sim alguns detalhes de estilo na forma de
geri-lo.
No final das contas,
a forma de Obama pensar “novos fundamentos para o crescimento
econômico” significa, na prática, transferir dinheiro público
para outros nichos de investimentos (prioritariamente produtivos
em vez de especulativos, como se fosse uma farsa de New
Deal), mas beneficiando os mesmos setores sociais (A e B) que
mais concentraram renda entre 1975 e 2005, na esperança de que
criem ou mantenham empregos em solo americano.
Portanto, no
discurso redentor de Obama, a América do livre-mercado, da
livre-iniciativa e do cidadão livre não pode significar ganho
especulativo e desemprego, mas sim prosperidade, trabalho
árduo, felicidade e virtude, o que explica a recorrência do uso
tópico do mito imigrante da “terra das oportunidades” para os
“indivíduos laboriosos”. Enfim, a conciliação da Nação e a
restauração da confiança no governo ocorreriam através de incentivos
públicos para investimentos produtivos que pudessem criar
empregos para os homens e mulheres comuns e anônimos que
“fazem a América”.
Ora, como pretende
conciliar forças sociais contraditórias sem questionar o status
quo, Obama explora, em seu discurso, emblemas morais bastante
vulgarizados na cultura protestante norte-americana da saga dos
virtuosos ao modo da tradição retórica do “Progresso do
Peregrino”(1678) de John Burnyan. Em seus termos, os homens
e as mulheres virtuosos são pessoas comuns, medianas, capazes de se
sacrificarem em nome de um princípio ou valor maior,
invisível e insondável (Deus/Mercado/Liberdade), que as
toca misteriosamente não tanto como coletividade, mas como
indivíduos que se destacam virtuosamente da coletividade decadente e
rumam em direção à Cidade Celeste; porém, neste caminho, não estão
livres de serem assolados pela perda da esperança e da confiança, de
serem desviados por atalhos enganosos e de atolarem no pântano do
desespero.
Assim, depois dos
anos “pantanosos” da gestão Bush, seria necessário “refazer a
América”, vencer o medo e voltar a ter esperança numa “boa nova”, o
que significa: (1) abrir mão de dogmas de segurança toda vez que
ameaçam os princípios fundamentais da Constituição; (2) restaurar no
presente a confiança nas “virtudes dos antepassados” que
efetivamente “fizeram a América”, ou seja, os trabalhadores
laboriosos e os empreendedores produtivos – i.e, o oposto tipológico
dos especuladores financeiros que colocaram o país em risco de
decadência socioeconômica e moral –; (3) investir na infra-estrutura
de transporte e comunicação para, tanto do ponto de vista material
quanto moral, manter o país unido na criação de empregos
produtivos; (4) investir em ciência e tecnologia para baratear os
serviços médicos e melhorar a educação básica e superior; (5)
aumentar o controle e a fiscalização sobre aqueles que lidam com o
dinheiro público.
Assim, quando Obama
afirma, evocando a bíblia, que é “tempo de crescer”, de abandonar as
“coisas infantis”, isso significa que cada compatriota deve tomar
para si as responsabilidades dos efeitos das escolhas equivocadas do
passado recente e tentar corrigi-los; significa estar preparado para
fazer escolhas difíceis que não firam os princípios constitucionais;
significa a maturidade para estender a mão para o inimigo, propondo
paz e prosperidade, evitar novas escaladas militares e aumentar
investimentos socioculturais; significa que estender a mão para o
inimigo também é prova de superioridade moral e fortaleza d’alma,
pois demanda o diálogo para resolver antigas diferenças antes de
colocar civis em risco de ataques militares e/ou terroristas;
significa agir com transparência no uso do dinheiro público para que
as famílias em necessidade possam ser ajudadas a encontrar
empregos (com salário digno?); significa estar consciente de
fazer parte de uma superpotência solitária multicultural e, por isso
mesmo, deve ser o primeiro exemplo no mundo de auto-contenção,
humildade, cooperação, solidariedade e tolerância.
Assim, temos no
discurso de Obama a configuração de um ciclo global e moral de
redenção e superação da “era Bush”. No entanto, podemos questionar
se, para além da retórica, o governo Obama poderá efetivamente se
distinguir dentro de uma configuração institucional que vive,
paradoxalmente, da especulação financeira, do complexo
industrial-militar flexível, de um protecionismo econômico seletivo,
da matriz energética do petróleo, da corrosão crescente do emprego
(nos setores C, D e E) como agente de integração social, do mito do
“destino manifesto” e da saga “livre-mundista” que recorrentemente
têm justificado a escalada de investimentos em segurança às custas
da seguridade social e da soberania de outros países.
Afinal, as tópicas
religiosas da paciência, do sacrifício e da conciliação/expiação
comunal precisam de uma base social, econômica e política efetiva
para não desembocarem numa nova crise de confiança. Como sabemos, em
política, a esperança é uma matéria volátil que deve ser
manipulada com muito cuidado, pois a não realização de seu horizonte
de expectativa cria um “pântano de desespero”, cujos gases fétidos
podem ter conseqüências destrutivas duradouras para a ética
intersubjetiva e para a confiança no aparato
parlamentar-constitucional de representação política. E sabemos que,
quando isso ocorre, a arena política pode ficar polarizada entre a
absoluta apatia do indivíduo e as reações violentas
esporádicas de indivíduos e grupos.
Discurso de posse de Barack Obama,
Presidente dos EUA [2]
– Proferido em 20 de janeiro de 2009
|
"My
fellow citizens:
I stand
here today humbled by the task before us, grateful for
the trust you have bestowed, mindful of the sacrifices
borne by our ancestors. I thank President Bush for his
service to our nation, as well as the generosity and
co-operation he has shown throughout this transition.
Forty-four
Americans have now taken the presidential oath. The
words have been spoken during rising tides of prosperity
and the still waters of peace. Yet, every so often the
oath is taken amidst gathering clouds and raging storms.
At these moments, America has carried on not simply
because of the skill or vision of those in high office,
but because We the People have remained faithful to the
ideals of our forbearers, and true to our founding
documents. So it has been. So it must be with this
generation of Americans.
That we
are in the midst of crisis is now well understood. Our
nation is at war, against a far-reaching network of
violence and hatred. Our economy is badly weakened, a
consequence of greed and irresponsibility on the part of
some, but also our collective failure to make hard
choices and prepare the nation for a new age. Homes have
been lost; jobs shed; businesses shuttered. Our health
care is too costly; our schools fail too many; and each
day brings further evidence that the ways we use energy
strengthen our adversaries and threaten our planet.
These are the indicators of crisis, subject to data and
statistics. Less measurable but no less profound is a
sapping of confidence across our land – a nagging fear
that America's decline is inevitable, and that the next
generation must lower its sights.
Today I
say to you that the challenges we face are real. They
are serious and they are many. They will not be met
easily or in a short span of time. But know this,
America – they will be met.
On this
day, we gather because we have chosen hope over fear,
unity of purpose over conflict and discord. On this day,
we come to proclaim an end to the petty grievances and
false promises, the recriminations and worn out dogmas,
that for far too long have strangled our politics.
We remain
a young nation, but in the words of Scripture, the time
has come to set aside childish things. The time has come
to reaffirm our enduring spirit; to choose our better
history; to carry forward that precious gift, that noble
idea, passed on from generation to generation: the
God-given promise that all are equal, all are free, and
all deserve a chance to pursue their full measure of
happiness.
In
reaffirming the greatness of our nation, we understand
that greatness is never a given. It must be earned. Our
journey has never been one of short-cuts or settling for
less. It has not been the path for the faint-hearted –
for those who prefer leisure over work, or seek only the
pleasures of riches and fame. Rather, it has been the
risk-takers, the doers, the makers of things – some
celebrated but more often men and women obscure in their
labour, who have carried us up the long, rugged path
towards prosperity and freedom.
For us,
they packed up their few worldly possessions and
travelled across oceans in search of a new life. For us,
they toiled in sweatshops and settled the West; endured
the lash of the whip and ploughed the hard earth. For
us, they fought and died, in places like Concord and
Gettysburg; Normandy and Khe Sahn. Time and again these
men and women struggled and sacrificed and worked till
their hands were raw so that we might live a better
life. They saw America as bigger than the sum of our
individual ambitions; greater than all the differences
of birth or wealth or faction.
This is
the journey we continue today. We remain the most
prosperous, powerful nation on Earth. Our workers are no
less productive than when this crisis began. Our minds
are no less inventive, our goods and services no less
needed than they were last week or last month or last
year. Our capacity remains undiminished. But our time of
standing pat, of protecting narrow interests and putting
off unpleasant decisions – that time has surely passed.
Starting today, we must pick ourselves up, dust
ourselves off, and begin again the work of remaking
America. For everywhere we look, there is work to be
done.
The state
of the economy calls for action, bold and swift, and we
will act – not only to create new jobs, but to lay a new
foundation for growth. We will build the roads and
bridges, the electric grids and digital lines that feed
our commerce and bind us together. We will restore
science to its rightful place, and wield technology's
wonders to raise health care's quality and lower its
cost. We will harness the sun and the winds and the soil
to fuel our cars and run our factories. And we will
transform our schools and colleges and universities to
meet the demands of a new age. All this we can do. And
all this we will do.
Now, there
are some who question the scale of our ambitions – who
suggest that our system cannot tolerate too many big
plans. Their memories are short. For they have forgotten
what this country has already done; what free men and
women can achieve when imagination is joined to common
purpose, and necessity to courage. What the cynics fail
to understand is that the ground has shifted beneath
them - that the stale political arguments that have
consumed us for so long no longer apply. The question we
ask today is not whether our government is too big or
too small, but whether it works – whether it helps
families find jobs at a decent wage, care they can
afford, a retirement that is dignified. Where the answer
is yes, we intend to move forward. Where the answer is
no, programs will end. And those of us who manage the
public's dollars will be held to account – to spend
wisely, reform bad habits, and do our business in the
light of day – because only then can we restore the
vital trust between a people and their government.
Nor is the
question before us whether the market is a force for
good or ill. Its power to generate wealth and expand
freedom is unmatched, but this crisis has reminded us
that without a watchful eye, the market can spin out of
control – and that a nation cannot prosper long when it
favours only the prosperous. The success of our economy
has always depended not just on the size of our Gross
Domestic Product, but on the reach of our prosperity; on
our ability to extend opportunity to every willing heart
– not out of charity, but because it is the surest route
to our common good.
As for our
common defence, we reject as false the choice between
our safety and our ideals. Our Founding Fathers, faced
with perils we can scarcely imagine, drafted a charter
to assure the rule of law and the rights of man, a
charter expanded by the blood of generations. Those
ideals still light the world, and we will not give them
up for expedience's sake. And so to all other peoples
and governments who are watching today, from the
grandest capitals to the small village where my father
was born: know that America is a friend of each nation
and every man, woman, and child who seeks a future of
peace and dignity, and that we are ready to lead once
more.
Recall
that earlier generations faced down fascism and
communism not just with missiles and tanks, but with
sturdy alliances and enduring convictions. They
understood that our power alone cannot protect us, nor
does it entitle us to do as we please. Instead, they
knew that our power grows through its prudent use; our
security emanates from the justness of our cause, the
force of our example, the tempering qualities of
humility and restraint.
We are the
keepers of this legacy. Guided by these principles once
more, we can meet those new threats that demand even
greater effort – even greater cooperation and
understanding between nations. We will begin to
responsibly leave Iraq to its people, and forge a
hard-earned peace in Afghanistan. With old friends and
former foes, we will work tirelessly to lessen the
nuclear threat, and roll back the spectre of a warming
planet. We will not apologise for our way of life, nor
will we waver in its defense, and for those who seek to
advance their aims by inducing terror and slaughtering
innocents, we say to you now that our spirit is stronger
and cannot be broken; you cannot outlast us, and we will
defeat you. For we know that our patchwork heritage is a
strength, not a weakness. We are a nation of Christians
and Muslims, Jews and Hindus - and non-believers. We are
shaped by every language and culture, drawn from every
end of this Earth; and because we have tasted the bitter
swill of civil war and segregation, and emerged from
that dark chapter stronger and more united, we cannot
help but believe that the old hatreds shall someday
pass; that the lines of tribe shall soon dissolve; that
as the world grows smaller, our common humanity shall
reveal itself; and that America must play its role in
ushering in a new era of peace.
To the
Muslim world, we seek a new way forward, based on mutual
interest and mutual respect. To those leaders around the
globe who seek to sow conflict, or blame their society's
ills on the West – know that your people will judge you
on what you can build, not what you destroy. To those
who cling to power through corruption and deceit and the
silencing of dissent, know that you are on the wrong
side of history; but that we will extend a hand if you
are willing to unclench your fist.
To the
people of poor nations, we pledge to work alongside you
to make your farms flourish and let clean waters flow;
to nourish starved bodies and feed hungry minds. And to
those nations like ours that enjoy relative plenty, we
say we can no longer afford indifference to suffering
outside our borders; nor can we consume the world's
resources without regard to effect. For the world has
changed, and we must change with it.
As we
consider the road that unfolds before us, we remember
with humble gratitude those brave Americans who, at this
very hour, patrol far-off deserts and distant mountains.
They have something to tell us today, just as the fallen
heroes who lie in Arlington whisper through the ages. We
honor them not only because they are guardians of our
liberty, but because they embody the spirit of service;
a willingness to find meaning in something greater than
themselves. And yet, at this moment – a moment that will
define a generation – it is precisely this spirit that
must inhabit us all.
For as
much as government can do and must do, it is ultimately
the faith and determination of the American people upon
which this nation relies. It is the kindness to take in
a stranger when the levees break, the selflessness of
workers who would rather cut their hours than see a
friend lose their job which sees us through our darkest
hours. It is the fire-fighter's courage to storm a
stairway filled with smoke, but also a parent's
willingness to nurture a child, that finally decides our
fate.
Our
challenges may be new. The instruments with which we
meet them may be new. But those values upon which our
success depends – hard work and honesty, courage and
fair play, tolerance and curiosity, loyalty and
patriotism – these things are old. These things are
true. They have been the quiet force of progress
throughout our history.
What is
demanded then is a return to these truths. What is
required of us now is a new era of responsibility – a
recognition, on the part of every American, that we have
duties to ourselves, our nation, and the world, duties
that we do not grudgingly accept but rather seize
gladly, firm in the knowledge that there is nothing so
satisfying to the spirit, so defining of our character,
than giving our all to a difficult task.
This is
the price and the promise of citizenship. This is the
source of our confidence – the knowledge that God calls
on us to shape an uncertain destiny. This is the meaning
of our liberty and our creed – why men and women and
children of every race and every faith can join in
celebration across this magnificent mall, and why a man
whose father less than sixty years ago might not have
been served at a local restaurant can now stand before
you to take a most sacred oath. So let us mark this day
with remembrance, of who we are and how far we have
travelled.
In the
year of America's birth, in the coldest of months, a
small band of patriots huddled by dying campfires on the
shores of an icy river. The capital was abandoned. The
enemy was advancing. The snow was stained with blood. At
a moment when the outcome of our revolution was most in
doubt, the father of our nation ordered these words be
read to the people: "Let it be told to the future
world...that in the depth of winter, when nothing but
hope and virtue could survive...that the city and the
country, alarmed at one common danger, came forth to
meet [it]."
America.
In the face of our common dangers, in this winter of our
hardship, let us remember these timeless words. With
hope and virtue, let us brave once more the icy
currents, and endure what storms may come. Let it be
said by our children's children that when we were tested
we refused to let this journey end, that we did not turn
back nor did we falter; and with eyes fixed on the
horizon and God's grace upon us, we carried forth that
great gift of freedom and delivered it safely to future
generations." |
“Meus
concidadãos,
Hoje
aqui estou humilde pela tarefa que nos espera,
agradecido pela confiança que vocês depositaram em mim e
ciente dos sacrifícios suportados por nossos ancestrais.
Agradeço o Presidente Bush por seus serviços à nossa
nação, assim como, pela generosidade e cooperação que
demonstrou durante esta transição.
Quarenta
e quatro americanos já fizeram o juramento presidencial.
As palavras já foram pronunciadas durante marés
crescentes de prosperidade e nas águas tranqüilas da
paz. Ainda assim, com muita freqüência o juramento é
pronunciado em meio a nuvens carregadas e ferozes
tempestades. Nesses momentos, a América seguiu em
frente, não apenas devido à habilidade e visão daqueles
em alta posição de comando, mas porque Nós, o Povo,
permanecemos fiéis aos ideais de nossos fundadores e
confiantes nos documentos de nossa fundação. Assim tem
sido e assim deve ser com esta geração de americanos.
Que
estamos em meio a uma crise já é mais do que evidente.
Nossa nação está em guerra contra uma extensa rede de
ódio e violência. Nossa economia está terrivelmente
enfraquecida – uma conseqüência da ganância e
irresponsabilidade por parte de alguns, mas também de
nossa falha coletiva em fazer escolhas difíceis e em
preparar a nação para uma nova era. Lares foram
perdidos; empregos cortados; empresas fechadas. Nosso
sistema de saúde é caro demais; nossas escolas falham
demais; e cada dia mais evidencia que o modo como
utilizamos a energia fortalece nossos adversários e
ameaça nosso planeta. Eis os indicadores da crise,
submetidos a processamento de dados e cálculos
estatísticos. No entanto, menos mensurável, mas não
menos profundo, é o esgotamento da confiança por todo
nosso país – um medo persistente de que o declínio da
América seja inevitável e de que a próxima geração deva
baixar as suas expectativas.
Hoje, eu
digo a você que os desafios que enfrentamos são reais,
sérios e diversos. Eles não serão facilmente encarados
ou num curto espaço de tempo. Mas saiba disso, América,
eles serão enfrentados.
Neste
dia, estamos juntos porque preferimos a esperança ao
medo, a unidade de propósito ao conflito e à discórdia.
Neste dia, viemos proclamar o fim dos conflitos
mesquinhos e falsas promessas, das recriminações e
dogmas ultrapassados, que por muito tempo estrangularam
nossa política.
Somos
ainda uma nação jovem, mas, como se diz nas Escrituras,
chegou o momento de abandonar as coisas infantis. Chegou
o momento de reafirmarmos nosso espírito de resistência,
de escolher a nossa melhor história, de levar adiante
essa preciosa dádiva, essa idéia nobre, passada de
geração a geração: a promessa de Deus de que todos são
iguais, livres e merecem uma chance para buscar a sua
plena felicidade.
Ao
reafirmar a grandeza de nossa nação, compreendemos que a
grandeza nunca é dada. Ela deve ser conquistada. Nossa
jornada nunca foi feita de atalhos ou contentando-se com
menos. Não foi um caminho para corações fracos – para
aqueles que preferem o lazer ao trabalho, ou que buscam
somente os prazeres da riqueza e da fama. Pelo
contrário, nossa grandeza tem sido os que se arriscam,
os que empreendem, os que realizam coisas – alguns
célebres, mas, na maioria das vezes, homens e mulheres
obscuros em seu trabalho, que nos levaram pela longa e
tortuosa estrada em direção à prosperidade e liberdade.
Por nós,
eles empacotaram seus poucos pertences e viajaram pelos
oceanos em busca de uma nova vida. Por nós, trabalharam
arduamente em condições precárias e colonizaram o Oeste;
suportaram chicotadas e araram terra árida. Por nós,
lutaram e morreram em lugares como Concórdia e
Gettysburg, Normandia e Khe Sahn. Muitas e muitas vezes,
esses homens e mulheres lutaram, sacrificaram-se e
trabalharam até suas mãos ficarem arrebentadas para que
pudéssemos ter uma vida melhor. Eles viram a América
como sendo algo maior do que a soma de nossas ambições
individuais; maior do que todas as diferenças de
nascimento, riqueza ou partido.
Esta é
uma jornada que continuamos hoje. Nós ainda somos a mais
próspera e poderosa nação da Terra. Nossos trabalhadores
não são menos produtivos do que quando esta crise
começou. Nossas mentes não são menos inventivas, nossos
produtos e serviços não são menos necessários do que
eram na semana passada ou no mês passado ou no ano
passado. Nossa capacidade permanece inalterada. Mas
nossa época de congraçamento, de proteger interesses
mesquinhos e evitar decisões desagradáveis – tal época,
seguramente, já passou. A partir de hoje, devemos nos
levantar, sacudir a poeira e começar de novo o trabalho
de reconstruir a América, pois, para todo lugar que
olhamos há trabalho para ser feito.
O estado
atual da economia clama por ação ousada e rápida. E nós
agiremos, não somente criando novos empregos, mas
estabelecendo novas bases para o crescimento. Nós
construiremos estradas e pontes, redes elétricas e
linhas digitais que alimentem nosso comércio e nos
mantenham unidos. Nós devolveremos a ciência ao seu
lugar de direito e utilizaremos as maravilhas
tecnológicas para aumentar a qualidade da saúde e baixar
os seus custos. Nós aproveitaremos o sol, os ventos e o
solo para abastecer nossos carros e fazer funcionar
nossas indústrias. E nós transformaremos nossas escolas,
faculdades e universidades para que possam atender as
demandas de uma nova era. Tudo isso nós podemos fazer. E
tudo isso nós faremos.
Neste
momento, existem algumas pessoas que questionam a escala
de nossas ambições – que sugerem que nosso sistema não
pode tolerar muitos planos grandiosos. Mas a sua memória
é curta, pois se esqueceram do que este país já
realizou; do que homens e mulheres livres podem alcançar
quando a imaginação junta-se ao propósito comum, e a
necessidade à coragem. O que os cínicos falham em
entender é que o pano de fundo mudou – que os argumentos
políticos ultrapassados que nos consumiram por tanto
tempo já não se aplicam. A questão que lançamos hoje não
é se nosso governo é grande ou pequeno demais, mas se
funciona – se ajuda famílias a encontrarem empregos de
salário decente, seguro-saúde que possam pagar, uma
aposentadoria que seja digna. Se a resposta for sim,
iremos adiante. Se for não, os programas acabarão. E
aqueles entre nós que gerenciam o dinheiro público serão
cobrados a gastar sabiamente, a reformar maus hábitos e
a fazer nossos negócios à luz do dia, pois somente assim
poderemos restaurar a confiança vital entre um povo e
seu governo.
Nem é
questão para nós se o mercado é uma força do bem ou do
mal. O seu poder de gerar riqueza e expandir a liberdade
é incomparável, mas esta crise nos lembrou de que, sem
um olhar vigilante, o mercado pode girar descontrolado –
e que uma nação não pode prosperar por muito tempo
quando o mercado favorece somente os ricos. O sucesso de
nossa economia sempre dependeu não apenas do tamanho de
nosso Produto Interno Bruto, mas do alcance de nossa
prosperidade; de nossa habilidade de ampliar
oportunidade para todo coração bem disposto – não por
caridade, mas porque este é o caminho mais seguro para o
bem comum.
Quanto à
nossa defesa comum, nós rejeitamos como falsa a escolha
entre nossa segurança e nossos ideais. Nossos Pais
Fundadores, encarando perigos que mal podemos imaginar,
esboçaram uma carta para assegurar o governo da lei e os
direitos do homem – uma carta ampliada pelo sangue de
gerações. Tais ideais ainda iluminam o mundo e nós não
desistiremos deles por qualquer motivo. E saibam – todos
os outros povos e governos que estão nos assistindo
hoje, desde as maiores capitais até os menores vilarejos
onde meu pai nasceu – que a América é amiga de cada
nação e de todo homem, mulher e criança que busquem um
futuro de paz e dignidade, e que estamos prontos para
liderar mais uma vez.
Lembrem-se de que gerações que nos antecederam
enfrentaram o fascismo e o comunismo, não apenas com
mísseis e tanques, mas com alianças robustas e
convicções duradouras. Eles compreendiam que o nosso
poder sozinho não pode nos proteger, nem nos dá o
direito de fazermos o que quisermos. Em vez disso, eles
sabiam que nosso poder cresce através do seu uso
prudente; nossa segurança emana da justiça de nossa
causa, da força de nosso exemplo, das qualidades
temperantes da humildade e do autocontrole.
Somos os
guardiães deste legado. Mais uma vez guiados por estes
princípios, podemos encarar essas novas ameaças que
exigem esforço ainda maior – cooperação e entendimento
ainda maiores – entre as nações. De forma responsável,
começaremos a deixar o Iraque para seu povo e a forjar
uma paz difícil de conquistar no Afeganistão. Com velhos
amigos e ex-inimigos, incansavelmente trabalharemos para
diminuir a ameaça nuclear e afastar o fantasma do
aquecimento global. Não pediremos desculpas pelo nosso
estilo de vida, nem vacilaremos em defendê-lo. E para
aqueles que buscam melhorar a sua pontaria através da
indução do terror e do assassinato de inocentes, dizemos
agora que nosso espírito é mais forte e não pode ser
quebrado – vocês não podem nos suplantar e serão
derrotados, pois sabemos que nossa herança multicultural
é uma força, não uma fraqueza.
Somos
uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus – e
não de descrentes. Somos formados por todas as línguas e
culturas advindas de todos os confins da Terra. E porque
experimentamos o pasto amargo e pútrido da guerra civil
e da segregação, e emergimos mais fortes e unidos deste
capítulo sombrio de nossa história, podemos apenas
acreditar que os ódios antigos passarão um dia; que os
contornos tribais logo se dissolverão; que, à medida que
o mundo ficar menor, nossa humanidade comum será
revelada; e que a America deve desempenhar o seu papel,
protagonizando uma nova era de paz.
Para o
mundo muçulmano, procuramos um novo avanço, baseado no
interesse e respeito mútuo. Que aqueles líderes ao redor
do mundo que buscam disseminar conflito, ou culpar o
Ocidente pelos males de sua sociedade, saibam que seu
povo julgará vocês por aquilo que podem construir, não
por aquilo que destroem. Que aqueles que se agarram ao
poder através de corrupção, artimanha e silenciando seus
críticos, saibam que estão no lado errado da história,
mas que estenderemos a mão se estiverem dispostos a
abrir seus punhos.
Aos
povos das nações pobres, prometemos trabalhar ao seu
lado para fazer suas fazendas florescerem e fluírem
águas limpas; nutrir corpos famintos e alimentar mentes
sedentas. E àquelas nações, como a nossa, que gozam de
relativa prosperidade, dizemos que não podemos mais ser
indiferentes com aqueles que sofrem fora de nossas
fronteiras; nem podemos consumir os recursos do planeta
sem medir conseqüência, pois o mundo mudou e devemos
mudar com ele.
Quando
consideramos a estrada que se abre perante nós,
lembramos com humilde gratidão daqueles bravos
americanos que, neste exato momento, patrulham desertos
longínquos e montanhas distantes. Eles têm algo a nos
dizer hoje, tal como sussurram através das épocas os
heróis que tombaram em Arlington. Nós os honramos não
apenas porque são os guardiães de nossa liberdade, mas
porque eles encarnam o espírito de servir; uma
disposição para encontrar um significado em algo maior
do que eles mesmos. E assim, neste momento – um momento
que definirá uma geração – é precisamente este espírito
que deve habitar todos nós.
Por mais
que um governo possa fazer ou deva fazer, é em última
instância na fé e na determinação do povo americano que
esta nação confia; é na bondade de acolher um estranho
quando as barragens se rompem; é no desprendimento de
trabalhadores que prefeririam diminuir suas horas de
trabalho a ver perder seu emprego um amigo que olha por
nós nas horas difíceis; é na coragem do bombeiro de
invadir uma escada repleta de fumaça, mas também na
disposição de um pai de alimentar um filho. Enfim, é
tudo disso que decide nosso destino.
Nossos
desafios podem ser novos. Os meios com os quais os
enfrentamos podem ser novos. Mas são antigos os valores
dos quais depende nosso sucesso: trabalho duro e
honesto, coragem e jogo limpo, tolerância e curiosidade,
lealdade e patriotismo. Tais valores são verdadeiros e
têm sido a força silenciosa do progresso ao longo de
nossa história.
Então, o
que se precisa é um retorno para estas verdades. O que
se requer de nós agora é uma nova era de
responsabilidade – um reconhecimento, por parte de todo
americano, que temos deveres para com nós mesmos, com
nossa nação e com o mundo, deveres que não aceitamos de
má vontade, mas sim agarramos felizes, firmes na certeza
de que não há nada tão satisfatório para o espírito, tão
definidor de nosso caráter, do que dar tudo de nós numa
tarefa difícil.
Eis o
preço e a promessa da cidadania. Eis a fonte de nossa
confiança: a certeza de que Deus nos escolheu para
definir um destino incerto. Eis o significado de nossa
liberdade e nossa crença – razão porque homens, mulheres
e crianças de todas as raças e fé podem unir-se em
celebração ao longo desta magnífica alameda, e porque um
homem (cujo pai há menos de sessenta anos atrás poderia
não ser servido em um restaurante local) pode agora
estar de pé, diante de vocês, para fazer o mais sagrado
juramento. Então, deixem-me marcar este dia com a
lembrança de quem nós somos e do quão longe chegamos.
No ano
do nascimento da América, no mais frio dos meses, um
pequeno grupo de patriotas aconchegou-se em torno de
fogueiras quase apagadas às margens de um rio congelado.
A capital foi abandonada e o inimigo avançava. A neve
estava manchada de sangue. Num momento em que o
resultado de nossa revolução estava mais incerto, o pai
de nossa nação ordenou que estas palavras fossem lidas
ao povo: “Que seja contado ao mundo futuro...que no auge
do inverno, quando nada além de esperança e virtude
poderiam sobreviver...que a cidade e o país, alarmados
com um perigo comum, apresentaram-se para enfrentá[-lo]”.
América.
Em face de nossos perigos comuns, neste inverno de
nossas dificuldades, lembremos destas palavras eternas.
Com esperança e virtude, desafiemos mais uma vez as
torrentes gélidas e suportemos quaisquer tempestades que
vierem. Que seja dito pelos filhos de nossos filhos que,
quando fomos testados, recusamos deixar esta jornada
terminar; que não demos as costas nem vacilamos e, com
os olhos fixos no horizonte e com a graça de Deus
recaindo em nós, levamos adiante esta grande dádiva da
liberdade e a entregamos a salvo para as futuras
gerações”. |
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