|
DENISE
DOS SANTOS RODRIGUES
Doutoranda do
Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro – PPCIS/UERJ, vinculada à Linha de
Pesquisa Religião e Movimentos Sociais em Perspectiva e Mestre
em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisa –
IUPERJ, Rio de Janeiro, Brasil.

|
compartilhe... indique este
artigo aos amigos
|
|
|
Os sem religião no Censo
nacional:
investigações e ponderações
acerca da ausência de pertencimento religioso no Brasil
Denise
dos Santos Rodrigues
O acompanhamento dos resultados dos
recenseamentos demográficos do Instituto Brasileiro de Geografia
Estatística (IBGE) mostra que foi na década dos 60 que a categoria
de pessoas que se identificavam como sem religião passou a figurar
nos seus quadros, representando 0,5% da população, desvinculada
daquela categoria dos que não declaravam sua religião. Em 30 anos a
aceleração de seu ritmo de crescimento a fez saltar dos 0,8% em
1970 para 4,7% da população nacional no Censo de 1991 e 7,3% no de
2000. Paralelamente os evangélicos passaram dos 4% na década dos 60
para 9% em 1991 e 15,6% em 2000, enquanto os católicos, grupo
majoritário, entraram em declínio nesse mesmo espaço de tempo,
deixando a marca dos 93% para 83,8% e, por fim, para os 73,9% em
2000. Enfim, os sem religião foram incluídos como uma categoria
residual, que congrega todos aqueles que não se encaixam no perfil
de nenhum grupo religioso, a qual evoluiu rapidamente, à primeira
vista confirmando as clássicas teorias da secularização. Entretanto,
dados empíricos de várias fontes apontam para outra realidade, além
do que poderia ser interpretado como reforço da descrença: a
afirmação de indivíduos que fogem do compromisso com as instituições
religiosas, a despeito de suas possíveis convicções. Reconhecer,
portanto, que a religião mudou de lugar dentro da sociedade
contemporânea pode ser o primeiro passo para estudar as causas desse
deslocamento e tentar explicar porque floresceram tantas mentes que
se definem como sem religião.
Entrevistas com 70 indivíduos residentes
na Região Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro que se
identificavam como sem religião
mostraram que, ao contrário do que é sugerido pela classificação do
IBGE, a categoria dos sem religião não deve ser interpretada como
uma massa homogênea de ateus e agnósticos. Trata-se de um grupo
variado, composto por tipos diferentes que, se por um lado têm em
comum a ausência de pertencimento institucional, por outro percebem
o transcendente, aqui compreendido como Deus, uma força superior ou
afins, de forma diferenciada. Nessa perspectiva, aparentemente
devido a limitações impostas pela metodologia utilizada, a categoria
censitária dos sem religião disponibilizada pelo IBGE não parece
traduzir, com fidelidade, as transformações do panorama religioso
brasileiro das últimas décadas. A denominação “sem religião” pode,
portanto, por sua abrangência, ser interpretada – como muitas vezes
tem sido – como uma expressão do crescimento do ateísmo, o que não
representa a totalidade do grupo.
Os 32 (45,75%) ateus ou agnósticos
identificados no total de informantes eliminavam a religião junto
com a imagem de Deus ou qualquer outra força superior das suas
explicações para os eventos da vida.
Aqueles que se distinguiam desse grupo, 38 (54,3%) manifestavam
algum tipo de relação com o transcendente, descartando somente
vínculos com instituições religiosas. Entre eles estavam tanto
aqueles que nunca tiveram religião ou formação religiosa, quanto os
que se desligaram de instituições religiosas em algum momento da
vida, pelos mais diversos motivos. Se alguns confiavam que o mundo e
o indivíduo são pura matéria, ambos sujeitos às deteriorações do
tempo e dependentes dos avanços da Ciência, outros não rejeitavam a
idéia de um ente sobre-humano monitorando o universo, mas sem laços
com instituições religiosas, que julgavam desnecessárias. Eles
deslocavam, dessa forma, a sua relação com o sagrado para a esfera
privada, estabelecendo uma relação muito particular com o divino,
por vezes mais próximo da natureza do que dos personagens bíblicos.
Muitos deles percebiam Deus como uma energia integrada ao indivíduo.
Essa energia natural estaria presente em todas as coisas e lugares,
comportando-se de forma negativa ou positiva, como um átomo,
impulsionando as coisas e pessoas para um lado ou outro, em sintonia
com o universo, desenhando assim o destino de cada um. Ou seja, para
um determinado grupo de indivíduos, tudo estaria sujeito a
oscilações energéticas, as quais atuariam como uma força motriz
responsável pela origem e evolução do mundo. Esse raciocínio parece
se aproximar tanto de uma visão orientalizada, como será mais bem
explicado adiante, quanto de uma perspectiva cética montaigniana,
segundo a qual o curso da vida é construído por uma sucessão de
acasos incontroláveis.
Certos indivíduos com religiosidade
pareciam perceber o impulso religioso como um elemento
constitucional da natureza humana, relegando a religião
institucional à condição de veículo opcional para expressão pública
da crença. Alguns deles chegaram mesmo a afirmar que tinham sua
própria “religião”, por vezes ressignificando a imagem de Deus e
reinterpretando o sentido de religião, descolando-a de templos e
igrejas, os quais não julgavam necessários. Eles alegavam, como diz
Luciano, 32 anos, que o importante é “ter religiosidade e não
religião”.
Georg Simmel (1935)
em sua abordagem da situação religiosa do indivíduo moderno
estabelece uma diferença entre os termos religião e religiosidade.
Enquanto o primeiro parece referir-se a uma estrutura institucional
– aqui compreendida como a organização das várias igrejas,
denominações e movimentos –, o segundo traduz uma característica
individual, uma disposição interna, não
necessariamente vinculada a instituições. Para o autor, certos
indivíduos são movidos por uma natureza religiosa, sem a necessidade
de uma instituição para intermediar sua relação com o sagrado e com
o mundo exterior.
Com isso, ainda que o indivíduo vivesse isolado numa ilha, sem
escutar palavra ou conceito algum sobre Deus, procederia da mesma
forma porque sua alma e seu corpo funcionam religiosamente (Simmel,
1935, p.9). Já o indivíduo de religiosidade débil ou nula, no qual o
religioso não determina o processo vital como forma imanente, não
percebe outro modo de existência religiosa que não seja aquele do
dogma. Ele necessita da religião institucional porque seu
temperamento não é religioso (Simmel, 1935,
p.20). Embora o argumento simeliano sobre a existência de
religiosidade constitucional não seja absorvido por outros
estudiosos, que consideram a interferência de fatores externos,
como, por exemplo, a educação – e não internos – nas escolhas do
indivíduo no que tange à esfera da religião, a noção de
religiosidade, como apresentada por este autor, parece se aproximar
do discurso de alguns entrevistados, como Marcelo, que disse que
exerce seu “sentido e impulso de religiosidade, mas não
dentro de uma religião constituída e institucionalizada”.
Os conceitos de religiosidade e
espiritualidade já foram discutidos por vários autores das diversas
áreas, entre os quais Fereshteh Ahmadi
(2006: 51-73), que estabeleceu os seus limites para aplicá-los nas
suas pesquisas. Ele estudou, no campo da religião e saúde, a relação
entre religião, religiosidade e espiritualidade no
enfrentamento de doenças graves por
pacientes na
Suécia.
Ele distinguiu religião das outras
formas, definido-a como um fenômeno institucional e coletivo,
enquanto a espiritualidade e a religiosidade estariam reportadas às
crenças e práticas individuais, não necessariamente atreladas a
instituições. Mas ele também estabeleceu a distância entre essas
duas últimas noções. Para Ahmadi,
o uso termo religiosidade é mais restrito, vinculado à religião
institucional, enquanto espiritualidade, mais subjetivo, com um
alcance maior, podendo inclusive indicar a busca de significados
para a vida sem nenhuma fé, sem mitos, lendas ou superstições. A
espiritualidade, portanto, pode ser praticada tanto dentro quanto
fora do contexto institucional religioso, em consonância com Paul
Heelas (2001) em seus estudos sobre as transformações no campo da
religião na modernidade.
Na sua tentativa de estabelecer uma
diferenciação entre o que seria a religião e a espiritualidade, Paul
Heelas explicou que, enquanto a religião pode ser definida segundo a
obediência a um Deus transcendente e a uma tradição, que é a
mediadora de sua autoridade, a espiritualidade se apresenta como a
experiência do divino imanente na vida. Sendo assim, o que aflora
nos territórios, mais do que a tradição religiosa, é a
espiritualidade, referida à experiência pessoal e interior com o
sagrado. Essa articulação mais evidente com a espiritualidade está
presente principalmente entre os movimentos de Nova Era (Heelas,
2001:361), o que pode ser concebido como uma espécie de revolução
espiritual. Segundo o autor, toda a espiritualidade vivida na Nova
Era, que é destradicionalizada, se consolida no interior de cada um,
no que ele chama de “vida verdadeira”. Essa busca de uma
espiritualidade vai, ainda, ao encontro, em parte, do modelo
proposto por Colin Campbell (1997:5-22) em sua teoria da
orientalização do Ocidente. De acordo com ele, o mundo moderno vem
passando por uma transformação revolucionária, despertando uma nova
consciência ética nos indivíduos, mais tolerante com as várias
verdades. A orientalização do Ocidente consiste na importação de
valores e crenças do Oriente, que são incorporadas à rotina
ocidental. Isso inclui não só variedades culturais, mas também
religiosas e filosóficas, transformando hábitos e práticas
quotidianas. Emerge, a partir daí, outra visão de mundo, onde homem
e natureza se harmonizam. Mente e corpo precisam estar em equilíbrio
e o homem deve passar pela experiência do espiritual para alcançar a
paz interior e universal.
Em geral, o termo religiosidade é
utilizado num sentido mais estrito, por vezes vinculado à religião
institucional, aqui no sentido durkheimiano (Durkheim, 1989:77),
enquanto espiritualidade indica mais precisamente uma experiência
individualizada do sagrado, o que pode implicar, conseqüentemente,
numa distinção do problema religioso do espiritual. Convém ressaltar
que, para Durkheim, as crenças religiosas são sempre comuns a uma
determinada coletividade, constituindo uma unidade em comunhão de
idéias. Elas fazem com que os indivíduos sintam-se ligados uns aos
outros pelo que o autor denomina de “fé comum”; mais
especificamente pelo compartilhamento de um mesmo entendimento
acerca do que é sagrado ou profano. Essa coletividade “faz
profissão de aderir e de praticar os ritos ligados a elas”
(Durkheim, 1989:75-6), relação da qual deriva o conceito
durkheimiano de igreja, que parece ser o que mais se aproxima da
noção de religião, entendida aqui como vínculo institucional. A
despeito das distinções elaboradas pelos autores, neste trabalho não
separo religiosidade de espiritualidade, tendo optado pela noção de
religiosidade, inspirada nos discursos dos entrevistados, como
expressão de uma crença num poder transcendental descolado de
instituições religiosas. Sendo assim classifico ateus e agnósticos
como indivíduos de tipo sem religiosidade enquanto os demais, que
expressam algum tipo de relação com Deus ou similar como indivíduos
com religiosidade.
O sentido de ser sem religião no
mundo contemporâneo
Embora ainda sejam poucos os trabalhos
sobre os sem religião (Fonseca, 2000, 1999;
Novaes, 2004, 2006; Fernandes, 2006), de fato, essa percepção
de um grupo diversificado, escondido sob um único indicativo
percentual, já foi sugerida por outros pesquisadores, que também
reconheceram os sem religião igualmente como indivíduos descolados
das instituições religiosas. Em suas avaliações das mudanças
reveladoras do campo religioso brasileiro, por exemplo, as
sociólogas Mariz e Machado (1998:36) já alertavam que aqueles
classificados pelos recenseamentos como sem religião, “não podem
e não devem ser confundidos com ateus ou descrentes da existência de
Deus”. Na mesma direção, em sua interpretação do Censo 2000,
Jacob (2003, p.115) ratificou que “o fato de um indivíduo se
declarar sem religião não significa, ipso facto, que ele seja ateu,
isso porque uma parcela daqueles que se declaram sem religião,
acredita em Deus sem participar, no entanto, das instituições”.
Nesse sentido, se os sem religião podem ser compreendidos, de um
lado, como um agregado de indivíduos aparentemente secularizados, de
outro também podem ser representados por indivíduos aparentemente
dessecularizados nos termos de Berger (2001), sugerindo que, na
contemporaneidade, a evolução de uma categoria que poderia ser
percebida como uma massa de descrentes também congrega indivíduos
que expressam sua religiosidade ou espiritualidade, reinterpretando
os conteúdos religiosos de uma forma muito particular,
desinstitucionalizada.
Nos termos de Berger (1985), a
secularização pode ser percebida como a perda de poder e
plausibilidade da instituição religiosa na sociedade moderna. Esse
processo pode se concretizar tanto no âmbito individual, através da
secularização das consciências, quanto no nível societal,
acarretando o enfraquecimento das instituições religiosas, das quais
o indivíduo se desvincula. É a perda de status da igreja
cristã na história da sociedade ocidental moderna, separada do
Estado. Ou, ainda, um processo socioestrutural onde os conteúdos
religiosos são subtraídos da vida pública, o que também compreende o
terreno das artes, filosofia e literatura, abrindo espaço para o
predomínio da Ciência. Essa desobrigação da religião no espaço
público se reflete no terreno subjetivo, permitindo, por
conseguinte, a secularização das mentalidades. Embora o indivíduo
receba influências de seu meio, a secularização de uma consciência
individual não está diretamente vinculada à vertente societal
(Berger, 2001:10). O
processo de secularização não ocorre da mesma forma e ao mesmo tempo
em todos os lugares e com todos os indivíduos. Ele emerge, ou não,
em certos grupos e lugares, de acordo com cada contexto e suas
influências; e nem atinge a todos, mas a certos indivíduos,
diferentemente. Em uma sociedade, a secularização pode ser
verificada em poucos ou nenhum indivíduo ou, ainda, em um indivíduo,
mas não obrigatoriamente no seu grupo.
Se
inicialmente para Peter Berger e outros autores, a
secularização parecia se apresentar como o futuro implacável da
modernidade ocidental, adiante a observação de fatos históricos
recentes os fez constatar que nem todo conteúdo religioso sumira da
sociedade moderna, dita secularizada. Alguns grupos confessionais se
fortaleciam, o que levou Berger a propor a teoria da
dessecularização, destacando os equívocos na teoria da
secularização. Embora algumas instituições religiosas tenham perdido
o poder e a influência em muitas sociedades, crenças e práticas
religiosas permaneceram na vida das pessoas, o que indica que a
modernidade não traz consigo, compulsoriamente, o declínio das
religiões (Berger, 2001:10-17). Assim, num mundo que aparentemente
caminhava para a secularização, emergiram novas crenças e grandes
explosões de fervor religioso, ao lado de instituições religiosas
que prestam serviço social para ocupar os espaços não preenchidos
pelo Estado. Sobreviveram e floresceram comunidades religiosas que
não tentaram se adaptar às supostas exigências do secular. A partir
dessas constatações o autor conclui que a velha teoria da
secularização não é uma unanimidade num mundo globalizado. Ela vale
em alguns lugares, mas não em outros, funciona com alguns tipos, mas
não com outros. Para ele, salvo exceções, o mundo atual é “massivamente
religioso, não é em absoluto o mundo secularizado que previam tantos
analistas da modernidade” (Berger, 2001:16). Então, o que parece
ocorrer de fato, nesse cenário interligado, onde o local se dilui no
global cheio de incertezas, é uma “mudança no lugar institucional
da religião” e, daí, a interação de forças secularizantes e
contra-secularizantes (Berger, 2001:14).
Nesse contexto, nasce um indivíduo
autônomo, reivindicando um conjunto de liberdades adquiridas ao
longo do tempo, apto para administrar questões de ordem religiosa
como melhor lhe parecer. Percebe-se como senhor de sua vontade,
comprometido prioritariamente com a sua própria consciência,
encarando a religião como uma escolha particular. Portanto, se há
alguns anos, para certos indivíduos poderia mostrar-se
constrangedor, excludente, não integrar a maioria religiosa de seu
país, para outros, posteriormente, esse pertencimento pode ter se
tornado sinônimo de mentalidade atrasada, de baixa intelectualidade.
Hoje, num cenário internacional plural, com os braços alongados pela
globalização, onde é possível o intercâmbio mesmo entre as culturas
mais longínquas, a expressão independente da religiosidade ou da
espiritualidade parece se apresentar como uma opção entre as varias
alternativas disponíveis. O indivíduo permite-se, assim, transitar e
experimentar as práticas do grupo religioso que mais lhe convém ou
identificar-se como um livre pensador. Essa condição atual também
pode ser analisada à luz da teoria de Richard Sennet (1998, p.15-6),
que reflete sobre a onda intimista das sociedades contemporâneas,
onde o indivíduo transfere a vida da esfera pública para a privada.
Segundo o autor, a atualidade é marcada por um processo de erosão da
vida pública, ocasionado, sobretudo, pelo seu deslocamento para a
esfera privada e, desta, para a íntima. A palavra intimidade ganhou
destaque no mundo contemporâneo, onde a pessoa desloca suas
atenções, por exemplo, da família para seu próprio eu,
distanciando-se cada vez mais do que está ao seu redor (Sennett,
1998, p.15-6). Então, ela já não está preocupada com sua
participação na vida em sociedade, mas concentrada em suas próprias
emoções e história e, dessa forma, acaba se refugiando, se isolando,
guiando-se pelo que o autor chama de código narcisista. Afloram
então, um sentimento obsessivo, uma preocupação excessiva com a
projeção do indivíduo, o que tem conseqüências sociais e pessoais
como a limitação da participação na vida pública e a fuga dos
compromissos (Sennett, 1998, p.22), principalmente pelo medo
constante de atrair opiniões e gerar acontecimentos desagradáveis.
Nessa ótica, o processo de desinstitucionalização, aqui evidente na
esfera religiosa, pode ser decorrente, entre outros os motivos, do
deslocamento da vida social para a esfera privada, inibindo
manifestações públicas de emoções, opiniões, de religiosidade.
Trata-se de um processo de retração, que Sennett (1998, p.19)
justifica da seguinte forma: "o mundo dos sentimentos íntimos
perde suas fronteiras; não se acha mais refreado por um mundo
público onde as pessoas fazem um investimento alternativo e
balanceado de si mesmas". Então, o indivíduo se retira das
associações, das instituições, recolhendo-se ao espaço mais íntimo,
longe do grupo, onde ele sente-se à vontade inclusive para travar um
diálogo particular com o divino.
Do conjunto dos 70 entrevistados, 28
ateus e agnósticos não acreditavam em Deus, 4 agnósticos tinham
dúvidas, 33 que se definiam como sem religião com religiosidade
acreditavam numa força suprema qualquer e 5 num Deus pessoal. A
personalização do transcendente estava presente, sobretudo, entre
aqueles nascidos de famílias protestantes das diversas denominações,
que carregavam a noção cristã de Deus, diferente daqueles que
rompiam com essa tendência, desenvolvendo uma imagem do
transcendente vinculada às forças da natureza, traduzida como força
superior, energia ou esmo, força interior. Misia Reesink (2005,
p.12-13), ao estudar a construção da noção de Deus por um grupo
católico, ressaltou que a noção de pessoa de seus informantes era
fundada na noção cristã de Deus. Em sua análise de entrevistas, a
autora localizou imagens fundamentais para a representação de Deus
como as figuras da Trindade e, sobretudo, de Jesus Cristo. Elas eram
associadas numa razão lógica que envolvia sentimentos humanos
sublimes como o amor, o perdão, a justiça e a misericórdia, os quais
também são acompanhados da idéia de salvação, que faz parte da visão
de mundo cristã. Essa noção de pessoa cristã nem sempre está
presente entre os sem religião com religiosidade, que muitas vezes
optam por percepções mais orientalizadas como já sinalizado. Gláucio
Dillon e Paola Ramos (2003, p.35-36) em outro estudo do qual foram
excluídos os sem religião e os sem definição de religião, tentaram
traduzir a relação do ser humano com o divino através da imagem de
Deus em várias religiões. Para eles, as religiões oferecem ao fiel
uma estrutura que o aproxima da figura de Deus, variando de uma para
outra, o que resulta em múltiplas imagens de Deus. No catolicismo,
por exemplo, Deus pode ser representado desde como escudos,
fortalezas e santos até como rei, uma herança judaica que desperta
certa rejeição por consistir num modelo monárquico, oposto a ideais
inclusivos. Essas imagens, de um ser supremo até Jesus Cristo, são
similares no entre os espíritas kardecistas. No protestantismo as
imagens católicas são repudiadas, preferindo os sacramentos, no
modelo tradicional, assim como o falar em línguas, e o batismo pelo
Espírito Santo, no modelo pentecostal. Entre os cultos
afro-brasileiros, na umbanda, uma religião nacional sincrética, Deus
é representado como um criador, capaz de formar e transformar tudo;
enquanto no candomblé, por sua vez, Deus é o orixá, o santo que
estabelece uma relação particular com o indivíduo, seu filho. Entre
os grupos esotéricos, por fim, as formas são as mais variadas, em
geral muito próximas à visão oriental. Para os autores, o esoterismo
pode estar vinculado ao processo de secularização, se apresentando
como uma filosofia ou crenças isoladas, e não como uma religião, o
que se aproxima, nessa ótica, da postura dos indivíduos sem religião
com religiosidade, que muitas vezes são simpatizantes de práticas
como cartomancia, astrologia, meditação, experiências
extracorpóreas, entre outras. Conforme os autores (Dillon & Ramos,
2003, p.47) “quem acredita em Deus necessariamente tem uma
relação com o divino que se concretiza na prática religiosa, ou
religiosidade. Mas a religiosidade não é igual em todos: ela varia
entre pessoas, admite graus.” Ou seja, a imagem de Deus torna a
religiosidade tangível, constituindo-se como uma subjetividade e uma
prática, que só depende de cada indivíduo, variando, assim, de
crenças e atitudes.
Essa prática pode ser percebida através
de indagações sobre experiências místicas ou práticas rituais;
porém, é preciso ressaltar que, no grupo dos 70 entrevistados da
Região Metropolitana do Rio de Janeiro, mesmo alguns ateus e
agnósticos muitas vezes admitiram já terem passado por tais
experiências, não constituindo aqui uma característica exclusiva dos
indivíduos do tipo com religiosidade. Dos 38 que não tinham nenhuma
familiaridade com práticas místicas ou rituais, 14 eram sem religião
com religiosidade, 21 ateus e 3 agnósticos. Entre os 30 que
admitiram ter passado por algum tipo de experiência mística, 22 eram
pessoas sem religião com religiosidade, 5 ateus e 3 agnósticos. Do
total (70) apenas dois não responderam. A partir disso, verifica-se
que o indivíduo, a despeito de suas convicções, pode libertar-se ou
transformar sua relação com o transcendente, que deixa o pedestal
celestial para compartilhar a experiência terrena do indivíduo.
Troca-se a imagem do pai justiceiro por outra, a do companheiro
solidário, com o qual se pode conversar invés de rezar,
estabelecendo uma comunicação mais direta, sem intermediações. Seus
rituais não precisam estar necessariamente atrelados às de
instituições ou grupos locais, podendo realizar-se reservadamente,
numa concepção muito reservada de transcendência, de acordo com a
formação, o tempo e a disposição de cada um. O deslocamento da
religião na sociedade contemporânea parece, assim, correlacionado ao
desencaixe dos sistemas tradicionais, nos termos de Anthony Giddens
(1991, p.58), ampliando as possibilidades de mudança ao soltar as
amarras dos hábitos e das práticas locais. Nessa mudança está
inserida a relação do indivíduo com o transcendente, a percepção de
sua imagem e práticas. Conforme Giddens, a vida contemporânea está
repleta de descontinuidades, de mudanças, porque a alta modernidade,
como ele define a contemporaneidade, é extremamente mutável. É nessa
conjuntura que florescem os indivíduos sem religião, livres
pensadores, sem igreja, misturados com ateus e agnósticos com os
quais só tem em comum a falta de pertencimento.
Bibliografia
AHMADI, Fereshteh.
(2006) Culture, Religion and Spirituality in Coping: the example of
cancer patients in Sweden.
Stockholm: Uppsala University Library.
BERGER, Peter. (1985) O Dossel Sagrado. São Paulo: Paulus.
BERGER, Peter. (2001). “A dessecularização do mundo; uma visão
global”. In: Religião & Sociedade, Rio de Janeiro: Iser, v.21 (1):
9-24.
CAMPBELL, Colin. (1997) “A orientalização do ocidente; reflexões
sobre uma nova teodicéia para um novo milênio”. In: Religião &
Sociedade, Rio de Janeiro: Iser, v.18(1) 5-22.
DILLON, Gláucio A. & RAMOS, Paola N. (2003) “A imagem de Deus e suas
correlatas”. In: Religião & Sociedade, Rio de Janeiro: Iser, v.23(1)
35-59.
DURKHEIM, Émile. (1989) As formas elementares da vida religiosa. São
Paulo, Paulus.
FERNANDES,
S.
A.
(2008)
Mudanças de religião no Brasil: desvendando sentidos e motivações,
São Paulo: Palavra & Prece.
FONSECA, A. B. C. (2000) “Nova Era evangélica, confissão positiva e
o crescimento dos sem- religião”, Juiz de Fora: Numen, vol.3, n.2,
pp.63-89.
FONSECA, A. B. C..
(1999) “O Jardim Mágico Brasileiro: comentários sobre o crescimento
dos sem religião a partir do texto A Religião da China, de Max
Weber”, in: XXIII Encontro Anual da ANPOCS, G.T. Religião e
Sociedade, Londrina.
GIDDENS, Anthony. (1991)
As Conseqüências da Modernidade. São Paulo: Editora Unesp.
HEELAS, Paul.
(2001) “The spiritual revolution: from religion to spirituality”.
In: WOODHEAD, Linda et al.. Religions in the Modern World:
traditions and transformations.
London & New York: Routledge,
pp.367-376.
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística. SIDRA 2000. Disponível em: <http://www.sidra.ibge.gov.brso>.
Acesso em: 99 jan. 2009.
JACOB, César Romero et al. (2003) Atlas da Filiação religiosa e
indicadores sociais no Brasil. Rio de Janeiro, Ed. PUC-Rio; São
Paulo: Loyola.
MARIZ, Cecília & MACHADO, Maria das Dores
C.(1998) “Mudanças recentes no campo religioso brasileiro”. In:
Antropolítica, Niterói,
n. 5 (2º semestre), pp. 21-43.
NOVAES, R.
(2004)
“Os jovens e a religião: ventos secularizantes, “espírito de época”
e novos sincretismos”, Estudos Avançados, São Paulo, n.52
(Set/Dez), pp.321-329.
NOVAES, R.
(2006) “Sinais dos tempos nas
religiões e nas Ciências Sociais” In.: FALCÃO, E. B. M. (org.) Fazer
Ciência, Pensar a Cultura: estudos sobre as relações entre Ciência e
religião, Rio de Janeiro, UFRJ/Centro de Ciências da Saúde,
pp.81-95.
REESINK, Misia Lins. (2005) “A Antropologia, os católicos e a noção
de Deus”. In: Religião & Sociedade, Rio de Janeiro: Iser, v.25 (1)
1-200.
SENNETT, Richard. (1988) O
Declínio do Homem Público. São
Paulo: Cia. Das Letras.
SIMMEL, G. (1935) El
problema de la situacion religiosa: la personalidad de Dios,
Santiago do Chile: Cultura.
|
|
versão para imprimir (arquivo em pdf)
LEIA +
Irmão vota em Irmão!
|