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HENRIQUE RATTNER
Professor na Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade da USP (FEA/USP); e na pós-graduação no
Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Fundador do Programa
LEAD Brasil e da
ABDL - Associação
Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças

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Resenha
SILVA, Antonio Ozaí
da. Maurício Tragtenberg : Militância e Pedagogia Libertária.
Ijuí: Editora Unijuí, 2008, 344 p.
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Educação para a liberdade
Henrique Rattner
O resgate do legado
teórico e da prática pedagógica de Maurício Tragtenberg representa
não somente um trabalho acadêmico de primeira qualidade, mas é
também um serviço inestimável de difusão dos conhecimentos e da
prática libertária no meio universitário brasileiro. O livro de
Antônio Ozaí, mais do que a mera biografia de Tragtenberg, é uma
contribuição ao pensamento político brasileiro no século XX, que
teve em Maurício um de seus representantes mais crítico e original.
Ao analisar a história política moderna, Tragtenberg aponta para as
raízes do autoritarismo nas diferentes doutrinas elaboradas pelos
intelectuais dos movimentos operários e discute com grande lucidez
as contribuições, entre outras, de Marx, Lenin e Trotski e comenta a
polêmica histórica entre Marx e Bakunin que dividiu os membros da
Primeira Internacional socialista até sua dissolução. Após ressaltar
as contribuições de Bakunin e Kropotkin ao pensamento libertário que
serviu de fundamento teórico do anarquismo político, contra o poder
discricionário do Estado e das oligarquias, que influenciou
profundamente os movimentos operários na Espanha, Itália, França e
na América Latina, nos últimos dois séculos.
O primeiro capítulo, que
relata a trajetória de vida de Tragtenberg, desde sua infância, como
filho de imigrantes vindos da Europa Oriental, nos remete a toda
complexidade e os desafios de construção de uma nova identidade
sócio-cultural, com o aprendizado do idioma, das tradições e dos
valores da sociedade adotiva. Sem ter concluído o ensino fundamental
completo, Maurício enfrentou os percalços de um autodidata, até
ingressar na Universidade de São Paulo, trilhando caminhos não
convencionais.
A leitura do livro de
Antônio Ozaí da Silva sobre a vida e obra de Maurício Tragtenberh,
pensador, autor, crítico e militante em prol de uma pedagogia e
práticas libertárias, evocou uma série de reflexões sobre
afinidades, tanto existenciais quanto intelectuais que
caracterizaram nosso relacionamento ao longo de mais de quatro
décadas. Tal como Maurício, também eu fui imigrante, filho de judeus
que foram obrigados a fugir do Velho Mundo e a reconstruir a rede de
laços sociais e culturais na sociedade brasileira. Se Maurício
passou seus primeiros anos de vida no meio rural do Rio Grande do
Sul, meu caminho me levou de Viena, antiga capital do império
austro-húngaro, via estadias mais ou menos prolongadas em Bruxelas,
Bélgica, para aportar em 1951, em São Paulo. Poucos anos depois,
nossos caminhos cruzaram quando, com o apoio de Florestan Fernandes,
conseguimos prestar exame vestibular para ingressar a USP, mediante
a submissão de uma monografia que nos dispensou do certificado de
conclusão do curso colegial. Na época, este foi um procedimento
inédito bastante comentado nos círculos da faculdade.
Anos mais tarde, nos
reencontramos na Escola de Administração de Empresas da Fundação
Getúlio Vargas, onde lecionamos no departamento de ciências sociais,
Maurício na área de política e eu, em sociologia e metodologia
científica. A proximidade física – sua sala ficou ao lado de minha –
proporcionou inúmeras oportunidades de troca de idéias e informações
sobre a situação no Brasil e as questões da dinâmica social e
política em nível internacional. Tal como Maurício, também eu tinha
tido contacto com o Trotskismo e frequentava algumas vezes o grupo
de Castoriadis, na época escrevendo sob o pseudônimo Pierre Chaulieu,
que editou a revista “Socialismo ou Barbárie”, em Paris.
Ambos, endossamos as
críticas ao regime de terror implantado por Stalin na então URSS –
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – e juntos, com um
“background” de leituras marxistas semelhantes, procuramos respostas
às perguntas “aonde vamos” e quais seriam os caminhos dos movimentos
operários, para superar a barbárie do regime capitalista e quais
seriam os principais atores dessa mudança social e política.
Em 1974, organizei e
coordenei um seminário internacional na EAESP/FGV, com o título “A
crise da ordem mundial”, em consequência dos dois choques de
petróleo, no ano anterior. O seminário foi realizado, apesar das
ameaças veladas do então diretor do DOPS e dos coronéis do DOI-CODI
e apresentou análises e diagnósticos valiosos sobre a conjuntura
internacional. Tinha convidado Maurício para debatedor da palestra
de Zbgniew Brzezinski, posteriormente nomeado assessor para a
segurança nacional do presidente James Carter. A contribuição de
Maurício ao debate foi brilhante e consta do livro com o mesmo
título de seminário, publicado pela editora Símbolo, de São Paulo.
Voltando à obra de
Antônio Ozaí, devemos destacar a qualidade do pesquisador que brinda
o leitor com uma vasta lista de referências bibliográficas que cobre
as contribuições mais significativas ao pensamento pedagógico e
libertário. Completa o livro a relação de dissertações de mestrado e
teses de doutorado (ao todo 51), elaboradas sob orientação de
Maurício Tragtenberg que ilustram a abrangência dos temas quanto a
riqueza e profundidade de seus ensinamentos. Suas críticas são
dirigidas a toda e qualquer forma de autoritarismo e servem de
exemplos para a prática pedagógica libertária que se revelam não
somente nas palavras do professor, mas sobretudo em suas atitudes de
compromisso com a liberdade. Ao criticar as estruturas burocráticas
da universidade, as formas autoritárias do ensino que impedem a
expressão do livre pensamento, nas empresas e nas relações pessoais,
na família e na sociedade.
O resgate do legado
teórico e da prática pedagógica de Maurício Tragtenberg, produto de
anos de pesquisa de Antônio Ozaí da Silva, constitui não somente um
trabalho acadêmico de primeira qualidade, mas representa também um
serviço inestimável à difusão de conhecimentos teóricos e práticos
libertários à serviço da sociedade brasileira. |
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