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HENRIQUE RATTNER
Professor na Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade da USP (FEA/USP); e na pós-graduação no
Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Fundador do Programa
LEAD Brasil e da
ABDL - Associação
Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças

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Paz no Iraque?
Henrique Rattner
FEA/USP
Barack
Obama, presidente eleito mas ainda não empossado dos Estados Unidos,
parece ter marcado o primeiro tento de suas promessas feitas durante
a campanha política pré eleitoral. Contrariamente ao seu opositor, o
senador John Mc Cain que se posicionou a favor da presença de tropas
americanas no Iraque – “se for preciso, 100 anos” – até a “vitoria”,
Obama prometeu a retirada das forças americanas no prazo de 18
meses, a partir de sua posse..
O
conflito foi iniciado em 2003, com a invasão do Iraque, seguida pela
captura e execução de Saddam Hussein, acusado de ser detento de
armas de destruição de massa – químicas, biológicas e nucleares.
Essa acusação foi posteriormente invalidada pela confissão do
próprio presidente Bush que teria tomado sua decisão com base em
informações “erradas” da CIA. (Causa espanto a leviandade e
irresponsabilidade do primeiro mandatário da maior potência mundial,
passando por cima da assessoria de seu gabinete, do Congresso e do
Conselho de Segurança das Nações Unidas). A invasão teve
consequências trágicas para a população civil iraquiana –
estimativas variam de 90.000 a 150.000 mortos e incontáveis feridos
e para as tropas norte americanas que perderam milhares de homens.
A
estratégia de Bush de se lançar numa guerra total contra o
“terrorismo” fracassou, não somente pela invasão desastrosa do
Afeganistão e do Iraque, mas pela clara derrota de seu objetivo
principal de “democratizar” os países árabes por meios violentos.
Entre outros efeitos adversos, a invasão americana do Iraque ajudou
à Al Qaeda no recrutamento de milhares de “jihadistas” no mundo
islâmico.
Enquanto Mc Cain e Obama expuseram suas opiniões radicalmente
opostas sobre o futuro da ocupação militar do país, os iraquianos
decidiram tomar a iniciativa para decidir sua própria sorte,
particularmente quanto à data de saída das tropas norte americanas.
O
documento elaborado pelo governo e ainda em discussão, estipula que
as tropas americanas devem retirar se de suas bases até meados de
2009 e deixar o país completamente, no fim do mesmo ano.
O
documento deixa claro que o Iraque não será uma base militar
permanente, mesmo na fase de transição e não permitirá o uso de seu
território para ataques a países vizinhos. O acordo que deve ser
aprovado ainda pelo parlamento e, possivelmente, por um referendo
popular, pode ser considerado como uma vitoria do governo iraquiano, seguindo em suas linhas
a proposta traçada no relatório Baker, de 2006, na época prontamente
rejeitada por Bush. Para os partidários de Bush, a retirada não pode
ser considerada uma vitoria – simplesmente, não existe outra
alternativa. A retirada não garante a democratização do Iraque que
corre o risco de resvalar para uma fase caos ou escolher um novo
ditador ou, ainda, cair sob o controle da teocracia iraniana.
O
Iraque permanecerá violento e fraccionado e suas instituições
políticas continuarão debilitadas por muito tempo, abrindo espaço
para a luta pela hegemonia entre sunitas, xiitas e curdos.
Contextualizando historicamente o conflito, em 1980 Saddam Hussein
lançou se numa guerra contra o Irã que durou oito anos e ceifou a
vida de um milhão e meio de soldados. Durante o conflito, Saddam fez
uso de armas químicas, fornecidas pelas potências ocidentais. Dois
anos depois de terminar o conflito com o Irã por imposição de um
cessar fogo pelas Nações Unidas, o ímpeto bélico de Saddam Hussein o
levou a invadir o Kwait, país também rico em petróleo. Na reação
militar, os Estados Unidos expulsaram as tropas do Iraque e
avançaram até as portas de Bagdá. Mas, em vez de derrubar o ditador,
o presidente Bush (pai) preferiu o manter no poder, como barreira à
expansão do Irã dos aiatolás.
Em
2003, alegando a ameaça terrorista equipada com armas de destruição
em massa e uma suposta conexão, nunca comprovada, de Saddam Hussein
com a Al Qaeda de Osama bin Laden, os Estados Unidos e a Grã
Bretanha, passando por cima de uma resolução do Conselho de
Segurança das Nações Unidas, invadiram outra vez o Iraque,
destroçando o exército iraquiano e danificando seriamente a
infraestrutura do país.
A
falta de um planejamento estratégico e a total ignorância da
cultura, da estrutura social e das tradições islâmicas, levou os
americanos a desmantelar as forças armadas iraquianas, entregando o
país ao caos, enquanto centenas de milhares de ex-soldados se
juntaram às fileiras dos “insurgentes”.
O
país passou por um longo período de caos e de destruição, agravado
pelo conflito entre os seguidores das três principais etnias –
xiitas, sunitas e curdos, enquanto as forças de ocupação continuavam
a arrasar a infraestrutura, destruindo os sistemas de energia,
transporte, água, comunicações, escolas e hospitais, em sua campanha
de repressão aos “terroristas”. Além de mortos e feridos nos ataques
aéreos, é impossível compilar o número de centenas de milhares de
refugiados forçados a abandonar seus lares.
Em
2008, o número de soldados norte americanos mortos passou de 4200 e
o número de feridos, mutilados e psiquicamente abalados alcançou
dezenas de milhares. A campanha militar custou ao Tesouro norte
americano mais de um trilhão de US dólares, parte dos quais,
ironicamente, foram parar nas grandes empreiteiras sob forma de
polpudos contratos de “reconstrução” da terra arrasada.
O
Iraque nunca constituiu uma nação unificada por uma identidade
étnica, cultural, religiosa ou política e continua dividido, entre
os sunitas, uma minoria que deteve o poder no tempo de Saddam
Hussein; e os curdos e os xiitas que constituem a maioria da
população. Essa divisão dificulta os trabalhos do parlamento
presidido pelo curdo Jalal Talabani, enquanto o governo é dirigido
pelo xiita Nuri al Maliki.
Os
sunitas perderam sua supremacia que detinham nos órgãos do governo,
nas forças armadas, no aparelho se segurança do estado e na
administração pública e receiam a perda de uma parte das receitas de
petróleo, cujos maiores campos de exploração se situam em território
dos curdos.
Os
xiitas, historicamente perseguidos e massacrados pelos sunitas,
resistem a um acordo tripartite que concede direitos iguais a outros
grupos étnicos. Eles mantém uma milícia fortemente armada sob o
comando de um clérigo radical, Muqtadar al Sadr que já manifestou
seu desacordo com o plano de retirada das tropas americanas até
2011, exigindo sua retirada imediata do país. Muqtadar al Sadr
promete lutar no parlamento onde comanda uma bancada de 34
deputados, pela retirada imediata dos 150.000 soldados norte
americanos e britânicos, convocando a população das maiores cidades,
Bagdá e Basra, a realizar protestos nas ruas com a palavra de ordem
“não ao acordo”.
O
governo do xiita, Nuri al Maliki, defende a adoção do acordo com o
apoio de 149 votos contra 35, no parlamento. Mas, o texto do acordo
só terá valor quando for aprovado por um referendo popular a ser
realizado em julho de 2009, condição imposta pelos parlamentares
sunitas para garantir o endosso pelo voto popular.
Negociado durante o último ano (2008), o acordo estabelece, além da
retirada das tropas estrangeiras até o fim de julho de 2011,
restrições a sua atuação, proibindo a realização de prisões sem
mandato judicial e submetendo às leis locais, em casos de crimes
cometidos fora dos serviços e das bases militares americanas.
Durante as discussões do acordo nos últimos meses de 2008, as
negociações foram ameaçadas várias vezes de rompimento.
O
documento de 18 páginas composto por 30 artigos estabelece uma série
de condições para permitir a permanência das tropas americanas em
solo iraquiano, a partir de janeiro de 2009. Fixa a data de
30/12/2011 como limite para a saída definitiva do contingente
militar que hoje abrange 150.000 soldados e obriga as tropas a
retirar se das cidades e vilarejos até 30/6/2009, transferindo a
responsabilidade pela manutenção da ordem e de segurança para as
forças iraquianas. Operações de busca e detenção em residências só
poderão ser realizadas mediante autorização expressa do governo
iraquiano. As forças armadas americanas ficam proibidas de utilizar
territórios iraquianos para atacar países vizinhos como foi o
recente ataque em território sírio, motivado por uma suspeita
construção de uma usina nuclear.
Embora não perfeito, nas palavras de Nuri al Maliki, o acordo marca
um “começo sólido” para a reconquista da soberania iraquiana, no
prazo de dois anos. O acordo político foi alcançado após longas e
duras negociações, com concessões à minoria sunita, relegada a uma
posição inferior após a queda de Saddam Hussein. Seu destino
dependerá do referendo a ser realizado em julho próximo e, no caso
de uma rejeição popular, se abrirá um novo período de negociações,
com duração indeterminada. O aiatolá xiita, Ali al Sistani,
autoridade religiosa máxima no Iraque, tem assinalado sua aprovação
tácita ao acordo, ficando a oposição sob o comando de Muqtadar al
Sadr que exige a retirada imediata.
Embora a situação de segurança interna tenha melhorado, Bagdá ainda
é considerada a cidade mais violenta do mundo. No último dia 1/12,
houve um atentado com carro – bomba, explodido no centro da capital
e que deixou 15 mortos e 45 feridos. Também, em Mossul no norte do
país acerca de 400 km da capital, um carro bomba matou 15 pessoas e
deixou 30 feridos, no mesmo dia. As autoridades atribuem esses
ataques a grupos que se opõem às eleições previstas para o ano que
vem e suspeitam que tenham como objetivo principal o reinício dos
conflitos entre os xiitas e os antigos seguidores de Saddam Hussein.
Entre outros lugares perigosos, além dos já mencionados, encontra se
Nínive onde predomina uma ampla minoria de 500.000 cristãos,
divididos entre várias seitas , algumas das quais falam ainda o
aramaico, a linguagem bíblica da época de Cristo. Outra minoria, no
norte do país, é constituída pelos Yazidis, acusados de adorarem o
diabo. Ademais, existem dezenas de milhares de Shabaks que se
consideram descendentes dos persas, seguindo vários tipos de
religião, inclusive o Islam. Finalmente, há um grupo de Turkmenos,
sobreviventes da época em que toda a região foi dominada pelos
turcos otomanos, até 1918.
Na
expectativa das próximas eleições, surgem tensões crescentes entre
essas minorias, preocupados com seu futuro, enquanto o primeiro
ministro, Ali al Maliki, procura arregimentar o apoio de políticos,
militares e chefes tribais, para ampliar a base de seu partido no
parlamento. Mais de 400 partidos registraram se e seus
representantes serão eleitos com base em listas proporcionais, numa
eleição com 14.000 candidatos e 36 coalizões diferentes.
A
principal mudança esperada é uma representação sunita muito mais
ampla, para recuperar parte das posições detidas no regime de Saddam
Hussein.
Contudo, há divergências entre os políticos e lideres tribais que
tomaram parte na luta contra Al Qaeda. Mesmo entre os xiitas, a luta
pela hegemonia é acirrada, emergindo Nuri al Maliki como “homem
forte”, após comandar o enfrentamento do exército iraquiano com as
tropas ligadas a Muqtadar al Sadr, nas áreas de Bagdá e Basra. As
forças armadas iraquianas e a polícia têm melhorado seu desempenho,
contando atualmente com um contingente de aproximadamente 500.000
homens, afora os 100.000 “filhos do Iraque”, uma milícia formada
pelos conselhos tribais sunitas.
Apesar de ataques horrorosos em algumas partes do país, os casos de
mortes violentos têm diminuído, segundo estimativas, de 20.000 a 500
por mês, nos últimos dois anos. Também, as perdas americanas em
homens diminuíram de 118 em maio de 2007 para 14 em novembro
passado, elevando o número total de vítimas fatais a 4200 soldados,
os quais, somados aos feridos, mutilados e psiquicamente perturbados
permanecerão como um legado da malfadada aventura do presidente mais
irresponsável e incompetente da história americana.
A
administração de George W. Bush não parece feliz com o acordo que
não prevê uma data de revisão para a retirada e nem cláusulas que
estipulem condições para a permanência de contingentes americanos,
para treinar as tropas iraquianas. Segundo uma alta patente militar
norte americana, somente a retirada do material e de equipamentos
bélicos dificilmente poderá ser efetuada antes de 2-3 anos, em
condições de segurança.
Permanece, também, o problema complexo da retirada de alguns milhares de
“mercenários”, veteranos de guerras civis na África e que gozam de
um “status” especial no Iraque. Além de um soldo bem mais elevado,
eles estão forra da jurisdição militar norte americana e atuam como
forças de “segurança” de políticos, militares, executivos e
jornalistas, tendo cometido inúmeras atrocidades contra a população
civil, tais como assassinatos, assaltos e estupros, tudo
impunemente.
O
acordo facilitará a posição de Obama, enquanto persistam dúvidas
quanto a sua aprovação no Congresso. Mas, a promessa feita durante a
campanha eleitoral de efetuar a retirada durante os próximos
dezesseis meses dificilmente será exeqüível e cumprida. Entretanto,
quando os americanos terão deixado os iraquianos – curdos, xiitas e
sunitas – a tarefa de reconstrução de seu país e, assim, de definir
seu destino estará em suas próprias mãos.
Este texto foi elaborado
em 3 de dezembro
de 2008. Foi mantida a redação original.
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