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Contribuição à história do marxismo no Brasil (1987-1994)
Força Socialista (FS) e Brasil
Socialista (BS)
“Há muito
tempo, junto com milhares de companheiros, lutamos e construímos
o Partido dos Trabalhadores. Vários de nossos integrantes podem
se orgulhar de serem fundadores do PT. Nossa luta é antiga e
remonta aos tempos de resistência clandestina à ditadura
militar”. [1]
Assim anunciava o manifesto de
lançamento da tendência FS. Como as palavras do manifesto
indicam, a FS tem uma longa história. Sua trajetória é
semelhante à maioria das organizações marxistas que sobreviveram aos
anos de chumbo da ditadura militar. Em 1985, remanescentes de
organizações comunistas do período ditatorial formalizaram o
processo de unificação em andamento e fundaram o Movimento
Comunista Revolucionário (MCR). [2]
A FS incorpora este legado. [3]
Apegado à tradição leninista, o MCR
manteve uma posição ambígua em relação ao PT. Ao mesmo tempo em que
recusa-se a aceitá-lo enquanto partido revolucionário, reconhece que
ele “cumpre um papel estratégico na Revolução brasileira, como forma
indireta e não orgânica contribui na formação do Partido do
Proletariado”. [4]
Paulatinamente, o MCR evoluiu no sentido de uma maior
valorização do papel estratégico do PT.
Por outro lado, o MCR passou a defender
o governo democrático popular enquanto uma estratégica que
incorpora a experiência da luta democrática e popular e enfatiza o
aspecto eleitoral, capaz de mudar a correlação de forças a favor dos
trabalhadores e favoreça o avanço da luta de classes na perspectiva
dos trabalhadores. [5]
A evolução das
posições do MCR em relação ao PT e as semelhanças no plano
tático e estratégico em relação à ART, resultou numa atuação
comum. Em São Paulo, o MCR formalizou esta aliança e, no
plano nacional, manteve uma orientação política de proximidade. Esta
relação se aprofundou a partir das resoluções do 5º EN. A ART
passou a ser concebida por setores do MCR como um campo
privilegiado para disputar a influência sobre a base social
potencialmente revolucionária.
Então, o MCR
passou a discutir a possibilidade de se constituir enquanto
Tendência petista. Nesse debate tomou corpo a proposta de dissolver
a organização. Mas prevalecia uma tensão em relação à ART e à
proposta de dissolução que se expressava na defesa do direito de
organização de Tendências internas ao PT; na defesa de uma
regulamentação que viabilizasse seu funcionamento; e,
conseqüentemente, em sua própria organização como tendência.
Na discussão interna
chegou-se a um acordo: organizar o processo de dissolução – o que
para a maioria significava, encaminhar as tarefas de sua
transformação em Tendência. Os fatos se precipitaram e a organização
terminou por se dissolver. Porém, uma parcela importante manteve o
projeto de construção da Tendência e, em junho de 1989, durante o 6º
EN do PT, lançou a Tendência FS. Neste processo alguns dos
seus militantes, principalmente em São Paulo, entraram na ART.
A constituição da
FS sintetiza o processo evolutivo – que não foi tranqüilo ou
linear – em direção à integração ao PT. A FS procura operar a
transição entre sua forma organizativa leninista, uma situação de
pré-partido – herança do MCR – para uma organização com caráter de
tendência do PT. Tratava-se de moldar e consolidar uma cultura
política diferente daquela que sedimentara sua militância desde a
fase da clandestinidade, de disputar os rumos do PT, incorporando
suas tensões.
Não foi uma operação fácil. No momento
da sua formação, a FS identificou a particularidade do PT no
fato dele surgir e se fortalecer “não como partido do proletariado,
mas do bloco estratégico e popular”. [6]
Este fator determinaria seu caráter de massas (amplo e policlassista),
seu potencial socialista e revolucionário. O esforço dos comunistas
seria o de contribuir para que o PT desenvolva essas potencialidades
e seja capaz de liderar o processo revolucionário. Sua transformação
em vanguarda revolucionária passa pela construção de uma teoria da
revolução, pela assimilação do marxismo e pela construção de uma
direção política igualmente revolucionária. Os comunistas, portanto,
tem um papel a desempenhar.[7]
No tocante à formulação estratégica, a
FS situa-se entre os que defendem o programa democrático e
popular, compreendido como próprio de um “governo tipicamente de
transição”. [8]
Um governo capaz de implementar reformas estruturais na sociedade
brasileira e de executar as tarefas de caráter antiimperialista,
antilatifundiárias e antimonopolistas. É, portanto, um governo
inserido numa perspectiva de ruptura revolucionária.
Nesta linha, a FS
se diferencia tanto dos que restringem o Governo Democrático e
Popular (GDP) aos marcos da ordem burguesa, quanto dos que
depreciam suas potencialidades. O GDP não é um mero programa
eleitoral para disputar o governo federal. Como também, a disputa
deste não se confunde com a disputa do poder em sua totalidade.
Enquanto programa de transição não é,
stricto sensu, socialista. Também não se confunde com uma etapa
democrática popular. O programa democrático e popular – e o
GDP – é um concebido como parte da luta pelo poder. Pelo caráter das
reformas que pretende efetivar, dentro das condições históricas do
Brasil, ele é profundamente radical. Na formulação da FS, o
GDP está articulado com o caráter socialista da revolução
brasileira.[9] Nas questões
conjunturais, as posições da FS coincidem, em geral, com
aquelas adotadas pela esquerda petista – particularmente, o NLPT.
A Tendência Brasil Socialista (BS)
Outra
força componente do Movimento Na Luta PT!, a Tendência
BS foi formada na passagem dos anos 80 para os anos 90, como
parte do processo geral desencadeado pelo 5º EN Nacional do
PT e no redemoinho das mudanças no mundo socialista. Suas origens
remontam ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR)
[10]
que, em 1986, ressurgiu nas páginas da grande imprensa após o
assalto ao Posto do Banco do Brasil na Universidade federal da
Bahia, em Salvador. Entre os seus líderes estariam: Bruno Maranhão e
Antônio Prestes de Paula.[11]
De
acordo com as informações da imprensa, o PCBR estaria
implantado em Pernambuco, Santa Catarina, Londrina (PR), Salvador
(BA) e com presença em São Paulo. Bruno Maranhão negou que o PCBR
tivesse sido reorganizado. “Essa é a versão da polícia e não
acredito nela”, disse. [12]
De
qualquer forma, há uma linha de continuidade entre o PCBR dos
anos 70 e a tendência BS. Este fio condutor é expressado pela
militância de Bruno Maranhão e outros dirigentes e militantes
vinculados a um período onde prevalecia a clandestinidade. Este
núcleo mantém a matriz teórica original, que orienta sua atuação no
PT. Ao mesmo tempo, rompe com elementos daquela fonte, procurando
adequar-se às exigências da militância legal no PT. Neste esforço,
incorporou militantes sem vínculos com o passado do PCBR.
A
BS se forma no bojo de uma situação comum aos diversos
agrupamentos e coletivos do PT: a necessidade de se estruturar
organicamente para potencializar a intervenção nas disputas
internas. No caso da BS, esta iniciativa corresponde à busca
de novas formulações teóricas que possibilitassem a superação da
herança vanguardista da esquerda armada brasileira. Isto significou,
entre outros pontos, rediscutir o papel do partido e sua relação com
a sociedade.
Um dos
elementos constitutivos deste processo foi a análise crítica do
partido leninista, particularmente da leitura – “com os óculos de
Stalin (mesmo que se afirme anti-stalinista)” – dos que colocam o
partido como “único e exclusivo instrumento da classe”. Essa
concepção prejudica a superação das contradições na relação
“partido, base, massa”. Ou seja, coloca-se em xeque a própria noção
de que o socialismo será obra dos trabalhadores.[13]
Como a
esquerda resolve essa questão? Em geral, suprimindo a classe e
colocando em seu lugar o partido de vanguarda. Nessa hipótese, a
relação do partido com as organizações dos trabalhadores adquire um
caráter meramente tático. O basismo e o autonomismo
seriam outra resposta no pólo extremo. Essas concepções excluem o
partido, negam a necessidade da vanguarda, representam “ilusões de
classe”, como se a institucionalidade fosse plena e não estivesse
sujeita a retrocessos. [14]
Como
superar esta polaridade? Por um lado, “reafirmando a necessidade de
uma vanguarda, de um instrumento político da classe”; por outro,
“reafirmando a necessidade das organizações das organizações
independentes e autônomas dos trabalhadores”, enquanto “instrumentos
estratégicos da luta pelo socialismo”. Estas organizações seriam as
Organizações Independentes e Autônomas dos Trabalhadores (OIATs).[15]
As
OIATs são concebidas não apenas enquanto instrumentos
reivindicativos, mas também como escolas de formação política e
sindical e conscientização, como espaços onde se constrói novas
formas de poder que possibilitam a construção de uma nova hegemonia.
Os
formuladores desta tese afirmam que Lênin, ao enfatizar a primazia
do partido, deixou margens às interpretações do tipo “estado maior
da revolução”, e às deformações efetivadas pelo stalinismo – mas
também pelo trotskismo. “A concepção de partido, constituído e
armado para o assalto do poder burguês, conduz à identidade
Partido-Estado, e sua localização distante das classes e
independentes de seu controle, é a base de todos os desvios
autoritários e burocráticos”, afirmam. [16]
Eis um
dos problemas evidenciados pela experiência do socialismo real
e que explicam a sua falência. Analisando a crise no Leste Europeu,
os editores da Brasil Revolucionário,
observam este elemento:
“A
conjugação de uma revolução que se “fez” socialista por uma elite
marxista-leninista, e não por uma hegemonia de classes previamente
construída, somado às concepções autoritárias e exclusivistas das
vanguardas revolucionárias, promovem a crise de hegemonia
(consenso). Eis aqui possivelmente, o núcleo da crise do socialismo
real”.[17]
Continuando a avaliação, eles mostram como o partido se transformou
na “síntese da sociedade civil”. Este, ao suprimir as manifestações
individuais e coletivas, anulou as possibilidades de rupturas com os
valores culturais e idéias da velha sociedade e impediu o
desenvolvimento de “uma nova mentalidade e relações sociais
assentadas na democracia operária” [18]
A
morte de Lênin e a derrota da oposição operária completariam o
quadro que permitiria a stalinização definitiva e a consolidação do
processo de burocratização. “O Estado se transforma no portador da
utopia revolucionária, absorve as organizações representativas das
classes trabalhadoras e possui o comando estrito de toda a
economia”, escrevem. [19]
Estas
características determinam um tipo de sociedade que não é
capitalista nem socialista. Para o núcleo fundador da BS, as
sociedades no Leste Europeu podem ser caracterizadas como “pós
revolucionárias de estatismo burocrático”; são sociedades “em
transição ao socialismo”. O que caracteriza este aspecto transitório
é a “deposição das antigas classes dominantes do poder” e as
transformações na economia marcada pela “nacionalização”.[20]
(grifos do original)
A
queda dos regimes no Leste Européia foi saudada como um avanço da
luta dos trabalhadores. Representou o “início de uma nova era, de
fortalecimento do internacionalismo proletário e da afirmação da
verdadeira democracia operária diante da velha democracia burguesa”,
diria Maranhão.[21]
Esta
avaliação positiva se estendeu à política de Gorbatchev, a qual
“mesmo representando um processo de
democratização lento e gradual, de corte cupulista, comandado pelo
setor mais moderno da burocracia, abriu um espaço e liberou as
forças do movimento de massa”. [22]
A
fundamentação teórica da BS – presente inclusive em sua
análise sobre o Leste Europeu – tem um forte componente gramsciniano
(hegemonia, contra-hegemonia, guerra de posição, guerra de movimento
etc.).[23]
Uma das críticas ao pensamento predominante na conjuntura pós-queda
do muro de Berlim será justamente ao fato dos defensores da
estratégia institucionalista fazerem uma leitura de direita da obra
de Antônio Gramsci.
Nessa
leitura, a guerra de posição se reduz à ampliação dos espaços dentro
da institucionalidade burguesa. A acumulação de forças, isto é, a
construção da contra-hegemonia operária é reduzida ao economicismo
combinado com o eleitoralismo e o rebaixamento do programa do
partido. Esta concepção é incapaz de promover a acumulação política
numa perspectiva revolucionária. A intervenção da BS no PT se
pautará pelo restabelecimento de uma política que utilize a luta
institucional como “uma linha auxiliar da estratégia de classe”.[24]
Foi
assim em 1989, quando – ainda não se chamava BS – defendeu
que a campanha eleitoral de Lula se combinasse com as lutas dos
trabalhadores, dentro do “espírito que deu origem ao PT e o
consolidou como referência política”. Esta postura era acompanhada
de uma análise conjuntural que concluía pela existência de uma crise
política profunda e de longa duração (que exigiria mudanças
estruturais) e previa um período de intensificação da luta de
classes.[25]
Como
outras Tendências da esquerda petista, fez uma distinção entre
governo e poder. A conquista da presidência não representa a
instauração do socialismo. Sem dúvida, seria um passo importante,
pois poderia contribuir com a luta dos trabalhadores pelo
socialismo. O programa deste governo deveria ter um caráter
anti-capitalista, mas não diretamente socialista.[26]
A
expressão política do núcleo dirigente que impulsionou a construção
da BS se restringia a algumas regiões, particularmente no
nordeste. A Tendência, reconhecida oficialmente pelo PT em 1991,
apresentou a tese Socialismo e estratégia no 1º Congresso, no
qual reafirmou a defesa do marxismo e a estratégia de ruptura
revolucionária, entendida como um processo de longa duração que
também pressupõe acúmulo de forças. Defendeu o resgate do PT das
origens e o aprofundamento do seu perfil revolucionário.
[27]
A
partir do 1º Congresso a BS centralizará suas forças na
organização do NLPT. Nesse período, ela conseguiu ampliar a
sua organização, se estruturando minimamente nem nível nacional. Com
inserção predominantemente no nordeste, a BS liderou o
processo de formação do Movimento por Terra, Trabalho e
Liberdade, em Pernambuco. [28]
Em São Paulo, ela foi reforçada pela adesão de um grupo de
militantes que rompeu com a VS e pelo deslocamento de
dirigentes como Bruno Maranhão.
Sua
evolução no período recente está relacionada ao NLPT. Será
através da sua participação neste movimento que a BS
intervirá na conjuntura que antecedeu 8º EN e as eleições em 1994.
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