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REGINA M. A. MACHADO
Tradutora e Doutora pela
Universidade Paris III/La Sorbonne Nouvelle, com tese defendida
em fevereiro 2007 sobre Ficção e café no vale do Paraíba
–Três romances da fazenda escravagista.

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A figura do
herdeiro na civilização do café
– problema
literário desde José de Alencar
Regina M. A. Machado
Os
romances do século XIX têm freqüentemente em comum uma grande
empatia com as preocupações básicas de um público nacional que se
constrói enquanto público leitor e como cidadão de nações que se
modernizam, paralelamente ao desenvolvimento do gênero literário.
Por outro lado, são considerados leitura nociva, veículos de idéias
subversivas, gênero vulgar e indigno de verdadeiros artistas, ao
mesmo tempo que vão aparecendo as obras-primas que dão a forma mais
adequada a essa que é a reflexão literária por excelência sobre a
modernidade burguesa. Em seguida, no século seguinte, várias vezes
tentou-se acabar com o romance, decretando sua morte natural, seu
desaparecimento puro e simples, seu caráter supérfluo. Mas ele tem
resistido, como é fácil constatar, certamente mudando e se adaptando
a novas formas e a novas responsabilidades do escritor. Raramente,
diga-se de passagem, obtendo o mesmo efeito de comunhão com um largo
público, como lembra Orhan Pamuk.
A ascensão do romance como forma de
arte coincidiu com a ascensão do Estado-nação. Quando os grandes
romances do século 19 estavam sendo escritos, a arte do romance
era uma arte nacional. Balzac, Dickens, Dostoiévski e Tolstói
escreviam à classe média emergente em seus países, capaz de
reconhecer nos livros cada cidade, rua, casa, sala e cadeira; os
leitores compartilhavam nos livros de seus mesmos gostos e
discutiam as mesmas idéias.
No século 19, os romances eram
publicados nos cadernos de cultura dos jornais, porque seus
autores falavam a uma nação. No fim do século 19, ler e escrever
romances era participar de discussão nacional, fechada aos que
estavam de fora.
Sem necessariamente aderir à idéia de
restrição de difusão da obra a um espaço nacional, podemos encontrar
esse sentimento de responsabilidade para com seu próprio público
tanto em escritores brasileiros como europeus ou outros, cada um na
sua língua e na sua época criando obras que abriam um largo espaço
para que os leitores participassem da discussão nacional que
lhes incumbia.
Alguns temas e construções comuns
percorrem esses romances desde a Europa até o Brasil, onde o que vai
nos interessar aqui é a figura do herdeiro da família aristocrática.
Para começar, evocaremos o modelo europeu, tal como é visto pelo
personagem inculto que dá nome ao romance de Henry James, O
Americano. Este faz amizade com o jovem conde de Bellegarde, que
explica ao amigo ignorante das regras de vida da aristocracia
européia que qualquer trabalho o faria derrogar às tradições
familiares. Como se diz na França, Valentin era um
gentilhomme de pura cepa e sua regra de vida, por pouco explícita
que fosse, consistia em cumprir o papel de um gentilhomme
(JAMES, 1994: cap. 7).
Esse rapaz cujos horizontes não ultrapassam os limites de um bairro
parisiense e que vive preso a valores do passado, morre em duelo por
uma questão de honra que o amigo americano vê como absurda, mas que
é perfeitamente aceita e legitimada pela família e pelo padre que o
assiste. A única pessoa a lamentar a perda dessa vida cheia de
promessas de um indivíduo jovem é o perplexo americano que
questiona, com sua incompreensão, os valores da nobreza européia.
Também em José de Alencar, ora o
personagem do herdeiro se expõe em diálogos com um interlocutor, ora
é simplesmente descrito pelo narrador, que tampouco o julga, apenas
alinha suas características sociais. Os exemplos escolhidos aqui são
geralmente oriundos das fortunas então recentes do café, em romances
onde a função literária do herdeiro é esmiuçada e questionada por
Alencar. Em A viuvinha, o narrador apresenta o jovem rico de
curta nobreza em toda sua futilidade, sem a rígida formação dada
pelo sistema de valores do nobre europeu, mas chegando ao mesmo tipo
de desocupação:
Chegando à maioridade, Jorge tomou
conta de seu avultado patrimônio e começou a viver essa vida dos
nossos moços ricos, os quais pensam que gastar o dinheiro que
seus pais ganharam é uma profissão suficiente para que se
dispensem de abraçar qualquer outra (ALENCAR, 1959: 232, cap.
I).
Em O tronco do ipê, a heroína
caricatura os filhos de um fazendeiro vizinho, fazendo notar que o
herdeiro enviado à Europa para se educar corre o risco de voltar sem
nada ter aprendido, feito um boneco de cheiro, como aqueles dois
bobos, que lá estão na corte deitando fora a herança do pai...
(ALENCAR, 1977: 272, cap. VII, 2ª. parte).
O herdeiro das fortunas da época
imperial segundo Bernardo Guimarães também acaba indo buscar um
aperfeiçoamento social fora do país, pois está convencido de que
só na Europa poderia desenvolver dignamente a sua inteligência, e
saciar a sua sede de saber em puros e abundantes mananciais. Assim
escreveu ao pai, que deu-lhe crédito e o enviou a Paris, donde
esperava vê-lo voltar feito um novo Humboldt (GUIMARÃES, 1976:
33, cap. II). As probabilidades do trajeto presumido do
herdeiro de um rico comendador do império vêm magistralmente
resumidas em A escrava Isaura. Esse roteiro modelar é objeto
de uma narração sarcástica, que aproveita para denunciar
paralelamente o prestígio social de que gozavam sem contestação os
traficantes de escravos. O comércio de importação e exportação de
gêneros, mesmo em larga escala, o próprio tráfego de africanos, lhe
pareciam especulações degradantes e impróprias de sua alta posição e
esmerada educação. A atividade comercial nesse romance é vista
com o mesmo desprezo que os mascates do Recife mereciam dos
aristocratas de Olinda (ALENCAR, 1958), cujos nobres herdeiros são
moldados pelo mesmo modelo descrito acima: Álvaro Cavalcanti, o
filho do capitão-mor, um desbragado que levava a vida a pautear, não
cuidando senão de jogo, mulheres e comezainas. Na peça O
crédito, a especulação que se banaliza na sociedade imperial é
satirizada nos mesmos termos explicitados por Guimarães: O
negócio de balcão e retalho, esse inspirava-lhe asco e compaixão. Só
lhe convinham as altas especulações cambiais, as operações
bancárias, e transações, em que jogasse com avultados capitais
(GUIMARÃES, 1976: 34). Este personagem da Escrava Isaura é
ironicamente construído em oposição ao protagonista, um jovem
remanescente dos engenhos do Nordeste açucareiro, este idealizado
tanto física como moralmente: Tinha ódio a todos os privilégios e
distinções sociais, e é escusado dizer que era liberal, republicano
e quase socialista (Id., 88, cap. XI).
Até aqui, o herdeiro é visto com
simpatia ou tem seu contraponto num duplo que supre suas
deficiências. Porém esses traços vão se acentuar, tornando-se mais
nítidos e, poder-se-ia dizer, grotescos em Machado de Assis, através
de seu amoral narrador póstumo das próprias falcatruas, Brás Cubas,
ele próprio ascendente direto de um herdeiro contemporâneo nosso, um
Bom paulista quatrocentão, fruto decadente de família
tradicional, bisneto de um cara que ajudou a fundar São Carlos.
Mesmo se o nosso centro de interesse é a
produção literária anterior ao Modernismo de 22, fica atualizada
acima, no conto de Cícero Sandroni, esta linhagem ainda produtiva,
certamente representativa de uma problemática literária instigante,
mas que suscita também questões sobre nossa organização social e a
degradação acelerada de uma certa elite retratada no provérbio
nacional Pai rico, filho nobre, neto pobre. No vale do
Paraíba encontramos uma versão local interessante que retrata
perfeitamente as etapas históricas das primeiras grandes fortunas do
café nessa região, Pai mineiro, filho cavaleiro, neto sapateiro.
Esta última geração empobrecida, no entanto, raramente terá tido
competência para se estabelecer com um ofício manual – o sapateiro
do provérbio –, tendo muito mais freqüentemente dado com os costados
na função pública e burocrática, como já denunciava Joaquim Nabuco:
… os descendentes dos antigos morgados e senhores territoriais
acham-se hoje reduzidos à mais precária condição imaginável, (…)
obrigados a recolher-se ao grande asilo das fortunas desbaratadas da
escravidão, que é o funcionalismo público (NABUCO, 2000: 106).
Retornando ao Tronco do ipê, de 1871, é bom lembrar que o pai
do herói é sumariamente suprimido da intriga ao ser surpreendido no
cabo da enxada, num capítulo sugestivamente intitulado “Desastre”, o
que pode atestar da imprudência social e literária de se trabalhar
com as próprias mãos numa sociedade escravista. Um ano depois do
O tronco do ipê, o próprio Alencar retoma e acentua a visão do
trabalho nessa sociedade, através do personagem Jão Fera, em Til.
O trabalho, ele o tinha como
vergonha, pois o poria ao nível do escravo. Prejuízo este, que
desde tempos remotos dominava a caipiragem de São Paulo, e se
apurava nesse homem, cujo espírito de sobranceira independência
havia robustecido a luta que travara contra a sociedade.
Era a enxada para ele um instrumento
vil: o machado e a fouce ainda concebia que os pudesse empunhar
a mão do homem livre; mas em seu próprio serviço, para abater o
esteio da choça ou abrir caminho através da floresta (ALENCAR,
1973: 70, cap.XIV, 2ª parte).
É de se notar que Jão Fera, homem livre
e pobre, é um personagem mais prudente e avisado que o aristocrata
decadente do romance anterior, retratado como um idealista que se
marginaliza de sua própria classe ao incidir no trabalho braçal. O
narrador pouco confiável, que induz suspeitas sem dar garantias ao
leitor, já aponta nesses romances da maturidade de José de Alencar,
antes de sua concretização fulgurante em Machado de Assis.
Este escritor, que não deixou passar
nada do que seus predecessores já haviam notado e que lia com
atenção o mundo que o rodeava, conforme sua própria exigência,
adapta a linhagem dos Cubas a essa necessária negação de qualquer
relação com o mundo do trabalho. Como este apelido de Cubas lhe
cheirasse excessivamente a tanoaria, alegava meu pai, bisneto de
Damião, que o dito apelido fora dado a um cavaleiro, herói nas
jornadas da África, em prêmio da façanha que praticou, arrebatando
trezentas cubas aos mouros. Meu pai era homem de imaginação; escapou
à tanoaria nas asas de um ca1embour (ASSIS, 1994: cap. III).
Nossa crônica do herdeiro literário
teria muito mais a dizer, mas corre o risco de encompridar demais e,
assim, termina sem final feliz, evocando a narração que faz na
primeira pessoa um produto contemporâneo da riqueza gerada pela
epopéia paulista do café, uma a mais na repetitiva seqüência dos
ciclos sucessivos de monoculturas que salvam o país, sem muito
abalar velhas distribuições de glebas herdadas das capitanias
hereditárias. A literatura brasileira parece tomar a si a figura do
herdeiro como um problema não resolvido e, assim, merecendo ainda e
sempre novas e sucessivas recriações ficcionais.
Recebi minha parte da herança de um
avô fazendeiro e, sem o menor arrependimento ou sentimento de
culpa, gastei tudo nas bocas do luxo e depois nas bocas do lixo
de São Paulo. Só me restou o apartamento do Alto das Perdizes.
Aos 42 anos, depois de trinta dissipados numa boa vida, sou hoje
o que os bem-pensantes, os bem sucedidos, os que venceram,
chamam de fracassado.
Bibliografia
ALENCAR José de. A guerra dos mascates. Obra completa, Vol.
III. Rio de Janeiro, Editora José Aguilar Ltda., 1958.
__________. A viuvinha.
Obra completa, Vol. I. Rio
de Janeiro, Editora José Aguilar Ltda., 1959.
__________. O tronco do ipê.
Rio de Janeiro, José
Olympio/ Brasília, INL, 1977.
__________. Til- Romance brasileiro (9a. edição – Reprodução
fiel do texto da edição de 1872). São Paulo, Edições Melhoramentos,
1973.
ASSIS Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de
Janeiro, Nova Aguilar, 1994. Vol. I.
GUIMARÃES Bernardo. A escrava Isaura.
Rio de Janeiro, Editora
Nova Aguilar, 1976.
JAMES Henry.
L’Américain. Paris, Liana Levi, 1994.
NABUCO Joaquim. O
abolicionismo. Rio de
Janeiro, Nova Fronteira/São Paulo, Publifolha, 2000.
SANDRONI Cícero, O suicida. In
http://www.releituras.com/releituras.asp,
editado por Arnaldo Nogueira Jr.
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grão em grão a literatura brasileira – Alencar, Machado e tantos
outros
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