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RAYMUNDO DE LIMA
Formado em Psicologia, Mestre em Psicologia Escolar (UGF) e
Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP).
Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na
área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de
Maringá (UEM)

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Sobre o cochicho nas reuniões
Raymundo de Lima
O cochicho ou conversa paralela em
reunião de condomínio, sindicato, igreja, em aula, palestra ou
conferência parece ser natural para nós. É um dos sintomas do
‘jeitinho’
brasileiro. Para o historiador inglês,
Peter Burke (2003) “em alguns países, incluindo a Inglaterra,
cochichar no ouvido do vizinho durante uma palestra ou uma
conferência é considerado ultrajante”.
Embora a autoridade docente hoje esteja
em crise, pegando carona no declínio da autoridade do pai, entre nós
ainda há professores que não se omitem e não se acovardam em
denunciar o zunzuzum que atrapalha a concentração na exposição. Mas
eles são cada vez mais raros;
as novas gerações de docentes são fruto da sociedade
liberal-permissiva cujo superego ‘pós-moderno’
não reprime, nem educa, mas impõe “você pode falar o que quiser em
qualquer hora e em qualquer lugar”.
Venho observando no meio universitário
que a conversinha paralela durante as aulas faz parte da cultura de
alguns cursos. Alunas de uma determinada área do conhecimento
sentem-se mais autorizadas a atitudes pouco pedagógicas, como:
cochichos, risinhos, lixar unhas, retoques de maquiagem, passar
escova no cabelo, folhear revistas de artistas – atos esses que
jamais seriam admitidos nos cursos considerados ‘positivos’. Os
professores dessa ‘determinada’área, sem dúvida, são mais tolerantes
com tais atitudes ou mesmo as ignoram; talvez porque eles próprios
são propensos a conversinhas paralelas durante suas reuniões de
trabalho.
Confesso que fico envergonhado quando
vejo principalmente professores cochichando durante uma conferência
de um convidado ilustre. Provavelmente o conferencista voltará para
sua terra com uma má impressão do auditório pouco civilizado para
escutar e indisposto à aprender. Soube de um que interrompeu sua
conferência para expressar sua indignação ao ver no auditório alguém
tranquilamente abrir um jornal pra ler. Afinal, ler jornal no
momento da exposição denuncia mais que desinteresse do sujeito,
revela falta de educação e respeito. Pior é saber que o mal educado,
no caso, era professor.
Causas e efeitos do cochicho
Voltando ao assunto principal, diversos
são os motivos que levam alguém a cochichar durante uma exposição. O
cochicho pode ser uma reação de protesto velado à um convidado que
demonstra desrespeito ou distância afetiva e cultural da platéia.
Por exemplo, um palestrante muito focado no seu assunto não
conscientemente deixa passar autosuficiência, arrogância, como se
descartasse a audiência para estabelecer um vínculo com ele e/ou
suas idéias. Assim, a reação natural é alguém puxar conversa com o
vizinho. Tal reação de protesto também pode ser um exercício para
afiar a própria língua do cochichador e também ganhar adeptos contra
a exposição. Nesse caso, o cochichador logo toma a palavra para
expor seu ponto de vista e se contrapor. Se os demais ficam do seu
lado está armada a dispersão, rebelião, e fugas do recinto.
O esvaziamento do recinto também pode
representar uma reação espontânea e pessoal contra a monotonia da
exposição, a antipatia do palestrante, ou a falta de competência
para discorrer sobre um assunto de modo organizado, claro e leve.
Sair do recinto no meio da fala de um
convidado é mais freqüente em conferências do que palestras. Na
conferência o convidado lê um texto previamente elaborado, porque
ela cumpre com a formalidade do encontro e a sintonia do campo
transferencial entre os presentes. Já na palestra,
além de dispensar o texto para ser lido, o palestrante pode
demonstrar versatilidade e criatividade na exposição, causar empatia
com a platéia, por exemplo, fazendo uma introdução aparentemente
natural e agradável: “estou muito contente de estar aqui com
pessoas muito queridas, nessa cidade que amo...”. Trata-se,
nesse momento, de usar uma técnica de oratória, captatio
benevolentiae, que “tem por finalidade angariar a simpatia do
auditório para com o orador, motivá-lo a ouvir, predispô-lo a
aceitar a pessoa que vai falar” (LEAL, p.28). Obviamente o orador
deve ser sincero ao procurar captar a benevolência, porque caso
contrário pode transparecer hipocrisia, politiquismo, bajulação,
etc. Um professor hábil, por exemplo, é aquele que, no primeiro dia
de aula, procura captar a benevolência dos alunos, e também
esclarecer certos pontos do contrato pedagógico: “– como
venho aqui por inteiro, gostaria que vocês também estivessem aqui
por inteiro, comprometidos com o nosso curso; noutras palavras,
evitem atitudes pouco pedagógicas, como conversas paralelas...”.
Ao contrário dos europeus que geralmente
se comportam em silêncio nas conferências, os brasileiros preferem
palestras, por serem dinâmicas, criativas, às vezes viram shows, e,
também porque permitirem cochichos. Quanto mais dinâmica é a
exposição, menos probabilidade de cochichos haverá. E os
palestrantes que se tornam meros “leitores de Power Points”?
Depende de como é usado esse recurso tecnológico. Não raro, o
escurinho e a forma de exposição causam tédio e sono na audiência.
Autorizar as imagens dizerem ‘tudo’, é descartar a importância do
expositor. Ainda, pode causar certo mal-estar se o expositor fica de
costas para os ouvintes. Como novidade, os slides geralmente
conseguem prender a atenção do auditório, mas na hora que o
palestrante tomar a palavra – após ter passado as imagens – pode
provocar cochichos e desconcentrar o auditório para o assunto agora
falado.
O lado psicológico...
Cochichar em reuniões seria uma falha da
educação desde a infância? Falta de limite não sinalizado pela
autoridade simbólica do pai? Seria uma repetição compulsiva surgido
desde a infância com pais que nunca se importavam serem
interrompidos nas conversas entre adultos?
Os professores do ensino básico hoje se
queixam que passam mais tempo pedindo atenção aos alunos do que
ensinando; os bibliotecários também se estressam pedindo silêncio no
recinto. E os mais educados se sentem reféns da incivilidade nestes
ambientes. Burke sugere que no caso dos países latinos, deve-se logo
“aprender que é necessário ouvir, ou ao menos tentar ouvir, muitas
pessoas falando ao mesmo tempo” (BURKE, 1995, p. 126).
Além da hipótese que aponta um modo da
cultura, a conversinha paralela pode ser uma forma de repetição
compulsiva, isto é, a pessoa sempre está cochichando,
porque ela é dominada por impulso cujo propósito é transgredir
(perverter ou quebrar regras). Principalmente em ambientes que
exigem muita atenção e respeito, ela se vê dominada por tais
impulsos de fundo perverso.
Assim, a conversa paralela (dentre as
atitudes anti-pedagógicas aqui mencionadas) sugere perversão visto
ser um ato transgressor das regras de boa convivência. Essa hipótese
pode ser testada no dia-a-dia das aulas: o professor ao convidar o
cochichador compulsivo à socializar o seu cochicho, geralmente ele
se omite, revelando covardia, egoísmo ou ressentimento. Também
porque o cochichador compulsivo parece mais disposto para falar
‘palavras vazias’, fora-de-hora e fora-de-lugar, do que acender à
‘palavra plena’, na hora-certa, e lugar-certo, e contextualizar a
própria com o discurso do expositor. O problema, portanto, não é
fazer um ou outro cochicho durante uma reunião, mas não se dar conta
de estar pervertendo o espaço. Em vez de assumir um dizer em
público, arriscando a críticas, ele se deixa levar pelo gozo do ato,
logo, alienação.
Os cuidados de captação da benevolência,
sincronia dos gestos e frases, controle da expressão facial, boa
dicção, impostação da voz, polidez, tudo isso leva o palestrante a
prender a atenção dos ouvintes. Pode até contribuir para civilizar
um grupo social pouco acostumado a tais encontros. Fazer com que o
público concentre toda sua atenção na palestra como quem assiste a
uma cena de suspense dos filmes de Hitchcock,
evita cochichos e fugas do recinto. Mas, certamente, não evita a
presença de mal educados.
Referências
Professores considerados à antiga geralmente inspiravam
‘temor reverencial’, não só porque exigiam plena
concentração dos alunos sobre um assunto de aula, mas porque
faziam parte de uma rede simbólica de sustentação da
Lei-do-Pai. Ao menor sinal de desvio da atenção dos alunos,
bastava ele mirar um olhar fulminante cuja mensagem era “não
se atreva”.
ZIZEK, S. O superego pós-moderno. In: Folha de S.
Paulo – Mais! 23/ maio/ 1999, p. 5-8.
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