RAYMUNDO DE LIMA

Formado em Psicologia, Mestre em Psicologia Escolar (UGF) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

 

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Sobre o cochicho nas reuniões

Raymundo de Lima

 

O cochicho ou conversa paralela em reunião de condomínio, sindicato, igreja, em aula, palestra ou conferência parece ser natural para nós. É um dos sintomas do ‘jeitinho’[1] brasileiro. Para o historiador inglês, Peter Burke (2003) “em alguns países, incluindo a Inglaterra, cochichar no ouvido do vizinho durante uma palestra ou uma conferência é considerado ultrajante”.

Embora a autoridade docente hoje esteja em crise, pegando carona no declínio da autoridade do pai, entre nós ainda há professores que não se omitem e não se acovardam em denunciar o zunzuzum que atrapalha a concentração na exposição. Mas eles são cada vez mais raros[2]; as novas gerações de docentes são fruto da sociedade liberal-permissiva cujo superego ‘pós-moderno’[3] não reprime, nem educa, mas impõe “você pode falar o que quiser em qualquer hora e em qualquer lugar”.

Venho observando no meio universitário que a conversinha paralela durante as aulas faz parte da cultura de alguns cursos. Alunas de uma determinada área do conhecimento sentem-se mais autorizadas a atitudes pouco pedagógicas, como: cochichos, risinhos, lixar unhas, retoques de maquiagem, passar escova no cabelo, folhear revistas de artistas – atos esses que jamais seriam admitidos nos cursos considerados ‘positivos’. Os professores dessa ‘determinada’área, sem dúvida, são mais tolerantes com tais atitudes ou mesmo as ignoram; talvez porque eles próprios são propensos a conversinhas paralelas durante suas reuniões de trabalho.

Confesso que fico envergonhado quando vejo principalmente professores cochichando durante uma conferência de um convidado ilustre. Provavelmente o conferencista voltará para sua terra com uma má impressão do auditório pouco civilizado para escutar e indisposto à aprender. Soube de um que interrompeu sua conferência para expressar sua indignação ao ver no auditório alguém tranquilamente abrir um jornal pra ler. Afinal, ler jornal no momento da exposição denuncia mais que desinteresse do sujeito, revela falta de educação e respeito. Pior é saber que o mal educado, no caso, era professor.

Causas e efeitos do cochicho

Voltando ao assunto principal, diversos são os motivos que levam alguém a cochichar durante uma exposição. O cochicho pode ser uma reação de protesto velado à um convidado que demonstra desrespeito ou distância afetiva e cultural da platéia. Por exemplo, um palestrante muito focado no seu assunto não conscientemente deixa passar autosuficiência, arrogância, como se descartasse a audiência para estabelecer um vínculo com ele e/ou suas idéias. Assim, a reação natural é alguém puxar conversa com o vizinho. Tal reação de protesto também pode ser um exercício para afiar a própria língua do cochichador e também ganhar adeptos contra a exposição. Nesse caso, o cochichador logo toma a palavra para expor seu ponto de vista e se contrapor. Se os demais ficam do seu lado está armada a dispersão, rebelião, e fugas do recinto.

O esvaziamento do recinto também pode representar uma reação espontânea e pessoal contra a monotonia da exposição, a antipatia do palestrante, ou a falta de competência para discorrer sobre um assunto de modo organizado, claro e leve.

Sair do recinto no meio da fala de um convidado é mais freqüente em conferências do que palestras. Na conferência o convidado lê um texto previamente elaborado, porque ela cumpre com a formalidade do encontro e a sintonia do campo transferencial entre os presentes. Já na palestra[4], além de dispensar o texto para ser lido, o palestrante pode demonstrar versatilidade e criatividade na exposição, causar empatia com a platéia, por exemplo, fazendo uma introdução aparentemente natural e agradável: “estou muito contente de estar aqui com pessoas muito queridas, nessa cidade que amo...”. Trata-se, nesse momento, de usar uma técnica de oratória, captatio benevolentiae, que “tem por finalidade angariar a simpatia do auditório para com o orador, motivá-lo a ouvir, predispô-lo a aceitar a pessoa que vai falar” (LEAL, p.28). Obviamente o orador deve ser sincero ao procurar captar a benevolência, porque caso contrário pode transparecer hipocrisia, politiquismo, bajulação, etc. Um professor hábil, por exemplo, é aquele que, no primeiro dia de aula, procura captar a benevolência dos alunos, e também esclarecer certos pontos do contrato pedagógico: como  venho aqui por inteiro, gostaria que vocês também estivessem aqui por inteiro, comprometidos com o nosso curso; noutras palavras, evitem atitudes pouco pedagógicas, como conversas paralelas...”.

Ao contrário dos europeus que geralmente se comportam em silêncio nas conferências, os brasileiros preferem palestras, por serem dinâmicas, criativas, às vezes viram shows, e, também porque permitirem cochichos. Quanto mais dinâmica é a exposição, menos probabilidade de cochichos haverá. E os palestrantes que se tornam meros “leitores de Power Points”? Depende de como é usado esse recurso tecnológico. Não raro, o escurinho e a forma de exposição causam tédio e sono na audiência. Autorizar as imagens dizerem ‘tudo’, é descartar a importância do expositor. Ainda, pode causar certo mal-estar se o expositor fica de costas para os ouvintes. Como novidade, os slides geralmente conseguem prender a atenção do auditório, mas na hora que o palestrante tomar a palavra – após ter passado as imagens – pode provocar cochichos e desconcentrar o auditório para o assunto agora falado.

O lado psicológico...

Cochichar em reuniões seria uma falha da educação desde a infância? Falta de limite não sinalizado pela autoridade simbólica do pai? Seria uma repetição compulsiva surgido desde a infância com pais que nunca se importavam serem interrompidos nas conversas entre adultos?

Os professores do ensino básico hoje se queixam que passam mais tempo pedindo atenção aos alunos do que ensinando; os bibliotecários também se estressam pedindo silêncio no recinto. E os mais educados se sentem reféns da incivilidade nestes ambientes. Burke sugere que no caso dos países latinos, deve-se logo “aprender que é necessário ouvir, ou ao menos tentar ouvir, muitas pessoas falando ao mesmo tempo” (BURKE, 1995, p. 126).

Além da hipótese que aponta um modo da cultura, a conversinha paralela pode ser uma forma de repetição compulsiva, isto é, a pessoa sempre está cochichando, porque ela é dominada por impulso cujo propósito é transgredir (perverter ou quebrar regras). Principalmente em ambientes que exigem muita atenção e respeito, ela se vê dominada por tais impulsos de fundo perverso.

Assim, a conversa paralela (dentre as atitudes anti-pedagógicas aqui mencionadas) sugere perversão visto ser um ato transgressor das regras de boa convivência. Essa hipótese pode ser testada no dia-a-dia das aulas: o professor ao convidar o cochichador compulsivo à socializar o seu cochicho, geralmente ele se omite, revelando covardia, egoísmo ou ressentimento. Também porque o cochichador compulsivo parece mais disposto para falar ‘palavras vazias’, fora-de-hora e fora-de-lugar, do que acender à ‘palavra plena’, na hora-certa, e lugar-certo, e contextualizar a própria com o discurso do expositor. O problema, portanto, não é fazer um ou outro cochicho durante uma reunião, mas não se dar conta de estar pervertendo o espaço. Em vez de assumir um dizer em público, arriscando a críticas, ele se deixa levar pelo gozo do ato, logo, alienação.

Os cuidados de captação da benevolência, sincronia dos gestos e frases, controle da expressão facial, boa dicção, impostação da voz, polidez, tudo isso leva o palestrante a prender a atenção dos ouvintes. Pode até contribuir para civilizar um grupo social pouco acostumado a tais encontros. Fazer com que o público concentre toda sua atenção na palestra como quem assiste a uma cena de suspense dos filmes de Hitchcock, evita cochichos e fugas do recinto. Mas, certamente, não evita a presença de mal educados.

 

Referências

BARBOSA, Lívia. O jeitinho brasileiro: a arte de ser mais igual que os outros. Rio de Janeiro: Campus, 1992.

BURKE, Peter. Oralidade nos bancos da academia. In: Folha de S. Paulo, cad. Mais! 13/07/2003.

______. A arte da conversação. São Paulo: Unesp, 1995.

LEAL, José Carlos. A arte de falar em público. Rio de Janeiro: ETC, 1995.

ZIZEK, S. O superego pós-moderno. In: Folha de S. Paulo – Mais! 23/ maio/ 1999, p. 5-8.


 


[1] Sugiro o excelente estudo de Lívia Barbosa: “O jeitinho brasileiro: a arte de ser mais igual que os outros”. Rio: Campus, 1992.

[2] Professores considerados à antiga geralmente inspiravam ‘temor reverencial’, não só porque exigiam plena concentração dos alunos sobre um assunto de aula, mas porque faziam parte de uma rede simbólica de sustentação da Lei-do-Pai. Ao menor sinal de desvio da atenção dos alunos, bastava ele mirar um olhar fulminante cuja mensagem era “não se atreva”.

[3] ZIZEK, S. O superego pós-moderno. In: Folha de S. Paulo – Mais! 23/ maio/ 1999, p. 5-8.

[4] Ver nessa revista: “Palestras e palestrantes, em baixa!”<http://www.espacoacademico.com.br/022/22ray.htm>.

 

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