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BERNARDO
KOCHER
Professor
Associado do Departamento de História da Universidade Federal
Fluminense

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As eleições de 10 de fevereiro
de 2009 em Israel e a Questão Palestina
Bernardo Kocher
No
dia 10 de fevereiro próximo passado ocorreu um pleito confuso e
esvaziado em Israel.
As eleições foram convocadas após a
líder da atual coalizão de poder, Tzipi Livini, ter fracassado em
novembro na tarefa de formar um novo gabinete. Este substituiria o
atual Primeiro-Ministro Ehud Olmert, suspeito de participar em
atitudes ilícitas.
Das eleições que ocorreram não se pode
esperar uma solução para o impasse político que gerou a sua
convocação, pois foram inúmeras as fragilidades no processo
eleitoral israelense recentemente encerrado. Entre elas indicamos: o
pleito não contou com discussões sobre problemas estruturais (com
exceção óbvia da segurança) típicos dos debates pré-eleitorais, como
a crise econômica; a não ocorrência de comícios públicos,
substituídos por reuniões de pequeno porte onde os candidatos expõem
suas idéias; a ampla difusão apenas pela internet de notícias e
propostas. Este contexto político não foi, no entanto, agravado pela
continua queda da participação da população ao longo dos processos
eleitorais anteriores, já que a participação no pleito superou o de
2006.
A crise política neste país tem seguido
o roteiro da incapacidade das forças políticas em sustentar os
governos eleitos pelo mandato pleno de quatro anos. Desde 1995 –
após o colapso das negociações com a Autoridade Nacional Palestina
(ANP), na seqüência da derrocada dos acordos de Oslo –, os
Primeiros-Ministros eleitos não ficaram no cargo mais que três anos,
em média. Isto produziu cinco pleitos desde aquele ano onde foram
eleitos Shimon Perez (1995), Benjamim Netaniahu (1996), Ehud Barak
(1999), Ariel Sharon (2001) e Ehud Olmert (2006).
Não nos esqueçamos que as eleições
ocorreram depois da sanguinolenta campanha aérea e terrestre sobre o
território de Gaza, que sofreu durante vinte dias algo que somente
eufemisticamente pode ser chamado de “guerra”. Este fator foi
certamente considerado como um ingrediente na luta eleitoral pelos
promotores de tão horrenda destruição de vidas humanas e bens
materiais. O bombardeio seguido de invasão terrestre foi por eles
tomado como uma espécie de prévia e ao mesmo tempo parte integrante
da campanha eleitoral que se aproximava. Este contexto, por si só,
demonstra o quão distorcido podem ser os encaminhamentos que geraram
a voz das urnas.
Pressupomos nesta análise, realizada
ainda no calor da divulgação dos primeiros resultados, que o
eleitorado israelense não conseguirá formular uma opção firme em
direção à escolha de um bloco de poder que obtenha condições de
governar e resolver o principal impasse da vida política nacional, o
da convivência com os palestinos. Isto porque a natureza dos
problemas políticos israelenses no momento atual não é
exclusivamente eleitoral. O raquitismo político dos últimos governos
reflete a carência de uma orientação política lúcida e atuação
coletiva coerente dos partidos, espremidos que estão pela obrigação
de tratar a pesada questão “externa” (palestina) também como um
problema de política interna.
É indubitável que a crise aqui referida
tem se ampliado desde 1995. Isto tem exposto as políticas externa e
interna israelense a um desgaste sem precedentes, mesmo com o
controle da revolta Intifada. Percebe-se esta situação tanto na
crescente e aguda preocupação de parcela expressiva da sociedade
civil global para a busca uma solução para a questão palestina
quanto da política israelense em evitar a sua solução definitiva.
Neste sentido, a campanha eleitoral
recentemente encerrada possui uma inconsistência nos
candidatos-partidos: estes raramente alcançaram com clareza e
discernimento a fragilidade das suas proposituras para a política
nacional e regional, pois partem invariavelmente da força militar
expressiva que o país possui bem como dos resultados que esta
alcança, ou pode infalivelmente alcançar. Foi esta posição militar
superior a qualquer outra na região, pensam as forças políticas
israelenses, que criou Israel, aceito e partícipe pleno das
instituições do sistema internacional. Este ente estatal lhes
confere um status de normalidade muito superior ao da
institucionalidade precária que os palestinos possuem na ANP. Mas
esta assincronia entre as partes em conflito, bem como a sua não
assunção como uma anomalia pela vida política israelense, é o centro
da crise política que as eleições de 10 de fevereiro não resolverão.
Tal situação constitui-se numa “vantagem aparente” para Israel,
pois, como conseqüência da proximidade física com os palestinos, a
questão palestina não libertará a política interna israelense do
ritual das seguidas vitórias militares precedidas de crises
políticas e revoltas.
Para a política israelense a mística da
superioridade de um povo que sempre foi perseguido ainda sustenta um
imaginário político pautado exclusivamente no nacionalismo. Esta
categoria não é, porém, suficiente para lidar com uma realidade que
superou os parâmetros de constituição do sionismo.
Desta forma, a frase proferida pelo
então Primeiro-Ministro israelense, Ehud Barak após o fracasso das
negociações em Camp David, "não temos um parceiro para a paz", é
também (e, talvez, muito mais) verdadeira para o lado israelense.
Sob esta crítica ácida do Primeiro-Ministro estava a recusa,
dificuldade ou impotência do presidente da ANP, Yasser Arafat, para,
em primeiro lugar aceitar as condições impostas pelo Estado de
Israel à partilha territorial e, em segundo lugar, combater o
terrorismo palestino contra civis israelenses. Mas, ao final, a
afirmação de Barak refletiu a natureza de um dos aspectos mais
importantes do agudo impasse político israelense: fazer a paz é mais
difícil do que a guerra.
Construído sobre um castelo de cartas, o
imaginário sionista sobre a questão palestina também não é capaz de
absorver com inteireza a recente vitória sobre o Hamas. Esta se
transformou numa forma "física" de ganhar a guerra, sem auferir
ganhos políticos. O bombardeio de Gaza não conquistou os “corações e
mentes”, o que é explicitado no que inúmeros analistas constataram
ter sido a “desproporção entre as partes”. O massacre em Gaza ficou
reduzido a uma mera rotina no interior das seguidas vitórias que a
IDF (Força de Defesa de Israel) alcançou nas últimas seis décadas,
não agregando valor político à sua capacidade militar em alvejar o
inimigo.
É por isto que os partidos israelenses
não conseguirão com as eleições recentemente realizadas incorporar o
bombardeio-invasão da Faixa de Gaza como uma forma de se
fortalecerem em conjunto e tomarem decisões a partir da privilegiada
posição de força que só os vitoriosos possuem. Estes, ao contrário,
claudicaram em definir-se através de um pacto político clássico das
democracias – de governo versus oposição –, pois se entrechocam
continuamente em meio à desordem institucional consistente.
Desprezam solenemente uma agenda política sadia típica de um Estado
Nacional em nome da manutenção de um não-Estado Nacional, a
Palestina.
Fator de relevo, mas pouco percebido, e
que também condiciona a crise que ora tratamos, é a luta comezinha
no interior do mundo político junto às receitas públicas para, via
partidos, oferecer a certos segmentos da população que estes
partidos representam parcelas significativas da riqueza social.
Apesar de expressiva esta característica não será abordada neste
artigo, pois deve ser tratado sob a luz de uma “economia política”
própria.
Uma dos problemas a ser considerado na
análise da crise política israelense está na essência do sistema
parlamentarista. Em Israel este possui características próprias, com
a proliferação de partidos políticos com baixa repercussão eleitoral
que, não obstante, alcançam representatividade no parlamento. Tal
contexto propicia ao partido que obteve o maior número de votos
(chamado de “vitorioso”) apenas e tão somente a primazia para a
convocação dos pares no parlamento para a formação de um novo
governo, a partir do convite a ser feito pelo presidente da
República. O esvaziamento dos grandes partidos (Mapai – trabalhista
–, Likud – direitista – e Kadima – centrista) associado à
pulverização do quadro partidário produz uma situação perigosa para
a estabilidade política: nenhum partido alcançou (e os primeiros
resultados divulgados confirmam esta situação) mais do que trinta
cadeiras no parlamento, num total de 120. Ou seja, nenhum partido
conseguiu ultrapassar 25% de assentos no Knesset. Isto cria uma
quase intransponível barreira para alcançar a maioria simples dos
votos necessários à formação de uma bancada que possa garantir a
maioria simples ao novo governo.
Outra característica da crise
político-institucional é o fato de o eleitor poder ser logrado na
sua escolha, pois o acordo para a formação das coalizões de governo
é efetuado após a ocorrência do pleito. Isto força o partido
majoritário buscar coligamento entre os partidos nanicos e ceder
parcela do poder político conquistado nas urnas para outras
agremiações, mesmo que política e ideologicamente adversárias na
luta política cotidiana e/ou no curso da campanha eleitoral. O
eleitor pode votar, por exemplo, no Mapai (Partido Trabalhista) e se
deparar, depois da coalizão de governo ser formada, com uma aliança
com algum partido de direita que exija a aplicação de uma parte do
seu próprio programa no governo recém constituído. Isto criará
obstáculos à plena realização do ideário do partido majoritário, que
atraiu a atenção e o voto do eleitor.
A partir deste quadro, consorciações
oportunistas (ou não) serão absolutamente necessárias para a
sobrevivência do governo que sairá formado com os resultados do
pleito recentemente concluído. Os governantes democraticamente
eleitos não conseguirão, então, obedecer plenamente às orientações
do partido "vencedor".
Além dos três partidos políticos citados
acima, lembramos aqui – para demonstrar a pulverização partidária –,
a existência do Shass (partido orotodoxo dos sefaraditas), o Meretz
(esquerda laica), o Judaísmo unificado na Torá (partido orotodoxo
asquenazita), a União Nacional (dos colonos, de extrema direita) e
os partidos árabes. A maioria destes – e foram trinta e seis os
partidos que disputaram votos –, são predispostos a ceder seu apoio
no parlamento ao grande apetite das maiores agremiações, o que
potencializará exponencialmente o poder efetivo deles. Por outro
lado, os partidos maiores perderão cálcio nos ossos e enfraquecerão
a sua plena capacidade de governar.
O quadro partidário problemático não é
exclusivo e nem é apenas um produto da crise política israelense.
Mas é uma característica bem local o extenso leque da representação
partidária cindida na base quase irreconciliável entre partidos com
ideologias laicas e os que expressam as "ideologias" religiosas.
Chegamos, então, à questão central de
nossa análise: se com tão baixa representatividade e capacidade de
governança, poderão os partidos que alçarem o poder político
encaminhar (não diríamos resolver) a questão palestina? A resposta
me parece óbvia: não. Qualquer consorciação partidária será escrava
da mesmíssima situação que gerou a convocação dos eleitores para em
10 de fevereiro manifestar a sua vontade.
Contraditoriamente, longe de se
constituir numa manifestação de força, a não resolução do conflito
com os palestinos gera o enfraquecimento das instituições políticas
israelenses. Qualquer das configurações de blocos partidários que
chegar ao poder a partir das eleições realizadas irá repetir, com
maior ou menor ênfase, as mesmas práticas aplicadas "pelo Estado"
nos últimos anos e décadas. Este é um mimetismo básico da política e
dos partidos políticos israelenses. Tais práticas têm sido
executadas de forma homogênea por governantes de quaisquer partidos,
o que demonstra que a sociedade política israelense mais converge do
que diverge quando a questão é como lidar com a questão palestina. A
aparente divergência ideológica, religiosa ou programática não omite
o fato de que existem afinidades básicas que são rigorosamente
respeitadas no guarda-chuva do ideário do sionismo.
Desde a criação do Estado de Israel a
política israelense colocou o problema palestino numa redoma de
vidro inalcançável a qualquer solução, inibindo atitudes razoáveis
pelos governantes. Assim, os seguidos governos sempre se sentiram
livres para estabelecerem os planos e o cronograma (inclusive
eleitoral) para a promoção de uma nova guerra. O ocorrido na Faixa
de Gaza entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009 demonstra bem esta
situação: os "moderados" Kadima e Mapai, que formam a atual coalizão
de poder, agiram como se esperaria que o Likud agisse caso estivesse
no poder. O seu dirigente apoiou abertamente a operação, apenas
discordando quanto ao término, pois era de opinião de que a ação
militar encerrou-se antes da vitória total. Esta nuance que
diferencia a posição política do Kadima-Mapai do Likud é bem típico
do que aqui estamos falando. Na prática, a diferença apontada ao
final é meramente uma retórica, não uma diferença consistente quanto
à forma de tratar o assunto. Outro exemplo: na esteira dos Acordos
de Oslo foi posta em prática pelo governo trabalhista de Ehud Barak
uma política agressiva de implantação de novos assentamentos na
Cisjordânia. O governo israelense agiu como se um acordo
internacional não tivesse sido assinado! Lembraríamos ainda, para
demonstrar a mescla de papéis constante na política israelense, que
a paz com o Egito foi efetuada por um líder do Likud, Menahem Begin.
Toda a práxis do sionismo se de um lado
procurou inviabilizar os laços materiais e emocionais da população
palestina, e daí o seu Estado, por outro acarretou a eclosão de uma
revolta estonteante, a segunda Intifada. A revolta acabou por repor
o problema que a colonização procurou mascarar, e a reação do
israelense alocou o hard power para tratar do assunto.
A única questão nova que se apresentou
no presente quadro eleitoral é o expressivo crescimento de um novo
partido, o Israel Beiteinu. Seu líder, Avigdor Lieberman, apresentou
uma “nova” visão sobre o assunto. Conhecido nos últimos anos pela
sua proposta de resolução da questão palestina "para Israel" – a
partir da eliminação de palestinos com cidadania israelense do
território do país –, Lieberman tocou a questão nevrálgica da tensão
política aparentemente insolúvel. Mesmo "invisível", a proposta do
político de origem moldávia (que emigrou para Israel há trinta
anos), apontou, em primeiro lugar, para a criação do Estado da
Palestina. Sua propositura, racista e xenófoba ao extremo, não
conseguiu negar o atrelamento do sistema político israelense a uma
imensa massa de população apátrida com a mesma grandeza numérica que
os israelenses (cerca de 6 milhões de pessoas). A eventual
implementação desta política no futuro governo – retomando o link
adormecido dos palestinos com cidadania israelense com os palestinos
da diáspora – será uma forma de Israel se institucionalizar apenas
“por dentro”, a partir de uma nova tentativa de cancelamento da
questão palestina.
O contingente de palestinos dispersos
pela Cisjordânica (2,5 milhões), Faixa de Gaza (1,5 milhões),
Líbano, Jordânia e demais países árabes, produz uma sobrecarga de
tensão considerável sobre a vida política israelense. Após mais de
sessenta anos de incrível injustiça e brutalidade na negação da sua
identidade nacional, a questão palestina contamina seus inimigos
com: a) a contundente contestação à espoliação do seu Estado
Nacional (a partir da primeira e da segunda Intifadas); e, b) o
escasso caminho já percorrido para a existência de um Estado
palestino, a ANP, criada certamente como produto da Intifada. Esta
se constitui num "proto Estado" que, mesmo não realizando o
verdadeiro papel de um ente estatal, acaba por manter viva a
problemática palestina na vida política israelense como nunca
ocorrera antes. Aqui as opções para Israel são drásticas: para
resolver a questão palestina no interior da vida política israelense
ou se alça a ANP à condição de Estado pleno ou se extingue este
"proto Estado", seguindo alguma solução para a massa humana que
ficará sem nenhum tipo de representação.
Com o pleito recentemente encerrado,
Israel Beitenu já desponta como o terceiro colocado em conquista de
cadeiras no parlamento, ficando o primeiro com o Likud e o segundo
com o Kadima. Os grandes partidos estiveram em disputa apertada nas
últimas semanas, segundo indicaram as pesquisas de intenção de voto.
A tendência de vitória do Likud não se confirmou nas urnas, e a
vantagem deste sobre o seu principal rival caiu drasticamente ao
longo da campanha eleitoral.
Fato simbolicamente relevante é que a
nova força política poderá desbancar o tradicionalíssimo trabalhismo
israelense para um minguado quarto lugar em cadeiras no parlamento.
O trabalhismo, que capitaneou brilhantemente a criação do Estado de
Israel e o governou durante décadas, ficou numa modesta posição de
ser um pequeno partido que aspira ainda poder ter uma participação
expressiva no cenário político nacional. Seu histórico lhe permite
supor uma nova onda de crescimento eleitoral no futuro.
O partido de Lieberman, mesmo não
podendo ser considerado um grande partido, alcançou a condição de
ser o "decisor em última instância" do processo político israelense
atual. A se consolidar os primeiros resultados eleitorais
divulgados, nenhum governo terá condições de se constituir sem a sua
anuência. Aproveitando-se desta força, Lieberman não apontou com
certeza a sua adesão ao eventual governo Netaniahu, o que demonstra
que Israel Beiteinu está longe de ser uma força estabilizadora. Suas
relações com os partidos maiores são ambíguas, muito embora as
afinidades ideológicas com o centro-direitista Likud sejam
explícitas, mesmo que mesclada no interior do processo eleitoral
com disputas menores. Benjamin Netaniahu, líder do Likud, pregando o
que no Brasil se costuma chamar de "voto útil", afirmou durante a
campanha que o voto em Lieberman irá entregar o poder à Tzip Livni,
dirigente do Kadima. Netaniahu e Lieberman protagonizaram durante a
campanha eleitoral o que chamamos de "polarização secundária", já
que a "polarização central" do atual processo eleitoral foi vivida
pelo Likud e pelo Kadima. Por outro lado, Livni, que não pôde
desconsiderar a força do eventual terceiro colocado, declarou em
aparições públicas durante a campanha a afinidade com a principal
proposta do Israel Beiteinu. O Kadima alinhou-se com a perspectiva
de aceitar a solução étnica da crise política.
Vemos então a manifestação em sua
plenitude da crise na política israelense, que possui uma dupla
face: as facções de direita se rivalizam na (apenas) disputa
eleitoral e as de centro e de esquerda se aproximam de uma das alas
direitistas para governar, implantando vários pontos do seu ideário.
O processo político israelense deve ser visto, em nossa suposição,
como uma média desta complexa dança das cadeiras dos partidos. O
vetor final aponta invariavelmente para a negação coletiva do povo
palestino enquanto um ator válido.
Durante a campanha eleitoral Lieberman
afirmou que a população palestina que reside em Israel manterá a
cidadania apenas se cumprir um roteiro de compromissos e obrigações,
e não só o usufruto de direitos. Seu mote nesta campanha, "sem
lealdade, sem cidadania", é um brado pela reformulação da questão
palestina no interior de Israel. O Estado judeu, pela proposta de
Lieberman, passaria a exigir dos palestinos com cidadania e
residentes em Israel (20% da população) a submissão completa à
orientação do sionismo, o que até agora não lhes tem sido
efetivamente cobrado.
Lieberman dá vazão, numa segunda
dimensão inerente à sua proposta, à perspectiva do Estado de Israel
como constructo puro para os judeus. Sua orientação também
inviabiliza uma eventual criação de um Estado binacional, composta
por judeus mais palestinos. A limpeza étnica por ele defendida
desmonta qualquer veleidade neste sentido constituindo-se, diríamos,
numa atitude preventiva contra o desenvolvimento futuro desta
possibilidade. Este horizonte poderia ser alimentado pela pressão da
população palestina para se incorporar em algum grau de normalidade
civil, na eventualidade de se fecharem completamente as portas para
a formação do Estado palestino.
Enfim, a política israelense
contemporânea sobrevive em meio ao "vácuo" de capital político
deixado pelo enfraquecimento dos três maiores partidos. Estes
perderam seu eleitorado tradicional e não conseguiram atrair o
eleitorado jovem, que se dirigiu para esta nova força política que é
o Israel Beiteinu. Isto não permitirá a criação de uma nova dimensão
da problemática palestina pela ótica palestina. Como a resolução do
conflito demanda a criação de um Estado palestino viável, não
podemos neste momento esperar que a nova configuração da política
israelense (saída do pleito) terá condições para compor internamente
uma coalizão de poder admitindo de forma inequívoca uma
representação institucional real para o povo palestino. Duramente
combatida no último século, qualquer perspectiva da construção de um
verdadeiro Estado palestino é negada na fórmula liebermaniana de
limpeza étnica mais submissão passiva ao sionismo.
O Israel Beitenu tanto inova quando
conserva os princípios básicos do sionismo, já liderados por
trabalhistas, likudistas e, recentemente, pelo Kadima. O triste,
para a política israelense, é que todas as fórmulas anteriores de
exclusão do povo palestino da História do Oriente Médio não
funcionaram.
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