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RONAN GOMES GONÇALVES
Mestre em Ciências Sociais pela
Universidade Estadual Paulista – Unesp/ Marília.

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Proposta Curricular do Estado
de São Paulo:
observações sobre a Reforma do
Ensino Paulista
Ronan Gomes Gonçalves
Indicações prévias
Há um grande clichê em educação que
consiste em reduzir a latitude do fracasso educacional a uma simples
questão de falta de financiamento adequado. No entanto, a
consciência de que um quilômetro escavado de metrô no Brasil custa
500 milhões de reais enquanto o mesmo quilômetro no México sai por
90 milhões (Veja, 10/09/08) pode nos alertar para o fato de que
problemas de gestão salientes em outras áreas estejam presentes
também na educação. Essa visão fica reforçada quando se sabe que o
Brasil, em educação, está aquém de países pobres como a Bolívia e a
Índia e muito aquém de outros, como Cuba. Tendo-se em conta que o
ensino básico estadunidense representa um dos mais notórios
fracassos educacionais do mundo, mesmo com a riqueza de recursos, a
tese centrada somente na alegada falta de verbas perde força. Não é
suficiente para explicar a totalidade da diferença de desempenho
entre as mais de 5.500 escolas paulistas e, nestas, a diferença
dentre os alunos, o melhor desempenho dos evangélicos, nem o sucesso
das escolas adventistas ou, em todo o país, o destaque obtido por
descendentes de japoneses.
Inúmeros outros fatores devem ser
levados em conta na apreciação sobre o fracasso educacional,
inclusive a hipótese de recusa e sabotagem por parte dos educandos.
A falta de recursos pode explicar a inexistência de bibliotecas,
laboratórios, computadores e lousas eletrônicas, mas não a recusa ao
pouco saber oferecido, a inexistência de uma simples cópia de um
mapa mudo, o atraso na entrega de materiais, a impossibilidade de
acesso aos materiais existentes e, teoricamente, disponíveis, o
forte fracasso no aprendizado do inglês que, após sete anos com
carga horária compatível à apresentada pelas escolas particulares,
não é capaz de ofertar alunos que saibam dizer uma simples frase, a
inexistência de um site que disponibilize os conteúdos a serem
trabalhados por alunos e professores e muitos outros itens que
poderiam ser citados.
A centralidade dada à tese da falta de
recursos tem impossibilitado a oposição vinda dos sindicatos e dos
movimentos políticos e sociais da construção de um projeto
pedagógico em torno do qual se mobilizar. Pode mesmo ter servido de
escudo para escamotear a incapacidade e/ou desinteresse em
apresentar um projeto alternativo, sob análises e indicações
factuais. Com o decorrer dos anos, acostumamo-nos, ao lado das
permanentes e até ácidas críticas, com a inexistência de projetos
alternativos e o vazio de não haver no país, em muitas áreas, outras
propostas que não as apresentadas pelo governo. É assim que se forma
uma oposição passiva, incapacitada de ir além de opiniões e críticas
sobre projetos construídos por outros.
Vivemos hoje num mundo em que a cada vez
mais requer um grau mais elevado de instrução por parte do mais
simples dos cidadãos. A exploração sobre os trabalhadores e a
produtividade das empresas não depende somente do tipo de atividade
que os empregados realizam em seus limites físicos, mas, também, da
atividade exercida fora da empresa, incluindo-se ai o público em
geral. As empresas não requerem somente a qualificação específica e
a labuta interna de seus funcionários mas precisam, ainda, que estes
saibam navegar pela Internet, manusear caixas eletrônicos, dirigir
automóveis, preencher formulários, desenvolver opiniões e
expressá-las corretamente, participar. Da mesma forma, pode ser
desejável não ser obeso e se premia ou se escolhe quem pratica
exercícios físicos, não fuma, não bebe. Pode-se exigir quem possui
uma dada cor, uma dada altura, um dado gosto cultural, um dado
padrão comportamental incluindo até a participação em projetos
sociais.
O público externo é mais ou menos
produtivo conforme é capaz de dirigir automóveis, manusear
computadores e todo tipo de aparelho eletrônico, ler e instruir-se,
captar, selecionar e analisar informações podendo emitir pareceres,
locomover-se no meio urbano, executar operações bancárias, manusear
cartões eletrônicos, renovar cadastros e outros mais. É atestado
disso a dependência que lojas, bancos e muitas empresas têm de um
dado comportamento do consumidor. Também o sucesso de programas como
o Orkut e o Big Brother, cuja enorme riqueza é proveniente da
participação e exploração da atenção, o que só é possível pela ampla
contribuição das pessoas para a evolução desses programas. Na
sociedade atual, não ser obeso, não fumar, não usar estupefacientes,
ter uma dada formação biológica já insere a pessoa numa linha de
produtividade que se alarga conforme ela participa e contribui
adquirindo uma ampla capacidade de executar tarefas. Muitas tarefas
para as quais se contratavam funcionários são executadas
gratuitamente pelo público, com a disseminação do self. Essa
linha se expande com a participação propositiva, quando preenche
formulários e emite opiniões, permitindo às empresas se apropriarem
de um saber coletivo. Daí que um exemplo de pessoa improdutiva possa
ser facilmente detectado na presença daquelas que, nos bancos,
causam gastos à empresa e transtorno aos demais por serem incapazes
de manusear os caixas.
Numa conjuntura como essa, mesmo aquela
parcela da classe trabalhadora condenada aos trabalhos mais rudes,
mais sujos e menos intelectualmente arrojados necessitam desenvolver
capacidades intelectuais que os habilitem a não serem empecilhos ao
mundo contemporâneo. Enfim, trabalhadores mais bem instruídos são
trabalhadores mais produtivos, mesmo quando desempregados ou
subempregados.
O Quadro Escolar e a Secretaria:
Mudanças em 2008
São fatores que se deve levar em conta
na apreciação da Proposta Curricular do Estado de São Paulo, cuja
implementação iniciou-se em 2008, sob a Secretária de Educação Maria
Helena Guimarães de Castro, empossada no final de 2007.
A rede de escolas encontrada pela
Secretária constitui um todo caótico onde, geralmente, alunos não
estudam ou não conseguem estudar, professores não ensinam ou não
conseguem ensinar, coordenadores não coordenam, diretores não
dirigem, supervisores não supervisionam, dirigentes não gerem e não
concebem. Fruto de um abandono de gestão acumulado por décadas.
Embora a existência teórica, a
secretária encontrou escolas que eram tocadas sem um sistema de
ensino comum – cada um ensinava o que queria ou seguia o livro
didático -, sem planos de aula, sem planos de ensino, sem projetos
pedagógicos – tanto das unidades quanto das diretorias-, sem
regimento interno, sem regimento disciplinar, enfim, sem a mínima
padronização e parâmetro na gestão das unidades, de forma a garantir
maior eficácia e racionalidade.
Encontrou uma rede onde é forte a
sabotagem do ensino por parte dos alunos, idem para a violência e a
agressividade, onde é parca a participação de pais e outros atores
da sociedade, assim como, fraco o apoio por parte destes. Uma rede
sem simetria onde cada escola escolhe o seu material didático, cada
professor decidia qual conteúdo trabalhar, de forma que, além de
haver livros diferentes de ano para ano, há também diferentes de
escola para escola. Duas oitavas séries de escolas próximas
dificilmente estariam estudando o mesmo tema e o mesmo material
didático. Duas oitavas séries de uma mesma escola, sob professores
diferentes, poderiam estar estudando Revolução Francesa numa e
Brasil Regência na outra. Ou passar o ano recheado de filmes nada
didáticos e nada relacionados com o tema concernente à disciplina.
Some-se a precariedade dos professores, outras mais, e seriam
necessárias muitas linhas para narrar em minúcias o quadro
encontrado e que pode facilmente colocar a educação como o mais
degradado dos serviços públicos.
Diante desse quadro, a secretária e sua
equipe têm introduzido um choque de gestão na educação paulista. O
grande impacto tem sido reconhecer alta e claramente que os
professores não são suficientemente preparados para lecionar, nem
quanto ao rumo e método, nem quanto ao conteúdo. Isso porque,
vítimas de um ensino básico infeliz, conheceram, ainda, um ensino
superior que não forma bons professores, quando há alguma intenção
desse tipo. É tão grande o número de disciplinas existentes nas
unidades de ensino superior – muitas delas são ensinadas somente em
uma - quanto a distância dos cursos com relação ao chão de escola, a
realidade do quadro escolar (Nova Escola, Outubro de 2008).
A secretária constituiu equipe de
especialistas com o intuito de assumir a responsabilidade em definir
um currículo comum às milhares de escolas, instruindo sobre o que
deve ser ensinado em cada etapa de cada ano. Não é mais o professor
quem decide sobre o que deve ensinar, devendo seguir o que é
determinado pelo sistema de ensino. Ao mesmo tempo, ofertou aos
professores instruções quanto ao conteúdo e o método a serem
aplicados na gestão do ensino. As orientações chegaram, primeiro,
mediante o Caderno do Professor e videoconferências; segundo,
em videoaulas componentes de um curso on-line, ministrado à toda a
rede. Curso esse orquestrado pelos próprios especialistas que se
encarregaram da produção da Proposta Curricular e do Caderno do
Professor.
Este último constitui material mais
adequado que os livros didáticos tradicionalmente ofertados. O
Caderno do Professor traz o quê e como ensinar, direcionando-se
ao professor e apresentando-se como um manual prático de didática.
Contém o conteúdo, o método e o arcabouço conceitual necessário ao
aprendizado, quando os livros didáticos, na verdade direcionados aos
alunos, possuem somente o conteúdo. Os livros didáticos são somente
manuais de estudo e não manuais de ensino, como o Caderno do
Professor.
Neste 2009, estarão disponíveis cursos
de especialização a distância -360 horas - nas diversas disciplinas
componentes do currículo e outras três sobre gestão. Também, os
professores poderão participar de cursos de informática, igualmente
por Internet. Esse último é resultante de uma parceria com a Intel.
Os demais são componentes da Univesp – Universidade Virtual do
Estado de São Paulo – formada por um consórcio entre USP, UNESP e
UNICAMP e que fornecerá cursos de acordo com a grade curricular e as
necessidades da rede oficial de ensino, o que não é feito pelas
faculdades atualmente.
As vídeoaulas são de muito boa
qualidade, não deixando nada a dever às melhores aulas das melhores
universidades paulistas ao passo que superam as muitas aulas
medianas que caracterizam o ensino superior e as licenciaturas,
tendo a vantagem de versar sobre os conteúdos que são aplicados em
sala de aula, trazendo, ainda, experiências práticas de didática
para serem problematizadas. Um fórum virtual é criado em torno de
cada videoaula para publicar as dúvidas, apontamentos e debates
suscitados.
A Secretaria também assumiu a má
qualidade das equipes diretivas e tem se encarregado de orientar as
equipes gestoras quanto aos procedimentos e para isso há, também, o
Caderno do Gestor e oferecimento de cursos para qualificação
na área. A partir de um sistema de avaliação de todas as unidades,
instituiu o IDESP – Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado
de São Paulo – que fornece um panorama do patamar educacional da
rede e de suas mais de 5.500 unidades. Esse índice tem sido
utilizado para detectar a quantidade de alunos e unidades escolares
que possuem um rendimento insuficiente e para estipular metas para
as mesmas. Por exemplo, dados de 2007, sabe-se que 29,7% dos alunos
de 1º a 4º série, 18,2% dos alunos de 5° a 8° séries e 12,8% dos
alunos do 1° ao 3° ano do ensino médio possuem um aprendizado
considerado adequado, o que significa que mais de 70% do primeiro
ciclo, mais de 80 do segundo e quase 90% do terceiro estão entre o
básico e o abaixo do básico. Esse índice mostra a diferença entre os
ciclos, entre escolas e entre as regiões, permitindo um conhecimento
mais exato. (http://idesp.edunet.sp.gov.br/Arquivos/SumarioExecutivo.pdf)
Mediante decreto, tem procurado combater
o absenteísmo (segundo a Secretaria da Educação, as faltas por
atestado médico passaram de 398 mil, de maio a outubro de 2007, para
163 mil, no mesmo período de 2008 – Folha de São Paulo, 4/12/2008) e
a rotatividade de docentes, assim como, introduzir a meritocracia
como critério de classificação para escolha de aulas e obtenção de
bônus salarial. Os mais de cem mil professores temporários foram
submetidos, em dezembro de 2008, à avaliação classificatória.
Ainda, no final de 2008, a Secretaria enviou questionários aos pais
dos mais de 1,8 milhão de alunos que serão avaliados no SARESP
(Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo)
para que expressem uma mensuração sobre o cotidiano e a qualidade da
escola onde os filhos estudam.
A Secretaria dobrou o número de
professores coordenadores nas escolas, passando a existir um
professor coordenador por cada ciclo, um para o fundamental do 5° ao
8° ano e um para o ensino médio. Enviou para as escolas um kit
contendo três livros de literatura para doação a cada um dos 3,3
milhões de estudantes que há do 5° ano do fundamental até o 3° do
ensino médio (www.educacao.sp.gov.br,
acesso em 24/11/2008). A Secretaria ensaia a criação de cargos de 10
horas aulas semanais para alojar cursos com pequeno número de aulas,
como física e sociologia e ensaia um plano antiviolência para as
escolas, para o qual tem desenvolvido materiais. Desenvolveu um
programa especial de alfabetização, de recuperação intensiva, de
diversificação curricular do ensino médio e pretende aplicar um
plano para atender as escolas com os menores indicadores de
qualidade.
Algumas medidas tomadas têm criado
calorosas polêmicas. Houve paralisação de professores no final do
primeiro semestre de 2008, principalmente porque, originariamente, o
governo pretendia impedir transferências de professores faltosos e
não contratar quem fosse reprovado na avaliação a que os docentes
serão submetidos. A APEOESP, sindicato dos professores, entrou com
liminar na justiça e conseguiu a anulação da avaliação dos
professores, de forma que a atribuição em 2009 não pode levar em
conta o desempenho na mesma. Por outro lado, o governo se recusou a
acatar lei federal que determina que um terço da jornada de trabalho
deva ser destinada ao preparo de aulas, qualificação e correção de
provas etc. Conseguindo, por fim, a anulação da lei na justiça
(Folha de São Paulo, 9/10/2008).
Observações Finais:
Não é necessário afirmar que o projeto
educacional implementado pela Secretaria não pretende solapar as
estruturas de poder e as formas de desigualdade existentes na
sociedade. Assim como ações desenvolvidas por outros órgãos, como o
Ministério da Educação, a Secretaria pretende somente ampliar o
acesso à educação no país e torná-la mais produtiva, de melhor
qualidade, dentro de um quadro em que não se aumente muito os
investimentos na área. No entanto, diante da barbárie existente, e
da inexistência de um projeto educacional alternativo formulado no
âmbito das organizações populares, as ações tem adquirido um caráter
positivo.
A atuação da Secretaria tem lançado um
sólido alicerce mediante o qual se pode buscar a organização da
caótica educação; é voltada para uma melhoria do ensino público e
essa tem se iniciado com a tomada de responsabilidade sobre a
definição do currículo, método de ensino e a qualificação dos
professores. Um sistema com mais de 240 mil docentes não pode ficar
a cargo do mar desgovernado que é o ensino superior no país: 50% dos
professores afirmam terem sido mal preparados (Nova Escola, outubro
de 2008). Num lado, nenhuma regulamentação e/ou fiscalização permite
que qualquer quartinho se assuma como unidade de ensino superior. No
outro, uma autonomia universitária – esconderijo de anjos e demônios
– permite que dinheiro e talento sejam jogados no lixo. Há um
completo descompasso entre o ensino superior e o ensino básico.
Mesmo quando as faculdades são de qualidade não conseguem agregar
adequadamente saber ao ensino escolar, dado a total falta de
sincronia entre as unidades de ensino nas mais variadas escalas,
como atesta o próprio Ministro da Educação, Fernando Hadadd (Nova
Escola, outubro de 2008).
Ao estipular um currículo comum,
padronizando o que é ensinado em toda a rede, ao orientar os
professores quanto ao método e forma de ensino, assim como, quanto
ao conteúdo; ao estipular metas, atrelar o bônus salarial ao
desempenho, ao avaliar os docentes e alunos, combater o absenteísmo,
buscar uma avaliação da clientela sobre o ensino ofertado, aumentar
a oferta de material didático, dar orientações aos gestores e buscar
uma qualificação de todo o pessoal sob o comando e sob as
necessidades e interesses da própria rede de ensino, a Secretaria
tem dado importante passo na melhora desta. A Secretaria de
Educação mostra sobriedade ao assumir a responsabilidade com o
sistema de ensino do Estado. Afinal, não parecia estranho que o
Estado de São Paulo, dono de importantes universidades públicas, das
quais algumas figuram dentre as melhores do mundo, tivesse que
comprar material didático da iniciativa privada e pagar a esta para
qualificar seus professores?
Existem enormes lacunas: inexiste uma
discussão sobre e um sistema avaliativo que seja aplicado
bimestralmente aos alunos, as avaliações ficam a cargo do que decide
cada professor. Inexiste um sistema disciplinar que padronize os
atos considerados de indisciplina e as punições correspondentes:
numa escola é proibido mascar chicletes e namorar; em outras,
encontrar um aluno com revólver ou ter um professor agredido sequer
é motivo para suspensão. Inexiste um sistema padronizado de envio e
acesso de materiais: objetos encontrados e acessíveis numa escola
não o são noutras. Inexiste uma definição clara sobre qual é o papel
e a utilidade dos diários de classe, das festas etc. Inexiste uma
padronização para o preenchimento de inúmeros documentos como plano
de ensino, listas de notas e presenças, aulas dadas como eventual.
Inexiste uma série de materiais necessários ao fazer pedagógico.
Inexiste um material didático padronizado, como já citado. E muitos
outros elementos.
Há importantes contradições: ao mesmo
tempo em que a Secretaria tem buscado, sob métodos tecnocráticos,
alavancar a qualidade da educação inscrevendo a meritocracia como um
elemento estruturante desta, há um enorme clientelismo que, por toda
a rede, infesta de gente desqualificada os mais importantes cargos,
muitos assumidamente por indicação política (Folha de São Paulo,
21/08/2008). No final das contas, com todas essas ações e mudanças e
com o muito que resta por fazer sabe-se e assume-se, dentre outros,
que há um enorme problema de gestão. Do qual não pode escamotear-se
o PSDB, que governa o Estado há 13 anos, partido da Secretária
atuante na gestão José Serra (2007-2011). A contradição alarga-se
quando a Secretaria de Educação recusou-se a acatar lei federal que
estipula um terço da carga horária do docente para qualificação e
atividades extraclasse.
No mesmo sentido, é um grave problema o
fato de a Secretaria pretender a melhoria do ensino ao passo que
baseia sua política educacional na manutenção de um contingente de
mais de 100 mil professores, quase metade, sob regime de contratação
precário e sob condições de trabalho mais precárias ainda que
incluem a falta de materiais, o stress, a violência e agressividade,
a jornada longa de 33 aulas semanais as quais se juntam horas de
locomoção, de espera em escolas, de trabalho não pago na correção
de provas e exercícios, de preenchimento de documentos, de
qualificação etc. Outro problema é a não fiscalização e ineficiente
regulamentação sobre o ensino superior, responsável pela má formação
dos professores.
Por fim, embora a Secretaria busque uma
maior qualificação dos trabalhadores, cabe indagar se uma grossa
camada da juventude, previamente destinada aos trabalhos mais rudes
e/ou das camadas inferiores na escala das profissões, destinada,
enfim, a uma vida de desgaste físico e mental, de preconceitos e
humilhações, há de se interessar em gastar cinco ou seis horas
diárias em esforços para se qualificar para um mundo que as nega,
que as circunda aos cantos das periferias, ao lado bárbaro da
sociedade atual. O crescimento econômico na globalização tem
significado a marginalização de amplas parcelas da população.
Num país em que os 25% mais ricos
possuem desenvolvimento intelectual similar aos 25% mais pobres dos
países da OCDE, em que, portanto, nem a elite se interessa muito em
estudar, cabe perguntar se a Secretaria conseguirá motivar os muitos
alunos para os quais pouco se têm a oferecer. O Brasil, embora a
presença de setores tecnologicamente avançados, se estruturou
historicamente como um país de economia predominantemente informal,
especializado na produção de bens e serviços pouco complexos e de
baixo valor agregado. Onde o investimento
nos anos iniciais do ensino fundamental, que trazem retorno
financeiro (sobrevivência) rápido, já permite a inserção direta de
amplos segmentos da população na economia informal. A discussão
sobre educação não pode escamotear a profunda desigualdade de
destinos econômicos que os alunos possuem. Como é bem sabido de todo
professor, cotidianamente torpedeado com a velha questão discente:
estudar pra quê?
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