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JOSÉ
HENRIQUE DE FARIA
Economista
(FAE), Mestre (UFRGS) e Doutor (FEA/USP) em Administração,
Pós-doutorado em Labor Relations (ILIR/University of Michigan).
Professor do Programa de Mestrado em Organizações e
Desenvolvimento, da FAE Centro Universitário

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O capitalismo totalmente
flexível:
o adeus ao liberalismo e ao
keynesianismo clássico e a metamorfose da economia de mercado
José Henrique de Faria
Os liberais clássicos defendem a
concepção do Estado Mínimo, da não intervenção do Estado na economia
e da livre concorrência. O mercado é a entidade divina em que todos
os problemas, todos os desequilíbrios e todas as crises se
resolverão graças ao processo naturalizado de seleção competitiva.
Os liberais contemporâneos ou os novos liberais, no entanto, ainda
que continuem endeusando o mercado, são como aqueles filhos que
decretam sua independência e vão morar fora da casa dos pais, sem,
contudo, deixar de receber uma polpuda mesada. Na primeira crise
financeira, estes filhos liberais ligam imediatamente para a casa
dos pais pedindo dinheiro para pagar as despesas. Se, com o tempo,
esta estratégia não der resultado, os filhos liberais voltam a
habitar o estado da casa dos pais até que as coisas melhorem e eles
possam, novamente, reclamar o ambiente privado de sua independência.
Dizem que este comportamento é um
resgate do keynesianismo. Mas, para o keynesianismo a questão
central está na demanda efetiva, ou seja, na proporção de renda
gasta em consumo e investimento. O pai keynesiano incentivaria seu
filho capitalista a gastar e a investir, pois ele adota um conjunto
de idéias que propõe a intervenção estatal na vida econômica com o
objetivo de conduzir a um regime de pleno emprego. O pai keynesiano
acredita que a economia segue o caminho do pleno emprego, sendo o
desemprego uma situação temporária que desaparece graças às forças
do mercado. O objetivo do keynesianismo é manter o crescimento da
demanda em paridade com o aumento da capacidade produtiva da
economia, de forma suficiente para garantir o pleno emprego, mas sem
excesso, pois isto provocaria um aumento da inflação.
1. A falsa independência
Na vida em sociedade, os novos liberais
reclamam do Estado, mas não vivem sem ele. Na crise de acumulação,
esperam a mão visível do Estado a lhes prestar socorro, prover
infra-estrutura, investir em áreas estratégicas (comunicações,
transporte, energia, etc.). Assim que a situação melhora, desejam
privatizar todas as atividades em que possam acumular, criticam o
Estado e ainda consideram que este é o maior culpado pelos seus
problemas. Reclamam da política de juros dos bancos centrais e
censuram o endividamento público e os comprometimentos fiscais, sem
confessar que estas medidas foram ou são tomadas para proteger o
mercado e o sistema de capital. São filhos ingratos, porém sempre
perdoados pelo pai Estado Capitalista, já que a razão da existência
deste é proteger o sistema produtivo que o forjou.
Estes novos liberais, usando os
discursos dos liberais clássicos, têm se mostrado ligeiros em
questionar o apetite tributário do Estado, perguntando “quem paga a
conta?”. Pergunta justa se não fosse contraditória. Os defensores do
livre mercado, da livre concorrência, da seleção competitiva dos
bons negócios e das empresas de sucesso, são os primeiros a se calar
quando o Estado eleva seu endividamento para injetar bilhões ou
trilhões de dólares na economia para salvar empresas privadas. Por
quê? Porque não se trata de salvar apenas uma indústria, um banco ou
uma financeira. Trata-se de salvar o sistema de capital e sua
ideologia. Por isso, este Estado não é um ente qualquer, mas um
Estado Capitalista. A contradição que se evidencia nos discursos é
que os liberais reclamam de algo que lhes beneficia apenas quando
este algo os incomoda, porque tal política do Estado, para manter
coesa a unidade da formação social, precisa igualmente oferecer
algumas sobras aos setores sociais. Estas sobras parecem incomodar
porque aumentam o gasto e/ou a dívida pública. É certo que muitos
programas não são sociais, mas populistas e assistencialistas,
contudo, parafraseando Lukács (2008), mesmo o pior destes é melhor
do que o melhor programa de transferência de recursos públicos para
as grandes corporações privadas para resolver os problemas
decorrentes de suas contradições e das suas gestões irresponsáveis.
As reclamações são ainda mais enfáticas quando o Estado penetra no
terreno que os liberais entendem que podem ser objeto de
mercantilização: educação, saúde e infra-estrutura (energia,
saneamento, rodovias, portos, aeroportos, etc.). Há algum tempo, de
fato, bancos de investimento vêm tentando privatizar as pensões
públicas e, de forma total ou parcial, as rodovias, aeroportos,
pontes, sistemas de energia, água e saneamento. Quem pode confiar em
apostadores insensatos das bolsas administrando serviços essenciais?
Só mesmo os liberais, que acreditam na capacidade deificada do
mercado. Sem a vigilância, a coordenação e a administração do
Estado, estas atividades se tornariam o berço da mais ampla e
desenfreada ganância.
2. Acusações e falsas explicações dos
liberais: o golpe foi sentido.
Os liberais vociferam a favor das
políticas de privatização por entender que o mundo competitivo tem
demonstrado ser muito mais eficaz e eficiente do que o mundo das
estatais e, last but not least, não tão sujeito à corrupção.
Os ideólogos do mercado separam a “economia real” da “economia
virtual” e dizem que os problemas da economia foram causados pelos
keynesianos e não pelos liberais e que as críticas que recebem são
formuladas pelos que não sabem o que é liberalismo.
2.1. Primeira falsa explicação: a
política privatista é a supremacia do mercado
No primeiro caso, cabe perguntar qual é
a real diferença entre o aporte de recursos públicos do Estado em
uma empresa estatal e o aporte de recursos públicos para um grande
banco, uma financeira, uma grande indústria, enfim, uma corporação,
para salvar, além do sistema econômico dominante, sua péssima,
ineficiente, ineficaz e irresponsável gestão? Quem paga esta conta?
Esta questão, que parece preocupar tanto os liberais contemporâneos,
levanta uma terceira. Não é o trabalhador quem paga esta conta? Os
liberais dirão que esta conta recairá sobre “os consumidores ou os
contribuintes que pagam impostos”. Não importa como os trabalhadores
sejam chamados pelos liberais. Afinal, isto é uma filigrana
ideológica. O que importa é que no caso do aporte de recursos
públicos para uma organização privada, há uma transferência, entre
unidades capitalistas, de valor excedente gerado pelo trabalho no
processo de produção de mercadorias, intermediada pelo Estado.
Simplificando: a força de trabalho
produz mais valor que o seu próprio valor. Este valor excedente é
apropriado pelo capital, que o destinará para a formação de seu
capital constante e variável, de onde acumulará de forma simples ou
ampliada, pagará a força de trabalho, as matérias-primas, os demais
custos e, também, os recolhimentos dos tributos. O tributo
arrecadado pelo Estado, seja no recolhimento feito diretamente na
produção, seja na esfera da circulação (na comercialização) decorre
da apropriação de trabalho não pago. Tributo é uma parte do valor
excedente gerado pela força de trabalho e é assim que uma parte do
orçamento do Estado, obtido pela carga tributária, pode ser
transferido da esfera pública para, entre outros destinos,
organizações privadas ineficientes, ineficazes, irresponsavelmente
administradas ou mesmo para alavancar a expansão do sistema de
capital ou de empreendimentos capitalistas. O sistema de apropriação
privada do valor excedente apenas troca de mãos com a intermediação
e o aval do Estado: sai do valor excedente gerado pelo trabalho,
torna-se receita tributária, passa pelo orçamento público e vai para
a esfera da circulação do capital, através de títulos, empréstimos,
subsídios, renúncia fiscal, etc. favorecendo a acumulação. No caso
do aporte de recursos em empresas estatais, há esta mesma
transferência de excedente, ou seja, o processo é quase o mesmo, com
a diferença de que os valores financeiros permanecem na esfera
estatal e, portanto, são contabilizados como patrimônio público.
2.2. A primeira acusação: a corrupção
é inerente ao Estado
No segundo caso, que trata da corrupção,
que para os liberais parece ser inerente ao Estado, não resta
nenhuma dúvida, e aí estão disponíveis todas as notícias e
informações que se tem dos grandes conglomerados, que a mesma está
lá no setor privado, operando com grande desenvoltura. Às vezes,
disfarçada em denominações pomposas, tais como “lobby”, “jogos
estratégicos no mercado de ações”, “fusões e incorporações”, etc.
Outras vezes, operando diretamente, através de variadas formas. O
que se deve notar é que a crítica dos liberais contemporâneos sobre
a corrupção invariavelmente é moralista. É de todo evidente que não
existe corrupção sem corruptor e corrompido e que ambos são
corruptos. Mas, o fato de que muitos “favores” do Estado são obtidos
desta forma de troca não pode ser analisado somente nesta ótica
kantiana da ética e da moral. Estas relações se transformam em
procedimentos naturalizados de negócios entre o setor público e as
organizações privadas no sistema de capital, utilizando inclusive de
artifícios que são “aceitos” nas normas jurídicas de prestação de
serviços, realização de obras, contratos de parcerias, vendas de
mercadorias, concessões, etc. São, portanto, relações históricas de
materialidade social, jurídico-política, ideológica e econômica.
Deste modo, somente as ações de fiscalização, investigação e
autuação por parte de agências do próprio Estado, em sua condição de
representação, são capazes de desmascarar estas relações, não em seu
aspecto moralista, mas político. Mesmo assim, a fiscalização ficará
sempre restrita ao ordenamento jurídico do Estado Capitalista.
2.3. A segunda acusação: culpa não é
dos liberais, mas dos social-democratas
No terceiro caso, a acusação feita aos
keynesianos ou aos social-democratas chega a ser metafísica. Eles
não percebem ou não desejam perceber que a questão não está na
disputa entre keynesianos, liberais, monetaristas, neokeynesianos,
social-democratas ou novos liberais. A raiz do problema está nas
contradições do sistema de capital. Nenhum modelo será capaz de
conter o que é inerente ao sistema devido à sua forma de
organização. As fórmulas, sejam liberais, sejam keynesianas ou
social-democratas, são tentativas de conter as crises de acumulação,
mas de fato apenas as retardam ou as adiam, como nos mostra a
história do sistema de capital. As discussões acusatórias deste tipo
são superficiais, ideológicas, inócuas e irrelevantes.
Mas, é interessante que os liberais, que
agora acusam o golpe, estejam tão preocupados em desqualificar seus
críticos acusando-os de não compreenderem o que é realmente o
liberalismo. Robert Fendt (2008), em artigo na Folha de São Paulo,
aconselhando “moderação e tolerância” aos liberais com as críticas
que, segundo sua concepção, decorre de equívoco semântico, afirma
que as crises são conseqüências de uma junção entre conservadorismo
e social-democracia. Os liberais, para Fendt, são contrários à
intervenção, favoráveis ao risco acompanhado de responsabilização
ou, como alternativa sem benevolência, à capitalização do sistema
financeiro. Os liberais não são os culpados pela crise. Não há como
discordar de Fendt. Os liberais não são e nem podem ser
responsabilizados em primeiro lugar porque o próprio liberalismo
econômico deixou de ser uma prática e hoje não é mais do que uma
ideologia. Em segundo lugar porque nem o liberalismo, nem a
social-democracia, o keynesianismo ou qualquer outro modelo podem
ser responsabilizados por uma crise que é própria do sistema de
capital. É muita pretensão querer ser a causa da crise ou sua
solução. Estes modelos são tentativas de conter o inevitável e todos
fracassaram.
Os liberais estão hoje provando de seu
próprio veneno. Desde o início dos anos 1960 os liberais se
especializaram em decretar a morte do marxismo, em tratar a teoria
de Marx como lixo histórico, em considerar a queda do muro e as
transformações na antiga URSS e na China como o fim do socialismo e
a vitória insofismável da economia de mercado. Quem realmente não
conhece o que critica? Os liberais desfilaram seus argumentos com a
crise do keynesianismo, que de fato foi mais uma crise do
capitalismo, tentando convencer a todos que a economia de mercado e
a liberdade social e política estava de volta. Mas, a realidade não
se submete à ideologia. A economia de mercado é dependente do Estado
capitalista e as liberdades individuais, sociais e políticas são
restritas não só às regras deste mesmo Estado, como à lógica da
acumulação capitalista, à sua “ética”, à exploração da força de
trabalho, aos contratos de trabalho da pior espécie, à exploração da
mão de obra infantil e escrava, à discriminação de todo o tipo
baseada na liberdade de crença e de profissão de fé. Os liberais
certamente têm todo o direito democrático de continuar professando
sua ideologia, pois é o que lhes resta a fazer, porque no mundo
concreto seu projeto é peça do museu acadêmico, juntamente com o
keynesianismo.
2.4. A segunda falsa explicação: a
economia real é diferente da economia virtual
No quarto caso, para completar o quadro,
os ideólogos apresentam o conceito de “economia real”. De fato, a
recente crise do sistema financeiro trouxe de volta, com maior
ênfase, o conceito de economia real. Este conceito foi, de certa
forma, surrupiado do marxismo, mas tem sido usado de maneira um
tanto peculiar. No marxismo a economia real é a que se refere ao
setor produtivo, ao setor que produz valor, o qual entra em choque
com a forma de capitalização da economia. Contudo, diversos
economistas, jornalistas, comentaristas e “profissionais do mercado”
chamam de economia real a que se baseia na produção de bens e
serviços, na circulação ou distribuição e no consumo, atendendo
assim as necessidades das pessoas, sejam efetivas, simbólicas ou
“criadas” através do marketing e da publicidade. Na economia real
estão igualmente o trabalho, os salários e a renda em geral que
corresponde ao PIB. A economia real, segundo esta concepção, se opõe
à economia virtual ou fictícia, na qual estão o capital
especulativo, os títulos mobiliários (especialmente os sem lastro ou
“podres”), o cassino das bolsas. A economia virtual nada produz,
apesar de proporcionar ganhos substantivos aos
especuladores-jogadores.
No entanto, há uma inevitável pergunta:
a chamada economia virtual ou fictícia não é real? A recente crise,
então, seria uma obra de ficção, fruto da mais pura imaginação? Tudo
o que foi feito e falado até agora não existiu? Qualquer pessoa sabe
que a especulação que se dá no cassino de moedas e de títulos e
ações, promovendo a financeirização da economia e a secundarização
do setor produtivo, é real. A crise atual não é virtual ou
imaginária. Por que, então, se insiste em separar a economia em real
da virtual se ambas são reais? Por pelo menos três motivos
principais: (i) deficiência de natureza epistemológica, teórica e
metodológica; (ii) conveniência teórica ou prática que permite
criticar a “economia virtual” pelos problemas que esta causa à
“economia real”; (iii) mascaramento ideológico que visa preservar as
virtudes da chamada “economia de mercado” sem sujá-la com a lama
podre que esta produz: a especulação. As explicações parecem todas
voltadas a uma justificação oportunista segundo a qual o virtual é
disfuncional. Convém desembaraçar este nó teórico e ideológico. A
separação entre as esferas de circulação de mercadorias e de capital
não pode servir de justificativa para afirmar as virtudes de uma
economia real frente aos males da economia virtual. Quando Marx
separa estas esferas, ele o faz para mostrar as contradições do
sistema de capital e não para indicar uma “disfunção”.
O sistema de capital é concentrador de
renda. Basta notar que a fortuna dos três maiores megamilionários do
planeta corresponde à renda de cerca de 600 milhões de pessoas. Mais
de 80% da renda mundial está na mão de menos de 5% de sua população.
Com a concentração de renda o consumo dos trabalhadores é contido e
a empresa, por sua vez, não vende, ou seja, não realiza o valor.
Reduzindo a produção, reduz-se o emprego e, em conseqüência, a renda
das famílias. As empresas não investem em equipamentos e
desenvolvimento de tecnologias. A insuficiente massa salarial traz,
ao cenário da história, o sistema de crédito no qual o consumo se dá
sobre uma renda ainda não produzida e os investimentos ocorrem sobre
uma acumulação futura. O capitalismo, atualmente, é inteiramente
dependente do crédito. Não só o crédito para aquisições de grande
porte, como máquinas e equipamentos ou a aquisição de imóveis para
fins de habitação, mas as do consumo cotidiano, como vestuário e
alimentos, facilitado pelos cartões de crédito. O crédito, neste
caso, é a financeirização do consumo.
Ao mesmo tempo, o valor excedente gerado
na produção não é suficiente para a expansão do capital. Este vai
tomar o dinheiro adiantado no sistema financeiro. Mas, também esta
operação é insuficiente. O sistema de capital, então, como nos
mostram os fatos históricos, começa a “produzir papéis”, ou seja,
títulos, hipotecas e ações para captar dinheiro junto ao poupador
individual oferecendo-lhe a oportunidade de uma taxa de retorno mais
atraente do que a que possuía. Somando crédito, títulos, hipotecas,
ações, entre outras formas de adiantamento, o capital se expande,
financiando suas vendas e investimento. O descontrole deste processo
produz um livre jogo no mercado da especulação, abala a
credibilidade do sistema colocando-o em crise, que é tipicamente uma
crise entre a circulação de mercadorias e a circulação de capital.
Foi uma crise deste porte, mas de proporções então não esperadas,
que desembocou naquilo que ficou conhecido como a Grande Depressão
de 1929-1930.
O Estado Capitalista intervém para
regular a farra e, de certo modo, entrar nela, participando com a
emissão de títulos públicos para financiar seu custeio e seus
investimentos, já que a arrecadação, pelo mesmo motivo que levou o
sistema de capital a captar recursos fora da produção, é
insuficiente e o aumento da carga tributária torna a quantidade de
moeda em circulação ainda menor. A especulação perde a timidez
inicial e torna-se voraz. Entretanto, a remuneração dos ativos
financeiros, ou seja, dos títulos, hipotecas e especulação com as
ações, obviamente precisa sair de algum lugar, porque dinheiro não
gera diretamente mais dinheiro. É necessário que entre o dinheiro e
o mais dinheiro haja uma mediação e a mesma é realizada pelo
trabalho produtivo em atividade, pela força de trabalho, pois é esta
que gera o valor excedente do qual sai uma parte que remunera os
ganhos da especulação.
Em resumo, a “economia real” criou e se
alimenta da “economia virtual” ou fictícia e esta sobrevive graças
ao trabalho produtivo da “economia real”. É evidente que este
círculo não é uma ficção, o que leva à conclusão de que a separação
entre “economia real” e “economia virtual”, esta sim é que é
fictícia, falsa e ideológica, já que pretende encobrir as evidentes
contradições entre as esferas de circulação. A economia inteira é
real, da base produtiva ao cassino da especulação. Tudo faz parte de
uma mesma e única coisa: o sistema de capital.
3. A nova morte do morto: o último
adeus ao liberalismo
Longe destas cantilenas recorrentes, que
mais servem para desviar a atenção do que é fundamental, a atual
crise mostra o quanto os novos liberais mantêm um discurso deslocado
da prática. De acordo com o historiador Niall Ferguson, em artigo no
Financial Times publicado na Folha de São Paulo (2008), “a
nacionalização das instituições de crédito hipotecário, a quebra do
Lehman Brothers, a tomada de controle do Merrill Lynch pelo Bank of
America e o resgate do governo à AIG, a maior seguradora do país:
qualquer um desses episódios, isolado, teria constituído uma grande
crise financeira nos anos 1980 e 1990”. Mas, por que, hoje, esta
crise não ganhou esta tão estupenda configuração?
Seria devido ao bom funcionamento do mercado, segundo a ótica destes
liberais? Ou seria devido à intervenção do Estado? Em declaração à
Folha de São Paulo,
o historiador Eric Hobsbawm afirma, sobre o fato de o Estado Liberal
do Governo Bush abandonar a ideologia do mercado para controlar o
capitalismo, que a crise recente "marca o fim da desregulamentação e
do fundamentalismo de mercado". Tanto os EUA quanto a Europa, diz
Hobsbawm, "estão descobrindo o que a América Latina e a Ásia
conhecem de longa data: o quão séria uma crise do capitalismo pode
ser". Ao final, Hobsbawm pergunta: "quem poderia imaginar que Bush
teria de nacionalizar sua economia numa escala muito maior que
[Vladimir] Putin?". Como bem sustenta Maria Conceição Tavares
(2008), “o deus mercado virou diabo na terra do gelo”.
Não se trata de ser favorável à
estatização. Não é este o ponto. O sistema de capital deve viver
suas cada vez mais freqüentes contradições, pois esta é condição
dialética histórica de sua superação. A questão que se deve formular
refere-se à incoerência entre a concepção dos novos liberais sobre a
economia de mercado e suas relações íntimas de parceria com o Estado
Capitalista, este verdadeiro intérprete dos seus interesses. Não se
trata, portanto, de saber se, quando e com quanto o Estado deve ou
não intervir. O Estado já vem intervindo decididamente desde antes
da Grande Depressão de 1929, mas foi nesta emblemática crise que o
Estado realmente operou a maior e mais contundente intervenção no
sistema de capital. A partir dali, sem a sua ação o sistema de
capital já teria experimentado crises de acumulação mais graves do
que aquela. Ferguson (2008), no referido artigo do Financial Times,
reconhece que o Estado “tem injetado dinheiro na economia de uma
maneira que causaria horror ao presidente Herbert Hoover e receberia
aplausos de John Maynard Keynes”. Esta é a realidade do sistema de
capital. O liberalismo clássico, como prática do modo capitalista de
produção, deu seu último suspiro justamente com a Grande Depressão.
É hoje um sistema morto. Morreu de infecção generalizada e falência
múltipla dos órgãos. O que sobrou do liberalismo é sua ideologia e
sua metafísica teórica, de pouca utilidade para o próprio sistema de
capital.
O último adeus ao liberalismo, em seu
enterro simbólico nas fendas provocadas no sistema de capital pela
atual crise, vem acompanhado de discursos tão vagos quanto
incoerentes pelos seus defensores em torno de sua sepultura.
Economistas liberais contemporâneos afirmam que todo o recurso
financeiro que o Estado, no caso dos EUA, alocará na economia não
será uma dádiva, mas um empréstimo que será devolvido aos cofres
públicos. Se esta devolução for realizada com extremo rigor, ou de
forma “limpa”, como defende Henry Paulson (Secretário do Tesouro dos
EUA), em cinco, dez, quinze ou trinta anos, isto em nada muda o fato
principal: a mão visível do Estado no socorro à crise de acumulação,
especialmente na esfera de circulação do capital. Os liberais
modernos argumentam em favor da forma procurando razões que não
existem para justificar o conteúdo. Mas, tal equívoco não lhes é
exclusivo. A discussão entre keynesianos, liberais, monetaristas,
desenvolvimentistas e novos liberais ou qualquer que seja o nome que
se lhes dê, percorre o mesmo caminho. A forma de organização da
economia pode mudar de liberal para keynesiana e desta para uma nova
economia de mercado e, de fato, muda sempre que há uma crise de
grandes proporções. Estas são apenas formas de organização,
funcionamento e gestão do capitalismo. O que não muda é o conteúdo,
ou seja, o sistema de capital.
4. O Keynesianismo clássico no
cemitério: o último prefixo da salvação.
Para o keynesianismo, o desemprego seria
o resultado de uma demanda insuficiente de bens e serviços e só
poderia ser enfrentado por meio de investimentos, fator dinâmico da
economia, capaz de assegurar o pleno emprego e de influenciar a
demanda. As crises decorreriam, para os keynesianos clássicos, de
variações nas proporções a investir e a consumir e de opções pelo
entesouramento (preferência pela liquidez), devendo ser enfrentadas
com políticas de investimentos e incentivos que sustentassem a
demanda efetiva. O Estado deveria ser dotado de instrumentos de
política econômica voltados ao Pleno Emprego, capazes de: (i)
regular a taxa de juros, mantendo-a abaixo da eficiência marginal do
capital (taxa de lucro); (ii) incrementar o consumo por meio de
expansão dos gastos públicos; (iii) expandir os investimentos para
absorver os recursos ociosos.
É certo que a experiência keynesiana não
apenas sepultou o liberalismo, como decretou definitivamente a
extinção de qualquer chance de ressuscitá-lo. Mas, o keynesianismo
também não foi totalmente uma solução para os problemas concretos do
capitalismo. Assim como o liberalismo, o keynesianismo foi uma
intervenção fenomênica que respondeu às necessidades imediatas do
sistema de capital diante de sua primeira grande crise. Tal como o
liberalismo, o keynesianismo clássico também já faz parte da
história do pensamento econômico como uma teoria que só pode ser
encontrada com um esforço arqueológico. As diversas soluções para o
capitalismo são apenas tentativas de contornar suas inevitáveis
crises. Assim, a nova crise do capitalismo no final dos anos 1950 e
início dos anos 1960, atribuída inadequadamente pelos liberais ao
fracasso do keynesianismo, trouxe ao cenário da história um novo
liberalismo, um liberalismo reformado, que adotou o discurso do
liberalismo clássico, mas não abandonou muitas das práticas do
keynesianismo. Esta mistura, que se julgava espúria, nem é
liberalismo e nem keynesianismo, já que ambos sucumbiram diante das
crises do sistema de capital. A visão de uma economia de mercado que
reclamava medidas de privatização, foi também uma outra tentativa de
salvar o capitalismo reavivando o espírito liberal, já que seu corpo
havia se transformado em pó. A crise atual do capitalismo demonstra
que o Estado não tem a função apenas reguladora ou a iniciativa de
movimentar a economia a partir de investimentos públicos, mas adota
a postura de parceiro preferencial no financiamento direto do setor
produtivo. No lugar dos já mortos e fracassados liberalismo e
keynesianismo, surge um capitalismo de outro tipo.
5. Capitalismo totalmente flexível
Como já foi dito, nenhuma das formas ou
modelos resolverá o problema do capitalismo, pois são inerentes ao
mesmo as crises de acumulação, dadas, como Marx já anunciava, pelas
contradições entre as esferas de circulação de mercadorias e de
capital. Mas, se o liberalismo morreu, a economia de mercado
continua viva, metamorfoseada em “economia real”, que nada mais é do
que uma denominação genérica para justificar a parceria entre a
lógica do mercado e a inconteste ajuda e proteção do Estado. A
“economia fictícia” dos ativos podres, do capital especulativo, é
preciso que se diga claramente, compõe o sistema de capital como sua
parte constitutiva, porquanto expressa uma de suas contradições. Na
realidade, o que os ideólogos do capitalismo desejam, em síntese, é
encontrar um “ponto de equilíbrio” entre a economia de mercado e a
ação reguladora e financiadora do Estado, capaz de manter o sistema
operando a contento, ou seja, um ponto em que o Estado controle os
“excessos do mercado” e o mercado determine os “excessos do Estado”.
O mundo perfeito do capitalismo versão Total Flex: mercado, Estado
ou ambos. Este é o Capitalismo Totalmente Flexível.
Este modelo, pode-se afirmar que é
imprecisamente designado de neoliberal ou (neo)keynesiano. Trata-se
de um híbrido de economia de mercado com patrocínio e proteção
estatal, em vários sentidos: criação de barreiras alfandegárias para
a “proteção da indústria local”; subsídios, para a “proteção contra
a maior produtividade externa”; depreciação acelerada, para aumentar
a apropriação de valores excedentes; financiamentos facilitados por
bancos de fomento; regulação ou desregulamentação das regras de
competição que interessam ao capital; socorro direto, com aporte de
grande soma de dinheiro (capital) às indústrias, bancos e
financeiras em dificuldades (como é o caso, por exemplo, da
Chrysler, do Long-Term Capital Management – LTCM, do Bear Stearns,
da Fannie Mae e da Freddy Mac); renúncia fiscal; participação
acionária no capital através de fundos de pensão de empresas
públicas; organização de associações entre empresas em forma de
joint venture, tudo em nome do equilíbrio do mercado. Esta ação
inevitável do Estado Capitalista é a garantia da acumulação ampliada
do capital.
O Capitalismo Total Flex está,
agora, dando demonstrações claras e evidentes de sua face. O Estado,
no caso os USA, aprovou o repasse de US$ 14 bilhões para as
montadoras GM e Chrysler, que estão em situação pré-falimentar. A
Ford ainda não entrou na lista, mas está ameaçada pela situação
econômica. O Governo do Canadá, especialmente em Ontário, ofereceu
em ajuda financeira 20% do valor que os USA aportassem, ou seja, US$
2,8 bilhões para a GM. Esta situação era absolutamente previsível já
em 2003 (FARIA, 2007). São milhões de empregos diretos e indiretos
que estão em jogo e não há como o Estado não intervir. Esta não é a
questão central em discussão. O que se discute é este discurso que
louva a economia de mercado ou que aposta na “boa política de
regulação” keynesiana, quando o que se vê não é senão uma associação
sólida entre Estado e Capital, pela ação direta daquele na
preservação e manutenção deste. Mais do que política de juros ou de
investimentos estatais, o Estado Capitalista transfere diretamente
valor excedente do setor produtivo para empreendimentos capitalistas
que não mais conseguem acumular.
Enquanto o Estado socorre o capital, a
situação social permanece como objeto periférico das atenções e dos
investimentos. Nos EUA, por exemplo, a taxa de desemprego de 6,1%
(9% em Michigan, onde se encontram as Big Three) é a mais alta em
cinco anos. Cada posto de trabalho na indústria automobilística gera
outros 9 empregos. Desde 2005 as Big Three já eliminaram cerca de
100 mil postos de trabalho. Em todo o USA 605.000 postos de trabalho
foram eliminados entre janeiro e agosto de 2008, ao mesmo tempo em
que o Governo Bush injeta bilhões de dólares de recursos públicos em
corporações privadas. A recente crise apenas mostrou, especialmente
nos EUA, em referência ao liberalismo contemporâneo, que ocorreu uma
nova morte do que já estava morto. Agora, é o espírito que também se
vai. Não há um novo liberalismo. Talvez fosse mais preciso se dizer
que há um novo keynesianismo, que não se porta mais como o modelo
clássico, pois agora este se presta a uma parceria direta na
capitalização dos empreendimentos produtivos. Como já foi dito, a
prática sugere que os modelos liberal e keynesiano fracassaram na
tentativa de salvar o capitalismo de si mesmo, de forma que todo o
sistema de capital está diante do Capitalismo Totalmente Flexível,
forma de associação da economia de mercado com a regulação e a
intervenção direta do Estado Capitalista no processo de acumulação
ampliada.
De fato, se não for esta a realidade,
como os novos liberais explicam esta nova crise de acumulação se não
de maneira metafísica? O que têm a dizer quando o Estado, no caso os
EUA, se dispõe a gastar US$ 1,3 trilhões para ajudar empresas em
dificuldades, quando pretende elevar seu endividamento público de
US$ 10,6 trilhões para US$ 11,6 trilhões apenas para socorrer
instituições financeiras e quando promete utilizar US$ 700 bilhões
para comprar títulos mobiliários “podres” do sistema financeiro? Que
dizer quando o Estado se dispõe a aportar US$ 14 bilhões a duas
empresas do setor automobilístico? Que economia de mercado é esta? A
crise atual revela o que já se sabe há muitos anos: há um processo
cada vez mais intenso de estatização, de regulação e de
financiamento público da economia de mercado. As teorias para
explicar as crises do sistema de capital estão disponíveis: Charles
P. Kindleberger (“Manias, Panics and
Crashes”; “The World
in Depression: 1929-1939”); Hyman Minsky
(“Can it Happen Again?
Essays on instability and finance”; “Stabilizing an Unstable
Economy”); Carmen Reinhart and Andrew Felton. Orgs. (“The First
Global Financial Crisis of the 21st Century”); Robert
Shiller ('The Subprime Solution: how today's global financial crisis
happened and what to do about it”); George Soros (“The New Paradigm
for Financial Markets: the credit crash of 2008 and what it means”).
Entretanto, todas elas abordam o problema da crise de maneira
ontológica ao sistema de capital naturalizadamente e não como sua
contradição dialética e histórica.
O argumento de que a economia de mercado
continua intacta e que a ação do Estado se trata apenas de um
“empréstimo” é simplista em qualquer circunstância. Primeiro, pelo
motivo já exposto de que este não é o ponto central do problema. O
que está em discussão não é a forma de ajuda do Estado à economia de
mercado, mas a própria ajuda, pois esta evidencia que a economia de
mercado só consegue se vangloriar de suas vantagens porque o Estado
lhe dá todo o suporte necessário sempre que for preciso. No início
de setembro de 2008, o liberal “The Economist” chamou o controle
estatal das megacorporações americanas de financiamento imobiliário
de estatização, operação esta que o Governo Bush chama de
“conservatorship”. Martin Wolf, colunista liberal do “Financial
Times” e Bradford DeLong, de Berkeley, também chamaram as ações do
Governo americano de estatização. Paul Krugman (2008) afirma que o
que o governo fez foi uma desprivatização. Não importa tanto como
estes economistas denominem os fatos recentes. O que importa é que
estes fatos comprovam que o sistema em vigência não é liberal,
neoliberal, keynesiano, neokeynesiano ou social-democrata, mas um
sistema de Capitalismo Totalmente Flexível, de parceria efetiva
entre o Estado e o mercado.
Segundo, que as ações do Estado, através
de seus agentes econômicos, ao reduzir as taxas de juros para
conferir liquidez à economia, provocaram um crescimento da mesma até
então não reclamado pelo capital privado. O consumo (a realização do
valor) aumentou e o mercado financeiro se deleitou com ativos de
risco com alta rentabilidade, entre os quais estavam os papéis
subprime (crédito à habitação, de alto risco,
destinado a compradores de imóveis com baixa renda e situação
econômica mais instável, em que a única garantia exigida nos
empréstimos é o próprio imóvel) e seus derivativos. Consumo
financiado por créditos fáceis e altos lucros formaram a “bolha” da
economia de mercado que, de forma previsível, estourou. Se a
economia de mercado ou a economia real está tão intacta quanto
afirmam os liberais contemporâneos o Estado não teria feito a
primeira intervenção (para gerar liquidez) e nem teria razão para
fazer a segunda: comprar os ativos problemáticos, especialmente os
lastreados por hipotecas. Tampouco para fazer a terceira: aportar
recursos em empresas pré-falimentares do setor produtivo.
Terceiro, mesmo supondo que haja um
resgate “limpo” dos ativos comprados pelo Governo, como afirmam os
liberais contemporâneos, a venda destes ativos será realizada com um
deságio relativamente ao valor pago pelo Governo, devido não apenas
à desvalorização provocada pela falta de credibilidade nesses
papéis, como ao fato de que as instituições, para saldarem suas
dívidas, colocarão os títulos à venda aumentando sua oferta no
mercado de ativos. A queda no preço dos ativos agrava ainda mais a
situação, gerando um círculo vicioso que Paul Krugman (2008) chama
de “paradoxo da desalavancagem”.
5. Conclusão
Como afirma Naomi Klein (2008), ao
comentar o intervencionismo do Estado e sua disposição em fazer o
que for necessário para “salvar os investidores deles mesmos”:
A ideologia do livre mercado sempre
esteve a serviço dos interesses do capital, e sua presença avança e
recua, dependendo da utilidade que tem para esses interesses. Em
épocas de crescimento, pregar o “laissez-faire” é rentável, porque
um governo ausente permite o crescimento de bolhas especulativas.
Quando estas bolhas estouram, a ideologia se torna um empecilho e
entra em estado dormente, enquanto o grande governo parte em missão
de salvamento. Mas podemos ter a certeza de que a ideologia
retornará com força total assim que os pacotes de socorro tiverem
sido entregues. As dívidas maciças que o público está acumulando
para socorrer os especuladores irão, então, tornar-se parte de uma
crise orçamentária global que será usada para justificar cortes mais
profundos nos programas sociais, além de uma investida renovada para
privatizar o que sobrou do setor público. Também nos dirão que,
infelizmente, nossas esperanças de um futuro verde são
demasiadamente onerosas.
Naomi Klein observa que a geração de
americanos com menos de 40 anos foi acostumada a ouvir que o governo
não pode intervir na sociedade, que o governo é o problema e não a
solução. Mas diante da intervenção para salvar grandes corporações
ao mesmo tempo em que o governo alega indisponibilidade para
resolver programas sociais, cujos valores são muito menores, fica
claro que se uma coisa é possível, deve ser possível a outra. Mas
nenhuma mudança vai acontecer sem uma pressão pública muito forte,
argumenta Klein. Sem isto, as mudanças serão apenas superficiais e
rapidamente o sistema retornará ao “business as usual”.
O liberal Martin Wolf do Financial
Times, ao discorrer sobre a crise, afirma que o Governo americano
não possuía alternativa, porém seria adequado que o mesmo, por um
bom tempo, livrasse a todos dos “sermões sobre o sagrado papel dos
mercados financeiros livres”. É, pois, necessário denunciar os
falsos discursos dos liberais contemporâneos. Os ideólogos do
liberalismo precisam ter a coragem de abandonar as explicações
ditadas pelas sombras das fogueiras que alimentam o Mito da Caverna,
de que falava Platão. Eles devem olhar a realidade externa e
afirmar, sob a concretude da luz natural, categoricamente, que sem o
Estado Capitalista para financiar ou socorrer o capital, este
sistema já teria se desmanchado no ar, exatamente porque nada tem de
sólido. Em essência, é pouco importante se o Estado age para salvar
as corporações, regular a economia, intervir ou assumir atividades
de investimento direto e de infra-estrutura para o capital. O fato é
que não há mais capitalismo de mercado sem Estado Capitalista. No
Capitalismo Totalmente Flexível, a economia de mercado é apenas a
vitrine em que são expostas, de maneira atraente, as mercadorias
para seduzir a clientela incauta. Mas, o que funciona na loja é a
gestão do caixa e do estoque, magistralmente controlada e amparada
pela mão visível do grande provedor.
Referências
FARIA, José
Henrique de. A Fase do Colaboracionismo: a nova prática sindical.
In: FARIA, J. H. de. Org. Análise Crítica das Teorias e Práticas
Organizacionais. São Paulo: Atlas, 2007. Cap. 9, pp. 205-240.
FENDT, Roberto. E
agora, social-democratas e conservadores? Folha de São Paulo.
Caderno A. 02 de outubro de 2008. p. 3
FERGUSON, Niall.
Folha de São Paulo. Caderno B. 23 de setembro de 2008. p. 6.
KLEIN, Naomi.
Folha de São Paulo. Caderno Mais. 28 de setembro de 2008. p. 4
KINDLEBERGER, Charles P. Manias, Panics and Crashes. New York: Basic
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_____. The World in Depression: 1929-1939. Berkeley: California
University Press, 1986.
KRUGMAN, Paul.
Folha de São Paulo. Caderno B. 23 de setembro de 2008. p. 6.
LUKÁCS, György. Socialismo e
democratização. Rio de Janeiro: UFRJ, 2008.
MINSKY, Hyman. Can it Happen Again? Essays on instability and
finance. New York: ME Sharp, 1982.
_____. Stabilizing an Unstable Economy: a Twentieth Century Fund
Report. New Haven: Yale, 1986.
REINHART, Carmen and FELTON, Andrew. Orgs. The First Global
Financial Crisis of the 21st Century. London:
A VoxEU, CEPR Publication, 2008.
SHILLER, Robert. The Subprime Solution: how today's global financial
crisis happened and what to do about it. Princeton: Princeton
University Press, 2008.
SOROS, George. The New Paradigm for Financial Markets: the credit
crash of 2008 and what it means.
New York: Public Affairs, 2008.
TAVARES, Maria
Conceição. Folha de São Paulo. Caderno B. 25 de setembro de 2008. p.
8.
Economista (FAE), Mestre (UFRGS) e Doutor (FEA/USP) em
Administração, Pós-doutorado em Labor Relations (ILIR/University
of Michigan). Professor do Programa de Mestrado em
Organizações e Desenvolvimento, da FAE Centro Universitário.
Existem, entre outras, duas discussões que considero uma
sandice. Uma delas é a que questiona sobre o fim da
hegemonia americana. Que diferença faz para o sistema de
capital se a hegemonia política é americana, asiática ou
européia? Em que isto altera o modo de produção capitalista
de forma substantiva e objetiva? É uma discussão fenomênica.
A outra, exposta recentemente pela jornalista Mirian Leitão
(O Globo. 11/09/2008), sugere que tudo o que está
acontecendo agora “tem a ver com o 11 de setembro”. Diz a
jornalista que “é difícil analisar a economia destes sete
anos sem considerar aquele dia [...]. Após o ataque às
torres gêmeas, balançaram as estruturas de outras
fortalezas. As empresas aéreas entraram numa zona de
turbulência e as seguradoras vergaram sob o peso de
impagáveis seguros. A crise de confiança reduziu o consumo
drasticamente. O risco era de que o mundo entrasse em
recessão”. Realmente, é preciso criatividade para argumentar
a favor desta correlação.
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