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RAFAEL SADDI TEIXEIRA
Doutorando em
História pela Universidade Federal de Goiás

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O mito da autoridade infalível
As lutas contra a autoridade
de Fidel Castro no interior do M26J
(1956 a 1958)
Rafael Saddi Teixeira
Para Bakunin
(2000, p. 38), a fé absoluta que um povo credita em um homem
transforma o povo em escravo estúpido, e o homem de privilégios em
corrupto e charlatão.
Se há algo que aqueles que viveram os
primeiros anos da Cuba revolucionária insistem em fazer em suas
memórias, este algo é uma mea culpa. Mea culpa por
terem facilitado e contribuído para a constituição de um futuro que
lhes negaria. Mea culpa por terem partilhado de uma euforia
revolucionária coletiva fechando os olhos para os abusos e processos
de opressão.
Mea culpa por terem acreditado e depositado um capital
político estrondoso nas mãos de Fidel Castro.
O que nos chama a atenção para a
construção desta fé absoluta que se depositara em Fidel em 1959, é
que, oito anos antes, o grande líder não passava de um desconhecido
para a grande massa da população de Cuba. Era um mero político, como
os vários políticos cubanos vinculados a uma figura carismática do
Partido Ortodoxo (Edward Chibás), sem expressão popular e com um
passado obscuro ligado a um grupo de pistoleiros da Universidade de
Havana. O período 1952-1959 foi fundamental para transformar uma
figura inexpressiva em um dos mais importantes líderes carismáticos
da história do século XX.
Sem nos preocuparmos com os processos
complexos de constituição do carisma de Fidel durante este período,
a questão que nos importa aqui é saber até que ponto esta autoridade
no interior do Movimento 26 de Julho foi de fato absoluta,
homogênea e acima de questionamentos. Não havia questionamentos e
oposições ao poder de Fidel no interior do Movimento 26 de Julho?
Não havia diferentes concepções para a forma como deveria se
organizar o movimento revolucionário? Fidel era de fato o líder
máximo e único da organização que logrou em poucos anos tomar o
poder?
Grande parte da historiografia da
Revolução Cubana tendeu a constituir a imagem do Movimento 26 de
Julho como um movimento unido em torno da figura do líder
máximo. Em um toque de mágica, grandes líderes carismáticos tiveram
a sua importância diminuída e todos os lutadores do período de luta
revolucionária se tornaram seguidores fiéis de Fidel. Figuras como
Frank País e René Ramos Latour praticamente desapareceram da
história oficial ou apareceram como mártires fidelistas. Suas
idéias, suas diferenças em relação a Fidel, se tornaram esquecidas.
Revisitando as numerosas cartas e
documentos do Movimento 26 de Julho durante o período da luta
revolucionária, encontramos não um movimento unitário e homogêneo,
mas uma luta constante de táticas, estratégias e domínio.
Encontramos não a autoridade absoluta de Fidel, mas um confronto
entre lideranças que possuíam grande carisma popular ou, ao menos,
importantes funções no movimento. É possível, portanto, ler uma
outra história da luta revolucionária, uma história da luta contra a
autoridade absoluta de Fidel dentro do próprio Movimento 26 de
Julho. Queremos, neste artigo, superar a imagem de um movimento
entendido como simples máquina a serviço do líder.
O que levou a esta luta contra a
autoridade de Fidel? Tratava-se de uma desconfiança em relação à sua
personalidade ou uma diferença de concepção de autoridade e de
estratégia revolucionária?
Fidel Casto possuía um passado
controverso, tendo supostamente formado, na juventude, parte de um
grupo de gangster.
A lembrança desse passado, colocava em alguns revolucionários
uma dúvida sobre o verdadeiro sentido de liderança de Fidel.
Tratava-se ele de apenas mais um caudilho ambicioso? A aliança entre
o MNR (Movimento Nacional Revolucionário) e o
Movimento 26 de Julho teve como principal empecilho a
desconfiança contra Fidel. (LLERENA, 1978, p. 57). As relações do
M26J com um grupo de oficiais do Exército conspiradores também
estavam emperradas pelo suposto passado gângster de Fidel.
(FRANQUI, 1980, p. 208).
O grande líder do Movimento 26 de Julho
aparecia assim para alguns como um homem ambicioso que reuniu um
grupo de séqüitos exclusivamente para alcançar o poder. Frank País,
em carta para Fidel Castro, falou deste discurso que circulava em
Cuba.
You must have heard
the tendentious statements that attempt to portray you as an
ambitious man, surrounded by immature boys who are trying to stir up
trouble and take advantage of the existing situation. (FRANQUI,
1980, p. 197).
Você deve saber sobre as tendenciosas
declarações que tentam retratá-lo como um homem ambicioso, cercado
por garotos imaturos que estão tentando criar problema e ganhar
vantagem da situação existente.
Essa imagem
de Fidel Castro como um caudilho ambicioso e o poder de mando real
que ele concentrava em suas mãos no Movimento 26 de Julho
geravam dúvidas no interior do próprio movimento. Entretanto, os
conflitos contra a autoridade de Fidel Castro não se resumiram no
caráter de desconfiança pessoal, mas avançaram para um
questionamento das relações de poder que se constituíam no interior
do movimento e do sentido da estratégia revolucionária adequada para
uma transformação real. Podemos encontrar nos discursos de
enfrentamento da autoridade de Fidel Castro a formulação, ainda
inicial, mas nem por isso menos importante, de uma teoria da
revolução e uma teoria da autoridade.
O conflito
contra a autoridade de Fidel deve ser compreendido a partir de uma
situação real que se criou no Movimento 26 de Julho: a
divisão entre a Sierra (Serra Maestra) e o Llano (As
cidades). Na Sierra, o movimento era organizado pelo Exército
Rebelde, cujo comando máximo estava nas mãos do Comandante em Chefe
Fidel Castro. Ali se travava uma guerra de guerrilhas. No Llano,
o Movimento 26 de Julho estava formado por milícias que
realizavam sabotagens, boicotes, levantes armados, roubo de armas,
etc., e era organizado por uma direção coletiva chamada Diretório
Nacional do Movimento 26 de Julho. Em poucos meses da
formação da guerrilha na Sierra, as diferenças de concepções entre
os guerrilheiros da Sierra e os milicianos do Llano
começaram a tomar dimensões grandiosas. Estes conflitos assumiram
distintas esferas: a esfera da concepção ideológica, da estratégia
revolucionária e também a esfera da organização do movimento.
Na
esfera da concepção ideológica, o Movimento 26 de Julho era
bastante plural. No seu interior existiam comunistas, anarquistas,
socialistas anti-soviéticos e liberais radicais. A união do
movimento não se dava pela concepção ideológica, mas pela opção por
pegar em armas para derrubar a ditadura. O que iria se construir com
a derrubada de Batista era algo que não estava ainda claro. Apesar
desta diversidade ideológica do movimento, podemos perceber que na
Sierra, comunistas como Che Guevara e Raúl Castro eram junto
com Camilo Cienfuegos os principais comandantes abaixo de Fidel. No
Llano, liberais e o que se convencionou chamar depois de
socialistas humanistas partilhavam de um anti-comunismo profundo.
Assim, por um lado, existia um grupo na Sierra que via os
militantes do Llano como pequenos burgueses adeptos do
capitalismo. Por outro, os milicianos do Llano temiam o poder
que Fidel delegava à guerrilheiros de idéias que ultrapassavam as
intenções iniciais da revolução. Estas divergências ideológicas,
embora não ocupassem o centro dos conflitos da luta, tiveram a sua
importância. Uma troca de cartas entre Che e René Ramos Latour, em
dezembro de 1957, demonstra isto. Enquanto Che afirmava que o
Movimento 26 de Julho era “um dos muitos provocados pelo desejo
da burguesia de se libertar dos grilhões econômicos do
imperialismo.” (FRANQUI, 1981, p. 233). René respondia afirmando:
As pessoas com o seu tipo de formação
ideológica acham que a resposta para os nossos problemas é nos
libertarmos da maligna dominação ianque por meio de uma não menos
maligna dominação soviética. (idem, p. 236).
Na esfera
estratégica, em 1957 já estava clara a posição dos guerrilheiros de
voltar todos os esforços do movimento para a luta na Sierra.
Pelo contrário, os milicianos do Llano apostavam em uma
atuação em várias frentes: na organização de trabalhadores, na
Sierra, nas milícias, isto é, uma atuação em toda Cuba.
As
diferenças ideológicas e estratégicas acabaram por repercutir
profundamente nos conflitos em torno da autoridade de Fidel Castro.
As lutas contra o poder máximo de Fidel partiam da percepção de que
um movimento firmado na autoridade máxima de um só homem tenderia à
formação de uma outra ditadura se viesse a alcançar o poder. Se
Fidel Castro começava a apresentar contornos de uma liderança máxima
sobre o movimento em 1956, o que fazer para evitar que a vitória
gerasse uma tirania revolucionária? Os principais confrontos contra
a autoridade de Fidel se voltaram para a resposta a esta pergunta.
O primeiro
enfrentamento se deu no ano de 1956 quando Armando Hart, Faustino
Pérez, Enrique Oltuski, Carlos Fanqui e Mario Llerena, membros da
direção nacional do M26 de julho, decidiram que, para não deixar que
os impulsos centralistas de Fidel Castro reinassem sobre o
movimento, era necessário estabelecer um programa
político-ideológico, programa que poderia limitar a liderança do
comandante. “The program would be like a bridle with which Castro’s
impulses could be controlled.” – “O programa seria como um freio
com o qual os impulsos de Castro poderiam ser controlados.” (LLERENA,
1978, p. 78).
Mario
Llerena acabou elaborando o programa ideológico praticamente
sozinho, sendo ele finalizado e publicado como manifesto-ideológico
do Movimento 26 de julho em 1957, sob o título “Nuestra Razón”.
O programa, entretanto, não apresentava uma forma de organização do
movimento, nem uma estratégia para a luta revolucionária. Limitava a
definir objetivos estratégicos após a tomada do poder.
O programa firmava a república
democrática através de “...a regime of individual
rights and public liberties…” (idem, ibidem, p. 295);
liberdade de consciência, podendo cada cidadão “abraçar a crença de
sua escolha, ter uma religião ou não ter” (idem, ibidem, p. 297); e
eleições diretas. (idem, ibidem, p. 296).
O manifesto
programa “Nuestra Razón” não foi capaz de manter o líder máximo sob
as suas rédeas, como foi possível perceber anos mais tarde com a
tomada do poder pelo Movimento 26 de julho. (idem, ibidem, p.
131). Sua limitação estava em acreditar que sendo claro os objetivos
do movimento, o poder do líder estaria limitado. Trazia a crença
democrática do limite do soberano em relação a uma lei maior. Não se
questionava a existência de um soberano, mas a limitação de seu
poder. Embora não conteve o poder máximo de Fidel, foi uma das
primeiras iniciativas de luta contra o poder do líder.
Fora dos
limites da visão republicana, entretanto, havia uma percepção de um
socialismo anti-soviético com características libertárias, que teve
como um dos expoentes o revolucionário das planícies Carlos Franqui.
Em 1957, ele publicou um artigo sobre a diferença entre o caudilho e
o líder. No artigo, Franqui dizia que o caudilho é o todo poderoso,
um tipo de Deus na terra. (FANQUI, 1980, p. 201). Todo o poder de um
movimento ou sociedade se concentra nele. O líder pelo contrário,
não comanda, mas obedece ao povo. O povo é o poder máximo e o líder
o seu subordinado. (idem, ibidem).
Franqui
apresenta, assim, os princípios de um novo poder, o poder popular,
em que o povo deveria ser o protagonista da nova sociedade. Um
sociedade onde houvesse “new institutions, products of new ideas, in
order that the people can participate and decide their acts” –
“novas intituições, produtos de novas idéias, de forma que o povo
possa participar e decider os seus atos” (idem, ibidem).
Para chegar
a este poder popular, organizado de baixo para cima, era necessário
construir a mobilização popular durante a própria luta. Tratava-se
de estimular a organização do povo em
new unions, organisms
of opinion – press, radio, TV (some of them are already burgeoning),
organizing student, youth, and professional sectors-civil
institutions, the pesantry, women, Negros. All this would be a
future guarantee of a new revolutionary power, in a wich the people
would be the protagonist in the victory against the tyranny, and
also the protagonist of the future. (idem, ibidem).
novos sindicatos, organismos de
opinião – imprensa, radio, TV (alguns deles estão germinando),
organizção de estudante, de juventude, e instituições profissionais
do setor civil, camponeses, mulheres, negros. Tudo isto seria uma
garantia futura de um novo poder revolucionário, no qual o povo
seria o protagonista na vitória contra a tirania, e também o
protagonista do futuro.
Franqui
achava, portanto, que para criar o poder popular era necessário que
o povo fosse o protagonista de sua própria luta. De nada adiantava
apenas o apoio popular ao movimento e ao seu líder máximo, se não
houvesse organização popular para a luta.
“From new on the people
must be the protagonists of the struggle and not its passive
supporters” (idem, ibidem).
Somente com
o protagonismo popular poderia acabar-se com o caudilhismo e colocar
em seu lugar a liderança. Se, ao contrário, o povo permanecesse como
suporte passivo do movimento e de Fidel, o movimento prevaleceria
sobre o povo, os revolucionários armados prevaleceriam sobre os
civis e o caudilhismo superaria a liderança. (idem, ibidem).
A crítica de
Franqui assumia, assim, a estratégia de não combater diretamente
Fidel Castro, mas de estimular a organização popular para que Fidel
se tornasse um líder sob os desejos do povo e não um caudilho.
Tratava-se de tirar o poder concentrado em Fidel e centrar todo o
poder no povo. “We hope that Fidel Castro, who is strongest
personality, the most capable, and the best revolutionary warrior,
will be a leader and not a caudillo” – “Nós esperamos que Fidel
Castro, que é a personalidade mais forte, a mais capaz, e o melhor
guerreiro revolucionário, será um líder e não um caudilho.”
(idem, ibidem)
A visão de
Carlos Franqui, explicitada em seu artigo, não teve êxito na luta
revolucionária. Embora o Movimento 26 de Julho se dispusesse
a estimular a organização dos trabalhadores e a criação de um
movimento de resistência cívica, e muitos militantes das planícies
dedicassem grande parte de sua militância a esta tarefa, estes
organismos não lograram crescer e estiveram, ao mesmo tempo, sob o
domínio do movimento. Mario Llerena, que participou da criação do
Movimento de Resistência Cívica (CRM) em Havana, nos conta sobre
o caráter desta organização.
Although
appearing to be totally independent entity, the CRM would in fact
be prepararing a mass of disciplined activists whose main function
was to influence and manage public opinion in a way favorable to the
revolution and in particular to the 26 of july Movement. In
addition, it would serve to channel contributions to the movement.
The CRM, in other words, was to be a typical front organization.
(LLERENA, 1978, p. 102).
Embora parecesse uma entidade
totalmente independente, o CRM estava na verdade preparando uma
massa de ativistas disciplinados cuja missão era influenciar e
manejar a opinião pública em favor da revolução e, em particular, do
Movimento 26 de Julho. Além disso, servia para canalizar
contribuições ao movimento.
O Movimento de Resistência Cívica
(CRM) ficava assim sob a custódia do Movimento 26 de Julho,
que delineava todas as suas ações e o dirigia da forma como
entendia. Essa falta de organização autônoma popular fez com que não
houvesse o protagonismo do povo tal como queria Carlos Franqui, mas,
apenas o suporte popular ao movimento e ao seu líder máximo.
Um outro enfrentamento ao poder de Fidel
veio de uma outra figura carismática, Frank País. Em 1957, Frank era
junto com Fidel uma figura de grande projeção popular. O capital
simbólico que acumulou em sua dedicação nas cidades e as
divergências que começava a ter com Fidel, fazia dele um risco à
autoridade absoluta do comandante da Sierra.
É provável que Frank concordasse com as
posições que Carlos Franqui havia expresso sobre a importância de
organizar o povo a partir de suas próprias organizações autônomas,
posto que suas ações no interior do movimento dos trabalhadores
foram insistentes. Entretanto, uma de suas estratégias estava na
reorganização da estrutura do Movimento 26 de Julho. Ele
mandou uma carta a Fidel em 1957, dizendo que devido ao vasto caos e
confusão reinante no Movimento iria, junto com Armando Hart,
reformá-lo. Uma das tarefas centrais dessa reforma seria a
centralização da liderança nas mãos de um grupo que teria
responsabilidades e tarefas bem definidas.
The leadership would
be centralized for the first time in the hands of a few, the
distinct responsabilities and tasks of the Movement would be clearly
assigned, and we took on ourselves the job of making it more active
and powerfull. (FRANQUI, 1980, p. 202).
A liderança seria centralizada pela
primeira vez nas mãos de poucos, as distintas responsabilidades e
tarefas do Movimento seriam atribuídas claramente, e nós centraremos
em nós a tarefa de fazer- lo mais ativo e poderoso.
Para Frank
País o movimento precisava definir exatamente quem era a direção e
cada um deles ter funções determinadas a partir de regras
estabelecidas. Embora no interior do Movimento 26 de Julho
houvesse uma definição jurídica dos poderes de mando, esta definição
não era tão clara e sistemática e, na realidade, os poderes de mando
não funcionavam como tais. Obedecia-se mais à pessoa do que às
regras. A proposta de País tentava retirar a predominância do poder
pessoal de Fidel por uma política de respeito aos cargos de direção
oficiais do movimento.
Frank País e
seus séqüitos poderiam ter alcançado êxito nesta luta se o líder não
fosse assassinado pela polícia de Batista em julho de 1957. A morte
de País fortaleceu ainda mais o poder de Fidel Castro, que se tornou
líder carismático imbatível do Movimento 26 de Julho.
Entretanto,
a luta dos seguidores de País não se encerrou ali. René Ramos Latour,
codinome Daniel, uma figura que se destacava pelas qualidades
carismáticas através de suas façanhas militares e políticas, foi
eleito para a substituição de Frank País na Direção Nacional do
movimento. Daniel conseguiu aglutinar diversos dos seguidores do
grande líder das cidades e enfrentou o poder de Fidel Castro.
Com a morte
de Frank País, Fidel intensificou o discurso que propunha a
prioridade máxima para a Sierra Maestra na luta
revolucionária. Em carta Célia Sanchez, Fidel disse:
I insist, as I did in
my prevous letter, that a directive must be given to the Movement
right now concerning the war: ‘All weapons, all bullets, and all
resources are for the sierra’. (FRANQUI, 1980, p. 223).
Eu insisto, como eu já fiz na minha
carta anterior, que uma direção a respeito da guerra deve ser dada
agora ao Movimento: “Todas as armas, todas as balas, e todos os
recursos para a Sierra.
Daniel
enfrentou, porém, a vontade de Fidel. Dando forma à luta das
planícies, revigorou a força daqueles que acreditavam que a luta
deveria se dar em todos os lados de Cuba, nas serras e nas cidades.
Em carta a Fidel, de 15 de setembro de 1957, dizia, em nome do
Diretório Nacional: “we think the battle ought not be limited solely
and exclusively to the mountains , we must fight the regime on all
fronts.” – “Nós achamos que a batalha não pode estar limitada
somente e exclusivamente às montanhas, nós devemos lutar contra o
regime em todas as frentes.”
(FRANQUI, 1980, p. 230).
Este
enfrentamento entre Daniel e Fidel, entretanto, não duraria muito.
Dois momentos foram fundamentais para o fracasso da liderança de
Daniel e o fim da oposição contra o poder máximo de Fidel.
O primeiro
momento correspondeu à crise interna no Movimento 26 de Julho
gerada pela assinatura do Pacto de Miami, em setembro de 1957. Este
pacto foi assinado pelo Diretório Revolucionário, Partido
Revolucionário Cubano (Autêntico), Organização Autêntica, Partido do
Povo Cubano (Ortodoxo), Federação Estudantil Universitária (FEU),
Diretório Operário Revolucionário, Partido Democrático e por Felipe
Pazos e Lester Rodriguez em nome do Movimento 26 de Julho. O
problema interno criado corresponde ao fato de que, por um lado,
Felipe Pazos e Léster Rodriguez não estavam autorizados a assinarem
o manifesto em nome do Movimento 26 de Julho e, por outro
lado, as cláusulas do Pacto eram insatisfatórias para os membros do
movimento. Como disse Marta Harnecker (2000), o pacto de Miami
ignorava
(...) tanto a rejeição expressa a toda
intervenção estrangeira, como a rejeição ao advento de uma junta
militar para governar provisoriamente a República – ‘princípios
cardeais’ no modo de conceber a revolução cubana por parte do 26 de
julho. (HARNECKER, 2000, p. 194).
Insatisfeitos com o Pacto de Miami, os guerrilheiros na Sierra
culparam o Diretório Nacional do Movimento 26 de Julho de
traição. Ora, se era o Diretório Nacional que estava responsável
pelas relações exteriores do movimento, não estaria ele comprometido
com Felipe Pazos e Léster Rodriguez?
Por trás de
tudo isto, Che, Raul e Fidel já articulavam a expulsão dos membros
do Diretório Nacional para controlarem o movimento desde a Sierra.
Che Guevara, em carta a Fidel, propôs que o líder escrevesse um
manifesto contra o Pacto de Miami, criando as condições para a
expulsão de todos os membros do Diretório Nacional.
I think a written
document, with the invaluable help of the new mimeograph that’s on
it’s way (or even with the broken-down one we now have), sent
simultaneously to political leaders and published in the press, will
produce the necessary effect, Later, if it becomes more complicated,
with Celia’s help, we can fire the entire National Directorate. (FRANQUI,
1980, p. 271).
Eu penso que um documento escrito;
com a ajuda inestimável do novo mimeógrafo que está a caminho (ou
mesmo com o quebrado que nós temos), sendo enviado simultaneamente
às lideranças políticas e publicada na imprensa; produzirá o efeito
necessário. Depois, se com isto se tornar mais complicado, com a
ajuda de Célia, nós podemos demitir o Diretório Nacional inteiro.
Tanto Che
quanto Fidel não davam mais importância ao Diretório Nacional. Para
eles, a luta na Sierra sob o controle do comandante em chefe
era o motor da revolução. Che disse em carta a Daniel, datada de 14
de dezembro:
And if it hurts so
much that you cut off relations with this part of the revolutionary
forces, so much the worse. One way ot the other, we’ll go forward,
since the people can’t be defeated. (FRANQUI, 1980, p. 270).
E se isto te machucou tanto que te faça
cortar as relações com esta parte das forças revolucionários, tanto
pior. De uma forma ou de outra, nós iremos em frente, já que o povo
não pode ser derrotado.
Fidel Castro
incomodava-se com a constante oposição que o Diretório Nacional
fazia ao seu domínio autoritário sobre o movimento. Em carta a Célia
Sanchez em 13 de janeiro de 1958, afirmou:
I am at the point of
asking the Movement not to bother about us any more and to abandon
us to our fate and leave us on our own once and for all.
I’m tired of having
my feelings misinterpreted. I’m not meanly ambitious. I do not
believe Iam the boss, nor do I want to be, nor am I irreplaceable or
infallible. (FRANQUI, 1980, p. 279).
Eu estou a ponto de pedir ao
Movimento para não incomodar mais com a gente, nos abandonar à
nossa fé e nos deixar de vez por nossa própria conta.
Eu estou cansado de ter meus
sentimentos mal interpretados. Eu não sou ambicioso. Eu não penso
que eu sou o chefe, nem quero ser, nem penso que sou insubstituível
ou infalível.
De toda
forma, com o Pacto de Miami, o Diretório Nacional do Movimento 26 de
julho, liderado por Daniel, perdeu crédito.
O segundo
momento de descrédito da liderança de Daniel e da oposição ao
domínio de Fidel Castro foi definitivo e se deu com o fracasso da
greve geral de massas em abril de 1958.
A greve
geral foi planejada pelo movimento como algo que colocaria fim à
ditadura batistiana. O movimento nas cidades ficou com a
responsabilidade máxima sobre a organização e ação da greve.
Entretanto, a greve fracassou. O fracasso da greve geral reafirmou
na cabeça dos revolucionários que o grande líder máximo da revolução
era Fidel Castro e que o seu exército na Sierra encarnava a
posição central na libertação de Cuba.
Com o
fracasso geral da greve e a moral baixa de Daniel e dos dirigentes
do Llano, Fidel enviou um comandante do Exército Rebelde, Delio
Gómez Ochoa, para assumir a coordenação nacional das atividades do
Llano. Ochoa ficava sob as ordens de Fidel e, desta forma, a
autoridade máxima do líder se estendia sobre todo o Movimento 26
de Julho, impossibilitando qualquer tipo de oposição. (FRANQUI,
1981, p. 39). Consolidava-se a
homogeneidade entre as forças da Sierra e do Llano.
Como afirmou Fidel na ocasião:
Despite the fact that
the Movement numbers many outstanding revolutionaries proved in
action, the naming of a commander from our forces, wich is a
sacrifice for us from the military point of view, is essential in
order to utilize the experience of our military campaingns in
developing a new strategy of struggle throughout the nation. We also
are seeking to achieve total homogeneity between the comrades of the
militia forces and operational forces of the 26 th of July Movement,
coinciding with the establishment of a common hight command to plan
and direct all action by our military forces. (FRANQUI, 1980, p.
323).
Embora o Movimento conte com
numerosos revolucionários proeminentes testados na ação, a nomeação
de um comandante das nossas forças, o que é um sacrifício para nós
do ponto de vista militar, é essencial para utilizar a experiência
de nossas campanhas militares para desenvolver uma nova estratégia
em toda a nação. Nós também procuramos alcançar total homogeneidade
entre os comandantes das forças de milícia e as forças operacionais
do Movimento 26 de Julho, coincidindo com o estabelecimento de um
alto comando comum para planejar e dirigir todas as ações de nossas
forças militares.
Com a
nomeação do comandante do Exército Rebelde para o comando das
cidades, Fidel se consolidava como o líder máximo da revolução,
tendo o poder supremo do movimento em suas mãos. Fechava ali o
período de confrontos contra a sua autoridade máxima.
Referências
BAKUNIN, Mikhail. Deus e o Estado. Ed. Imaginário: SP, 2000.
FRANQUI, Carlos. Diary of the Cuban Revolution.
Ed. Vikin Press: New
York, 1980.
______, Retrato de Família com Fidel. Ed. Record: RJ, 1981.
HARNECKER, Marta. Fidel. A Estratégia Política da Vitória. Ed.
Expressão Popular: SP, 2000.
KAROL, K.S. Los
Guerrilleros en el Poder. Ed. Seix Barral: Barcelona, 1972.
LLERENA, Mario. The Unsuspected Revolution. The Birth and Rise of
Castroism. Ed. Cornell University Press: London, 1978.
MONTANER, Carlos Alberto.
Viaje al Corazón de
Cuba. Ed. PLAZA & JANÉS:
Barcelona, 1999.
QUEVEDO, Miguel Angel. El Mea Culpa de Miguel
Ángel Quevedo, antes de suicidarse. In:
http://www.contactomagazine.com/quevedo100.htm.
Acesso: 2009.
Na carta de suicídio de Miguel Angel Quevedo, editor da
revista Bohemia (aquela que estampou em 1959 a imagem de
Fidel com uma auréola de santo na cabeça) o suicida
arrependido dizia: “ni niego mis errores ni mi culpabilidad;
lo que sí niego es que fuera “el único culpable".
Culpables
fuimos todos, en mayor o menor grado de responsabilidad.”.
(QUEVEDO, 2008).
Existe na historiografia um grande conflito entre os que
afirmam que Fidel se tornou um gangster e os que dizem que
isto nunca ocorreu. Carlos Alberto Montaner (1999),
baseando-se nos relatos de estudantes que conviveram com
Fidel naquele período, é um dos que defendem a primeira
posição. Segundo ele, Fidel teria ingressado no UIR (União
Insurrecional Revolucionária) de Emilio Tro.
Castro.
Montaner (1999, p. 18) o descreve naquele período: “Castro,
pistola al cinto, adquiere fama de gatillo alegre y de
hombre violento. Pero todavía no tiene una historia política
coherente. Es sólo un tira-tiros sin leyenda personal
apreciable. Un guapo de bofetadas
y qué me estás mirando. Para K.S. Karol (1972, p.
81), entretanto, Fidel tinha desenvolvido um perfil adequado
para a luta dos grupos de ação, mas, “no formará parte
nunca” de um grupo gângster. Para ele, Fidel, na complicada
batalha da universidade atuou como aliado da URI, porém, sem
ingressar no grupo.
Ele se
conservava como um “francotirador, aliado al grupo sin por
ello estar sometido a su disciplina.”.
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