RAFAEL SADDI TEIXEIRA

Doutorando em História pela Universidade Federal de Goiás

 

 

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O mito da autoridade infalível

As lutas contra a autoridade de Fidel Castro no interior do M26J

(1956 a 1958)

Rafael Saddi Teixeira*

 

Para Bakunin (2000, p. 38), a fé absoluta que um povo credita em um homem transforma o povo em escravo estúpido, e o homem de privilégios em corrupto e charlatão.

Se há algo que aqueles que viveram os primeiros anos da Cuba revolucionária insistem em fazer em suas memórias, este algo é uma mea culpa. Mea culpa por terem facilitado e contribuído para a constituição de um futuro que lhes negaria. Mea culpa por terem partilhado de uma euforia revolucionária coletiva fechando os olhos para os abusos e processos de opressão[1]. Mea culpa por terem acreditado e depositado um capital político estrondoso nas mãos de Fidel Castro[2].

O que nos chama a atenção para a construção desta fé absoluta que se depositara em Fidel em 1959, é que, oito anos antes, o grande líder não passava de um desconhecido para a grande massa da população de Cuba. Era um mero político, como os vários políticos cubanos vinculados a uma figura carismática do Partido Ortodoxo (Edward Chibás), sem expressão popular e com um passado obscuro ligado a um grupo de pistoleiros da Universidade de Havana. O período 1952-1959 foi fundamental para transformar uma figura inexpressiva em um dos mais importantes líderes carismáticos da história do século XX.

Sem nos preocuparmos com os processos complexos de constituição do carisma de Fidel durante este período, a questão que nos importa aqui é saber até que ponto esta autoridade no interior do Movimento 26 de Julho foi de fato absoluta, homogênea e acima de questionamentos. Não havia questionamentos e oposições ao poder de Fidel no interior do Movimento 26 de Julho? Não havia diferentes concepções para a forma como deveria se organizar o movimento revolucionário? Fidel era de fato o líder máximo e único da organização que logrou em poucos anos tomar o poder?

Grande parte da historiografia da Revolução Cubana tendeu a constituir a imagem do Movimento 26 de Julho como um movimento unido em torno da figura do líder máximo. Em um toque de mágica, grandes líderes carismáticos tiveram a sua importância diminuída e todos os lutadores do período de luta revolucionária se tornaram seguidores fiéis de Fidel. Figuras como Frank País e René Ramos Latour praticamente desapareceram da história oficial ou apareceram como mártires fidelistas. Suas idéias, suas diferenças em relação a Fidel, se tornaram esquecidas.

Revisitando as numerosas cartas e documentos do Movimento 26 de Julho durante o período da luta revolucionária, encontramos não um movimento unitário e homogêneo, mas uma luta constante de táticas, estratégias e domínio. Encontramos não a autoridade absoluta de Fidel, mas um confronto entre lideranças que possuíam grande carisma popular ou, ao menos, importantes funções no movimento. É possível, portanto, ler uma outra história da luta revolucionária, uma história da luta contra a autoridade absoluta de Fidel dentro do próprio Movimento 26 de Julho. Queremos, neste artigo, superar a imagem de um movimento entendido como simples máquina a serviço do líder.

O que levou a esta luta contra a autoridade de Fidel? Tratava-se de uma desconfiança em relação à sua personalidade ou uma diferença de concepção de autoridade e de estratégia revolucionária?

Fidel Casto possuía um passado controverso, tendo supostamente formado, na juventude, parte de um grupo de gangster.[3] A lembrança desse passado, colocava em alguns revolucionários uma dúvida sobre o verdadeiro sentido de liderança de Fidel. Tratava-se ele de apenas mais um caudilho ambicioso? A aliança entre o MNR (Movimento Nacional Revolucionário) e o Movimento 26 de Julho teve como principal empecilho a desconfiança contra Fidel. (LLERENA, 1978, p. 57). As relações do M26J com um grupo de oficiais do Exército conspiradores também estavam emperradas pelo suposto passado gângster de Fidel. (FRANQUI, 1980, p. 208).

O grande líder do Movimento 26 de Julho aparecia assim para alguns como um homem ambicioso que reuniu um grupo de séqüitos exclusivamente para alcançar o poder. Frank País, em carta para Fidel Castro, falou deste discurso que circulava em Cuba.

You must have heard the tendentious statements that attempt to portray you as an ambitious man, surrounded by immature boys who are trying to stir up trouble and take advantage of the existing situation. (FRANQUI, 1980, p. 197).

Você deve saber sobre as tendenciosas declarações que tentam retratá-lo como um homem ambicioso, cercado por garotos imaturos que estão tentando criar problema e ganhar vantagem da situação existente.

Essa imagem de Fidel Castro como um caudilho ambicioso e o poder de mando real que ele concentrava em suas mãos no Movimento 26 de Julho geravam dúvidas no interior do próprio movimento. Entretanto, os conflitos contra a autoridade de Fidel Castro não se resumiram no caráter de desconfiança pessoal, mas avançaram para um questionamento das relações de poder que se constituíam no interior do movimento e do sentido da estratégia revolucionária adequada para uma transformação real. Podemos encontrar nos discursos de enfrentamento da autoridade de Fidel Castro a formulação, ainda inicial, mas nem por isso menos importante, de uma teoria da revolução e uma teoria da autoridade.

O conflito contra a autoridade de Fidel deve ser compreendido a partir de uma situação real que se criou no Movimento 26 de Julho: a divisão entre a Sierra (Serra Maestra) e o Llano (As cidades). Na Sierra, o movimento era organizado pelo Exército Rebelde, cujo comando máximo estava nas mãos do Comandante em Chefe Fidel Castro. Ali se travava uma guerra de guerrilhas. No Llano, o Movimento 26 de Julho estava formado por milícias que realizavam sabotagens, boicotes, levantes armados, roubo de armas, etc., e era organizado por uma direção coletiva chamada Diretório Nacional do Movimento 26 de Julho. Em poucos meses da formação da guerrilha na Sierra, as diferenças de concepções entre os guerrilheiros da Sierra e os milicianos do Llano começaram a tomar dimensões grandiosas. Estes conflitos assumiram distintas esferas: a esfera da concepção ideológica, da estratégia revolucionária e também a esfera da organização do movimento.

Na esfera da concepção ideológica, o Movimento 26 de Julho era bastante plural. No seu interior existiam comunistas, anarquistas, socialistas anti-soviéticos e liberais radicais. A união do movimento não se dava pela concepção ideológica, mas pela opção por pegar em armas para derrubar a ditadura. O que iria se construir com a derrubada de Batista era algo que não estava ainda claro. Apesar desta diversidade ideológica do movimento, podemos perceber que na Sierra, comunistas como Che Guevara e Raúl Castro eram junto com Camilo Cienfuegos os principais comandantes abaixo de Fidel. No Llano, liberais e o que se convencionou chamar depois de socialistas humanistas partilhavam de um anti-comunismo profundo[4]. Assim, por um lado, existia um grupo na Sierra que via os militantes do Llano como pequenos burgueses adeptos do capitalismo. Por outro, os milicianos do Llano temiam o poder que Fidel delegava à guerrilheiros de idéias que ultrapassavam as intenções iniciais da revolução. Estas divergências ideológicas, embora não ocupassem o centro dos conflitos da luta, tiveram a sua importância. Uma troca de cartas entre Che e René Ramos Latour, em dezembro de 1957, demonstra isto. Enquanto Che afirmava que o Movimento 26 de Julho era “um dos muitos provocados pelo desejo da burguesia de se libertar dos grilhões econômicos do imperialismo.” (FRANQUI, 1981, p. 233). René respondia afirmando:

As pessoas com o seu tipo de formação ideológica acham que a resposta para os nossos problemas é nos libertarmos da maligna dominação ianque por meio de uma não menos maligna dominação soviética. (idem, p. 236).

Na esfera estratégica, em 1957 já estava clara a posição dos guerrilheiros de voltar todos os esforços do movimento para a luta na Sierra. Pelo contrário, os milicianos do Llano apostavam em uma atuação em várias frentes: na organização de trabalhadores, na Sierra, nas milícias, isto é, uma atuação em toda Cuba.

As diferenças ideológicas e estratégicas acabaram por repercutir profundamente nos conflitos em torno da autoridade de Fidel Castro. As lutas contra o poder máximo de Fidel partiam da percepção de que um movimento firmado na autoridade máxima de um só homem tenderia à formação de uma outra ditadura se viesse a alcançar o poder. Se Fidel Castro começava a apresentar contornos de uma liderança máxima sobre o movimento em 1956, o que fazer para evitar que a vitória gerasse uma tirania revolucionária? Os principais confrontos contra a autoridade de Fidel se voltaram para a resposta a esta pergunta.

O primeiro enfrentamento se deu no ano de 1956 quando Armando Hart, Faustino Pérez, Enrique Oltuski, Carlos Fanqui e Mario Llerena, membros da direção nacional do M26 de julho, decidiram que, para não deixar que os impulsos centralistas de Fidel Castro reinassem sobre o movimento, era necessário estabelecer um programa político-ideológico, programa que poderia limitar a liderança do comandante. “The program would be like a bridle with which Castro’s impulses could be controlled.” – “O programa seria como um freio com o qual os impulsos de Castro poderiam ser controlados.” (LLERENA, 1978, p. 78).

Mario Llerena acabou elaborando o programa ideológico praticamente sozinho, sendo ele finalizado e publicado como manifesto-ideológico do Movimento 26 de julho em 1957, sob o título “Nuestra Razón”. O programa, entretanto, não apresentava uma forma de organização do movimento, nem uma estratégia para a luta revolucionária. Limitava a definir objetivos estratégicos após a tomada do poder.

O programa firmava a república democrática através de “...a regime of individual rights and public liberties…” (idem, ibidem, p. 295); liberdade de consciência, podendo cada cidadão “abraçar a crença de sua escolha, ter uma religião ou não ter” (idem, ibidem, p. 297); e eleições diretas. (idem, ibidem, p. 296).

O manifesto programa “Nuestra Razón” não foi capaz de manter o líder máximo sob as suas rédeas, como foi possível perceber anos mais tarde com a tomada do poder pelo Movimento 26 de julho. (idem, ibidem, p. 131). Sua limitação estava em acreditar que sendo claro os objetivos do movimento, o poder do líder estaria limitado. Trazia a crença democrática do limite do soberano em relação a uma lei maior. Não se questionava a existência de um soberano, mas a limitação de seu poder. Embora não conteve o poder máximo de Fidel, foi uma das primeiras iniciativas de luta contra o poder do líder.

Fora dos limites da visão republicana, entretanto, havia uma percepção de um socialismo anti-soviético com características libertárias, que teve como um dos expoentes o revolucionário das planícies Carlos Franqui. Em 1957, ele publicou um artigo sobre a diferença entre o caudilho e o líder. No artigo, Franqui dizia que o caudilho é o todo poderoso, um tipo de Deus na terra. (FANQUI, 1980, p. 201). Todo o poder de um movimento ou sociedade se concentra nele. O líder pelo contrário, não comanda, mas obedece ao povo. O povo é o poder máximo e o líder o seu subordinado. (idem, ibidem).

Franqui apresenta, assim, os princípios de um novo poder, o poder popular, em que o povo deveria ser o protagonista da nova sociedade. Um sociedade onde houvesse “new institutions, products of new ideas, in order that the people can participate and decide their acts” – “novas intituições, produtos de novas idéias, de forma que o povo possa participar e decider os seus atos” (idem, ibidem).

Para chegar a este poder popular, organizado de baixo para cima, era necessário construir a mobilização popular durante a própria luta. Tratava-se de estimular a organização do povo em

new unions, organisms of opinion – press, radio, TV (some of them are already burgeoning), organizing student, youth, and professional sectors-civil institutions, the pesantry, women, Negros. All this would be a future guarantee of a new revolutionary power, in a wich the people would be the protagonist in the victory against the tyranny, and also the protagonist of the future. (idem, ibidem).

novos sindicatos, organismos de opinião – imprensa, radio, TV (alguns deles estão germinando), organizção de estudante, de juventude, e instituições profissionais do setor civil, camponeses, mulheres, negros. Tudo isto seria uma garantia futura de um novo poder revolucionário, no qual o povo seria o protagonista na vitória contra a tirania, e também o protagonista do futuro.

Franqui achava, portanto, que para criar o poder popular era necessário que o povo fosse o protagonista de sua própria luta. De nada adiantava apenas o apoio popular ao movimento e ao seu líder máximo, se não houvesse organização popular para a luta. “From new on the people must be the protagonists of the struggle and not its passive supporters” (idem, ibidem).

Somente com o protagonismo popular poderia acabar-se com o caudilhismo e colocar em seu lugar a liderança. Se, ao contrário, o povo permanecesse como suporte passivo do movimento e de Fidel, o movimento prevaleceria sobre o povo, os revolucionários armados prevaleceriam sobre os civis e o caudilhismo superaria a liderança. (idem, ibidem).

A crítica de Franqui assumia, assim, a estratégia de não combater diretamente Fidel Castro, mas de estimular a organização popular para que Fidel se tornasse um líder sob os desejos do povo e não um caudilho. Tratava-se de tirar o poder concentrado em Fidel e centrar todo o poder no povo. “We hope that Fidel Castro, who is strongest personality, the most capable, and the best revolutionary warrior, will be a leader and not a caudillo” – “Nós esperamos que Fidel Castro, que é a personalidade mais forte, a mais capaz, e o melhor guerreiro revolucionário, será um líder e não um caudilho.” (idem, ibidem)

A visão de Carlos Franqui, explicitada em seu artigo, não teve êxito na luta revolucionária. Embora o Movimento 26 de Julho se dispusesse a estimular a organização dos trabalhadores e a criação de um movimento de resistência cívica, e muitos militantes das planícies dedicassem grande parte de sua militância a esta tarefa, estes organismos não lograram crescer e estiveram, ao mesmo tempo, sob o domínio do movimento. Mario Llerena, que participou da criação do Movimento de Resistência Cívica (CRM) em Havana, nos conta sobre o caráter desta organização.

Although appearing to be totally independent entity, the CRM would  in fact be prepararing a mass of disciplined activists whose main function was to influence and manage public opinion in a way favorable to the revolution and in particular to the 26 of july Movement. In addition, it would serve to channel contributions to the movement. The CRM, in other words, was to be a typical front organization. (LLERENA, 1978, p. 102).

Embora parecesse uma entidade totalmente independente, o CRM estava na verdade preparando uma massa de ativistas disciplinados cuja missão era influenciar e manejar a opinião pública em favor da revolução e, em particular, do Movimento 26 de Julho. Além disso, servia para canalizar contribuições ao movimento.

O Movimento de Resistência Cívica (CRM) ficava assim sob a custódia do Movimento 26 de Julho, que delineava todas as suas ações e o dirigia da forma como entendia. Essa falta de organização autônoma popular fez com que não houvesse o protagonismo do povo tal como queria Carlos Franqui, mas, apenas o suporte popular ao movimento e ao seu líder máximo.

Um outro enfrentamento ao poder de Fidel veio de uma outra figura carismática, Frank País. Em 1957, Frank era junto com Fidel uma figura de grande projeção popular. O capital simbólico que acumulou em sua dedicação nas cidades e as divergências que começava a ter com Fidel, fazia dele um risco à autoridade absoluta do comandante da Sierra.

É provável que Frank concordasse com as posições que Carlos Franqui havia expresso sobre a importância de organizar o povo a partir de suas próprias organizações autônomas, posto que suas ações no interior do movimento dos trabalhadores foram insistentes. Entretanto, uma de suas estratégias estava na reorganização da estrutura do Movimento 26 de Julho. Ele mandou uma carta a Fidel em 1957, dizendo que devido ao vasto caos e confusão reinante no Movimento iria, junto com Armando Hart, reformá-lo. Uma das tarefas centrais dessa reforma seria a centralização da liderança nas mãos de um grupo que teria responsabilidades e tarefas bem definidas.

The leadership would be centralized for the first time in the hands of a few, the distinct responsabilities and tasks of the Movement would be clearly assigned, and we took on ourselves the job of making it more active and powerfull. (FRANQUI, 1980, p. 202).

A liderança seria centralizada pela primeira vez nas mãos de poucos, as distintas responsabilidades e tarefas do Movimento seriam atribuídas claramente, e nós centraremos em nós a tarefa de fazer- lo mais ativo e poderoso.

Para Frank País o movimento precisava definir exatamente quem era a direção e cada um deles ter funções determinadas a partir de regras estabelecidas. Embora no interior do Movimento 26 de Julho houvesse uma definição jurídica dos poderes de mando, esta definição não era tão clara e sistemática e, na realidade, os poderes de mando não funcionavam como tais. Obedecia-se mais à pessoa do que às regras. A proposta de País tentava retirar a predominância do poder pessoal de Fidel por uma política de respeito aos cargos de direção oficiais do movimento.

Frank País e seus séqüitos poderiam ter alcançado êxito nesta luta se o líder não fosse assassinado pela polícia de Batista em julho de 1957. A morte de País fortaleceu ainda mais o poder de Fidel Castro, que se tornou líder carismático imbatível do Movimento 26 de Julho.

Entretanto, a luta dos seguidores de País não se encerrou ali. René Ramos Latour, codinome Daniel, uma figura que se destacava pelas qualidades carismáticas através de suas façanhas militares e políticas, foi eleito para a substituição de Frank País na Direção Nacional do movimento. Daniel conseguiu aglutinar diversos dos seguidores do grande líder das cidades e enfrentou o poder de Fidel Castro.

Com a morte de Frank País, Fidel intensificou o discurso que propunha a prioridade máxima para a Sierra Maestra na luta revolucionária. Em carta Célia Sanchez, Fidel disse:

I insist, as I did in my prevous letter, that a directive must be given to the Movement right now concerning the war: ‘All weapons, all bullets, and all resources are for the sierra’. (FRANQUI, 1980, p. 223).

Eu insisto, como eu já fiz na minha carta anterior, que uma direção a respeito da guerra deve ser dada agora ao Movimento: “Todas as armas, todas as balas, e todos os recursos para a Sierra.

Daniel enfrentou, porém, a vontade de Fidel. Dando forma à luta das planícies, revigorou a força daqueles que acreditavam que a luta deveria se dar em todos os lados de Cuba, nas serras e nas cidades. Em carta a Fidel, de 15 de setembro de 1957, dizia, em nome do Diretório Nacional: “we think the battle ought not be limited solely and exclusively to the mountains , we must fight the regime on all fronts.” – “Nós achamos que a batalha não pode estar limitada somente e exclusivamente às montanhas, nós devemos lutar contra o regime em todas as frentes.” (FRANQUI, 1980, p. 230).

Este enfrentamento entre Daniel e Fidel, entretanto, não duraria muito. Dois momentos foram fundamentais para o fracasso da liderança de Daniel e o fim da oposição contra o poder máximo de Fidel.

O primeiro momento correspondeu à crise interna no Movimento 26 de Julho gerada pela assinatura do Pacto de Miami, em setembro de 1957. Este pacto foi assinado pelo Diretório Revolucionário, Partido Revolucionário Cubano (Autêntico), Organização Autêntica, Partido do Povo Cubano (Ortodoxo), Federação Estudantil Universitária (FEU), Diretório Operário Revolucionário, Partido Democrático e por Felipe Pazos e Lester Rodriguez em nome do Movimento 26 de Julho. O problema interno criado corresponde ao fato de que, por um lado, Felipe Pazos e Léster Rodriguez não estavam autorizados a assinarem o manifesto em nome do Movimento 26 de Julho e, por outro lado, as cláusulas do Pacto eram insatisfatórias para os membros do movimento. Como disse Marta Harnecker (2000), o pacto de Miami ignorava

(...) tanto a rejeição expressa a toda intervenção estrangeira, como a rejeição ao advento de uma junta militar para governar provisoriamente a República – ‘princípios cardeais’ no modo de conceber a revolução cubana por parte do 26 de julho. (HARNECKER, 2000, p. 194).

Insatisfeitos com o Pacto de Miami, os guerrilheiros na Sierra culparam o Diretório Nacional do Movimento 26 de Julho de traição. Ora, se era o Diretório Nacional que estava responsável pelas relações exteriores do movimento, não estaria ele comprometido com Felipe Pazos e Léster Rodriguez?

Por trás de tudo isto, Che, Raul e Fidel já articulavam a expulsão dos membros do Diretório Nacional para controlarem o movimento desde a Sierra. Che Guevara, em carta a Fidel, propôs que o líder escrevesse um manifesto contra o Pacto de Miami, criando as condições para a expulsão de todos os membros do Diretório Nacional.

I think a written document, with the invaluable help of the new mimeograph that’s on it’s way (or even with the broken-down one we now have), sent simultaneously to political leaders and published in the press, will produce the necessary effect, Later, if it becomes more complicated, with Celia’s help, we can fire the entire National Directorate. (FRANQUI, 1980, p. 271).

Eu penso que um documento escrito; com a ajuda inestimável do novo mimeógrafo que está a caminho (ou mesmo com o quebrado que nós temos), sendo enviado simultaneamente às lideranças políticas e publicada na imprensa; produzirá o efeito necessário. Depois, se com isto se tornar mais complicado, com a ajuda de Célia, nós podemos demitir o Diretório Nacional inteiro.

Tanto Che quanto Fidel não davam mais importância ao Diretório Nacional. Para eles, a luta na Sierra sob o controle do comandante em chefe era o motor da revolução. Che disse em carta a Daniel, datada de 14 de dezembro:

And if it hurts so much that you cut off relations with this part of the revolutionary forces, so much the worse. One way ot the other, we’ll go forward, since the people can’t be defeated. (FRANQUI, 1980, p. 270).

E se isto te machucou tanto que te faça cortar as relações com esta parte das forças revolucionários, tanto pior. De uma forma ou de outra, nós iremos em frente, já que o povo não pode ser derrotado.

Fidel Castro incomodava-se com a constante oposição que o Diretório Nacional fazia ao seu domínio autoritário sobre o movimento. Em carta a Célia Sanchez em 13 de janeiro de 1958, afirmou:

I am at the point of asking the Movement not to bother about us any more and to abandon  us to our fate and leave us on our own once and for all.

I’m tired of having my feelings misinterpreted. I’m not meanly ambitious. I do not believe Iam the boss, nor do I want to be, nor am I irreplaceable or infallible. (FRANQUI, 1980, p. 279).

Eu estou a ponto de pedir ao Movimento para não incomodar mais com a gente,  nos abandonar à nossa fé e nos deixar de vez por nossa própria conta.

Eu estou cansado de ter meus sentimentos mal interpretados. Eu não sou ambicioso. Eu não penso que eu sou o chefe, nem quero ser, nem penso que sou insubstituível ou infalível.

De toda forma, com o Pacto de Miami, o Diretório Nacional do Movimento 26 de julho, liderado por Daniel, perdeu crédito.

O segundo momento de descrédito da liderança de Daniel e da oposição ao domínio de Fidel Castro foi definitivo e se deu com o fracasso da greve geral de massas em abril de 1958.

A greve geral foi planejada pelo movimento como algo que colocaria fim à ditadura batistiana. O movimento nas cidades ficou com a responsabilidade máxima sobre a organização e ação da greve. Entretanto, a greve fracassou. O fracasso da greve geral reafirmou na cabeça dos revolucionários que o grande líder máximo da revolução era Fidel Castro e que o seu exército na Sierra encarnava a posição central na libertação de Cuba.

Com o fracasso geral da greve e a moral baixa de Daniel e dos dirigentes do Llano, Fidel enviou um comandante do Exército Rebelde, Delio Gómez Ochoa, para assumir a coordenação nacional das atividades do Llano. Ochoa ficava sob as ordens de Fidel e, desta forma, a autoridade máxima do líder se estendia sobre todo o Movimento 26 de Julho, impossibilitando qualquer tipo de oposição. (FRANQUI, 1981, p. 39). Consolidava-se a homogeneidade entre as forças da Sierra e do Llano. Como afirmou Fidel na ocasião:

Despite the fact that the Movement numbers many outstanding revolutionaries proved in action, the naming of a commander from our forces, wich is a sacrifice for us from the military point of view, is essential in order to utilize the experience of our military campaingns in developing a new strategy of struggle throughout the nation. We also are seeking to achieve total homogeneity between the comrades of the militia forces and operational forces of the 26 th of July Movement, coinciding with the establishment of a common hight command to plan and direct all action by our military forces. (FRANQUI, 1980, p. 323).

Embora o Movimento conte com numerosos revolucionários proeminentes testados na ação, a nomeação de um comandante das nossas forças, o que é um sacrifício para nós do ponto de vista militar, é essencial para utilizar a experiência de nossas campanhas militares para desenvolver uma nova estratégia em toda a nação. Nós também procuramos alcançar total homogeneidade entre os comandantes das forças de milícia e as forças operacionais do Movimento 26 de Julho, coincidindo com o estabelecimento de um alto comando comum para planejar e dirigir todas as ações de nossas forças militares.[5]

Com a nomeação do comandante do Exército Rebelde para o comando das cidades, Fidel se consolidava como o líder máximo da revolução, tendo o poder supremo do movimento em suas mãos. Fechava ali o período de confrontos contra a sua autoridade máxima.

 

Referências

BAKUNIN, Mikhail. Deus e o Estado. Ed. Imaginário: SP, 2000.

FRANQUI, Carlos. Diary of the Cuban Revolution. Ed. Vikin Press: New York, 1980.

______, Retrato de Família com Fidel. Ed. Record: RJ, 1981.

HARNECKER, Marta. Fidel. A Estratégia Política da Vitória. Ed. Expressão Popular: SP, 2000.

KAROL, K.S. Los Guerrilleros en el Poder. Ed. Seix Barral: Barcelona, 1972.

LLERENA, Mario. The Unsuspected Revolution. The Birth and Rise of Castroism. Ed. Cornell University Press: London, 1978.

MONTANER, Carlos Alberto. Viaje al Corazón de Cuba. Ed. PLAZA & JANÉS: Barcelona, 1999.

QUEVEDO, Miguel Angel. El Mea Culpa de Miguel Ángel Quevedo, antes de suicidarse. In: http://www.contactomagazine.com/quevedo100.htm. Acesso: 2009.

 

* Doutorando em História pela Universidade Federal de Goiás. Email: saddirafael@yahoo.com.br

[1] Reinaldo Arenas (1993, p. 83) afirma em sua autobiografia: “Mas estávamos tão entusiasmados que não podíamos imaginar que coisas tão graves fossem ocorrer; ou não queríamos pensar nisso.”

[2] Na carta de suicídio de Miguel Angel Quevedo, editor da revista Bohemia (aquela que estampou em 1959 a imagem de Fidel com uma auréola de santo na cabeça) o suicida arrependido dizia: “ni niego mis errores ni mi culpabilidad; lo que sí niego es que fuera “el único culpable". Culpables fuimos todos, en mayor o menor grado de responsabilidad.”. (QUEVEDO, 2008).

[3] Existe na historiografia um grande conflito entre os que afirmam que Fidel se tornou um gangster e os que dizem que isto nunca ocorreu. Carlos Alberto Montaner (1999), baseando-se nos relatos de estudantes que conviveram com Fidel naquele período, é um dos que defendem a primeira posição. Segundo ele, Fidel teria ingressado no UIR (União Insurrecional Revolucionária) de Emilio Tro. Castro. Montaner (1999, p. 18) o descreve naquele período: “Castro, pistola al cinto, adquiere fama de gatillo alegre y de hombre violento. Pero todavía no tiene una historia política coherente. Es sólo un tira-tiros sin leyenda personal apreciable. Un guapo de bofetadas y qué me estás mirando. Para K.S. Karol (1972, p. 81), entretanto, Fidel tinha desenvolvido um perfil adequado para a luta dos grupos de ação, mas, “no formará parte nunca” de um grupo gângster. Para ele, Fidel, na complicada batalha da universidade atuou como aliado da URI, porém, sem ingressar no grupo. Ele se conservava como um “francotirador, aliado al grupo sin por ello estar sometido a su disciplina.”.

[4] Quando falamos de comunismo, estamos nos referindo ao sentido utilizado pelos revolucionários cubanos naquele período, o de pró-União Soviética. Neste sentido, anti-comunistas seria: contrários ao modelo soviético.

[5] Traduções do autor.

 

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