RUDÁ
RICCI
Sociólogo, Doutor em Ciências
Sociais. Coordenador do
Instituto
Cultiva, Professor da Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais/Brasil e membro do
Fórum
Brasil do Orçamento

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CUBA: volver a empezar
Rudá Ricci
Pode uma rosa verde
continuar intacta
Mesmo que mil
sargaços de outros mares lhe batam.
Pode esmeralda e a
prata aplacar tanta sede
Mesmo que mil bagaços
ruminemos sem data.
Cuba, libertadora
rosa do Caribe,
Ilha de ar e
ventania, Brilhante farol, maresia,
Espalha teu sal nas
praias do mundo.
A poesia que abre este artigo foi
escrita por Luiz Carlos Lacerda, o “bigode”, em 1959. Indica o clima
que a revolução cubana criou por aqui. Ferreira Gullar escreveu
outra poesia em que cita Cuba. Em “Cantada”, finaliza assim:
Olha,
Você é tão bonita quanto o Rio de
Janeiro
Em maio
E quase tão bonita
Quanto a Revolução Cubana
As duas poesias guardam algo entre si
quando citam, como num hay kay, Cuba como desfecho de algo que
parecia romântico. Luiz Carlos Lacerda não sugere o açúcar, mas o
sal cubano como o legado da revolução. A despeito da oposição, o sal
deveria se espalhar pelo mundo. Ferreira Gullar também destaca esta
beleza estranha, que parece não rimar com uma cantada.
Desde o início foi assim: a revolução
cubana foi ácida e salgada, direta, objetiva, concreta. Anunciava-se
como excesso necessário. Não por outro motivo, a imagem de seus
líderes era uma composição de juventude, virilidade e abnegação. Uma
revolução declaradamente masculina.
Contudo, surpreendentemente, nos últimos
anos a doçura, a diferença, o toque feminino aglutinaram-se numa voz
interna de oposição ao regime. Se não de todo oposição, ao menos
insatisfação de parte dos cidadãos cubanos. O discurso de unidade e
coesão persiste nas hostes governamentais e estruturas de poder
formal. Foi assim na última eleição para a Assembléia Nacional do
Poder Popular (ANPP), quando se reafirmou o “voto em bloco”. Mas as
diferenças emergem aqui e acolá, escoando por entre os dedos do
regime. O clima de mudança é tema de conversas na Ilha. Não só pela
transição iniciada pelo afastamento de Fidel, mas também pela
mudança de geração dos novos dirigentes do país. Ao redor de 60% dos
atuais deputados nasceram após a revolução de 59. Apenas 17% dos
candidatos viveram sobre uma Cuba não socialista.
AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS EM CUBA
1) Cada pessoa do bairro ou da
localidade vota no seu representante (voto distrital, portanto);
2) Os candidatos são escolhidos por
seus vizinhos, o voto é secreto, livre e o escrutínio é público.
Quem cuida das urnas são as crianças;
3) A lista de votantes é feita e
afixada nos pontos de maior circulação. Qualquer erro ou
problema é logo corrigido, sendo acompanhado de perto;
4) O voto não é obrigatório e podem
votar quem têm 16 anos ou mais;
5) Feitas as inscrições de votantes,
começam os comícios nos bairros e comunidades rurais. É neles
que despontam os candidatos;
6) Para se eleger o candidato é
preciso alcançar mais de 50% dos votos. Depois, os eleitos
precisam prestar contas periodicamente aos seus eleitores e
podem ter seus mandatos revogados a qualquer momento se o povo
assim decidir (recall);
7) Os delegados eleitos para as
Assembléias de Poder Popular não recebem nada por isso;
8) As campanhas são organizadas
pelas Comissões Eleitorais (incluindo a exposição das fotos e da
biografia dos candidatos).
Raúl Castro, logo após substituir em
definitivo seu irmão, afirmou que haveria “excesso de proibições” em
Cuba. No balanço que Raúl fez do primeiro ano sem Fidel, admitiu
"erros" econômicos, pediu investidores, aprovou um novo código de
trabalho e a formação de uma comissão para estudar a propriedade em
Cuba (a primeira vez que se faz um tipo de estudo desta natureza, o
que sugeriu comparações óbvias com a China).
Também sabemos que se governa a partir
de um colegiado, composto por Raúl Castro, Ricardo Alarcón, Felipe
Roque e Carlos Lage Dávila. Ricardo Alarcón foi três vezes deputado.
Em 1955, ingressou no Movimento 26 de Julho. Em 1962 assumiu
a direção da política para o continente americano do Ministério das
Relações Exteriores. De 1966 a 1978 foi embaixador na ONU,
vice-presidente da Assembléia Geral da ONU, Presidente do Conselho
de Administração do PNUD, vice-presidente do Comitê Nações Unidas
para os direitos do Povo Palestino. Em 1978 assumiu o cargo de
Primeiro Vice-Ministro das Relações Exteriores, assumindo o cargo de
Ministro em 1993. Neste ano, assumiu a Presidência da Assembléia
Nacional do Poder Popular. É um líder da velha tradição castrista,
ou seja, centralizador, atento aos movimentos de uma possível
oposição. Felipe Perez Roque (Ministro de Relações Exteriores) foi
líder estudantil. Em 1982 foi eleito Presidente Nacional da
Federação de Estudantes. Em 85 foi delegado do XII Festival Mundial
da Juventude, em Moscou. Em 96, foi eleito deputado pela Assembléia
Nacional do Poder Popular e, até 1993, foi membro do Conselho de
Estado, como membro do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba.
A partir dos anos 90 foi membro do Bureau Nacional da União de
Jovens Comunistas, período em que se formou como engenheiro
eletrônico. A partir de 1991, integrou a Equipe de Coordenação e
Apoio da Presidência de Cuba, onde permaneceu por sete anos. Com 34
anos, em 1999, assumiu o cargo de Ministro de Relações Exteriores.
Finalmente, Carlos Lage Dávila é do Bureau Político e Secretário do
Comitê Executivo do Conselho de Ministros. É quem cuida da economia
de Cuba. Médico, desde final dos anos 80, faz parte da equipe de
apoio de Fidel.
As críticas de Raúl Castro à política
econômica de Cuba visam justamente Carlos Lage.
Agora se confirmam
as suspeitas, com a demissão deste e mais seis outros ministros, no
início de março de 2009. [1]
A grande imprensa
européia destaca que Lage e Felipe Pérez Roque representam uma
imagem de inovação. Nunca foram combatentes ou guerrilheiros. Como
dizem alguns, ainda que num tom declarado de deboche: “parte de la
comparsa, pero ellos no llevan la rumba”.
As diferenças emergem
As diferenças mais importantes da
política cubana, contudo, não estão no interior do governo, mas na
sociedade civil. E começam a impactar o governo. O tema para
garantia de direitos de minorias é algo que atinge a família Castro.
Vilma Espín, esposa de Raúl Castro (que faleceu em 2007), foi
fundadora da Federação de Mulheres Cubanas e defendeu os direitos
dos homossexuais (principalmente após a perseguição política que se
iniciou na década de 60, a partir da criação das Unidades Militares
de Apoio à Produção). A filha de Vilma, a socióloga Mariela Castro,
mantém esta tradição.
Um dos blogs mais acessados e premiados
no mundo é o organizado, desde Cuba, por Yoani Sánchez (http://www.desdecuba.com/generaciony/).
Este blog recebeu recentemente os prêmios Best Blog 2009
(times.com), Prêmio Bitácoras 2008, Prêmio Ortega y Gasset 2008
(jornalismo digital), entre outros. Por suas notas ganha força a voz
da nova geração de cubanos. Por ali sabemos de um mercado que se
abre lentamente aos cidadãos da Ilha, reuniões inéditas que discutem
sexualidade e direitos de minorias, repressão e constrangimentos à
qualquer crítica política. Em postagens recentes, Yoani comenta as
tensões crescentes, no cotidiano de Cuba. Reproduzo duas notas, que
ilustram este cotidiano. A primeira, sobre a perseguição ao marido
de uma blogger cubana, postado em 21 de fevereiro deste ano:
En una tierra
rodeada de agua, el marinero es un vínculo con el otro lado, el
portador de esas imágenes que la insularidad no deja ver. En el
caso cubano, quien trabaja en un barco puede, además, comprar en
el extranjero muchos productos inexistentes en los mercados
locales. Una especie de Ulises, que después de meses navegando,
trae su maleta llena de baratijas para la familia. El marino
conecta los electrodomésticos trasladados en las barrigas de los
buques con el mercado negro; hace que las modas lleguen antes de
lo planificado por los burócratas del comercio interior. Durante
varias décadas, ser “marino mercante” era pertenecer a una
selecta cofradía que podía ir más allá del horizonte y traer
objetos nunca vistos en estas latitudes. Los primeros jeans,
grabadoras de cintas y chicles que toqué en mi vida fueron
transportados por esos afortunados tripulantes. Lo mismo ocurrió
con los relojes digitales, los televisores en colores y algunos
autos, que en nada se parecían a los poco atractivos Lada y
Moskovich. Cuento toda esta historia de barcos, mástiles y
mercado informal, porque a Oscar, el esposo de la blogger de
Sin Evasión
<http://www.desdecuba.com/sin_evasion>, están amenazándolo
con expulsarlo de su trabajo como marinero. El motivo: la
decisión de Miriam Celaya de quitarse el antifaz y seguir
escribiendo sus opiniones a cara descubierta. El castigo: dejar
a la familia sin el necesario sustento. Por ella navegar libre
en la red, puede él perder la posibilidad de surcar las aguas.
A segunda nota, sobre o lançamento de um
livro, postado em 17 de fevereiro:
Hoy, a las 15
horas, logramos presentar el libro de
Orlando Luís Pardo Lazo.
Después de meternos por callejones del Cerro para perder a los
dos “segurosos” que llevábamos detrás, terminamos por llegar al
Capitolio y tomar el ómnibus que pasa el túnel de la bahía.
Tensión, temor y duda, nos acompañaron en el breve viaje hacia
la fortaleza de La Cabaña. Orlando pensaba en su madre, con la
presión alta y atemorizada ante las amenazantes llamadas
telefónicas. Mi cabeza estaba con Teo, en su escuela, ajeno al
hecho de que quizás nadie estaría en casa cuando él regresara.
Por suerte, fueron sólo fantasmas. El operativo policial tenía –
eso lo comprendimos a posteriori- una intención intimidatoria,
pero poco pudieron hacer ante las cámaras de la prensa
extranjera y de los escritores invitados. Empezamos sentados
sobre la hierba, hablando para un grupo de quince personas y
terminamos con un aplauso cerrado de más de cuarenta. Nos
sorprendió la presencia y la solidaridad de varios jóvenes
cuentistas y poetas, con libros publicados en las editoriales
oficiales. También la asistencia de algunos novelistas
latinoamericanos que nos apoyaron con sus palabras y abrazos.
Allí estaban Gorki y Ciro del grupo Porno para Ricardo,
Claudia Cadelo del blog
Octavo Cerco,
Lía Villares, autora de la bitácora
Habanemia,
Reinaldo Escobar, blogger de
Desde aquí,
Claudio Madam y otros que no menciono sus nombres, para no
perjudicarlos. Al otro lado de la calle, el grupo de los
perseguidores, filmaba con un tele foto todo lo que ocurría en
la verde explanada. Varias escuelas primarias habían sido
invitadas a empinar papalotes en ese mismo lugar y un estridente
reggaetón comenzó justo a las tres de la tarde. Sin embargo,
logramos aislarnos de todo eso y entrar por la puerta de
Boring Home; elevarnos unos centímetros de la polvorosa
realidad de vigilados y vigilantes. Desde donde estaba sentada,
el muro de La Cabaña me pareció más deteriorado, lleno de
pequeñas porosidades que se abrían en la piedra.
É perceptível o papel de liderança
feminina desta nova geração, que se opõe ao sal governamental,
utilizando a linguagem literária como arma política. É fato que o
controle sobre a oposição (2007 terminou com 234 presos políticos em
Cuba, de acordo com a Comissão Cubana para os Direitos do Homem e a
Reconciliação Nacional), contudo, se mantém. Assim como também é um
fato a insatisfação crescente dos jovens da Geração Y (aquela ao
redor de 25 anos que aprendeu a contestar a opressão paterna e
carrega ao trabalho o mesmo discurso irascível e contestador). O
mesmo discurso que 50 anos atrás levou uma nova geração ao poder da
Ilha.
Assim, termino este artigo com o início
de outra poesia, do cubano (nascido na Venezuela) Alex Fleites. Para
aqueles que residem em Minas Gerais, como eu, o significado é muito
nítido:
Esperando un tren
Hemos pasado la vida
esperando un tren
Cada mañana vamos a la
estación
con banderas y flores y
allí nos estamos
hasta que la noche
consiente
que las palmas y la
nubes
se hagan un mismo mar de
oscuridad
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