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ROBIN
MOORE
Professor de Etnomusicologia da School of Music da
University of Texas at Austin. Autor, entre outros livros,
de Nationalizing blackness: afrocubanismo and
artistic revolution in Havana (1920-1940). Pittsburgh:
University of Pittsburgh Press, 1998.
Publicado na revista
ArtCultura, V. 9, nº 15,
Jul./Dez. 2007, p.213-229.
Revista de História, Cultura e Arte, Instituto de História,
Programa de Pós-graduação em História, Universidade Federal
de Uberlândia (UFU).
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Música
e crise
ideológica em
Cuba
de 1990 em diante
Robin
Moore
Tradução: Edinan J. Silva
Revisão técnica da tradução:
Adalberto Paranhos
Consultoria: Martha Tupinambá de
Ulhôa
Na virada do milênio,
Cuba passa
por mudanças rápidas que afetaram quase
todos os setores
da sociedade. Em
cerca de apenas
15 anos, tornou-se
menos
socialista do ponto
de vista
militante
— se não discursivamente,
pelo
menos na prática
— e está em
contato
mais próximo com países capitalistas. Slogans
ideológicos pró-socialismo, virtualmente
as únicas mensagens vistas
em espaços
públicos e ouvidas no rádio, competem agora
com comerciais
publicitários. A
estabilidade
no emprego é
coisa
do passado; a
ênfase
está na competência e eficiência no trabalho. Os
cubanos adquiriram muitos produtos de uso
doméstico a
preços
de mercado
internacional,
embora não
consigam pagar
por
eles com
facilidade. Há
oportunidades
de negócios
privados
além das que
o Estado oferece.
Salários
e padrão de
vida
variam muito
mais
do que
antes, contribuindo para o
surgimento
da diferença de
classe. O país
todo
mudou mais no
último
decênio do que
nas três
décadas
anteriores.
Embora
os líderes demorem em
admiti-lo, aos poucos Cuba abraça uma
economia
capitalista
mista.
Este
texto
reconhece que a
Cuba
do passado,
com
freqüência, assemelha-se à do presente e examina mais
detalhadamente as mudanças na música
da década de 1990 em
diante. Informa sobre os piores
anos da crise
político-econômica e descreve como
o governo reagiu; também
ressalta o papel
proeminente
da música na
expansão
do turismo e se atém ao
destaque internacional
ainda maior
que músicos
cubanos alcançaram desde os anos 1990 em relação a décadas
anteriores. Por
fim, detalha as reformas legais que
afetaram a indústria da música e avalia as composições
de artistas
que
passaram por
esse
período.
Transformações
sociais
e econômicas
Com a queda da União Soviética, em 1989, aos poucos
Cuba perdeu
subsídios
e acordos de
negócio
que chegavam a
quase
US$ 6 bilhões ao
ano,
assim como
US$ 1,2 bilhão
em
ajuda militar.
Isso
representava cerca de 75% de seus negócios internacionais. Sem
reservas adequadas de energia ou produtos manufaturados, a
economia altamente
dependente da ilha
teve uma queda de 40%
em
seu
produto nacional bruto
em 1999. A situação esteve crítica
nos primeiros
meses de 1992: longos
apagões, crise nos transportes, racionamento de
água;
era comum
e alarmante
faltar
comida e suprimentos domésticos. Esse
“período especial”
de miséria
não
é mais
tão
severo, mas
a economia do
país
continua instável.
Carente
de uma base
industrial
que assegurasse
mais
auto-suficiência e com pouca
coisa a negociar no mercado internacional, Cuba
mudou do dia
para
a noite
sua
condição de um
dos países emergentes da América
Latina
para um
dos mais
pobres.
Por conseqüência, as calamidades
econômicas do início da década de 1990 levaram ao
surgimento
de outros
problemas.
Durante anos,
grande parte
da população
não
tinha opções
viáveis de
emprego
porque os centros
de trabalho não
conseguiam funcionar
sem
eletricidade e matérias-primas
apropriadas. Epidemias de doenças físicas
como as da visão
se desenvolveram por
causa
de dietas restritas
ou
do consumo de
água
potável não
tratada. Assaltos
e violência
física
eram freqüentes numa nação que um dia foi umas
das mais seguras. As pessoas começaram a se roubar
e a roubar as
empresas
estatais para
sobreviver num sistema
que não
funcionava.
Os líderes do país
reconheceram a necessidade urgente de animar a economia. Como passo inicial,
cortaram gastos
militares.
Também começaram a
fazer
empréstimos pesados de agências internacionais
e pleitear
investimentos
de empreendedores
estrangeiros. As reformas receberam
suplementos vindos de fora:
o dinheiro
de exilados cubanos que
entrava no país aumentou exponencialmente à
medida
que percebiam a
extensão
das necessidades de
suas
famílias. As remessas mensais agora
acrescentam centenas de milhões de dólares ao
produto nacional bruto mediante a compra
de produtos
pelos
consumidores em
lojas do governo.
A crise econômica
teve efeitos
adversos
na vida de
muitos
músicos. Num país
que experimentou
escassez
de suprimentos antes mesmo de 1989, equipamento
para gravação
e amplificação, transporte e
os próprios instrumentos
raramente são
postos à disposição
pelo governo.
As escolas de
música
careciam de materiais básicos (instrumentos,
óleo de válvula,
cordas, papel pautado, lápis) para seus alunos; em muitos casos, eles
tinham de usar
seus
materiais.
Artistas
consagrados podem viver
bem,
mas quem
lutava para começar sua carreira se
deparava com
muitos
obstáculos, inclusive
concorrência selvagem.
A música representa
um
terreno potencial
para a salvação econômica
aberto a qualquer
um. Por
decorrência disso, as
cidades
cubanas foram inundadas com músicos amadores
e semiprofissionais. Tocam por gorjetas, oferecem aulas
de música e
dança, vendem instrumentos
ou
gravações caseiras e têm a esperança de, enfim,
atrair a atenção
de empreendedores
estrangeiros.
Tais tendências econômicas foram ideologicamente duras de suportar
até para apoiadores leais da revolução.
Quem se sacrificou
por
décadas para construir uma sociedade melhor com base, sobretudo, em princípios marxistas agora
vive num contexto
radicalmente
distinto. As
políticas
são incertas, e as
promessas
de mudanças progressivas feitas pelos líderes
parecem ser
contraditas
por ações
recentes. Fidel e Raúl Castro denunciam o
imperialismo ianque,
porém, ao mesmo
tempo, fazem
concessões
a Sol Meliá Investments, da
Espanha, a Sherritt International, do Canadá, e a
outros
inumeráveis
conglomerados. Ao longo
do espectro
político, os cubanos não sabem no que
acreditar ou
mesmo como
descrever a sociedade em torno deles.
O resultado tem sido o surgimento de uma crise
de valores
fundamental.
Crescimento do
turismo
Tão impressionante quanto
a capitalização da economia
foi a rápida expansão
do turismo. Na
maior
parte do período
socialista, o
Partido
Comunista Cubano (PCC) desaprovou o contato com
visitantes estrangeiros. As autoridades sugeriam que
interações desnecessárias poderiam comprometer a segurança nacional. Também
acreditavam que os turistas
poderiam difundir valores capitalistas prejudiciais
ou outras
ideologias
que poderiam impedir
o progresso do
futuro
comunista. Pelo
que se diz, a
indústria
do turismo das
décadas
de 1970 e 1980 foi mínima e não muito favorável. O governo
cobrava pouco
pelos
quartos de hotéis,
mas
oferecia um
serviço
ruim e nada
fazia para estimular visitas. Houve poucos
intercâmbios
acadêmicos
com países
capitalistas.
No começo da década
de 1990, o turismo surgiu como estratégia
para a sobrevivência
da economia.
Em
vez de desencorajar
visitas estrangeiras, o governo reverteu tal
política e começou a incentivá-las,
inclusive as da comunidade
de exilados. Alguém
familiarizado com a Cuba de épocas anteriores
ficará chocado com o grau de
desenvolvimento
recente nesse setor. No decênio
de 1990, o Aeroporto
Internacional
José Martí se tornou uma estrutura
multiterminal três a quatro vezes maior que seu tamanho original. A empresa Cubana
de Aviación não
usa
mais os obsoletos
aviões de
passageiro
soviéticos, e sim
aeronaves novas
e reluzentes de
fabricação
francesa. Casas noturnas, bares e restaurantes
são inaugurados
com
freqüência. O
governo
vende pacotes turísticos fora de Cuba,
atraindo visitantes potenciais com panfletos e
websites agradáveis
e de estilo
ocidental.
O número crescente
de visitantes beneficiou os anfitriões,
resultando noutras oportunidades
de emprego. Contudo,
produziu
conseqüências desagradáveis para a população. Havana e outras cidades
são cada
vez mais
divididas em
áreas
de entretenimento para moeda estrangeira
destinadas, primeiramente, a
turistas e em áreas para cubanos. As melhores praias, hotéis, cabarés e casas
noturnas, outrora disponíveis a
todos,
agora são
“zonas dolarizadas”. O resultado é um sistema de apartheid
musical em que muitos shows não podem ser vistos pelos
moradores da ilha
simplesmente
porque custam
muito.
Esse tipo
de segregação começou nos anos 1980, todavia se acentuou
muito
mais na década
passada.
Espaços
de entretenimento
mais populares
em Havana
(as casas de cultura, o café Hurón Azul,
na Unión de
Escritores y
Artistas
de Cuba/Uneac, La Tropical, o pátio do Conjunto Folklórico Nacional,
os shows de matinê nas Casas de Música
no centro de
Havana
e Miramar)
agora
cobram a entrada de
estrangeiros
em dólar, mas
permitem que cubanos paguem para entrar
com
moeda nacional.
Esses são
alguns dos únicos
locais onde
cubanos e outras pessoas
podem ir juntos ver os eventos com certa facilidade. O igualitarismo
deles é atraente, porém ainda assim
foram afetados
negativamente. Às vezes
paira uma tensão
no ar das
casas
noturnas menores
que
afeta as relações
pessoais. Há os
aproveitadores
que as freqüentam a
fim
de vender
charutos
ou rum
roubados de lojas do governo. Outros
chegam com a
intenção
explícita de fazer
amizade com
um estrangeiro
que lhes
pague bebida
ou
os convide para comer.
Garotas procuram homens propensos a retribuir sexo com dinheiro ou presentes.
Em geral,
ficou cada
vez
mais difícil
para um estrangeiro estabelecer relações pessoais
normais e sem
interesses com
cubanos nos
lugares
onde ele
mais os encontra.
Ariana
Hernández-Reguant concluiu recentemente seu
estudo sobre
uma emissora cubana, a Radio Taíno, e sua
transição para
o formato
comercial,
em 1994. Seu
trabalho é uma excelente introdução em miniatura ao tipo
de mudanças que acontecem na indústria do entretenimento.
A autora descreve o propósito da nova rádio
Taíno de apresentar uma
imagem
de “normalidade” ao mundo capitalista e entreter
turistas. Diferentemente das
outras rádios, ela não veicula notícias
políticas e toca,
em primeiro lugar, música
dançante. Foi a primeira a se capitalizar vendendo anúncios
publicitários
desde
os anos 1960. Inesperadamente,
o público
principal
da Taíno passou a ser
não
os estrangeiros,
mas
jovens cubanos “cansados das batalhas ideológicas” e que
“apreciavam o tom
superficial
da rádio”.
A história da Taíno é um olhar fascinante para o modo como administradores indicados pelo
governo lutam para
equilibrar os interesses de seus patrões comerciais (estrangeiros
donos de hotéis,
distribuidores
de cerveja,
agentes
de turismo) e as
ordens
do Comitê Central do PCC.
Expansão da
indústria
musical cubana
Uma das ironias dos últimos
dez anos
é que o
início
da crise
econômica
mostrou ser, em
muitos sentidos,
a sorte na
desgraça
na indústria musical cubana.
A venda de fitas cassetes e CDs fora
de Cuba
aumentou significativamente,
apesar do embargo comercial.
Nas principais
lojas
internacionais de
discos, os lançamentos
cubanos representam hoje uma porcentagem relevante dos produtos
latinos
disponíveis
— cerca de 25%
nos
Estados Unidos,
onde
virtualmente não
existiam antes de 1990. Em parte, tais mudanças resultam de transformações políticas na ilha. Os socialistas estão
francamente interessados em
atender
ao mercado
capitalista; e isso
nunca
fora objeto de preocupação para eles, muito menos uma meta
prioritária. O aumento na circulação
da música resultou, também,
da decisão do Congresso
dos Estados Unidos (EUA) de facilitar a regulamentação da cultura
cubana nesse país.
Surpreendentemente,
tais políticas
tiveram apoio da
direita
e da esquerda do
sistema
político dos EUA.
Em
1988, o deputado democrata Howard Berman, da Califórnia, apresentou uma
emenda
à Trading with the Enemy Act (lei
de comércio com o inimigo), legislação
primária que
impõe restrições à
atividade
comercial com
Cuba. Aprovada
como parte
do Omnibus Trade Bill (projeto
de lei do comércio)
desse ano,
a
emenda foi criada
por ele
para facilitar o intercâmbio de idéias
entre Cuba
e EUA. Conhecida
como
Emenda Berman,
ela
isentou produtos informativos
do embargo e permitiu a venda
direta de livros,
trabalhos
artísticos,
filmes e música
entre os dois
países pela
primeira vez
desde o início
da década de 1960. Berman e seus apoiadores abriram caminho
para que
gravadoras dos EUA e de outros países começassem a lançar
a música cubana
nos
EUA e para que
grupos cubanos se apresentassem lá mais
facilmente.
Quase
ao mesmo
tempo, Cuba
começou a reestruturar
sua
indústria musical
como
parte de uma
estratégia
para sobreviver ao colapso do bloco
oriental. Em
1989, criou uma agência, a Artex, que
permitiu às gravadoras estrangeiras adquirir
e relançar músicas
guardadas nos
cofres
da gravadora nacional Egrem.
A Artex tinha uma considerável autonomia e começou a recolher agressivamente
direitos autorais noutros países e a supervisionar
novos contratos.
O licenciamento de
músicas
continuou a se expandir; o próprio Fidel Castro reconheceu o
potencial
econômico da
indústria
musical em 1993 e incentivou seu desenvolvimento.
Mais recentemente, o
governo criou várias subdivisões da Artex, incluindo a BIS Music,
estimulado pela explosão
do interesse no
repertório
criado pelo documentário Buena
Vista Social
Club. Sem
conseguir
competir com
o enorme investimento de capital
de firmas estrangeiras e de seus crescentes lucros, essas
agências se concentraram no licenciamento de músicas
da década
anterior. As gravações
domésticas aumentaram em anos recentes, porém
mais pela
produção caseira
do rap, do reggae
e da trova
acústica, e menos
pelas
iniciativas estatais.
Um
resultado inesperado da capitalização da
produção
musical é que
gravações
de artistas exilados raramente ouvidas na ilha desde
a década de 1960 estão mais
acessíveis.
Durante
anos, os cubanos
que
escutavam Osvaldo Farrés, Celia Cruz,
Olga Guillot, Rolando Laserie e outros
tiveram de ouvi-los em suas casas, a portas fechadas; a música
deles agora aparece nas prateleiras das lojas
e nas ruas,
em
gravações piratas.
Lançamentos de salseros de
Nova Iorque estão disponíveis
também;
em alguns
casos, até
discos de cubano-estadunidenses como Gloria Estefan e Willie Chirino, anticomunistas devotos!
As forças do
mercado
parecem ter rompido o
que
os cubanos chamam de “auto-isolamento”: políticas estatais
que restringem a
circulação
doméstica de
certos
produtos. Na
maioria
dos casos, a
preocupação
com as vendas
teve precedência
sobre
o conteúdo ideológico das gravações.
Mudanças legais na
produção
musical em
Cuba
A tendência
a se autorizar os
músicos
a negociarem seus
contratos
de trabalho
externos
com liberdade
foi controversa;
mas
começou antes
que
noutros setores da
economia,
simplesmente
porque
os músicos viajavam
com
mais freqüência.
O contato
com
o mundo
capitalista
resultou inevitavelmente de propostas para tocarem e gravarem, muitas vezes
com compensação
mais alta
do que a
que
recebiam em casa. Durante anos, o
Estado proibiu muitos
artistas de aceitar
esses convites.
Todavia, na
década
de 1980, com a
dissolução
do monolítico Centro de Contratações Artísticas e a
criação
de múltiplas empresas de administração musical, houve
certa
flexibilidade.
As agências do
governo
começaram a oferecer
benefícios
especiais aos
músicos
mais proeminentes
a fim de compensá-los
pelo
seu excepcional
potencial de
ganho. As concessões
se consolidaram, no início dos
anos 1990,
como uma política
mais ou
menos coerente
aplicável a qualquer um.
Antes
da descriminalização da moeda estrangeira,
em 1993, as
agências
do governo agiram
como
representantes exclusivos dos artistas no exterior;
obtiveram ganhos e fizeram acordos de venda
e distribuição de
música
com pouco
investimento
individual. As autoridades
sustentavam que, uma vez que o Estado
pagava pela
formação
dos músicos e supria suas necessidades
em Cuba,
ele tinha
o direito de se
apropriar
dos proventos da
moeda
forte deles e usá-los como quisesse. Para os músicos, muitas vezes
a situação parecia
ser
de exploração e
era
motivo para deserção. Quem
ganhava dinheiro
sem
o governo
saber
se deparava com
alternativas
difíceis. Poderia
tentar
trazer o dinheiro clandestinamente para Cuba; se fosse bem-sucedido,
isso lhe
permitiria gastá-lo no mercado negro. Tal opção envolvia o risco
de detenção e aprisionamento. Também poderia declarar o lucro para
um
agente
alfandegário
e receber uma
porcentagem
de volta
em
forma de títulos
resgatáveis em
lojas
dolarizadas do governo
destinadas a diplomatas e turistas.
Desde
a descriminalização, artistas
que faziam turnês
conseguiram reconhecimento como trabalhadores
independentes, um
tipo especial
de cuentapropista.
O Estado
não reclama mais
direito a toda
a renda
que
obtinham fora de
Cuba;
só uma porcentagem,
em geral
entre 10% e 50%.
Os índices
de tributação variam ostensivamente em
função do serviço
fornecido pelos
sindicatos
dos grupos
quando
viajam (hospedagem,
alimentação,
seguro, roupas,
transporte de
equipamento,
apoio técnico).
Em meados
da década de 1990,
quando
as particularidades do
novo
sistema foram estabelecidas, muitos músicos
o descreveram como injusto,
reclamando dos ganhos
líquidos
baixos e da “corrupção
bestial” de muitas autoridades.
Hoje em dia, a maior parte do sistema de tributação
funciona mais
diplomaticamente e continua a melhorar.
Os artistas que
produzem lucros
fora
de Cuba
agora
podem reclamar pelo menos uma parcela
dessa renda,
mas
o Estado
ainda
paga a maioria
dos músicos
que
trabalham na ilha
com
a moeda
nacional.
Isso vale independentemente de quem
seja o público de
seus shows/gravações
ou se eles
geram vendas
em
pesos ou
dólares,
e vale, igualmente,
para outros
trabalhadores intelectuais: se alguém publica um
livro ou
dá uma palestra
fora
de Cuba deve declarar
legalmente
a renda de
sua
moeda forte,
porém pode ficar
com
boa parte dela. Por
contraste, se estão envolvidos na
mesma atividade em Cuba mediante
uma instituição do
governo,
com freqüência
recebem um
valor
em pesos
cubanos relativamente baixo. Tal fato continua a motivar
debate, em especial junto a pessoas que
trabalham no setor de
turismo
ou produzem
mercadorias
para serem vendidas em
lojas dolarizadas.
Lázaro
Ros, por
exemplo, afirmou que
não
conseguiu receber uma
compensação
justa por
seus CDs e vídeos
resultantes de
contratos
mediados por
agências
estatais.
Uma leitura cuidadosa dos contratos usados pelo Sindicato Nacional
de Trabajadores de Cultura e pelo Consejo Nacional
de Artes Escénicas sugere que há tentativas
de se dividir uma
parte
dos lucros da
moeda
forte com
os artistas
que
trabalham dentro de
Cuba;
planos similares
estão sendo debatidos noutras áreas.
Ao menos alguns artistas que se
apresentam em
espaços
de perfil fundamentalmente
turístico já recebem em
dólares.
Comparativamente a outros setores, foram
tantos os músicos populares
a ganhar ao menos
parte
de seus
salários
em moeda
estrangeira, por
meio
de turnês e
contratos
estrangeiros, que
eles logo
se tornaram uma espécie de novos ricos. Membros
de grupos de destaque na área
da música dançante (dance bands) são imediatamente
reconhecíveis por
causa
do tipo de
roupa
que vestem, de
suas
casas suntuosas, de
seus
carros novos
e importados, e assim por diante. Eles se situam no topo
da ordem
social
existente, acumulando mais riqueza pessoal que músicos clássicos, médicos
e até
políticos
e militares.
Discrepâncias
como essas, é óbvio, ocorrem no mundo capitalista
também; na verdade, derivam deste.
Entretanto, em Cuba
representam uma nova
situação
e criaram tensões.
Cardiologistas
não aceitam
tranqüilamente
viver em
relativa pobreza enquanto jovens cantores e dançarinos
com pouca
educação formal
ostentam sua
opulência.
Atitudes
negativas
em relação
aos músicos, têm
com
freqüência, implicações raciais também,
pois a maioria das dance
bands são compostas por cubanos negros. Um
dentista branco
que conheci em
1996, almoçando num quiosque,
falava à exaustão sobre esse assunto para quem quisesse ouvir. Indignado, denunciava que
muitos “negritos batedores de tambores”
viviam melhor do
que
ele como
profissional
liberal.
Embora se possa admitir
que isso
seja um acontecimento
isolado, a experiência sugere que
tais opiniões
não são
incomuns.
Como quem trabalha
no exterior tende a
ganhar
mais do que
quem trabalha
em Cuba,
virtualmente
todos
os músicos tentam
viajar.
Obter permissão
para deixar o país é um processo entediante que
envolve entraves burocráticos,
atrasos
e altas
comissões
em dólares.
Cantor
observa que o Ministério
da Cultura tem
leis
e regulamentos às
vezes
tão caprichosos
que os artistas
jocosamente se referem a ele como
“Mistério da Cultura”. Porém,
desde
1995,
verificaram-se, ao que tudo indica, números
recordes de turnês estrangeiras. Mais
de 3,5 mil dos
quase
11,6 mil
grupos
musicais do país patrocinados pelo Estado — quase um terço — estiveram no exterior
só em
1996.
Em
1999, esses
números
tinham aparentemente
duplicado, e os grupos que
tocavam fora eram compostos,
sobretudo, por músicos de salsa, son e
música tradicional.
Van
Van, Charanga
Habanera, Irakere e outros grupos agora
passam a maior
parte
do ano na
estrada;
suas
apresentações
em Cuba
se limitam a alguns
compromissos.
E mais: musicólogos
notáveis publicaram no exterior,
também por
razões econômicas. Ganharam mais de editoras
espanholas e mexicanas e evitaram os anos
de espera para
serem acomodados pela
indústria
doméstica, desesperadamente
carente de suprimentos.
Pesquisadores
proeminentes
aceitaram convites
para
lecionar ou viver noutros países
e comumente passavam a metade do ano ou mais fora de Cuba.
Enfim,
uma grande porcentagem de músicos cubanos decide, por
bem, deixar seu país; opta pelo exílio oficial
ou
de fato.
O saxofonista
Paquito D’Rivera, ele mesmo um
exilado, sugere que o governo contribui para essa
tendência ao dificultar
as viagens.
O desejo frustrado dos músicos de ter mais contato internacional, combinado com
os incentivos
econômicos, fez da vida
no exterior
uma obsessão. O
número
absoluto de
artistas
que decidiram sair de Cuba em anos recentes
é surpreendente. Os
exemplos
incluem Gonzalo Rubalcaba, que mora na República
Dominicana e em Fort Lauderdale; o cantor de nueva
trova
Virulo, no México; o trombonista
Juan Pablo Torres,
que
foi para a Espanha
em
1992 e agora
mora
nos EUA; vários
membros da dance band Dan Den,
que
desertaram quando estavam na Colômbia
em
1993;
o cantor Albita,
que
se mudou primeiramente
para
o México, depois
para
Miami;
o artista da
nueva trova
Donato Poveda, em
Miami; os saxofonistas Carlos
Aberhoff (em Miami desde
1997) e Yosvanny Terry, em Nova Iorque;
Alejandro Leyva, do NG La Banda,
que
desertou após um
show no Lincoln Center, Nova Iorque, em
1997;
Manolín, “o médico da salsa”,
que desertou em Atlanta, Georgia, em maio de 2001; Carlos Manuel, que desertou através do
México,
em junho
de 2003; e quatro
membros
de um
grupo
de entretenimento, que desertaram em Berlin e Las Vegas, em
novembro de 2004.
Note-se que, enquanto alguns indivíduos
denunciam a revolução e
prometem nunca mais voltar, outros agem
mais discretamente: mantém vínculos
e retornam à ilha
com
alguma freqüência. As razões para sua deserção claramente são mais econômicas que
políticas. Às voltas com tais problemas,
o governo cubano, de início
preocupado com a eventual perda dos talentos, agora parece ter
aceitado o “dreno musical”. Os
formuladores das políticas de Estado entendem
que o país tem muitos
músicos
aspirantes
e que
sempre
aparece alguém
para
assumir o lugar
de quem foi embora.
Outra
tendência
desde os anos
1990 foi a erosão
gradual
do sistema de
plantilla,
com todas as
vantagens
e desvantagens, e o
movimento
de volta à
situação
pré-1968, quando os
artistas
trabalhavam como
agentes
comissionados. Como
reação
aos salários
relativamente
altos dos músicos
e sua
tendência
a evitar trabalhar para o governo, este gradualmente
está lhes oferecendo menos trabalho e reduzindo seus salários mensais pagos
em pesos. A partir
de 1999, ele
não
deu salário algum a
artistas
de maior destaque.
Essa mudança é uma bênção
contraditória. Significa que
as bandas estão mais
livres para achar seus próprios empregos,
trabalhar quando
quiserem e determinar
seus
salários; mas
também que
a rede de seguridade à
disposição
delas está sumindo.
Cada
vez mais
os músicos fazem
sucesso
ou fracassam em
função de seus
esforços, e não
do esforço de
sua
união.
A mudança
significa ainda que o
papel
do governo mudou: de patrão e protetor social para
a de quem vive à custa alheia, muito mais próximo do papel da Internal Revenue Service (IRS)
nos
EUA. As comissões
que
as bandas pagam às agências
do governo
supostamente
lhes dão direito
a serviços
promocionais,
porém, na verdade, a maior parte desse fardo
agora recai sobre os artistas. Um
desdobramento interessante foi a recente
criação da
Fundação
de Desenvolvimento Cultural pelo Ministério
da Cultura, a
fim
de redirecionar os ganhos da música
comercial para
empresas artísticas
que
não geram muita
moeda estrangeira.
Aí estão incluídas as artes clássicas, o teatro
experimental e o folclore regional.
Composições do período
especial
No contexto da crise
econômica, a
música
popular se tornou
um
veículo
importante
para expressar as preocupações com
o futuro do
país. A relevância da
música
como forma de
arte geradora de renda
resultou em
novas
oportunidades para
a crítica
social.
Como foi dito,
mais que se conteúdo ideológico, a mercantilidade e as
vendas
são hoje
fatores centrais
para se determinar se uma
música será gravada
ou
divulgada.
Por
causa disso, uma variedade
maior de gêneros
comerciais surgiu,
freqüentemente
com influências
externas, e mais
assuntos são
discutidos nas letras das músicas. Uma liberdade
de expressão
maior
se evidencia em publicações
“intelectualizadas” como Temas
e La gaceta de Cuba
e noutras mídias como o
cinema.
O próprio
ministro da
Cultura
falou com
liberdade
e sem medo contra a censura;
manifestou interesse em manter vínculos com artistas exilados e, de
certa
forma, ajudou a mudar o tom do discurso
cultural.
As contradições
entre
a ideologia
socialista
e as realidades culturais do presente foram assunto
de muitas discussões também.
Várias tendências são evidentes
nas letras da música popular
cubana hoje.
Como
foi sugerido, foram escritas músicas que
trataram mais diretamente das dificuldades enfrentadas pela
população.
Referências
ao desespero, ao
isolamento
e ao sentimento de
insignificância, ao crime ou à
violência, às tensões
raciais, à perda
de esperança
e à direção
política
são bastante comuns, em especial no
rock e na novíssima trova.
Relações
de gênero
são
outro tópico
que surgiu,
por alusão a relações
entre homem
e mulher e
homossexualidade. Alan West-Durán analisou
composições de rap —
um movimento
novo importante
— que incluem
comentários mordazes
sobre as relações
raciais, algo
a que
ele
se refere como “chacota com consciência”.
Hermanos de Causa, Los Paisanos, Obsesión
e muitos dos mais
de 500 grupos
similares
que existem hoje
mostram um
alto
grau de
consciência
racial,
criticando as doenças que os afetam mais de perto
que
a pessoas de gerações anteriores. Fundem livremente
influências musicais estrangeiras com ritmos e instrumentos locais.
Outra abordagem
da tendência
recente
na produção musical foi evitar temas políticos
e ter um foco exclusivo em músicas com letra de conteúdo pessoal.
A apresentação de
boleros, de arranjos
da trova
tradicional e repertório de dança com ênfase em experiências subjetivas e
emocionais
pode ser vista como
relevante: uma rejeição a
políticas culturais que superpriorizavam a política.
À tendência dos compositores
de se expressarem de um modo potencialmente
controverso correspondeu um público que, com freqüência, lia as letras da cultura
pop como subversivas ou paródicas, independentemente
da intenção do
autor.
Um exemplo
de 1996 é “El baile del
toca-toca”, de Adalberto Alvarez, cuja letra muitos
entenderam como uma
referência
ao “contato”
financeiro
associado com
suborno e contratos
de negócio
ilícitos. Da mesma maneira, os
ouvintes adotaram a
frase “prepare-se para
o que vai
vir”, da música de
Manolín “Voy a mi”, de 1995, como
referência
irônica
ao estilo autocrático de liderança de Castro no período
especial. Em
alguns casos,
as músicas
populares
do passado também serviram como veículos para a sátira. O bolero
“Y”, de Mario de Jesus, de início
circulou no período pré-revolucionário, mas adquiriu novo significado na Havana
da década de 1990.
Vizinhos
que conheci cantavam uma versão cuja letra mostrava ansiedade
quanto à falta
de alimento
barato.
Alguns versos
bastam para evidenciar a
essência
da mudança.
Eis
a letra original:
¿Y qué
hiciste del amor
que me
juraste E o que
você
fez com o
amor
que me
jurou?
Y qué
has hecho de los besos que
te dí? E o
que você
fez dos beijos
que
te dei?
¿Y qué
excusa puedes darme si
faltaste? E que
desculpa vai me
dar se você
desapareceu?
Y mataste la esperanza que hubo en mí E você
matou a esperança
que
eu tinha
Eis a letra
modificada:
¿Y qué hiciste de los pollos que ofreciste E o que
você
fez da galinha
que
me
ofereceu?
Y qué
has hecho de la carne que había aquí? E o que
você
fez da carne
que
estava aqui?
¿Y qué
excusa puedes darme de la leche?
E que desculpa vai me
dar
se o leite
acabou?
O tema do consumismo
apareceu em muitas
músicas.
Em algumas, notadamente naquelas de artistas da nova e da novísima
trova, as alusões às vendas
se misturam com sugestões
de que
Cuba
pode estar se “vendendo” conceitualmente ou espiritualmente,
perdendo o compasso
moral. Os não
envolvidos com música dançante são
especialmente
críticos
nesse sentido,
talvez
porque se sintam marginalizados pela centralidade do repertório
da dança na
nova
economia ou
porque vêem o
espírito
da trova
como
antítese da
comercialização.
Exemplos de
músicas
que abordam as implicações da economia dolarizada incluem “Paladar”,
de Silvio Rodríguez, um bolero introspectivo do álbum
Dominguez, e “Tropicollage”, de Carlos Varela, um rock
que usa piano
montunos em
estilo
son como
meio de se referir
iconicamente ao negócio do turismo. As músicas
dançantes que tratam do consumismo tendem a apresentar
esse tema
com humor,
como seria de se esperar. A
letra
de “La turística”, da Charanga
Habanera,
fala de uma
mulher
adorável que
ignora os homens,
exceto
os que podem levá-la a espaços dolarizados e caros.
A mídia estatal baniu o álbum onde ela apareceu pela
primeira vez,
em parte
porque a arte
da capa consistia de uma nota de US$ 100. Van
Van gravou uma
música
similar de Rodolfo Cárdenes, “Maníaca por compras”,
na qual
um homem
reclama dos gastos sem-fim de sua namorada em lojas
dolarizadas.
Por causa
do grande número de músicos em Cuba e o acesso
limitado a estúdios, muitos nunca
gravaram. Por
ironia, muitas vezes
só
após terem deixado o país
é que
jovens
compositores conseguiram gravar músicas sobre sua experiência
em
casa. Uma antologia de Madri,
por
exemplo, adequadamente chamada Habana oculta, foi constituída de
músicas
de um
coletivo
livre de
entusiastas
cubanos do rock.
Esses e outros
lançamentos
posteriores
resumem as composições da juventude da
década de 1990 em
diante: são
ecléticas e cosmopolitas;
bebem no rhythm & blues,
no son, no pop panlatino-americano e noutras
fontes de inspiração
fundidas com
elementos
do folclore tradicional. Embora vivam no exterior,
esses artistas
têm um
público
ávido em
Cuba que,
na informalidade, faz circular cópias de
seus
discos, e muitos deles voltam
ocasionalmente à ilha para tocar. Sua popularidade
no país mostra até que ponto a “música nacional” é cada
vez mais
parte de um
diálogo
internacional
mais amplo
que inclui a
diáspora
cubana.
Músicos mais jovens
tendem a usar
harmonias
estendidas, de influência jazzística e ritmos complexos.
Vários tipos
de ostinatos aparecem com
destaque, um indício das
influências
estéticas
derivadas da África. Exemplo
destas são o acompanhamento de
guitarra
em “Guaguancó para
Daniela”, do disco Habana
oculta, e o acompanhamento improvisado de quatro tempos que serve de base
para “Chachachá cachybache”, dos Los Chachivache.
A improvisação
vocal e instrumental ainda é um traço central em muitas músicas,
a despeito de
sua
elaboração em estúdio. Os músicos criam
estilos individuais
que revelam um
amálgama pós-moderno agressivo. Os padrões
de acompanhamento da bossa nova brasileira
em “Con tanta
presión”, as batidas de
reggae em “Paula”, as fusões
de jazz-rock à la Santana, com guitarra alta em
“Enfermera”, o baixo funk em “La
cara de mi
suerte”, o som
padrão
do rhythm & blues
de “Quien pedirá”, complementado pelo órgão estilo
Billy Preston, e as adaptações
dos gêneros de percussão
folclórica para
violão em
“La conga” representam só uma fração
de muitos
outros
sons contidos em
Habana oculta. O grupo
Angelitos Negros,
também, é algo típico dos
artistas recentes, e suas
músicas se embasam,
em
parte, no soul e no gospel
afro-americano.
Além do
mais, as
letras no álbum
Habana oculta são
sofisticadas, aferindo os ganhos da revolução
nas artes e na
educação,
embora muitas
músicas
critiquem aspectos da experiência socialista.
O excerto a
seguir
vem da canção “Ritmo
sabroso”, de José Luís Medina, uma das mais
agudas politicamente.
|
Está
este ritmo
sabroso
Me
robaron la cartera y el carnet
Subieron las tarifas
de nuevo este mes
Está
este ritmo
sabroso
Está la gente
idiota
inventando qué hacer
Está
este ritmo
sabroso
Violaron a una niña y
no llegaba a diez
Está
este ritmo
sabroso
Está
una suicida
colgando de mí pared
Está
este ritmo
sabroso
Está un balsero despidiéndose otra
vez
Está el poder ahogándose
entre
la verdad
Está la bolsa
negra
cerrando la llave
Está
una madre
llorando qué cocinar
Está un viejo borracho
tirado en la calle
Está hablando en la tele quien tú sabes ... |
Este ritmo está saboroso
Roubaram minha
carteira e
minha
identidade
Este ritmo está saboroso
Aumentaram as tarifas
de novo
este mês
Este ritmo está saboroso
Essa
gente idiota
está inventando o
que
fazer
Este ritmo está saboroso
Violaram uma menina que nem completou
10 anos
Este ritmo está saboroso
Tem
um suicida
dependurado no meu
muro
Este
ritmo
está saboroso
Tem
um
balsero
se despedindo de novo
O
poder está afundando entre
as verdades
O
mercado negro
está fechando as portas
Uma
mãe está chorando: nada para cozinhar
Tem
um velho
bêbado estirado na rua
Na tevê
está falando você sabe
quem...
|
Impasses da vida
cultural cubana
A Cuba socialista
sobreviveu à dissolução da União Soviética, porém
a transição para a independência fiscal
não foi fácil.
Sob a influência
soviética, o país
produziu basicamente açúcar, rum
e charutos, enviando-os para
o bloco
soviético
em troca
de produtos manufaturados. A perda de seus antigos parceiros
de negócio deixou a
economia
cubana duplamente
prejudicada. Sua falta de diversificação significa que
o Estado
não
pode mais
oferecer
produtos antes
importados do Leste Europeu. Seu isolamento
na “nova
ordem
mundial”
mostrou
que
estabelecer vínculos comerciais alternativos foi problemático.
Por conseqüência,
a população sofreu
como
nunca com
o embargo dos EUA. O governo se viu forçado
a fazer
empréstimos
pesados de agentes
europeus
e asiáticos, aumentando o
déficit nacional em níveis
perigosos.
Furacões, secas
e escassez de equipamentos e
materiais
se combinaram para
reduzir
os ganhos da
produção
de açúcar.
Esses problemas
estruturais são difíceis de
serem superados com
rapidez, em que pese a nova
renda
gerada pelo
turismo
e pelas remessas estrangeiras.
Muito
do que
o socialismo já significou para Cuba — igualdade de renda,
sacrifício para
o bem comum, criação gradual
de uma sociedade
mais
humana — agora está posto em questão à medida que o país adota um sistema econômico
misto.
A fé
na experiência
revolucionária
arrefeceu precisamente porque, com o
passar
dos dias,
seus princípios
refletiram menos
diretamente
as experiências das
pessoas. O discurso
político
e a realidade
diária
tendem a ser conflitantes
cada
vez com
mais freqüência.
Como reação,
os indivíduos se preocupam mais com seu bem-estar e
o de suas
famílias, e menos
com
outros problemas. A revolução
politizou a vida
tão
completamente e
por
tanto tempo
que muitos
cubanos reagiram rejeitando a política por completo.
Quem tem idade inferior
a 40 anos — a
maioria
da população — revela muito
pouco interesse em ideais sociais.
Não tem nenhuma
experiência
com o passado
capitalista e considera como certas muitas mudanças positivas da revolução. Contudo, mais do que perceber as
possibilidades para o
futuro
no sistema vigente, a maioria reconhece, acima de tudo, suas limitações e dificuldades.
Os
músicos
estiveram à frente das
mudanças econômicas recentes; em razão de seus vínculos com o setor turístico e o comércio internacional,
eles obtiveram uma
proeminência
inesperada e são
vistos como
a personificação do capitalismo
nascente.
Com efeito,
muitos
músicos
ligados à dança geraram
controvérsias por
causa de seu estilo de vida pretensioso e do modo
como suas
composições celebram o consumismo. Em geral, os debates
atuais sobre
a política
para
as artes tratam de
questões
sobre como
adaptar melhor
o socialismo às
novas
condições que
se seguiram ao colapso da
União
Soviética. O fato
de o governo
ter
concedido aos músicos um controle maior sobre sua propriedade
reflete tanto o envolvimento crescente do país
com o mundo
capitalista
quanto
a tensão
progressiva
entre direitos
individuais e
coletivos.
Leonardo Padura Fuentes caracteriza as
tendências culturais desde a década
de 1990 em
três
fatores
fundamentais: a
crise
geral de produção
em setores
não comerciais,
uma certa
ampliação
da liberdade de
expressão
e a crescente
onda
de exílios.
No que se refere à
música, pode-se acrescentar
a essa lista
um fascínio
intensificado pela
cultura
estrangeira e pelo
potencial
comercial
da expressão
artística,
bem como o movimento de licenciamento
de música, as
vendas
e a distribuição
para
fora do país.
A indústria musical se
ampliou, mas seu crescimento resultou, em
grande parte,
do investimento
estrangeiro, e não
do governo
local. A gravação
profissional de
músicas,
que esteve firme
nas mãos do
governo
nacional, é agora
cada vez
mais controlada
por
empresários da Espanha, da França, da
Grã-Bretanha e dos EUA. Por exemplo, no presente, Cuba não tem
condições para produzir CDs e
precisa
terceirizar esse
serviço.
Os músicos ganharam e perderam de forma
inesperada como
parte das mudanças dos últimos 15 anos.
Os envolvidos com
gêneros
populares levaram vantagem. Conseguem tocar
uma gama mais
variada de estilos,
em
particular os provenientes dos EUA, ao menos
com a aprovação
tácita do governo.
Têm uma liberdade
maior
para enfocar criticamente
preocupações
sociais. As possibilidades de
viagem aumentaram. De fato,
os músicos
bem-sucedidos se tornaram a nova elite: estrelas de feição
capitalista no
meio
de um
país
que luta
para permanecer socialista. Todavia, os músicos
também perderam
em
certo sentido.
Figuras menos
conhecidas enfrentam as dificuldades
experimentas por
todos
os cubanos desde o
início
dos anos 1990:
padrões
de vida
inferiores,
salários inadequados, falta de moradia
e suprimentos. Instrumentos e outros produtos
ficaram mais
escassos.
Um governo
que um
dia apoiou um amplo espectro de
atividades culturais, independentemente
de
seu
potencial de venda,
agora embasa suas decisões em fatores mais pragmáticos; e muito
da rede de seguridade social que garantia saúde
adequada e cuidados
após
a aposentadoria aos
músicos
acabou.
A
quantidade
de música ao
vivo
e casas noturnas aumentou, embora a maioria
dos espaços
cobre
ingresso em dólar. A
disparidade de classe
é visível: turistas e cubanos mais abastados
freqüentam eventos musicais;
os desprovidos são
excluídos. Estabelecimentos menores, muitas
vezes,
se associam à prostituição e outras atividades consideradas
moralmente condenáveis. Embora pareça exagerada, a
citação
a seguir, de Rafael Rojas, faz
paralelos
provocativos entre a Cuba da década
de 1950 e a do presente:
“nesses
tempos difíceis, vemos a ressurreição do cabaré
e do carnaval, da
sensualidade
e do hedonismo, do turista lascivo e da nudez do nativo, do prostíbulo e da loteria... Uma ponte
é visível
entre
a velha
Cuba
e a nova: o
cadáver
da revolução.”
Ninguém
refuta as mudanças radicais
na produção cultural ao
longo
da década
passada,
porém alguns
representantes do Ministério
da Cultura não
admitem a contradição entre as políticas
do presente e as do
passado. Alicia Perea, ex-diretora do
Instituto
Cubano de la Música, afirmou que
socialismo e
comunismo
“não estão em
conflito com consumismo”.
Ela assevera que
o socialismo significa
“justiça na distribuição de riquezas”,
mas
enfatiza a necessidade de
gerar
riquezas a fim
de prover o
povo
com elas.
A visão de Perea demonstra um pragmatismo que bem pode se provar vantajoso no futuro.
Entretanto, muitas
questões
que vêm à mente
merecem mais
discussão: o domínio
atual
de gravadoras estrangeiras na indústria
musical cubana é inevitável?
É possível reavivar a indústria doméstica?
Se sim,
como
situá-la e situar
sua
produção em face das empresas
estrangeiras? Qual é
papel
— se é que há
um
— da ideologia cubana na
música do novo milênio? E qual é o papel das críticas incontáveis
à produção musical
capitalista
que os formuladores das políticas de
Estado fizeram
durante anos
em documentos
da plataforma do
Partido
Comunista Cubano?
Como
o país vai
evitar
problemas
relativos
à influência do
consumismo
em anos
vindouros?
As tensões políticas
com os EUA continuam a
restringir
a expansão
comercial,
inclusive a dos artistas.
Carlos Varela, resumidamente, parafraseou a
visão
de quase
todos
os cubanos no que se refere a esse aspecto da política internacional
norte-americana,
na canção “La política
no cabe en la azucarera”,
com a repetida frase
“foda-se seu
bloqueio”. Longe de promover a democracia e o respeito
aos direitos
humanos,
tal antagonismo
serve apenas
para
legitimar as limitações
do governo
socialista
ao ativismo
político
e à liberdade de expressão.
Por outro lado, o governo de
Cuba
toma igualmente decisões
caprichosas e míopes. No domínio
da cultura,
elas incluem sua
indisposição, até
pouco tempo
atrás, a apoiar
intensivamente a
projeção
da cultura cubana no mundo capitalista
via turnês e licenciamentos. Artistas
e músicos
que
há muito desejavam se
promover
não podiam fazê-lo
até
recentemente. O
Estado
criou outras oportunidades de carreira, mas
elas, em larga medida, foram ditadas mais
pela
necessidade econômica do que por uma bem
refletida redefinição de
rumos. É preciso
que um
novo conjunto
de diretrizes abrangentes e
amistosas, do
ponto de vista
socialista, libere a atividade artística
individual e permita à própria Cuba permanecer com um papel
vital na
produção musical e salvaguardar continuamente os gêneros
locais e as
instituições
educacionais das
influências
negativas do
mercado.
Tradução e publicação
autorizadas pelo autor em novembro de 2007.
Este ensaio é uma versão
mais curta, elaborada especialmente para
a ArtCultura, de um
capítulo
do livro Music and
revolution: cultural change in socialist Cuba,
publicado em
2006 pela University of California Press. O
projeto
da obra enfoca as políticas
culturais da
revolução cubana
em geral. Seus
objetivos
centrais
são: 1) documentar
o impacto da
turbulência política e social
na esfera cultural,
observando-se suas distintas fases
e as mudanças políticas
no governo; 2)
comparar
as metas culturais e
as iniciativas discutidas em
documentos e
materiais
relativos à
plataforma
do Partido
Comunista
com comentários
de artistas e
intelectuais
que vivem na ilha;
3) analisar a
música
como espaço
de negociação estética
e ideológica entre os indivíduos
(com
seus
gostos, seus
interesses e sua
visão política
singulares) e as instituições estatais. O capítulo
introdutório oferece um panorama desses temas, abordando primeiramente
o discurso do
governo
cubano sobre a
cultura
e discutindo tanto as artes expressivas locais
no contexto
revolucionário
quanto a
percepção
oficial de Cuba
sobre a produção musical
em
países
capitalistas.
Os capítulos 1 a 3
são
organizados cronologicamente e fornecem insights da
natureza radical
da reorganização
musical que acompanhou transformações
políticas
como as dos anos
de 1950. O capítulo 1
se volta para a década de 1950. Discute a
natureza
da produção e
gravação
de músicas à
época
e indaga como
um
país em
meio a uma guerra
civil cada
vez mais
violenta poderia,
ao mesmo
tempo,
ter desenvolvido
tal abundância
de gêneros musicais
de influência
internacional. O
capítulo
2 documenta as várias
mudanças culturais
que ocorreram nos
primeiros anos
da revolução. A
criminalização do jogo, a abolição dos acordos internacionais
relativos a
direitos
autorais, o declínio do
turismo
e relações
internacionais
cada vez
mais tensas são
alguns dos
fatores
que levaram à
reorganização
das artes. O
capítulo
3 investiga o desenvolvimento
das iniciativas governamentais
e agências
ligadas
à cultura, as
quais
incluem a criação do Ministério da Cultura
e de um
sistema
nacional de
educação
musical, bem
como
diversas tentativas
de inspiração
marxista de integrar
arte
e música à
vida
do cidadão
médio.
Esse capítulo
também avalia as
vantagens
e desvantagens da
vida
do músico na
Cuba
socialista, inclusive
questões
pertinentes
à liberdade
artística.
Professor de Etnomusicologia da School of Music da
University of Texas at Austin. Autor, entre outros livros,
de Nationalizing blackness: afrocubanismo and
artistic revolution in Havana (1920-1940). Pittsburgh:
University of Pittsburgh Press, 1998.
robin.moore@mail.utexas.edu
Cf. FREY JR., Louis Chair. Report by the delegation of the
U. S. Association of Former Members of Congress visit to
Cuba, December 9-14, 1996. Washington, The United States
Association of Former Members of Congress, 1997, p. 3.
Cf. MONREAL, Pedro. Las remesas familiares en la economia
cubana. Encuentro, v. 14, out. 1999, p. 50.
Aparentemente, o valor
das remessas chegou a U$ 800 milhões em
1996, mas tem
decrescido um pouco desde então, cf. LYNN, Sophia (ed.).
Cuba/Info, v. 9, n. 1, Washington D. C., John Hopkins
University Cuba Exchange Program, 15 jan.1997, p. 7.
Entretanto, ainda
hoje Monreal observa que o montante
de dinheiro
estrangeiro
remetido a Cuba a
cada
ano é uma soma
muito mais
alta do que
o total de
salários
pagos pelo Estado aos funcionários
no mesmo
período. Até o momento, não
está claro se a legislação
de Bush de julho de
2004 vai restringir o fluxo de
remessas.
Desde a década
de 1990, a
prostituição em
Cuba recebeu uma
significativa
atenção acadêmica.
É um
tópico
pertinente a este
estudo porque a prostituição ganha espaço
no contexto dos eventos musicais e porque
o país ficou conhecido em certos círculos
como um
destino para o “turismo sexual”.
Contudo, é
difícil
fazer generalizações sobre a
prostituição
cubana. Nem todas as mulheres (ou todos os homens)
têm uma atitude inflexível e
mercenária
em relação a seus
eventuais
clientes, exigindo
pagamentos
específicos em
dinheiro. Algumas estão honestamente interessadas em
fazer um amigo estrangeiro;
outras talvez queiram
se apaixonar
e se casar
com
um estrangeiro
a fim de
deixar
a ilha. As “prostitutas”, portanto,
comportam uma gama
imensa de expectativas. Uma complicação
extra
é que as
atitudes
relativas à sexualidade nem sempre são tão
conservadoras em
Cuba
como em
muitas partes da
América Latina.
HERNÁNDEZ-REGUANT, Ariana.
Radio Taíno and the globalization of the cuban
culture industries. PhD dissertation –
University of Chicago, Chicago, 2002, p. 77.
Cf. CANTOR, Judy. Bring on the Cubans! Miami New Times,
19-25 jun., 1997, p. 17.
Cf. PERNA, Vincenzo A. Timba, the sound of the Cuban
crisis: back dance music in Havana during the período
especial.
Doctoral thesis – University of London, London, 2001, p.
79.
Bis Music: estabelecida em
1994, especializa-se em
gravações
mais antigas de
artistas
que moravam fora
de Cuba
já
em 1959 ou
que deixaram o
país
desde então. Cf. DÍAZ AYALA,
Cristóbal. La música cubana como producto
exportable.
Paper presented at the Cuban Research Institute conference,
at Florida International University, 2002.
Cf. REYES, José “Pepe” (autor e pesquisador). Entrevista
concedida ao autor em 21 fev. 2001 em Havana.
Cf. SUBLETTE, Ned et al.
The missing Cuban musicians.
Albuquerque: Cuban Research and Analysis Group, 2004 (texto
não publicado).
Ver DÍAZ AYALA, Cristóbal. Música cubana: del
areyto al rap cubano. 4. ed. San Juan: Fundación Musicalia,
2003, p. 420–432, para outros comentários sobre
o licenciamento da
música
cubana no exterior.
Cf. ACOSTA, Leonardo (musicólogo e autor). Entrevista
concedida ao autor em 6 fev. 2001 em Havana.
CANTOR, Judy. Bring on the Cubans!,
op. cit.,
p. 24, aponta uma porcentagem de
aproximadamente 10% a 15%, contudo os
documentos que vi sugerem que
pode ser consideravelmente
mais
alta.
WATROUS, Peter.
A hip-swaying state-sponsored export. The New York Times,
23 mar. 1997, p. 32, e ROBINSON,
Eugene. Last dance in Havana: the
final days of Fidel and the start of the new Cuban
revolution.
New York: Free Press, 2004, p. 171,
sustentam
que a arrecadação estatal pode chegar a
quase 50%, com um adicional de 20% a
mais
da renda
bruta
deduzido em muitas casas
noturnas de propriedade do Estado
para pagar quem trabalha
nelas. Os contratos
que
regulam esses
acordos
são de difícil
acesso e por vezes variam de
agência
para agência.
Considerem-se os comentários
do baixista Rafael Almazán citados
em
D’RIVERA, Paquito. Mi vida saxual.
Puerto Rico: Editorial Plaza Mayor, 1998, p. 54: “Esses
‘convênios
de trabalho’
são
mecanismos de
extorsão
que o governo
cubano aplica a sua
gente
para conseguir dólares. Meus compromissos
eram: custear as
passagens
de avião,
alojamento,
manutenção, meus
bens de trabalho,
um representante
artístico, o
vestuário etc., pelos quais a Egrem receberia meu
salário mensal
em dólares em
Cuba. Houvesse trabalho ou não.” Ao
que se supõe, Almazán quer dizer com essas palavras que a
Egrem exigia que o
equivalente de seu salário normal cubano em
pesos fosse pago
a ela
em
dólares como
pré-requisito
para a autorização de viagem.
Cf. CASTAÑEDA, Mireya. Musical confrontation. Granma
International, 9 abr. 1997, p. 12.
Cf. HAGEDORN, Katherine J. Anatomía del proceso folklórico:
the ‘folkloricization’ of afro-cuban. In:
Religious performance in Cuba. Dissertation – Brown
University, 1995, p. 274.
CANTOR, Judy. A portrait of the artist as a communist
bureaucrat. Miami New Times, v. 14, n. 11, jun.
1999, p. 22.
Cf. ACOSTA, Leonardo. El ambiente musical en La Habana de
hoy. Texto mão publicado, s/d, p. 5.
Por exemplo,
a antologia de GIRO, R. (ed.). Panorama
de la música popular
cubana. Cali: Editorial de la Universidad del Valle,
1995, lançada na Colômbia, DÍAS PÉREZ, Clara. Silvio
Rodríguez: hay quien precisa. Madrid:
Música Mundana, 1995, e a colaboração de LINARES, María
Teresa e NÚÑEZ, Faustino. La música entre Cuba y España.
Madrid: Fundación Autor, 1998.
Cf. ACOSTA, Leonardo, já cit. Entrevista concedida ao autor
em 1 set. 1996 em Havana.
Cf. OROVIO, Helio (musicólogo). Entrevista concedida ao
autor em 9 fev. 2001 em Cuba.
Cf. GRAU, Adriene. Albito mostra que Cuba não é só salsa.
Folha Ilustrada.
15 nov. 1994, p. 10.
Cf. LYNN, Sophia (ed.). Cuba/Info, v. 9, n. 10, Washington
D. C.: John Hopkins University Cuba Exchange Program, 31
jul. 1997, p. 9.
Informações sobre
deserção em
massa estão no The New York Times,
5 nov. 2004, p. A12. DÍAZ AYALA, Cristóbal. Música cubana
del areyto al rap cubano, op. cit., p. 404,
contém uma lista mais
completa de
artistas
exilados.
Cf. CANTOR, Judy.
A portrait of the artist as a communist bureaucrat,
op. cit.,
p. 22.
Cf. VALDÉS SANTANDREU, Celso
(violinista da Orquestra Aragón). Entrevista
concedida ao autor em 28 fev. 2001 em Havana.
Cf. ACOSTA, Leonardo, já cit. Entrevista concedida ao autor
em 1 set. 1996 em Havana..
Temas,
em especial,
desdobrou-se num jornal acadêmico ativo
que regularmente
publica discussões
sobre
assuntos anteriormente tidos como
tabus (as novas ondas de exílios, o futuro
do pensamento
marxista, as relações
raciais
domésticas, a censura).
Acrescente-se à sua atratividade o fato
de que
ele
pede contribuições de muitos estudiosos
estrangeiros (Noam Chomsky, Jorge Duany,
Louis Pérez, Marifeli Pérez-Stable), bem como de cubanos. Um
artigo sobre
música que
mostra o espírito
de abertura
intelectual
do jornal é
HERNÁNDEZ, Rafael (ed.). La música popular como espejo
social. Temas, n. 29, abr.-jun. 2002..
Diane Soles escreveu um relato fascinante
da criação e
exibição
de Alicia en el pueblo de maravillas,
filme do começo
da década de 1990,
dirigido por Daniel Díaz Torres.
O trabalho dela demonstra
tanto
a liberdade
maior
dos artistas
para
criarem trabalhos
controversos
quanto as
restrições
artísticas contínuas a que eles estão sujeitos.
Soles observa que,
graças à crítica
à burocracia, “Alicia
levou o Partido Comunista
Cubano a mobilizar
centenas
de [membros] do
partido
a lotar os
cinemas
de Havana e
zombar do filme.” Depois de quatro
dias, os membros
do partido o
retiraram dos cinemas. SOLES, Diane. She who laughs
with, laughs best: Bakhtin, Alice in wondertown, and
eevolutionary panic in Cuba, 1991 Manuscrito não publicado,
1997, p. 1.
A liderança
do Instituto
Cubano del Arte
e Industria Cinematográficos (Icaic) suportou bem o
protesto dos conservadores e, desde então, mostrou o filme repetidas vezes
em festivais
de cinema.
Ver, por
exemplo,
DÍAZ,
Elisabet e DEL PINO, Amado. Oficialismo o herejía?
Entrevista a Abel Prieto. Revolución y cultura 1996,
n. 1-2, 1996..
Ver, por exemplo,
FAYA, Alberto et. al. Controvérsia: la música
y el mercado. Temas, n. 66, abr.-jun. 1996..
WEST-DURÁN, Alan.
Rap’s diasporic dialogues: Cuba’s redefinition of
blackness. Journal of Popular Music Studies, v. 16,
n. 1, Malden, Blackwell,
2004,
p. 21.
Ver idem, ibidem, p. 9.
Ver ainda FERNANDES,
Sujatha.
Fear of a black nation: local rappers, transnational
crossings, and state power in contemporary Cuba.
Anthropological Quarterly,
v. 76, n. 4, Fall 2003.
In
Juan Formell y Los Van Van.
CD Te pone la cabeza mala. Madri, Emi-Odeon, 1997.
Luís Alberto Barbería et. al. CD Habana
oculta. Madrid, Nubenegra, 1995.
A exemplo de Luís Alberto Barbería et. al. CD
Habana abierta. Madrid, BMG, 1997, e o CD Habana
abierta: 24 horas. Madrid, BMG, 1999, produzido por Gema
Corredera e Pavel Urkiza para o selo Ariola. Em conversa
comigo, a musicóloga Susan Thomas, da University of Georgia,
lembrou que muitas dessas pessoas
aparecem em todos esses CDs
e que a
mudança
de nome do grupo
apenas
reflete disputas legais entre Nubenegra e BMI.
Ouvir José Luís Estrada e Eugenio Carbonell. CD. Los
cachivache. Madrid, Estudios Sonoland, 1994 (não
disponível comercialmente).
Ouvir, por exemplo,
René Baños et al.
CD Vocal Sampling: una forma más. New York, Warner,
1995.
Ouvir
Carlos Díaz Laportilla. Cassete Vocal LT. Havana:
Artex, 2000.
Ouvir Nicolas Noochi et. al. CD Orichas:
a lo cubano.
Miami Beach,
Universal Latino Music, 2000.
Cf. HERNÁNDEZ-REGUANT, Ariana. Copyrighting Che: art and
authorship under cuban late socialism. Public Culture,
v. 16, n. 1, 2004, p. 3.
ROJAS, Rafael. El arte de la espera: notas al
margen de la política cubana.
Madrid: Colibrí, 1998, p. 134.
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