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JOSÉ
RODRIGUES MÁO JÚNIOR
Doutor em História Econômica pela
Universidade de São Paulo. Professor do Instituto Federal
de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo – IFSP, Campus
Cubatão, e autor de A Revolução Cubana e a Questão Nacional
(1868-1963) (Núcleo de Estudos d’O Capital).

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50 anos do triunfo da
Revolução Cubana
José Rodrigues Máo Júnior
Cuba,
1º de janeiro de 1959. Colunas do Ejército Rebelde comandadas
por Camilo Cienfuegos e Che Guevara avançaram rumo a Havana após
conquistar a cidade de Santa Clara, na região central da Ilha. O
ditador Fulgencio Batista, fugiu do país com as malas devidamente
recheadas de dólares, enquanto um general anti-batistiano – Eulogio
Cantillo – intentava um golpe militar. A manobra deste último era
astuciosa: pretendia ocupar o vácuo político-institucional
decorrente do colapso do regime e impedir a tomada do poder pelos
revolucionários.
Naquele momento, Fidel Castro, o
Comandante em Chefe do Ejército Rebelde, que recentemente havia
conquistado a cidade de Palma de Soriano, mantinha Santiago de Cuba
sob cerco. Ao inteirar-se dos acontecimentos, Fidel, através da
Rádio Rebelde, lançou uma proclamação convocando o povo cubano a uma
greve geral revolucionária. O povo aderiu entusiasticamente ao
chamado, lançando-se às ruas, assaltando os corpos repressivos,
detendo torturadores. Naquele dia, o povo converteu-se num
gigantesco exército e ator decisivo do triunfo revolucionário.
Historicamente, esta data se diferenciou
de um outro evento que havia ocorrido em Cuba há exatos 60 anos. No
dia 1º de janeiro de 1899, Cuba tornou-se independente. Entretanto,
sobre as antigas fortalezas espanholas não foram hasteadas as
bandeiras cubanas, mas a temível bandeira de listras e estrelas dos
EUA.
Nenhum povo do continente americano
lutou por sua independência em condições tão difíceis quanto o povo
cubano. Foram duas guerras de independência: a Guerra dos Diez
Años (1868-1878), e a Segunda Guerra de Independencia
(1895-98). Neste último conflito, morreram cerca de 80 mil soldados
espanhóis e cerca de 400 mil cubanos. Tendo em vista que a população
cubana era estimada em torno de 1,5 milhão de habitantes, poderíamos
afirmar que esta guerra foi o Vietnã do século XIX, segundo
expressão de Fidel Castro.
Em 1898, quando as tropas
independentistas cubanas praticamente já controlavam a maior parte
das áreas rurais de Cuba, os EUA intervieram no conflito –
supostamente para “ajudar os cubanos” – e de maneira oportunista se
apoderaram do país. O primeiro Governo “cubano” foi o da intervenção
militar estadunidense que perdurou até 1902.
Durante o Gobierno Militar dos
EUA, foram criados a maioria dos mecanismos institucionais e
econômicos que garantiram o domínio neocolonial sobre Cuba. Como
anexo a Constituição cubana, foi imposta a Enmienda Platt,
que dava o direito aos estadunidenses intervirem militarmente na
Ilha, e ainda o direito a uma base naval em Guantánamo. O
Gobierno Militar inaugurou também a corrupção e a fraude
eleitoral em Cuba para eleger alguém de confiança como presidente.
Tratava-se de Tomás Estrada Palma, que tinha dupla cidadania e foi
eleito sem sequer estar em território cubano.
A história política de Cuba na primeira
metade do século XX pode ser resumida, a grosso modo, numa sucessão
de governos oligárquicos, permeados por ditaduras e intervenções
militares dos EUA. Entretanto, o principal mecanismo de sujeição de
Cuba ao imperialismo não era o militar, mas o econômico.
Ainda no século XIX, os interesses da
burguesia açucareira cubana e de empresas estadunidenses se
entrelaçavam. Esta situação aprofundou-se durante o Gobierno
Militar que, através de Ordens Militares, expropriou
terras de grande parte do campesinato. Desta forma empresas dos EUA
– e também latifundiários cubanos – se apropriaram de vastas
extensões de Cuba. Mecanismos comerciais e alfandegários garantiam
vantagens para o açúcar produzido em Cuba no mercado estadunidense.
Desta situação se beneficiavam principalmente as empresas
estadunidenses estabelecidas na Ilha, mas também, na qualidade de
sócios menores, a burguesia açucareira cubana.
Dentro deste quadro, a possibilidade de
realização de lucros por parte do setor mais poderoso da burguesia
cubana, estava atrelado a manutenção dos mecanismos de sujeição
política e econômica em relação aos EUA. Em troca da garantia para o
açúcar cubano no mercado estadunidense, o Governo cubano teve que
fazer uma série de concessões que obstaculizaram o desenvolvimento
de outras áreas da economia. Crescentemente, Cuba tornou-se um país
monoprodutor de açúcar, que exportava para um único mercado: os EUA.
Em relação às camadas médias urbanas,
esta deformação da economia reduzia as suas possibilidades de
ascensão, ou até mesmo de manutenção de seu status quo. Por
parte do proletariado (em grande parte rural), o caráter sazonal da
economia açucareira limitava o acesso a empregos estáveis. Quanto ao
campesinato, este era crescentemente vítima de expulsões de suas
terras, para dar espaço ao constante avanço dos latifúndios para
novas áreas de cultivo. Diante da postura neocolonial da classe
dominante cubana, não é de se estranhar que a bandeira de luta pela
emancipação nacional acabasse empalmada pelos setores descontentes
da sociedade cubana.
A contínua queda da cotação do açúcar no
mercado internacional, nos anos que se seguiram ao final da I Guerra
Mundial, conduziu Cuba a uma crise econômica e social que se
estendeu por toda a década de 1920. Neste período floresceu não
apenas um organizado e combativo movimento operário, mas também um
radicalizado movimento estudantil universitário. Os estudantes
universitários, unidos em torno da Federación de Estudantes
Universitários – FEU – expressavam essencialmente o
descontentamento das camadas médias urbanas em relação ao regime
oligárquico. A ala esquerda do movimento estudantil acabou cerrando
fileiras com movimento operário e, juntos, fundaram o primeiro
Partido Comunista de Cuba, em 1925.
Cedo o proletariado cubano soube
vincular a luta pela emancipação social à luta pela
emancipação nacional. O Partido Comunista de Cuba soube
incorporar estas duas dimensões da luta desde a sua fundação em
1925. Rapidamente colheu os seus frutos: tornou-se o terceiro maior
Partido Comunista do continente.
Em resposta ao efervescente quadro de
agitação operária e estudantil, a oligarquia cubana instaurou a
ditadura do general Gerardo Machado, que contava com o ostensivo
apoio dos EUA. Este governo caracterizou-se pela sua ferocidade
repressiva. Gerardo Machado, mais conhecido como El Asno con
Garras, organizou uma sistemática onda de assassinatos sobre as
lideranças operárias e estudantis, que se abateu principalmente
sobre os membros do recém-fundado Partido Comunista.
A economia cubana, que já enfrentava uma
grave crise econômica decorrente da contínua queda da cotação dos
preços do açúcar durante a década de 1920, sofreu um novo e terrível
abalo após o colapso geral de economia capitalista em 1929. Diante
de um verdadeiro cataclismo econômico, político e social, nem mesmo
a mão de ferro do regime ditatorial do General Gerardo Machado pôde
conter a agitação social.
A oposição armada contra o regime
iniciou-se dirigida por elementos dissidentes da própria oligarquia,
ainda em 1931. Foram rapidamente derrotados, mas imediatamente
secundados por movimentos de características insurrecionais,
liderados por setores das camadas médias urbanas – tendo como
vanguarda os estudantes universitários – e pelo proletariado urbano
e rural, solidamente organizados pelo Partido Comunista.
Em 1933 a crise política e social chegou
ao ápice. Em agosto daquele ano, o General Gerardo Machado foi
deposto. Em setembro, um movimento dos subalternos das forças
armadas destituiu os oficiais e passou a reorganizar o Exército a
partir de oficiais improvisados pertencentes ao quadro de sargentos.
Um dos principais líderes do movimento era o então sargento
Fulgencio Batista, que acabou por assumir a patente de coronel e
galgar o comando do Exército. O movimento dos sargentos foi
fundamental para que a derrocada de uma ditadura assumisse
características revolucionárias.
O Governo que assumiu o poder em
setembro representava, sobretudo, os interesses das camadas médias
urbanas, sendo o Presidente empossado pelo movimento, Ramón Grau San
Martín, um professor universitário, que tinha como principal base de
apoio o Directorio Estudantil Universitário – DEU. Dentre as
principais personalidades políticas do movimento, se destacavam o
jovem Antonio Guiteras – ex-líder estudantil, de apenas 27 anos de
idade, que assumiu a Secretaria de Gobernación, Guerra e Marina
– e Fulgencio Batista, comandante do Exército. Ambos representavam,
respectivamente, as alas esquerda e direita do Governo de Grau San
Martín.
Os Estados Unidos não reconheceram o
novo Governo e mantiveram unidades navais ameaçadoramente diante dos
portos cubanos, com tropas de fuzileiros prontas para desembarcar.
Não obstante, uma intervenção militar direta não se fez necessária.
Cedo, o embaixador dos EUA reconheceu em Fulgencio Batista um
elemento dúctil para as suas manobras. Em janeiro de 1934, desfechou
um golpe militar e empossou um novo presidente. A partir de então,
Fulgencio Batista tornou-se o novo strong man dos Estados
Unidos em Cuba. Embora o poder fosse nominalmente exercido por um
presidente civil, o verdadeiro poder estava nas mãos do comandante
do Exército, que, inclusive, se reservava no direito de depor e
nomear os Chefes de Estado conforme a conveniência sua e dos EUA.
A depressão econômica da década de 1930
havia abalado o poderio dos EUA. Por outro lado, o surgimento dos
regimes totalitários na Europa e a aproximação da II Guerra Mundial,
fizeram com que os EUA adotassem a política da Boa Vizinhança
como estrela polar de sua diplomacia. O apoio do Governo
estadunidense às ditaduras execráveis, como a de Cuba, entrava em
profunda contradição com a nova orientação de sua política externa,
baseados na defesa dos valores liberais democráticos. A partir de
então Cuba passou por um processo de democratização, que se estendeu
entre os anos de 1939 e 1952.
No entanto, o breve verão da democracia
burguesa em Cuba foi efêmero. Uma vez derrotada a Alemanha Nazista,
no final da II Guerra Mundial, Washington substituiu Berlin como
centro da contra-revolução mundial. Iniciou-se o período da
Guerra Fria, onde a contenção do comunismo passou a ser a nova
estrela polar da política externa dos EUA. Segundo esta nova
orientação, o comunismo deveria ser detido, tanto pela intervenção
militar direta – como no caso da criminosa agressão imperialista
estadunidense contra o povo coreano – como pelo apoio aos regimes
ditatoriais anticomunistas. No caso da política externa dos EUA em
relação à América Latina, era exigido das nações do continente o
alinhamento incondicional. Desta forma, em nome da contenção do
comunismo, esta exigência de submissão dos países latino-americanos
à sua hegemonia fez com que qualquer Governo ou movimento
nacionalista fosse imediatamente estigmatizado como comunista.
Em 1952 deveriam ocorrer eleições em
Cuba. Diante da indefinição do quadro eleitoral, e em função da
possibilidade da eleição do Partido Ortodoxo – que representava
essencialmente os interesses de uma camada média urbana radicalizada
e nacionalista – o Departamento de Estado dos EUA chancelou o golpe
militar perpetrado pelo general Fulgencio Batista. Assim, tendo como
justificativa ideológica a política estadunidense da Guerra Fria,
estabeleceu-se em Cuba uma nova ditadura.
No ano seguinte, um grupo de jovens
liderados por Fidel Castro, determinados a enfrentar a tirania com
armas em punho, intentou tomar o Quartel Moncada em Santiago de
Cuba. A operação fracassou. Alguns dos jovens caíram em combate, e
muitos outros foram assassinados após a captura. Os que sobreviveram
foram presos, julgados e sentenciados. Mais tarde foram anistiados e
reagrupados no exílio em terras mexicanas. Ainda no México, o médico
argentino Che Guevara incorporou-se ao grupo liderado por Fidel
Castro, cujo objetivo era desembarcar em Cuba e reiniciar a luta
contra a ditadura de Fulgencio Batista.
No México, em 25 de novembro de 1956, 82
expedicionários embarcaram no iate Granma – de apenas 12,5 metros de
comprimento. Desembarcam em Cuba no dia 2 de Dezembro. Depois de um
primeiro combate desfavorável, o grupo foi reduzido a cerca de 15
homens dispersos, alguns desarmados, outros feridos. Não obstante, o
local do desembarque estava próximo à região da Sierra Maestra,
na região oriental da Ilha, onde existia um mobilizado campesinato
que resistia à geofagia dos latifundiários. Os sobreviventes do
Granma foram acolhidos no seio desta população camponesa, protegidos
e alimentados. A partir deste pequeno grupo de sobreviventes, e com
a incorporação de camponeses da região, rapidamente se desenvolveu
uma guerrilha na Sierra Maesta. Surgiu assim, o Ejército
Rebelde.
Depois de algumas vitoriosas escaramuças
iniciais, o Ejército Rebelde cresceu em número, a ponto de
criar um território livre na Sierra. No início de 1958, a
guerrilha contava com um efetivo de aproximadamente 300 homens. O
ditador Fulgencio Batista, com intuito de esmagar o movimento,
organizou uma ofensiva de cerco e aniquilamento em maio
daquele ano. Esta ofensiva contava com cerca de 10 mil homens,
apoiados por artilharia, blindados e aeronaves. Durante os 76 dias
desta ofensiva, combateu-se com ferocidade, e surpreendentemente,
para completa desmoralização do regime de Batista, o Ejército
Rebelde saiu-se vitorioso.
A partir de então, a guerrilha passou a
atuar fora de suas bases na Sierra, colocando sempre as
forças repressivas em xeque. Alguns meses mais tarde, o ditador,
totalmente desmoralizado, fugiu do país em 1º de janeiro de 1959.
No dia seguinte, Fidel Castro à frente
da Coluna nº 1 marchou pelas ruas de Santiago de Cuba, ocupando
simbolicamente o Quartel Moncada, local onde havia desfechado a sua
primeira ação em 1953. Naquela noite, em meio ao júbilo popular, fez
o seu primeiro discurso após a queda de batista. Neste discurso,
além de referências históricas sobre as duas datas, 1º de janeiro de
1899 e de 1959, Fidel também se referiu ao inevitável conflito com
os EUA:
“Desta vez não se frustrará a
Revolução. Desta vez, para sorte de Cuba, a Revolução chegará de
verdade até o final; não será como em 1895, quando vieram os
americanos e fizeram-se donos do país; intervieram na última
hora e depois nem sequer a Calixto García, que havia lutado por
30 anos, deixaram entrar em Santiago de Cuba; ... Nem Ladrões,
nem traidores, nem intervencionistas, desta vez sim, é uma
Revolução ...”.
Doutor em História Econômica
pela Universidade de São Paulo. Professor do
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São
Paulo – IFSP, Campus Cubatão, e autor de A Revolução
Cubana e a Questão Nacional (1868-1963) (Núcleo de
Estudos d’O Capital).
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