JOÃO DOS SANTOS FILHO

Bacharel em Turismo pelo Centro Universitário Ibero-Americano de São Paulo (Unibero) e bacharel em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Mestre em Educação: História e Filosofia da Educação pela PUC/SP. É professor do quadro efetivo da Universidade Estadual de Maringá, PR - UEM. Autor do livro “Ontologia do turismo: estudo de suas causas primeiras” publicado pela EDUSC.

 

 

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Brasileiros ajudaram a revolução cubana: histórias a serem contadas

João dos Santos Filho

 

Iniciamos este breve artigo com um título em construção afirmativa, – Brasileiros ajudaram a revolução cubana –, pois consideramos ser um dos caminhos capazes de formular uma resposta ideologicamente consistente, diante dos críticos da sociedade pós-revolucionária. Entendemos a revolução cubana como um movimento de intensa densidade histórica transformadora para o continente, que influenciou toda a América Latina no campo político, social, educacional e cultural. Constituindo-se em um pólo aglutinador da solidariedade latina contra o avanço do imperialismo norte-americano, permitindo que diferentes partidos políticos, entidades progressistas se unissem na defesa das causas cubanas.

Não podemos esquecer que o movimento político contra o governo de Fulgêncio Batista, como qualquer outro que iniciasse questionando a ordem estabelecida, e com isso, pusesse em xeque a atual forma de governo, seria objeto de imediata e brutal repressão por parte das forças do Capital. Pois, se acreditava que fossem os comunistas os responsáveis por esse movimento, com isso, queremos afirmar que o embate entre capitalismo e comunismo é produto da guerra fria, na qual os Estados Unidos produziram o elemento motor da beligerância e opressão política/econômica aos países do continente, tentando justificar a sua política de guardiã da democracia e da fé cristã.

Com um aparato mercadológico junto aos meios de comunicação apoiado em enormes recursos financeiros, e lastreado pelos princípios da fé cristã no combate ao comunismo. Surge, publicado em novembro de 1959, no jornal “O Estado de São Paulo”, e simultaneamente em periódicos de toda América Latina, uma matéria intitulada “Ideologia do Rearmamento Moral” que objetivava combater e destruir o comunismo.

O embate entre ideologias se constitui na luta entre o capitalismo e comunismo, e está em George Luckács, no seu livro Assalto a Razão, que afirma não haver ideologia inocente, tanto aquela que processamos, como também as que para nós, são processadas.

A tentativa de deslocar a discussão para o campo das ideologias opostas acaba simplificando o debate político, como teorias que para sobreviver tem que lutar para a destruição da outra, como comumente ocorre dentro e fora da academia. Esse processo se constitui na volta ao irracionalismo, discurso tão a gosto dos neoliberais de base weberiana.

Nossa intenção é demonstrar por que os brasileiros devem comemorar os 50 anos da revolução cubana, pois existem motivos marcantes e desconhecidos que aconteceram historicamente, em que a participação de exilados cubanos, políticos, artistas, entidades nacionais, historiadores e brasileiros em geral acabaram colaborando na luta em favor da revolução cubana.

O material utilizado para esse estudo é produto de levantamento realizado entre 1990 e 1991, quando vivemos em Cuba / Habana, junto ao núcleo de Desenvolvimento Econômico e Social (DES) da Universidade de Habana.

Começo de uma história desconhecida

Carta testamento

Em 24 de agosto de 1954 ocorre o suicídio do presidente Getúlio Vargas, o Brasil em luto conhece o teor da Carta Testamento, que desencadeou mobilizações antiamericanas em todo o continente latino-americano. Segundo o polêmico Carlos Lacerda um texto bastante agitador, que era lido muitas vezes com acompanhamento musical de fundo com músicas tristes e marchas fúnebres.

A carta testamento de Getúlio impulsiona grande parte dos movimentos de contestação às ditaduras nos países latinos, um exemplo são os oponentes do torturador general cubano Fulgêncio Batista, que lêem a carta como instrumento de emulação política para acelerar os embates contra os interesses imperialistas dos Estados Unidos em Cuba.

Foi o Movimento 26 de Julho[1], fundado em 1954 por Fidel Castro, o primeiro a ter contato com a Carta Testamento de Getúlio Vargas e, durante algum tempo, foi leitura obrigatória entre os revolucionários. A carta vai impressionar aqueles que lutavam contra a opressão do governo de Batista, por sua dimensão e importância política continental, pois era ousada e poderia ser de auxilio estratégico para uma futura mudança política continental.

Exilados políticos I

A maioria dos cubanos residentes no Brasil chegou via exílio diplomático, por meio da chancelaria brasileira que estava sob a responsabilidade do embaixador Vasco Tristão Leitão da Cunha[2]. Segundo depoimento de José Venegas Valdespino presidente da Federação dos Estudantes Universitários de Cuba (FEU), que, quando perseguido pela polícia de Batista, se refugiou na Embaixada Brasileira em Cuba:

El tratamiento dado a todos los revolucinarios que pidieron exilio politico a la embajada fue acmpañado de un cariño especial y humanitario por parte del cuerpo diplomático brasileño. Frecuentábamos su residencia (Vasco Tristão Leitão da Cunha), eramos amigos de su familia, en suma un gran compãero, con quién, después de la revolución, Fidel Castro continuó relacionándose (DEPOIMENTO registrado em Habana pelo autor em abril 1990).

Vasco Tristão Leitão da Cunha permanece no comando da chancelaria brasileira em Cuba até 1960, retornando ao Itamaraty e assumindo, em novembro de 1961, a chancelaria brasileira na União Soviética, com relações diplomáticas rompidas desde 1947, quando foi nomeado embaixador em Moscou.

Em Janeiro de 1964 é chamado pelos militares golpistas de volta ao Brasil para assumir o Ministerio das Relacões exteriores, onde comanda um processo ideológico de expurgo, perseguição, aposentadorias e a abertura de inqueritos sumários contra funcionários e diplomatas no Itamaraty. Conhecido por seu ajustamento aos interesses dos militares e com um passado ligado a organizações de corte fascista, Vasco Tristão Leitão da Cunha, o conhecido amigos dos cubanos, acaba sendo o responsável pelo rompimento das relações diplomáticas com Cuba, usando o seguinte argumento em documento do Ministério das Relações Exteriores:

[...] A decisão tomada pelo Governo brasileiro esta em perfeita consonância com o propósito de não admitir ação comunista no território nacional [...].

Ao identificar-se oficialmente como de tipo marxista-leninista, o governo de Cuba se excluiu  ipso facto da participação no Sistema Interamericano. O regime de Fidel Castro, longe de manifestar o menor interesse no seu retorno a convivência das nações livres da América, foi se afastando cada vez más de los países do Continente, aproveitando-se de todas as oportunidades para continuar exportando suas doutrinas, através da imensa propaganda ideológica (Nota distribuida pela Divisão de Informações do Ministério das Relações Exteriores. Brasilia 13 de maio de 1964).

Os argumentos usados pelo Brasil para o rompimento das relações diplomáticas com Cuba em 1964, não foram diferentes das apresentadas pelos Estados Unidos por John Kennedy em 1961, acompanhado da invasão militar do país pelos exilados cubanos treinados por militares norte-americanos. No dia 17 de abril de 1961, com apoio tático e aéreo dos Estados Unidos, os contra-revolucionários desembarcaram na baía dos Porcos e foram derrotados em 72 horas.

Em 1962, na Conferência de Punta del Este (Uruguai), por pressão direta dos Estados Unidos, Cuba foi excluída da Organização dos Estados Americanos (OEA). Com exceção do México, todos os países latinos romperam relações diplomáticas e comerciais com Cuba.

Exilados políticos II

Os exilados cubanos se nuclearam em torno do Comitê de Exilados Cubanos com sede no Rio de Janeiro. Com a ajuda de parlamentares brasileiros, como Neiva Moreira e Romeu Campos Vergal, conseguiram, via Câmara de Deputados, que a mesma aprova-se, em 31 de dezembro de 1958, a leitura de uma moção, pedindo que o governo brasileiro rompesse as relações diplomáticas com Cuba.

No Rio de janeiro realizaram ato de protesto contra o governo de Fulgêncio Batista, em frente ao Palácio Monroe, na Cinelândia, na embaixada da Inglaterra empunhando bandeiras do Brasil e de Cuba, cartazes-sandwichs e se dispondo (os exilados cubanos) a entrar em greve de fome a qualquer momento caso o Brasil não fosse sensível às atrocidades cometidas por Batista contra o povo cubano.

Em 1958, com ajuda da revista Manchete, o Comitê de Exilados Cubanos publica o primeiro panfleto político que é distribuído junto à população carioca, intitulado “Porque se luta em Cuba”. Denuncia as atrocidades cometidas pela ditadura militar de Batista, expressa a luta da sociedade no embate de enfrentamento contra a opressão. Um segundo documento chegou a ser elaborado em 1959, relatando a trama de Batista, em conjunto com Rafael Leónidas Trujillo, ditador da República Dominicana, e Anastácio Somoza, ditador da Nicarágua, empenhados em unir forças para destruir os revolucionários cubanos. Bem como, que o governo brasileiro reconhecesse o governo revolucionário de Cuba presidido por Manuel Urrutia Lleó. Esse documento não chegou a ser publicado, pois o processo revolucionário caminhou de forma acelerada, surpreendendo os próprios cubanos exilados no Brasil.

Ações e organização política

Os cubanos exilados no Rio de Janeiro eram em numero aproximado de 16 pessoas que se aglutinavam em torno do Comitê de Exilados Cubanos, desempenhavam diferentes atividades de propaganda política, divulgando o que estava ocorrendo em Cuba e articulando ações para arrecadar dinheiro com a venda de bônus, flâmulas e rifas.

O Comitê colocou a bandeira do Movimento 26 de julho no alto do Pão de Açúcar e a imprensa destacou na primeira página dos principais jornais do Rio. Em São Paulo a mesma atividade foi desenvolvida no Viaduto do Chá, isso abriu caminho junto aos meios de comunicação e facilitou o apoio político de quase todos os setores da sociedade brasileira, como políticos, artistas e intelectuais.

Retorno a Habana

Em janeiro de1959, após alguns dias do triunfo da revolução cubana, o Comitê de Exilados Cubanos conseguiram ser recebido em audiência pelo presidente Juscelino Kubitschek. O objetivo era obter o reconhecimento por parte do Brasil do governo revolucionário de Urrutia e solicitar o retorno a Habana.

O presidente Juscelino estava no ápice de sua popularidade, arquitetando um desenvolvimentismo já globalizado e construindo Brasília, a cidade mais moderna do mundo. Na verdade um estadista de prestígio mundial, que numa atitude sensível aos problemas do continente Latino-americano cedeu em 18 de janeiro um DCE 3 da Força Aérea Brasileira, que saiu do Rio de janeiro com destino a Cuba, com direito a escala em Brasília para conhecer a nova capital brasileira. O itinerário de vôo compreendia saída do Galeão com escalas em Brasília, Recife, Natal, Maranhão, Trinidad Tobago, Puerto Rico e Haiti e finalmente Cuba.

 

[1] O Movimento 26 de Julho se constituiu no exterior em um captador de recursos materiais, financeiro e de armamentos, bem como estimulava a criação da entidade de apoio e defesa da revolução cubana, chamado “Comitê dos Exilados Cubanos” liderado por pelo exilado cubano José Venegas Valdespino (chino), aglutinando os exilados cubanos e simpatizantes brasileiros. No Brasil os cubanos exilados se nuclearam nesse comitê com sede na cidade do Rio de Janeiro e utilizaram meios de comunicação de forma massiva e em 29 de dezembro de 1958 comunicam a imprensa a intenção de realizar uma greve de fome, até que o governo brasileiro rompa as relações diplomáticas com o governo de Batista.

[2] O Ministério das Relações Exteriores no comando do Embaixador Vasco Leitão da Cunha, homem de confiança dos militares, desenvolveu um processo de caça aos diplomatas considerados de esquerda, e deu espaço para a criação do Centro de informações no exterior – CIEX em 1966, o qual tinha a incumbência de vigiar a atuação dos exilados políticos brasileiros.

 

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