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ALEXANDRE
HECKER
Frederico
Alexandre Hecker, professor de história contemporânea da UNESP e
do Mackenzie. Autor de Socialismo sociável: história da
esquerda democrática em São Paulo.
Edunesp, 1998. Um socialismo possível: a atuação de A.
Piccarolo em S. Paulo. TA Queiroz, 1989. Revolução Russa:
uma história em debate.
Expressão e Arte, 2007.

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Contra a guerra de Cuba
Alexandre Hecker
Nós,
brasileiros em geral e a nossa imprensa, desde os menores até os
grandes veículos de comunicação, repudiamos a atuação do Estado de
Israel na guerra contra o Hamas, que martirizou a população de Gaza.
Nada mais acertado. Entretanto, vivemos aqui, no Continente
americano, uma outra guerra, igualmente reprochável e que deveria
merecer o mesmo repúdio de outros conflitos. Refiro-me à guerra que
os Estados Unidos da América do Norte deflagram cotidiana e
obstinadamente contra Cuba, e que agora, com Obama, pode, talvez,
conhecer amenização. É bem verdade que uma velha questão ideológica
implícita na avaliação da ilha dos barbudos, e praticamente ausente
no conflito do Oriente Médio, contribui decisivamente para
embaralhar o entendimento dos papéis representados pelas personagens
envolvidas e assim dificultar a tomada de posição em favor de Cuba.
Há opinião generalizada contra o comunismo, que a ilha caribenha
estampa como seu regime. Porém, hoje em dia, isto é apenas uma
formalidade, vazia.
Na verdade Cuba não é mais comunista, se
é que foi em algum momento. Quer dizer, se entendemos comunismo
como uma proposta humanitária do século XIX para constituir uma
sociedade próspera e solidária, na qual uma perfeita integração
entre os interesses individuais e coletivos se compusessem
harmonicamente, é forçoso reconhecer que esta utopia permaneceu no
“céu brumoso da vã filosofia”. Não apenas em Cuba, mas por todos os
lugares onde invocaram seu nome. Por outro lado, se quisermos
entender comunismo como um “socialismo realmente existente” é
possível afirmar que diversos tipos de regimes político-econômicos,
entre si díspares e conflitantes, caberiam na identificação,
tornando anódino o conceito. Portanto, por impropriedade do critério
temos que Cuba e comunismo não são de obrigatória
sinonímia, como o senso comum avalia.
Além disto, e de maneira dramática, um
contato direto com as condições dos cidadãos cubanos, agora por
ocasião da comemoração dos 50 anos de sua Revolução, joga por terra
qualquer aproximação entre o conceito teórico de comunismo e a
realidade vivenciada contemporaneamente naquele país.
Definitivamente Cuba não é um “país terrorista” como a passada
administração norte-americana quis qualificar. Não há razão para
temer as declarações grandiloquentes de Fidel Castro ou outros
líderes que se auto-denominam comunistas, mas cuja preocupação
fundamental – e justificável – é proteger o país, é patriótica.
Tanto assim que está espalhado por toda a Havana o dístico “Patria o
muerte. Venceremos!”
Havana hoje é uma cidade em escombros,
flagelada pelo “bombardeio” econômico cerceador dos Estados Unidos.
Seus cidadãos, orgulhosos de suas conquistas sociais nas áreas da
educação e da saúde pública, e altaneiros pela história de glórias
revolucionárias conquistadas, não são muito mais do que favelados e
maltrapilhos, carentes das mais comezinhas necessidades de consumo:
sabão, óleo de cozinha, leite, roupas etc. Uma simples caminhada por
Havana revela a deterioração dos prédios, públicos ou privados, nos
quais o revestimento desabou em parte e a instalação elétrica está
danificada. As ruas com calçamento em decomposição, têm a sujeira e
a desorganização imperando. As habitações, verdadeiros cortiços em
boa parte, carecem de iluminação por efeito da campanha de economia
de eletricidade necessária para impedir o colapso total do sistema.
Carros de museu, quase sempre com motores desregulados, provocam tal
poluição que, mesmo para um paulistano acostumado a parar em
congestionamentos, resulta em tremendo desconforto.
Pormenores da vida social podem dar a
conhecer a situação de penúria social generalizada: na biblioteca
central da Universidade de Havana os banheiros, em estado de
pré-demolição, constantemente não dispõem de água; o acesso aos
poucos e lentos computadores disponíveis depende de longas filas que
os alunos devem enfrentar para aproveitá-los; universitários fazem
cursos apenas teóricos de, por exemplo, fotografia, pois não há
máquinas para praticar; comumente as pessoas na rua, trabalhadores –
não os mendigos, que não os há em Cuba – abordam os estrangeiros
para pedir-lhes que lhes comprem leite ou farinha; a mais conhecida
sorveteria da cidade, La Coppellia, um dos poucos passeios possíveis
para o habitante de Havana além de ir ao cinema, baratíssimo, e de
dançar em algum clube precário, serve um sorvete medíocre que, no
entanto, é elevado à categoria de iguaria. O rol de situações e
ocasiões reveladoras da penúria social é interminável.
Claro que há uma Cuba para turistas
absolutamente alheios à condição do país e que são muito benvindos,
pois constituem mais da metade do aporte de dinheiro para a ilha.
Estes estrangeiros localizam-se em Varadero, nos Cayos e em outros
lugares paradisíacos. O cubano quase nem tem contato com eles, a não
ser os taxistas, os garçons e as prostitutas.
Não obstante a guerra, a sociedade
cubana não apresenta altos índices de violência e, em relação ao
nosso país, ostenta um padrão de saúde e educação invejáveis. Assim,
o povo cubano é saudável, asseado, culto, criativo e sua música
manifesta uma alegria atávica que cativa a todos.
O Brasil do presidente Lula, e do
ministro Celso Amorim, tem promovido avanços nas relações bilaterais
com Cuba, mas ainda há muito por fazer. É possível negociar
tecnologia na área petrolífera e para fabricação de lubrificantes,
oferecer créditos para o fomento à venda de alimentos, tão
necessários àquele país, ensinar-lhes a cultivar soja, etc. São
medidas não paternalistas que resultarão em benefícios mútuos e
certamente contribuirão para que o Brasil, não apenas consolide uma
posição política de força na geopolítica latino-americana, mas
contribua para solucionar uma injustiça internacional.
Enquanto a América Latina, apesar dos
pesares, vive um período de paz e progresso, os cubanos padecem na
carestia. O primeiro passo que se pode dar para superar esta
situação é conhecer sem rodeios a condição suportada pelo país,
submetido há 50 anos a um absurdo bloqueio econômico. Depois,
consequentemente, contar com a adesão veemente dos brasileiros para
a promoção de mudanças fundamentais em nosso continente.
Frederico Alexandre Hecker, professor de história
contemporânea da UNESP e do Mackenzie. Autor de
Socialismo sociável: história da esquerda democrática em São
Paulo. Edunesp, 1998.
Um socialismo possível: a atuação de A. Piccarolo em
S. Paulo. TA Queiroz, 1989. Revolução Russa: uma
história em debate.
Expressão e Arte, 2007.
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