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EVA PAULINO BUENO
Eva Paulino
Bueno é paranaense de Cafeara. Morou em Maringá até 1975, e se
graduou em Letras pela UEM (1975). Tem mestrado em Língua
Inglesa pela UFRJ (1986), e Ph. D. em Hispanic Languages and
Literatures pela Universidade de Pittsburgh (1991). Atualmente é
professora de Espanhol e Português na St. Mary’s University, em
San Antonio, Texas. É autora de vários livros e artigos sobre
literatura brasileira, cultura popular, e estudos da mulher. Seu
livro mais recente é uma enciclopédia, Latin American Women
Writers, An Encyclopedia (Routledge).

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Che: o homem, o mito, a
camiseta
Eva Paulino Bueno
Para
as pessoas de minha geração, Che Guevara é uma figura importante.
Embora ele tenha sido morto em 1967, em algum lugar na Bolívia, de
uma certa forma ele continuou vivo, sempre de cabelos longos, barba
rala, sério, olhando fixamente em uma direção fora da moldura,
usando uma boina escura na qual se vê uma estrela branca. Esta é
obviamente a descrição da sua fotografia mais famosa ou, por assim
dizer, a “oficial”.
Mas quem foi Ernesto Guevara? E importa
realmente quem ele foi? Parece que importa: o número de biografias
sobre ele, sobre sua atuação na revolução cubana indica que depois
de todas estas décadas ele ainda continua atraindo a curiosidade
intelectual dos escritores, e o interesse de leitores. Mas o que
mais se sabe de Che está relacionado com sua posição como um dos
dentes da engrenagem capitalista contra a qual ele lutou.
Para exemplificar esta colocação, eu
posso citar ter visto reproduções da famosa foto de Che, feita por
Alberto Korda, em praticamente todos os continentes. Em algumas, a
imagem aparece ao lado de personagens históricos locais. Em outras,
ele está sozinho, rodeado de slogans. Em outras ainda, com as cores
invertidas. Mas a ocasião mais interessante foi quando um aluno de
primeiro ano de faculdade apareceu na minha aula com uma camiseta
com a tal imagem. Eu perguntei se ele sabia quem era o homem.
“Claro, é o Che”, ele respondeu. Quando eu perguntei quem era Che,
ele respondeu, “Ah, é um cara que jogava beisebol por Cuba”. Fiquei
sem saber se deveria corrigir o aluno, ou deixar que ele seguisse
pensando da mesma forma. Afinal, pra uma pessoa de 18 anos, que
diferença faz se Che jogava beisebol ou futebol, desde que fosse por
Cuba?
Logicamente, faz uma grande diferença,
não que tipo de esporte, mas que tipo de filosofia política Che teve
e como a empregou durante sua vida. Como sabemos e vimos, ele era
argentino de Buenos Aires, e vinha de uma família que, de acordo com
a história, era “acomodada”: nem rica, nem pobre, mas que vivia bem.
Fez faculdade de medicina e desenvolveu sua visão política depois de
sair em uma viagem de motocicleta com seu amigo Alberto. Eles
atravessaram a América espanhola (pelo menos as partes mais
interessantes e com gente com problemas), e foram até... um lugar ao
norte e ficaram em um asilo para leprosos... e Che estava muito
apaixonado por sua namorada argentina de família rica... e talvez
por causa disto nunca teve sexo com ninguém durante toda a viagem,
enquanto que seu amigo Alberto usou todas as oportunidades para
conquistar as mulheres que encontravam. No final, Che e seu amigo se
despediram, e vemos que o amigo ficou velhinho e trabalhou em Cuba.
Mas, um momento! Este é o enredo do filme “Diários de motocicleta”!
Será que Che realmente foi tudo o que o filme relata? É verdade que
resistiu aos charmes da mulherada durante o trajeto? Deu mesmo
aquele dinheiro da sua namorada para o casal de mineiros
desempregados? O filme, pelo que quer indicar, vem dos diários do
próprio Che, mas como é que podemos ter certeza? Não seria a
primeira vez que o escritor do script adiciona algumas coisas
para fazer mais efeito. O fato é que, depois de assistir este filme,
meus alunos ficaram muito comovidos com a história de Che,
especialmente porque quem o representou foi um ator muito bonito.
Mas
a última foto real de Che não o mostra tão bonito como o ator de
“Diários de motocicleta”. Embora aquela foto não tenha aparecido
tanto como a fotografia tirada por Korda, ela apareceu em alguns
lugares. Teria sido em Manchete? Teria sido em Fatos e
Fotos? Agora já fica difícil lembrar. Mas a foto circulou no
Brasil. Era do interesse dos nossos ditadores mostrar ao povão o que
acontecia com um comunista. Sim, comunista! Esta era a
palavra maldita que se usava para indicar qualquer um que poderia
ter o fim semelhante ao do jovem guerrilheiro que tinha ajudado
Fidel Castro a ganhar a revolução. Aquele corpo estendido numa maca,
sem camisa, foi usado como um aviso.
Mas não foi o único aviso. Em 1969 um
filme com Omar Sharif já vinha com sua versão da vida de Che. O nome
do filme, “Che!”, foi traduzido no Brasil como “Causa perdida”, e a
tradução dos diálogos do filme foi alterada de forma suficiente para
indicar que a causa estava, realmente, perdida. Quem viu aquele
filme quando foi liberado no Brasil? Quais foram as conseqüências?
Difícil dizer. Mas, pelo menos para mim, que vi o filme em 1976,
ficaram as cenas chocantes de Che assinando ordens de execução de
gente relacionada ao regime do ditador anterior de Cuba.
Simplesmente assinando, enquanto do lado de fora o pelotão de
fuzilamento ia matando, matando, matando, e ele dizendo alguma coisa
que “no hay que perder la ternura”. (Ou será que isto também vem de
outra fonte?) Mas, naquele filme, no fim, aparecem as imagens do
corpo sendo levado, amarrado à parte inferior de um helicóptero, os
cabelos voando ao vento. E também as imagens do corpo estendido no
chão do hospital para onde o cadáver foi levado depois da execução.
A não ser que estas sejam imagens mentais que fiz depois de ler sua
biografia.
Mas em Cuba, as crianças talvez não
precisem de nenhuma imagem mental enquanto recitam, todos os dias,
uma sentença que diz, “Seremos como Che, seremos
internacionalistas.” E os que não querem ser como Che, têm uma
opção? Será verdade o que um antigo prisioneiro em Cuba (Armando
Valadares, antigo embaixador dos Estados Unidos na ONU) conta, de um
menino de 12 anos que foi preso por ter brincado com a arma de um
policial, e depois de ser seviciado e violentado na cadeia, ficou
com doenças venéreas, e ia ficar na prisão até os 18 anos, sujeito a
todo tipo de humilhação e violência? Podemos acreditar que todas as
crianças de 12 anos em Cuba têm que ir passar um tempo em uma
espécie de retiro, onde trabalham e recebem a doutrina, mas que
acabam sendo violentadas por falta de supervisão?
Ou será que é verdade que todas as crianças — aliás todas as pessoas
— em Cuba têm direito a assistência médica gratuita? E todas as
escolas têm suficiente leite em pó, açúcar, arroz e feijão para dar
a todos os alunos duas refeições diárias?
Como vamos saber?
*
De vez em quando, aqui nos Estados
Unidos, a imprensa se refere a Cuba. Depois do escândalo com o
menino Elián, que sobreviveu a travessia e chegou na Flórida para
ser o alvo de um conflito entre os familiares dos dois lados, o
assunto que mais aparece é Fidel Castro. Está vivo? Não está vivo?
Quem vai entrar no seu lugar quando ele morrer? Como é mesmo seu
irmão? Os Estados Unidos devem ou não devem parar com o embargo?
Quem gosta de charutos cubanos, etc.?
Talvez uma das imagens mais chocantes
dos últimos tempos seja a que de Castro e Chávez, lado a lado,
quando este último lhe estava dando a espada de Bolívar. Deu mesmo?
Ou será que foi só para tirar as fotos? A espada pertence a Chávez
pra ele poder ir dando a Castro? Não pertence à Venezuela? Os
venezuelanos foram consultados sobre esta doação? Quem sabe ao
certo? Talvez nem mesmo Chávez, que parece não saber exatamente onde
termina a realidade e onde começa sua auto-invenção.
E, logicamente, esta imagem dos dois
juntos é especial. Chávez, autodenominado socialista, é o filho
bastardo da revolução cubana, da qual fez sua própria tradução e
interpretação livre. Depois desta última “eleição”, em que qualquer
tentativa de disfarçar seus desígnios ditatoriais caíram por terra,
eu fico pensando no que diria Bolívar, seu compatriota e herói da
libertação da América espanhola, que sonhou com uma América
democrática.
Mas
uma outra coisa interessante daquela entrevista dos dois foi a
imagem do velhinho Fidel, ainda chamado “comandante”, que entrava em
conflito com a outra imagem mental que temos dele, uma espécie de
Che mais magro, de cabelos mais curtos, falando à multidão depois da
entrada triunfal em Havana. Sim, meus amigos, até os poderosos criam
rugas e ficam com manchas na pele. É só uma questão de tempo.
Mas não para Che. Ele continua com o
mesmo olhar penetrante. Furando o tempo. As doenças jamais o
tocaram. Não teve cataratas. Não colocou dentadura nem implantes.
Ali está ele, imortal. Furando o futuro e chegando até nós. É ou não
é?
*
Como vamos saber se é mesmo verdade que
as crianças de Cuba têm alimentação garantida? Sabemos que o país
eliminou o analfabetismo e que exporta médicos. Mas, e a comida? Com
o embargo imposto pelos Estados Unidos por tantos anos, e com a
queda da União Soviética no fim dos anos 80, o país ficou mesmo como
um pequeno navio num marasmo, velas murchas. Que fazer?
Em 1996, participei de uma mostra de um
filme, seguida de palestra e discussão, feita pela artista Coco
Fusco.
Naquela ocasião Fusco, que trabalha com teatro, especialmente teatro
de performance (uma espécie de improvisação), relatou sua
experiência em Havana, e como uma grande porcentagem das mulheres
jovens da cidade trabalham em volta dos hotéis de luxo, como
prostitutas, e sustentam a família com este trabalho. Ela trazia os
filmes e entrevistas que havia feito, e a conclusão, naquele
momento, era que a população cubana estava numa condição terrível,
então as mulheres — mesmo meninas de 10 a 12 anos – faziam o que
podiam para ajudar suas famílias. Fiquei com a impressão que nada
havia mudado em Cuba, pelo menos não para as mulheres. Outra vez, a
ilha tinha virado o bordéu dos países ricos, em que homens
endinheirados podem ir e escolher as mulheres que quiserem para usar
e descartar. Elas não têm outra opção, não importa o que “el
comandante” diga, e quantas espadas de Bolívar Chávez possa lhe
trazer.
Eu nunca estive em Cuba. É bem possível
que jamais possa ir. Mas a imaginação daquele país permanece, para
mim, assim como para muitos outros, filtrada pelos versos do
patriota José Martí, que morreu tentando libertar sua pátria dos
espanhóis: uma terra de palmeiras, de brisa, de grande beleza.
Talvez tenha sido esta a imagem que inicialmente atraiu o jovem
idealista Ernesto Guevara.
*
As guerras, as revoluções, são mesmo
como um omelete: não podem ser feitas sem se quebrar os ovos. Che
entrou na luta pela libertação de Cuba pronto para quebrar ovos.
Fidel ficou com o omelete. O povo cubano pode ter ganhado um pouco
do omelete no início (especialmente depois que a maioria dos brancos
se foi da ilha), mas pelo que se vê ultimamente, o povo cubano está
realmente com as cascas dos ovos nas mãos, e as galinhas foram
também comidas. Quando Fidel se for, seguindo o estilo de ditadores,
a presidência fica para seu irmão Raul Castro. O que se espera, para
o bem do povo cubano, é que Raul — que também não é jovem — veja que
eleições livres não têm que necessariamente significar que o país
vai ser entregue aos ianques. Que adianta terem dado educação aos
cubanos, se os irmãos Castro acham que o povo é estúpido e não sabe
escolher seu próprio presidente?
 As
ditaduras, tenham as caras que tiverem, cheiram mal. Agora que
Chávez pariu seu próprio modelo, é bem possível que a carniça se
espalhe pela América Latina inteira. Não sei bem o que Che diria de
Chávez, mas é bem possível que o que ele pensaria não poderia ser
impresso em uma camiseta.
Quanto à imagem de Che, causa uma
espécie de alegria vê-lo sempre jovem, varonil, bonito, tal como
Casimiro de Abreu, Castro Alves e Lord Byron. Tal como estes poetas
r omânticos,
e tal como os ícones como Marilyn Monroe e James Dean, Che escapou
dos achaques da idade, das dores de coluna, das varizes, das
hemorróidas. Há uma grande beleza nisto, temos que admitir.
A não ser, claro, que a gente prefira a
beleza da velhice plena de Michelangelo. Ou mesmo de um Fidel à
beira da decrepitude total.
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