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JOANICE
SANTOS CONCEIÇÃO
Doutoranda do Programa de
Estudos Pós-graduados de Ciências Sociais/Antropologia da PUC-SP

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Rituais mortuários: espaço de construção
identitária
Joanice Santos Conceição
Os ritos sempre acompanham o homem em
diversas fases da sua vida. Tanto o homem moderno quanto o
tradicional, ainda que cada qual apreenda de formas e jeitos
diferentes, os rituais sempre estarão presentes na vida humana, como
o nascimento, o batizado, a primeira comunhão, a circuncisão, o
noivado, o casamento, dentre outros. Dos muitos rituais existentes
em todas as sociedades falaremos aqui dos ritos de passagem, pois
eles exercem grande influência nas diversas fases da vida, porém não
podemos esquecer que estes ritos não escapam às exigências dos novos
apelos sociais. Assim, as discussões feitas por Mauss, Godelier e
Eliade são sempre atuais para pensarmos a função da dádiva e dos
rituais. Eliade, por exemplo, nos diz o seguinte:
[...] há também ritos de passagem no
nascimento, no casamento e na morte, e pode-se dizer que, em cada um
desses casos, se trata sempre de uma iniciação, pois envolve uma
mudança radical de regime ontológico e estatuto social. (ELIADE,
1992:150).
O trecho acima ratifica o que
presenciamos no nosso dia-a-dia e ao longo da vida. Entretanto,
nossa discussão repousa sobre os ritos mortuários africanos que
persistem resistindo às novas formas de práticas ritualísticas. E
uma vez que podemos observar em diferentes sociedades tais rituais,
é preciso salientar, sobretudo, que em todas essas sociedades os
ritos mortuários cumprem suas funções. Dentro da visão de mundo
africana, especialmente para os iorubanos, Os Egugun ou
ancestrais são homenageados por meio de cultos rituais, cuja tarefa
é de materializar-lhes no mundo dos viventes e lembrar-lhes da vida
passada. Esses rituais possibilitam o encontro dos seres divinizados
com entes familiares aqui no aiyê e, simultaneamente, cumprem
a função de conexão entre a vida e a morte, ao mesmo tempo em que
reforçam as relações sociais. Ao falar sobre a função dos ritos em
diferentes sociedades, Godelier acrescenta:
Não é o objeto que cria as diferenças,
são as diversas lógicas dos domínios da vida social que lhes
conferem sentidos diferentes na medida em que se deslocam de um para
outro e trocam de função e de emprego. (2001:165).
Assim, os ritos mortuários presentes em
todas as sociedades cumprem em cada grupo a sua função e ainda que
em cada uma dessas populações eles sejam compreendidos de maneira
diferente, mesmo assim eles são carregados de significados e exercem
grande influência mítica, contribuindo para a formação identitária
daquele grupo.
Na medida do possível, faremos algumas
aproximações entre a idéia de morte descrita por Mauss e as
concepções que envolvem os rituais mortuários de matriz africana
preservados no Brasil que, segundo Braga (2006), a noção de
ancestralidade afro-brasileira forjada no interior do culto aos
ancestrais parece ser um elemento exponencial na construção da
identidade étnica da população negra nos terreiros de Orixá e de
Egun em São Paulo e na Bahia, onde realizamos algumas observações.
Particularmente, esses rituais são muito
complexos, compostos por várias etapas, sendo que algumas delas são
restritas aos familiares e adeptos da religião. Além disso, existem
cerimônias específicas em que esses espíritos ancestrais se fazem
presentes no aiyê, isto é, no mundo dos vivos por meio de
ritos próprios para tais circunstâncias. É necessário dizer que os
ritos para os ancestrais ou Egun são praticados em espaço diferente
daquele em que se cultuam os orixás, pois estes pertencem a outra
dimensão. Geralmente estes ritos encerram muitos tabus e são
carregados de símbolos e significados pouco conhecidos pela
sociedade mais ampla circundante, até mesmo por uma grande parte dos
adeptos aos orixás.
Neste sentido, as concepções de vida
relativas ao homem africano diferem daquelas investigadas por Mauss,
visto que naquelas culturas existem um forte apelo para punições. A
idéia de finitude, o conceito de céu e de inferno, além de um
julgamento pós-morte fez com Mauss refletisse sobre os efeitos
físicos da morte, especialmente, no momento em que o indivíduo se
julgava enfeitiçado ou castigado por deus.
Em contrapartida, tanto na população
estudada por Mauss quanto na população africana, sobretudo, a
iorubana, as pessoas são compostas de duas porções: a física e a
sobrenatural, embora concebidas de maneira completamente diferente.
Enquanto a primeira está associada a estágios distintos, na segunda
a morte representa uma passagem, já que tudo acontece num mesmo
círculo, sem ruptura, ou seja, aqui a pessoa é vista na sua
totalidade. A morte é concebida como um valor civilizatório como
outros elementos culturais, tais como: oralidade, memória,
corporeidade, musicalidade, dentre outros. Essa idéia da totalidade
humana é referida na vida cotidiana de algumas populações africanas,
principalmente na região da Nigéria e mostra-se em consonância com o
pensamento de Mauss, como ele assinala no fragmento abaixo:
[...] A consideração do social é
necessária. Inversamente, a simples consideração desse fragmento de
nossa vida que é nossa vida em sociedade não basta. Vê-se aqui de
que modo o “homo duplex” de Durkheim se situa com mais precisão, e
de que modo podemos considerar sua dupla natureza.
E acrescenta.
[...] por fim, desse duplo ponto de
vista, do estudo da totalidade da consciência e da totalidade da
conduta, penso que esses fatos são interessantes. Eles opõem essa
“totalidade” daqueles que chamados impropriamente primitivos, à
dissociação característica dos homens que somos, sentindo nossas
pessoas e resistindo à coletividade. (2003:364).
Embora o fragmento do texto de Mauss
esteja em consonância com a visão de mundo dos africanos, estes
últimos possuem maneiras distintas para apreender o social, bem como
a totalidade. Posto que para os iorubanos não existe o conceito de
punição - homens, mulheres e criança vão para o mesmo lugar -,
também não há julgamento, logo os Espíritos podem retornar à vida do
Orun – o mundo sobrenatural onde estão as divindades.
Ao refletir sobre a constituição do
homem compreendemos que esta constituição é composta por dupla
natureza: uma que se refere à coletividade
e outra feita individualmente, uma parte sagrada e uma profana, pois
o homem estabelece relações com seus pares, com a natureza e os
animais, portanto o viver em sociedade não basta e como a porção
sagrada é parte de um todo, logo o homem é por natureza um ser dual.
A este processo Durkheim (1989) chamou de homo duplex.
Para Godelier quando o sagrado aparece o
real torna-se opaco e no momento em que a porção sagrada do homem
surge o real tende a desaparecer, possibilitando o contato apenas
com a natureza sagrada, fato que pode ser observado no candomblé, ou
seja, quando o orixá está presente a pessoa real desaparece e o que
prevalece é a atitude do ser divinizado – o Orixá. Igualmente
podemos pensar na transubstanciação que ocorre durante a missa,
momento em que o sacerdote diz que quem está presente é o corpo e
sangue de Cristo. Neste instante o padre deixa o vinho de uva e o
biscoito de farinha tornarem-se o corpo e o sangue de Cristo. Este
duplo imaginário existente no homem é ao mesmo tempo parte das
relações sociais e individuais, como nos mostra Godelier.
O círculo se fecha. As idéias
correspondem às coisas. As coisas e os fatos correspondem às idéias.
A verdade é verificada. Se evidência não pode ser negada. O homem
encontra-se murado no mundo de suas representações e de seus
desejos, de sua vontade. E no curso do mesmo processo são suas
relações sociais que se constroem de modo tal que a opacidade
necessária à sua existência, à sua a reprodução, possa, ao mesmo
tempo, ser reproduzida.
Portanto não estamos lidando com
fenômenos puramente intelectuais, porém, mais profundamente, com a
parte que o pensamento assume no próprio processo de reprodução das
relações sociais, com a parte ideal do real social. (2001:204-205).
Em contrapartida, ao revelar o
sobrenatural o que prevalece é o objeto imaginado, então a opacidade
encobre uma parte deste duplo
e carrega consigo a consciência coletiva e individual, elementos
imprescindíveis nas relações sociais. Por isso Godelier (2001)
insiste em dizer que o sagrado traveste o social, torna-o opaco a si
mesmo. No momento em que o imaginado aparece desaparecem o
individual e o coletivo, prevalecendo, apenas, o sobrenatural. É por
assim dizer um se esconde para revelar o outro. Portanto, nas
sociedades atuais o mito tem o papel de revelar o sobrenatural
ocultando o real.
Trouxemos até agora algumas reflexões em
torno dos principais ritos que envolvem a vida humana, especialmente
os mortuários, levando-se em consideração as funções desempenhadas
pelos ritos no processo da dádiva discutida por Mauss, já que na
morte há a idéia de troca, ainda que esta seja apreendida de maneira
diferente. Na idéia de morte entendida por Mauss há a troca da vida
pela morte, enquanto que para alguns povos há uma mudança de
estágio, na medida em que a morte significa continuidade. O que
ocorre é a vida numa outra dimensão, conhecida pelos adeptos das
religiões de matriz africana como orun, lugar onde vivem os
espíritos ancestrais, também conhecidos como Egun, como é o caso da
visão sobre mortuária dos africanos.
Ainda caminhando nesta linha de
raciocínio, Mauss discorreu sobre diversos tipos de trocas, tais
como as trocas materiais e simbólicos. É sobre estas últimas que nos
ocupamos ao longo deste texto, ou seja, tratando de um duplo
elemento que se torna opaco ao revelar do outro, ou seja, a vida
compreendida por nós como infinita, como um valor civilizatório que
está num círculo, na qual simbolicamente não há ruptura e vida e
morte fazem parte deste mesmo círculo. Se assim entendemos a morte
há uma divergência entre a idéia proposta por Mauss, Godelier e
Eliade, pois todos eles afirmam que é necessário haver uma morte
para o surgimento de uma nova vida. É preciso morrer (naturar) e
nascer para algo superior, que seja ao mesmo tempo religioso e
cultural, dizia Eliade (1996).
A partir da reflexão do conceito de
morte para os africanos, Leite (1982) nos dá uma belíssima
definição:
A Imortalidade em causa, entretanto, não
é aleatória; está referida à sociedade que a concebe, seja através
da inserção desse princípio na massa ancestral após a morte do
corpo, seja por forças da reencarnação. Ela é assim, uma
imortalidade diferenciada e não pode ser compreendida a não ser,
enquanto proposição histórica que estabelece relações vitais entre o
natural e o social. (1982:87).
Com esta citação o autor deixa claro que
a concepção de morte só pode ser compreendida se levarmos em conta
os fatores históricos e sociais, mostrando-nos que tal noção está
sempre atrelada às relações que uma determinada sociedade estabelece
com as coisas terrenas e as coisas sobrenaturais.
Para além do palpável está o conceito de
imortalidade, por sua vez algo irreal, mas também real. É irreal do
ponto de vista que são Espíritos Ancestrais, que vivem numa outra
dimensão e são reais quando se pode ouvi-los, vê-los dançar e andar
a partir da inferência dos ritos e rituais realizados adequadamente
para que estes Espíritos venham ao nosso meio. Para elucidar, Braga
acrescenta:
O espírito ancestral representado pela
roupa é a expressão simbólica de um mundo inatingível pelos vivos.
Por isso, comporta mistério sagrado e profano, só alcançado após a
morte. (1992:107).
Os ritos e sua função na vida humana
Falamos dos diversos ritos pelos quais
passa o homem durante a sua existência terrestre. Ritos estes que
vão desde o nascer até a sua morte, uma vez que estamos tratando a
morte como algo cíclico, portanto entendida como estágio. São estes
rituais ao longo da vida que darão a plenitude humana, na medida em
que o indivíduo ao nascer ainda não se encontra totalmente acabado,
necessitando, desta forma, dos ritos para completá-lo e por isso
tornam-se imprescindíveis sucessivos rituais a fim de inserir o
indivíduo no meio social.
Em muitas culturas o nascimento, o
batizado e o casamento são comemorados. Em outras culturas a
passagem da adolescência para idade adulta é marcada por diversas
comemorações que, em alguns casos, incluem alguns sinais que
diferenciam o indivíduo dos demais adolescentes. Assim como ao longo
da vida o indivíduo também receberá outras marcas corpóreas, que
representarão outras passagens de sua vida social, é somente graças
a esses ritos que o indivíduo ingressa na sociedade dos viventes (ELIADE,
1996).
A preparação do corpo de um membro do
candomblé no sepultamento, dentro dos princípios africanos, é
realizada numa grande cerimônia supervisionada por um outro Egungun,
além disso são realizados rituais específicos com oferendas e
sacrifícios para marcar o local do sepultamento. Existem também
outras cerimônias que homenageiam os Egun. Obrigatoriamente estas
festas são realizadas em espaços diferentes onde são cultuados os
Orixás, já que são os princípios distintos. No Brasil, em especial
na Ilha de Itaparica, na Bahia, fica a Casa do Babá Egun, a mais
famosa de todas no Brasil.
A complexidade que envolve os rituais
mortuários está relacionada com a transformação - e não com uma
mudança qualquer -, numa ordem ontológica e social, uma vez que os
ritos são legitimados pela sociedade ou coletividade, porém em
alguns casos a idéia de morte pode conter vários elementos que estão
para além de causas naturais, mas sim amplamente ancoradas no social
e respaldadas pela coletividade.
Ao estudar a sociedade australiana Mauss
observou que as ações da moral sobre o físico eram mais notáveis,
pois os indivíduos apresentavam muita resistência física e que esta
última se contrapunha à idéia de fragilidade psicológica, uma vez
que essas pessoas apresentavam muita fragilidade física quando algo
se referia à magia, isto é, mesmo que o indivíduo estivesse sadio e
sem nenhuma doença mas se este mesmo indivíduo ao acreditar que
algum tipo de magia entrou em seu corpo poderia morrer em poucos
dias, pois já não possuía quaisquer forças para lutar contra algo
desconhecido.
Este fato também pode ser amplamente
verificado em Cachoeira, na Bahia. Há muitos anos as pessoas
informalmente comentavam que as mães e pais-de-santo possuíam
poderes mágicos capazes de provocar a morte em até 24 horas. Sobre
este ponto Mauss diz:
Esse estado coincide geralmente com a
ruptura de comunhão, seja por magia, seja por pecado com as forças e
coisas sagradas cuja presença normalmente o sustenta. (2003:350)
A partir do pensamento de Mauss a morte
provoca uma mudança brusca, já que o corpo desaparece do convívio
social. Desta forma, os ritos que precedem a morte do indivíduo é de
extrema importância para que o espírito encontre a comunidade dos
mortos e este seja aceito neste novo grupo.
Em algumas sociedades africanas o
sepultamento ritual é o que verdadeiramente confirma a morte do
indivíduo, princípio também observado nas religiões brasileiras que
se baseiam na matriz africana, especialmente nas casas mais
tradicionais em que o rigor é a tônica de todos os rituais
mortuários denominados axexê - que em momento oportuno descreveremos
os rituais que o compõe. Neste contexto, a presença da coletividade,
ou melhor, dos indivíduos torna-se essencial para a legitimação de
tal prática. Neste sentido Mauss segue analisando a importância do
social para a legitimação de um ato:
O que lhes confere um caráter social
ainda mais marcado; pois eles dependem evidentemente da presença ou
ausência de um certo número de instituições e de crença precisas
desaparecidas do leque das nossas: a magia, as interdições ou tabus
etc. (Mauss, 2003:350).
Vimos que o social corrobora para que a
morte encontre um lugar na vida das pessoas. Assim, também as causas
morais ou religiosas contribuem para que a morte possa ocupar um
lugar na existência humana, isto é, se um determinado indivíduo
comete uma violação de uma regra respeitada por todos os demais da
sociedade na qual vive, o mesmo poderá pagar com a própria vida para
que seja reparada tal violação, desde que seja um consenso de toda a
população.
Eliade ao discorrer sobre o sepultamento
ritual observa que:
Aquele que não é enterrado segundo o
costume não está morto. Além disso, a morte de uma pessoa só é
reconhecida como válida depois da realização das cerimônias
fúnebres, ou quando a alma do defunto foi ritualmente conduzida a
sua nova morada, no outro mundo, e lá foi aceita pela comunidade dos
mortos. (1996:151)
Este pensamento de Eliade (1996) está em
convergência com a mentalidade africana no que se refere à morte,
principalmente quando observamos as falas de mães e pais-de-santo
que afirmam categoricamente que ao morrer gostariam de ser
enterrados à maneira religiosa africana, mas que na ausência de uma
sacerdotisa ou sacerdote possuidores de conhecimentos apropriados
para realizarem todos os procedimentos dentro dos princípios
religiosos, dizem preferirem um sepultamento como o de qualquer
outro brasileiro. Embora sejam rituais extremamente complexos e
secretos, as pessoas têm consciência da importância de práticas
rigorosas. Sobre esse tema Leite acrescenta:
[...] a expressão secreta é utilizada
para indicar a existência de grupos de pessoas detentoras de
conhecimentos específicos relacionados com determinadas instâncias,
as quais podem envolver o mágico e o sagrado. Embora uma grande
parte de suas ações rituais seja fechada a comunidade conhece a
existência dessas associações e mesmo, muitas vezes, quais postos e
funções são ocupadas e exercidas pelos seus dignatários (1982:91).
Segundo Leite (1982), estes rituais
contribuem, sobretudo, para fortalecer as relações sociais. Embora
haja quem conteste que os ritos mortuários praticados no Brasil
conservem poucos elementos rituais dos que aqui foram apontados,
contudo, é preciso ressalvar que houve rupturas, ressignificações e
adaptações para que pudessem ser mantidos traços mais
característicos de sua cultura, pois sem ruptura não há
continuidade, assinala Bernardo (2003).
A partir da ruptura pode-se assistir ao
encontro de elementos tradicionais em contato com elementos modernos
e esta é uma das muitas formas que fez com houvesse a preservação
desta cultura ancestral. Assim poderíamos pensar que em cada
diáspora africana pode-se encontrar os mesmos ritos mortuários
oriundos do continente africano, porém com algumas diferenças, como
em Cuba ou no Haiti. O que nos interessa é saber que a sua base foi
mantida, ou seja, uma vez que tais rituais continuam a desempenhar
funções preponderantes, cuja finalidade é readquirir a organização
face ao desequilíbrio entre os viventes causada pela morte. (Leite,
1989).
O segredo é para ser guardado
Os primeiros negros e negras que aqui
chegaram trouxeram consigo a sua cultura e aos poucos foram
encontrando um jeito particular para lidar com o processo
escravista, ressignificando, reinterpretando a realidade com o
objetivo de manter seus traços culturais mais característicos.
Muitos estudos análogos sobre as
religiões africanas objetivavam a compreensão da visão de mundo
daquelas sociedades, ao mesmo tempo constituem-se em importantes
estratégias utilizadas para a manutenção de traços culturais. Além
disso, quase todos os setores das sociedades africanas estavam
ancorados em pilares religiosos, ou seja, a religião em grande parte
da África é o sistema organizador do social, do político e do
econômico, isto é, as decisões a serem tomadas são consultadas em
primeiro lugar por meio do líder religioso. Mas qual seria a relação
dos ritos mortuários e a dádiva discutida por Mauss e Godelier?
A partir da posição de Mauss que diz que
nem tudo pode ser trocado, uma vez que existem elementos que devem
ser guardados, entendemos que os ritos são elementos que não
circulam e quando isto acontece é feito de maneira bem restrita.
Seguindo a mesma linha de raciocínio de Mauss, Godelier ressalta a
necessidade de nem tudo não ser trocado ou divulgado, justificando
que guardar uma informação, reter um determinado objeto é preservar
um certo poder. Como bem expressou neste fragmento:
[...] o que demonstra que nas crenças
dos baruyas há lugar, como qualquer religião, para alguns silêncios,
algumas amnésias, sobretudo nos casos em que ser surdo, cego ou
perder a memória pode ser útil, e mesmo necessário, para manter o
poder. (2001:180).
Esta idéia trabalhada por Godelier
converge, em certa medida, com a visão de mundo dos africanos, pois
ao mesmo tempo em que tudo deve ser compartilhado, estes indivíduos
também limitam esta partilha, já que nem todos estão preparados para
ter, adquirir ou manipular determinados conhecimentos. Este acesso,
para alguns, é feito de maneira processual, respeitando certa idade
para que possa ser submetido a alguns rituais. O segredo torna-se
muito importante para a preservação de um certo ethos.
Diante do processo de modernização que
passa o mundo, no qual de um lado fica a tradição presente por meio
dos seus ritos e do outro a modernidade que dá amplo acesso a todos
e a tudo, poderíamos então perguntar: qual a função da dádiva para o
homem moderno e qual o lugar dos rituais para a atualidade?
Nesta perspectiva, os ritos mortuários e
as concepções de segredo que estão presentes na base dos rituais
mortuários de matriz africana, principalmente naquilo que concerne
os símbolos religiosos, que auxiliam na construção do imaginário dos
adeptos do candomblé brasileiro, contribuem para a preservação de um
determinado ethos, em especial no que diz respeito às noções de
segredo, tendo em vista que estes ritos são considerados como ethos
de uma tradição que se reveste de um caráter sigiloso. Geertz
discutindo sobre a construção de uma visão de mundo a partir da
religião expõe:
Desta forma os símbolos sagrados
relacionam uma ontologia e cosmologia com uma estética e uma
moralidade: seu poder peculiar provém de sua suposta capacidade de
identificar o fato com o valor no seu nível mais fundamental, de dar
sentido normativo abrangente àquilo que, de outra forma, seria
apenas real (Geertz, 1978: 144).
Vimos até aqui que assim como um
casamento, uma festa de formatura, um batizado, uma feitura de um
filho-de-santo contribuem para o ingresso na esfera social, a morte
também marca uma nova fase da vida humana. E mesmo que a morte
esteja associada ao desaparecimento material da pessoa ainda assim
ela assinala para um outro momento, pois a morte, como outros
princípios africanos, acontece dentro de um círculo e torna-se
necessária para a continuidade do círculo. Deste modo, o que era
para ser considerado como um fim último acaba por se tornar uma
ruptura do ponto de vista social, já que aquele que morreu já não
faz parte do mundo material e visível, enquanto que para o mundo
espiritual ele está presente, mudando de posição dentro do círculo
da vida. E por isso o segredo torna-se necessário na preservação de
saberes tradicionais.
A partir desta premissa, podemos dizer
que os rituais são importantes para que a pessoa que morreu possa
existir no meio social e assim os rituais têm o papel de tornar
possível o contato do ser divinizado ou Egun com o mundo dos vivos,
uma vez que só através dos ritos é possível trazê-lo ao Orun.
O estudo de um dos muitos aspectos que
envolvem a vida do homem está ligado ao ato de morrer, o que
significa que este é mais uma característica para reforçar as
relações sociais, ao mesmo tempo em que também reforça as relações
entre natureza e cultura, natural e sobrenatural, isto é, entre o
Aiyê e o Orun, entre vivo e morto, entre o visível e o invisível.
Mauss mostrou que os rituais mortuários possuem sua eficácia
simbólica a partir do momento em que todo o grupo legitima,
igualmente acontece com outros rituais de passagem que compõem a
vida cotidiana. Como bem explicita Morin:
Toda palavra pode ser símbolo, mas o
símbolo transborda para fora da linguagem e pode responder no
interior de qualquer sinal, de qualquer forma e de qualquer objeto.
O símbolo é a coisa quer abstrata quer particular que contem em si
todo o concreto e a riqueza que simboliza. (MORIN, 1970).
Por mais que a morte seja vista por
grande parte dos ocidentais como algo fantasmático, a sua simbologia
é parte integrante do imaginário identitário de todos os seres
humanos. E ainda que procuremos colocar a morte longe do plano
terreno o símbolo mortuário é parte indissociável do homem.
Considerações finais
Refletir sobre a temática mortuária, a
partir dos preceitos africanos, é sem sombra de dúvida uma tarefa um
tanto quanto difícil, porque requer uma nova postura frente a uma
cultura complexa que se afasta da maneira ocidental de pensar. No
primeiro momento é necessário mudar as lentes para enxergar o que
cada gesto nos procura mostrar. Num segundo momento requer que o
pesquisador tente entender os fenômenos levando em conta seu
contexto sócio-cultural.
Fazer o exercício de pensar a morte
tendo como base o pensamento de Mauss nos levou a entender que
embora os rituais mortuários sejam diferenciados em cada cultura,
ainda assim existem características basilares que podem ser
encontradas em qualquer cultura, tal como a concepção de natureza
humana passa pelo individual e coletivo, pelo visível e invisível,
portanto a pessoa humana é dupla em qualquer sociedade. Neste
sentido, a dualidade é uma marca diferencial entre os seres vivos.
O exercício reflexivo apresentado até
aqui reforça a nossa idéia de que os saberes tradicionais serão
preservados por meio dos rituais pouco circuláveis que tendem a
garantir a especificidade de um determinado grupo, contribuindo,
sobremaneira, para revelar uma das identidades da população negra e
daqueles que enxergam a morte não como um fim último, mas,
sobretudo, como um processo contínuo e necessário.
Bibliografia
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