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ANDREA
ALMEIDA CAMPOS
Professora de Direito Civil da
Universidade Católica de Pernambuco. Coordenadora do Grupo de
Estudos “Direito & Literatura” na UNICAP

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Capitu, capitulou?
Uma tentativa
hermenêutica-contratual da in(fidelidade) na obra “Dom Casmurro” de
Machado de Assis
Andrea Almeida Campos
Como
trilhar com os dedos a tessitura do véu que encobre a face do
mistério indevassável? Como engendrar-se pelas sombras do corpo que
não se revela e tatua o seu perfil por passagens recônditas,
inaugurando a ontologia pelo cheiro de seu perfume? Que chamem
Hermes com os seus pés alados e que o seu vôo seja revelatório dos
disfarces costurados pelo silêncio. Que o deus grego vele pela
hermenêutica possível.
Dois homens, uma mulher e pactos
inumeráveis. Verbais? Escritos? Melhor dizê-los: por vezes
conscientes, sempre inconscientes. Interpretá-los é mergulhar no
vácuo da alma humana, nos meandros das vontades hipotéticas. Cabe a
Hermes a investigação da vontade real (voluntas spectanda) e
os seus efeitos no mundo fenomênico. Hermes voa onde não habita o
ar? Talvez a resposta do oráculo de Delfos seja a de que não há
morada onde não entrem os deuses... Deixemo-lo entrar na sala de
visitas de nosso querido personagem, Dom Casmurro, o Bentinho, em
sua casa da Rua de Matacavalos, ali onde ele gozou a sua infância e
a sua mocidade, casa da qual foi feita uma réplica em outro sítio,
no Engenho Novo, tal e qual, e onde o Casmurro ancorou seus navios
na madurez. Ali onde ele, criançola, conheceu Capitolina e,
rapazote, apaixonou-se por ela. Capitolina, a Capitu, a moça de
olhos de ressaca, aquela cujas intenções pareciam estar mergulhadas
em estado de permanente embriaguez sem perda da consciência. Capitu
altiva, ativa, determinada, forte, articulada, questionadora,
insubjugável. Com olhos claros, intenções nebulosas, “olhos de
cigana oblíqua e dissimulada”. Estariam viciados, por natureza, os
pactos por ela celebrados? Teriam esses, por destino, desembocar no
erro essencial quanto à pessoa? Mas, estaria Bentinho não ciente,
desde o início, do que seria o seu engano imaginado? Não teria sido,
o erro a viciar o seu pacto com Capitolina, o fundamento de sua
atração, de seu desejo inafastável? O que queria Capitu ao travar,
desde a infância, com Bentinho, uma avença, essa que é sempre uma
aventura a qual chamamos de amor? A esta indagação nem Freud
responderia, pois o mestre de Viena saiu da vida sem conseguir
explicar o que queriam as mulheres. Interpretação subjetiva dos
pactos idílicos.
Bentinho e Capitolina se amaram desde os
mais tenros anos, a paixão veio junto com os hormônios, ele havia
completado quinze anos e ela quatorze. E desde os tenros anos foi
Bentinho amigo inseparável de Escobar. Confiança e lealdade. A
boa-fé como princípio fundante das relações de amor e da amizade. A
boa-fé objetiva como norteadora da interpretação das intenções
comuns do tríduo. Disse Aristóteles que o homem diferencia-se dos
demais animais pelo uso da palavra. Esta possibilita-os construir a
pólis, logo não seria forçoso deduzir que o homem diferencia-se dos
demais animais por contratarem entre si através da palavra, mas não
apenas através da palavra dita, muito, através das não ditas. Os
contratos nascem do silêncio e podem chegar a ser expressos
verbalmente, ou pelos signos da escrita, o que lhes facilita a
interpretação objetiva. No entanto, há os que permanecem silentes,
mas não menos vigentes, e os seus efeitos na tez humana podem ser
avassaladores, bem mais difícil, no entanto, a sua tradução. E é
esse exercício hermenêutico de contratos no silêncio, que nos propõe
o Bruxo do Cosme Velho, Machado de Assis, o autor da obra Dom
Casmurro.
Mas voltemos ao nosso terceto, quiçá,
quarteto, às partes e às portas dos pactos. Como o que aqui se
propõe é uma tentativa de hermenêutica de pactos silenciosos,
lancemos mão de invadir as almas de nossos personagens, as suas
psiquês, e embrenhemo-nos pelas penumbras de uma tentativa analítica
desses contratos imanentes. Bento ficou, desde muito pequeno, aos
dois anos de idade, órfão de pai, tendo sido o filho único criado
por sua jovem e bela mãe, D. Glória, que havia feito promessa para
que o menino, quando crescesse, passasse o resto de seus dias sob a
batina da madre Igreja Católica. Viúva, D. Glória tinha horror de
afastar-se do filho e, não poucas vezes, Bento pegava-a olhando-o
fixamente e ardorosamente. Veja-se que o menino ao carecer da figura
paterna e, portanto, masculina, encontra-se subjugado a duas figuras
femininas: à mãe e à Igreja. Uma o possui integralmente no presente,
a outra, fá-lo-á no futuro e perpetuamente. Assim, D. Glória
manter-se-á como a única mulher de carne e ancas na vida de seu
filho. Este domínio feminino enfraquece a segurança de Bentinho em
relação à sua própria masculinidade, semeia a crença interna de que
nunca será suficientemente homem para assumir uma mulher. Capitolina
é sua amiga de infância. Capitu reflexiva, destemida, Capitu
insubalternizável preenche-lhe o caráter tíbio, claudicante. Não
poucas vezes, Bentinho repete para si mesmo “-Sou homem!”, em uma
necessidade de (re)afirmação constante da masculinidade que em si se
esboça, mas para ele, não se completa. As referências masculinas de
Bentinho são: o seu tio Cosme, um viúvo crepuscular que vivia com
eles, e o agregado José Dias, um charlatão, que por sê-lo parecia
intuir quem também o era. Bentinho, menino, já se prepara para
internar-se no Seminário e brinca com Capitu de celebrar missas. No
entanto, na explosão vesuviana da puberdade, completados quinze anos
de idade, Bentinho, inelutavelmente, apaixona-se por Capitu que
havia completado quatorze, eis a confissão amorosa de ambos: “Em
verdade, não falamos nada (...). Não nos movemos, as mãos é que se
estenderam pouco a pouco, (...), pegando-se, apertando-se,
fundindo-se. As mãos, unindo os nervos, faziam das duas criaturas
uma só (...). Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas, as
palavras de boca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração
caladas como vinham... . (...) Era ocasião de pegá-la, puxá-la e
beijá-la...Idéia só! idéia sem braços! Os meus ficaram caídos e
mortos.” Mais tarde, Bentinho roga que Capitu faça-lhe duas
promessas, a primeira que apenas se confesse com ele, para que lhe
dê a penitência e a absolvição, a segunda que ele seja o padre que a
case ao que ela responde e, cuja reação, Machado descreve: “- Que me
case? Disse ela um tanto comovida.”. Por essas duas passagens,
nota-se o sentimento de impotência de Bentinho em ocupar o lócus
destinado aos “machos” da espécie humana, não a toma nos braços
quando poderia fazê-lo e, mesmo sem ter chegado ao Seminário, já a
casa, hipoteticamente, com um outro, integralizando a sua lacuna. No
Seminário, Bento conhece Escobar que se torna o seu melhor amigo e,
na opinião de sua prima Justina, pensa em convidar a linda e doce D.
Glória a segundas núpcias. Frustrado em seu intento, casa-se com a
amiga-irmã de Capitu, Sancha, tendo uma filha a qual chamam de
Capitolina, em homenagem à primeira. Bentinho, por sua vez, casa-se
com Capitolina e dela tem, tardiamente, e finalmente, um filho que
considera, com o tempo, a reedição do amigo Escobar. Este "que
adorava um bom mar em hora bravia" morre afogado nos mares do
Flamengo devido à sua imprudência e intrepidez. Lembrando que, no
dia anterior à morte do amigo, Bento experimenta um invencível e
afogueado desejo sexual por sua mulher, Sancha. Estando Escobar
"estudando geologia nos campos-santos", dia após dia, Bentinho
constata a forte semelhança entre o seu filho Ezequiel, cujo nome é
o primeiro prenome de Escobar, e o finado que se faz cada vez mais
vivo aos seus olhos. Sempre que vê o filho, acredita ver Escobar
sair da tumba e, se não se assegura de que há vida após a morte,
bastante seguro está da infidelidade de Capitu. Essa que é nas
palavras do agregado e farsante José dias “uma cigana oblíqua e
dissimulada”... Intuição, projeção ou desejo ressentido? Saliente-se
que, no decorrer de toda a obra, nenhuma outra voz se alevanta
constatando a semelhança entre ambos. Apenas Bento ouve a sua
própria voz desejando, ardentemente, a morte de Capitu. Em meio à
crise, Bento parte com Capitolina e Ezequiel para a Suíça, lá
deixando-os. Não mais visita Capitolina e nem responde às suas
saudosas e amorosas cartas, até que esta se impossibilita de vê-lo,
para sempre, pois que na Suíça jaz, nas suas gélidas e quase
proféticas palavras: “morta e enterrada”. Ezequiel vem ao Brasil
visitar o pai, que, ao encontrá-lo sente rever o amigo defunto
Escobar, desejando que o filho morra de lepra. Ezequiel não é
sucumbido pela lepra, mas onze meses após a visita, viaja, também, e
sem retorno, para o além-mundos, vítima de uma febre tifóide.
Bentinho, já agora, casmurro, ensimesmado, vive sozinho,
estabelecendo relações superficiais, sem conseguir esquecer “a
primeira amada de seu coração”, não celebrando pactos com quem quer
mais que seja. Ao fim, deseja à mulher e ao amigo que “A terra lhes
seja leve!”. Emana das últimas falas de nosso Casmurro, um certo
regozijo sarcástico. De suas palavras jorra o gozo de quem alcançou
o fim inarredável desde sempre perseguido: "Vivi o melhor que pude".
Tendo sido traído ou não, Bentinho firmou silenciosos pactos com as
pessoas que quis e como quis, essas, no entender das vozes do
inconsciente, cumpriram fielmente os seus papéis, as suas partes do
contrato, enganando-o e, desta feita, deixando de ser a sua mulher,
Capitolina, sendo o homem que ele não conseguira ser, Escobar. Ambos
ainda fizeram-lhe o favor de, precocemente, morrerem, sem que ele
movesse, para tanto, sequer um fio de uma palha. Bento, mesmo tendo,
aparentemente, não satisfeito o desideratum de D. Glória, ao
fim e ao cabo executou à perfeição o pacto feito com a mãe. Essa
foi, tal como o queria, e quiçá, ele também, a sua eterna mulher. Ao
menos, a única digna desse nome. Para enganar a si mesmo quanto ao
seu desejo funesto, na tumba da mãe fez questão, contra legem,
que não lhe constasse o nome, apenas a designação assexuada: “Uma
Santa”. “Bento Casmurro” amanheceu os seus sóis outonais na cópia,
por ele construída, da casa na qual vivera a sua infância e
adolescência, antes de casar-se com Capitu. De volta estava, então,
ao aconchego do útero materno. Pois bem, a obra “Dom Casmurro” não
é, nem apenas, uma tragédia do adultério, não importa se realizado
ou não, mas, possivelmente, desejado pelo protagonista, nem apenas,
uma tragédia do ciúme, e sim, ambas, aglutinadas na construção de
uma tragédia maior: a tragédia do desejo edipiano e seus pactos
inconscientes. Há extrema ratio nessa interpretação, caro
leitor? Mesmo que dela discordes, muito bem sabes que a regra
hermenêutica-contratual preconiza que a obscuridade e a ambigüidade
não podem desvestir os contratos de sentido sob pena de nulidade.
Capitu, capitulou? No abismo do
indelével segredo feminino (e masculino), jogam-se pedras que nunca
tocam o chão. Cabe a cada um de nós desvendar em si, e para si, o
enigma irrevelado do con(tractum), do trato em conjunto.
Quanto à hermenêutica da vida, essa, certamente, capitula e resta a
Hermes redescobrir o princípio de prazer ao alçar seu vôo azul por
sobre o humano insondável.
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