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ATTILA MAGNO E SILVA BARBOSA
Doutor

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Responsabilidade social
empresarial:
um viés biopolítico da
flexibilização produtiva
Attila Magno e Silva Barbosa
Desde a recessão econômica mundial do
início da década de 1970 e da crise do petróleo em 1973 que a
exacerbou, uma forma de acumulação capitalista mais flexível foi
sendo imposta de modo concomitante ao enfraquecimento do
Estado-Providência que caracterizou o período de vigência do modelo
taylorista-fordista de produção, modelo este que se mostrou rígido
demais para superar a crise pela qual passava o capitalismo. Como
decorrência desse quadro, as décadas de 1970 e 1980
caracterizaram-se como períodos conturbados de reestruturação
econômica e de reajustamento social e político, o que fez tomar
forma um regime de acumulação flexível que se contrapõe à rigidez do
período fordista. Nas palavras de Harvey tal regime “apóia-se na
flexibilidade dos processos de trabalho, dos
mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo”
(2004, p. 140).
Desde então, no universo empresarial tem
ocorrido uma intensificação do trabalho devido à exigência de uma
multifuncionalidade dos trabalhadores ante ao processo produtivo,
assim como processos freqüentes de reestruturação produtiva que
diminuem o corpo funcional com vínculo empregatício.
Além do que, testemunhamos nas últimas duas décadas o
enfraquecimento do poder de barganha dos sindicatos, o que tem
levado a um processo de supressão de direitos trabalhistas e
previdenciários que, na maioria dos casos, não são privilégios como
quer fazer acreditar o discurso de inspiração neoliberal, mas
conquistas de diversas lutas da classe trabalhadora no decorrer do
século XX.
Por sua vez, na atual configuração do
capitalismo, o fortalecimento dos mercados financeiros em detrimento
do Estado-Nação no que concerne à indicação dos caminhos possíveis
tanto para o desenvolvimento econômico quanto para o social tem
deslocado os processos decisórios cada vez mais para as esferas
locais, isto é, estaduais e municipais. Ou seja, desloca-se a tomada
de decisões para esferas de maior proximidade sociopolítica das
empresas; esferas nas quais elas possam mais diretamente exercer seu
poder de influência.
A necessidade desse modelo de acumulação
flexível é justificada no meio empresarial pelo argumento de que a
maior complexidade dos mercados nos diais atuais exige formas de
ação mais eficazes em um contexto de acirrada competitividade
global. Desse modo, valores como desburocratização, inovação,
diversificação, valorização de recursos humanos como meio de
aumentar a competitividade e desmanche do Estado-providência são
tidos como imprescindíveis para a sobrevivência empresarial na
economia atual.
Flexibilização produtiva e
encolhimento da cena política
Do ponto de vista empresarial a mudança
de um modelo de produção mais rígido para um mais flexível parece
trazer mais benefícios do que malefícios. Todavia, do ponto de vista
social, devido ao modelo de especialização flexível que se
materializa na fábrica enxuta e se alimenta de constantes inovações
tecnológicas, o desemprego
estrutural se apresenta como uma externalidade negativa. No entanto,
Castel (2003) nos chama atenção para o fato de ser o desemprego
apenas a manifestação mais visível de uma profunda transformação do
emprego, pois, a precarização do trabalho é uma outra característica
desta situação, em suas palavras: “menos espetacular, porém mais
importante”. A precarização se manifesta na perda gradativa de
hegemonia do contrato de trabalho por tempo indeterminado que
caracterizou o período taylorista-fordista, no qual, fora instituída
uma sociedade salarial onde os trabalhadores podiam vislumbrar certa
estabilidade em sua vida devido à rede de proteções sociais
existentes.
Para Castel (2003), a flexibilização
produtiva instaura uma nova questão social na qual a precarização do
trabalho é o principal fator gerador da crescente pauperização de
boa parte da classe trabalhadora. Sob o ângulo do trabalho,
três pontos de cristalização dessa questão podem ser percebidos: 1)
desestabilização dos estáveis em decorrência da redução dos
contratos por tempo indeterminado; 2) a instalação da precariedade,
por conta da condição de “interino permanente” e; 3) o déficit de
lugares ocupáveis na estrutura social, entendidos aqui por posições
às quais estão associados uma utilidade social e um reconhecimento
público. Esta nova ordem leva categorias cada vez mais numerosas de
pessoas à perda do trabalho como meio de construção identitária. No
caso específico do terceiro ponto tem-se como decorrência o
surgimento de um conjunto de indivíduos que Castel denomina de
“supranumerários”. Tal condição corresponde à dos não integrados e
não integráveis. Em sentido durkheimiano isso conduz a uma perda
gradativa de um tipo de integração que decorre da sensação de
pertencimento a uma sociedade que forma um todo de elementos
interdependentes. Nas palavras de Telles a corrosão dos direitos
gerada por essa situação,
Além da evidente fragilização das
condições de trabalho e de vida da maioria, a destituição dos
direitos – ou, no caso brasileiro, a recusa de direitos que nem
mesmo chegaram a se efetivar – significa também a erosão das
mediações políticas entre o mundo social e as esferas públicas,
de tal modo que estas se descaracterizam como esferas de
explicitação de conflitos e dissenso, de representação e
negociação; é por via dessa destituição e dessa erosão, dos
direitos e das esferas de representação, que se ergue esse
consenso que parece hoje quase inabalável de que o mercado é o
único e exclusivo princípio estruturador da sociedade e da
política, que diante de seus imperativos não há nada a fazer, a
não ser a administração técnica de suas exigências, que a
sociedade deve a ele se ajustar e que os indivíduos, agora
desvencilhados das proteções tutelares dos direitos podem
finalmente provar suas energias e capacidades empreendedoras
(1998, p. 25-26).
A descrição feita por Vera Telles (1998;
2000; 2006) corresponde ao encolhimento da cena política que se
evidencia pela restrição da dimensão transgressora da palavra que
deveria reivindicar e pronunciar os direitos daqueles que são
sofredores dos danos concernentes à fragilização da rede de proteção
social que a condição de assalariamento permitiu, se não acessível
para todos os trabalhadores, como ocorrido no caso brasileiro, pelo
menos situação almejável enquanto horizonte de direitos sociais a
serem conquistados. As conseqüências desse encolhimento são: a
inviabilização da construção de alternativas na dinâmica conflituosa
da vida social e o estreitamento do horizonte do possível e do
pensável. Situações estas que levam a um processo de demissão do
pensamento como possibilidade fundadora de um mundo comum.
O fomento dessa lógica se processa pela
via das estratégias políticas de inspiração neoliberal que vêem no
encolhimento do papel do Estado enquanto provedor do bem estar
social uma exigência para o bom funcionamento dos mercados; estes
últimos entendidos como esferas adequadas para garantir o vigor e a
saúde socioeconômica em tempos de economia global. Para os arautos
dessa lógica a liberdade de mercado é agir sem as amarras de
demandas sociais coletivas que possam impedir a livre expansão dos
mercados.
Nesse sentido, é preciso considerar,
como o faz Bourdieu (1998), o fato do Estado ser uma realidade
ambígua que não pode ser vista como um simples instrumento a serviço
dos grupos dominantes, porém, apesar de não ser neutro, ele pode
desenvolver certa autonomia e força a partir de uma condição de
antiguidade enquanto lugar de incorporação e registro de conquistas
sociais em suas estruturas. Ou seja, se no contexto da globalização
neoliberal o Estado é percebido como fragilizado para a tarefa de
promover o acesso aos bens públicos, isso se deve mais a uma
construção discursiva que lhe imputa tal condição do que
propriamente por impossibilidades que lhes sejam inerentes. Para
Bourdieu esse discurso não possui a neutralidade que seus defensores
alegam, até porque sua origem é socialmente bem definida, qual seja,
o ascetismo econômico do velho discurso ligado à tradição calvinista
que fundamenta a moral americana do self-help [virar-se por
conta própria], além do que se sustenta em alguns postulados
distorcidos da teoria econômica;
o primeiro postulado é que a
economia é um domínio à parte, separado do mundo social,
governado por leis naturais, universais, que os governos não
devem contrariar. O segundo postulado diz que o mercado é a
instância capaz de organizar de forma ótima as relações sociais,
as trocas, a produção, etc., e também de garantir uma
distribuição eqüitativa. Faz-se uma equação entre mercado e
democracia. O terceiro postulado afirma que a globalização exige
a redução das despesas do Estado, a diminuição das despesas
sociais – ou seja, o retorno ao laissez faire – e a
supressão de tudo o que possa turvar a lógica pura do mercado.
Os direitos sociais em matéria de emprego, previdência social,
são vistos como onerosos e disfuncionais (2002, p. 26).
A disseminação desses postulados como
dotados de validade universal são proferidos em nome de uma pretensa
neutralidade política fundamentada em uma racionalidade
técnico-instrumental, aliada à incorporação de uma narrativa da
responsabilização do indivíduo, nas palavras de Bourdieu, criam
aquilo que ele chama de sociodicéia, isto é, “uma narrativa
que tem por função justificar a sociedade tal como ela é” (2002).
Deste modo, temos um conjunto de elementos que contribuem para a
criação de um cenário propício para induzir os indivíduos à
assimilação de uma crença de que a transformação de suas condições
de vida é uma tarefa que compete quase que exclusivamente a si
mesmos, de modo isolado ou agregado a outros indivíduos que se
encontrem na mesma situação.
O recrudescimento do discurso da
responsabilização individual
Nessa perspectiva, o problema não é como
o atual estágio de acumulação capitalista se configura, mas sim como
disseminar o espírito empreendedor para aqueles sobre os quais a
destituição do acesso a um emprego socialmente protegido se impõe.
Alicerçada em uma ideologia da competência essa narrativa cria um
cenário propício para a disseminação de duas idéias aparentemente
sem ligação, mas que de fato são as faces de uma mesma moeda: 1) o
indivíduo como responsável pela sua empregabilidade e, 2) a
solidariedade social via ações de voluntariado e filantropia como um
substitutivo das ações de grupos politicamente organizados
na busca pela instauração de direitos à cidadania. Essa última idéia
é a que dá suporte ao discurso de que as empresas, assim como os
indivíduos, devem se responsabilizar pelos seus atos ante a
sociedade.
Como demonstra Ivo (2001), nos termos da
política neoliberal é preciso “mobilizar o potencial dos pobres”,
isto é, aproveitar as relações sociais existentes nas comunidades e
canalizá-las para a resolução tanto do problema material da pobreza,
quanto da participação e integração social. A participação e a
capacidade de organização dos pobres na apresentação de suas
demandas e na produção de soluções para suas necessidades básicas
são tidas como uma condição efetiva que pode ser considerada tanto
do ponto de vista positivo quanto negativo. Do ponto de vista
positivo leva-se em conta o aproveitamento do potencial combativo e
de resistência dos pobres, visando transformá-lo em um “ativo” que
lhes faça superar sua condição de vulnerabilidade social e, por
conseguinte, lhes permita a integração ao mercado e a superação da
condição de pobreza. Nessa perspectiva, são considerados apenas
“aqueles pobres viáveis, os “bons” pobres, os capazes de
transformarem-se em cidadãos-consumidores integrados à sociedade de
mercado” (2001, p.71).
O padrão que norteia a implementação das
ações sociais de RSE, em linhas gerais, segue o seguinte padrão: um
corpo técnico constituído pela parceria intersetorial
deve conduzir o processo de identificação das carências a partir de
um diálogo com os membros das comunidades e, posteriormente, deve
disponibilizar o conhecimento para que os membros destas comunidades
possam suprir suas necessidades e, futuramente, dar continuidade por
si mesmos ao que vier a ser implementado. Até aí tudo bem, não fosse
o fato das empresas aparecem com todo um aparato técnico que se
impõe como a forma mais adequada de proceder ante os problemas
detectados. Isto é, as empresas entram na cena da intereção com os
demais atores envolvidos amparadas em quantificações do real e em
preceitos fundamentados em uma racionalidade instrumental que aos
olhos dos atores do mercado são procedimentos que conferem
legitimidade às ações empreendidas. Neste cenário, os saberes dos
“beneficiados” são colonizados pelos saberes técnicos-gerenciais que
se encarregam de esvaziar qualquer possível fala dissensual que
comprometa o processo.
Diante desse quadro, não é mero acaso o
discurso da RSE posicionar-se a favor do desenvolvimento de projetos
sociais que encarnem a lógica do “é melhor ensinar a pescar do que
dar o peixe”. Nessa linha, ajuda efetiva é entendida como aquela que
visa gerar uma condição de autonomia das comunidades pela via da
capacitação dos beneficiados para a gestão dos problemas
sócio-econômicos por eles enfrentados. A responsabilização do pobre
pela permanência ou não na condição de pobreza é inerente à lógica
da RSE; a maior evidência disto é a ênfase na necessidade de se
transferir conhecimentos gerenciais para as ONGs e comunidades
beneficiadas.
Nesse sentido, as ações de RSE
desenvolvidas no sentido de gerar trabalho e renda no contexto de um
regime de acumulação flexível que configura uma situação crescente
de exclusão e de pauperização social, é possível perceber que estas
podem ser entendidas como uma externalidade
da própria flexibilização produtiva. Porém, não uma externalidade
qualquer, mas sim um tipo de externalidade que transfere parte da
dimensão biopolítica inerente ao Estado moderno para o mercado.
Dizemos isto, pois, se considerarmos a tese de Foucault (2000), de
que a biopolítica consiste num conjunto de técnicas disciplinares
para gestão dos corpos individuais e coletivos e que, como tal, ela
é o avesso da política, então é possível dizer que as ações sociais
de RSE não são um meio de afirmação dos direitos constitutivos de
uma condição ampliada de cidadania, mas sim de gestão da miséria e
da pobreza que passa a ser uma responsabilidade dividida entre o
Estado, o mercado e a própria sociedade civil. Em outras palavras,
essas ações são um meio de assistência às necessidades e carências
de comunidades locais. No entanto, tal tipo de assistência não
consiste meramente em suprir de modo direto as carências e
necessidades das comunidades beneficiadas, mas sim em disponibilizar
todo um know how de conhecimentos técnicos e gerenciais no
sentido de que, após a retirada da empresa, as comunidades possam
conduzir elas mesmas aquilo que tenha sido implementado, até porque,
nesse processo está nitidamente incorporada a idéia de que os
projetos sociais implementados devem tornar-se sustentáveis, o que
significa dizer que os beneficiados devem se responsabilizar pela
gestão.
Deste modo, apesar dos benefícios
sociais e econômicos que possam ser gerados para os grupos
assistidos por projetos de RSE, o que temos é uma resposta
biopolítica do atual estágio de acumulação capitalista às
externalidades negativas geradas pela flexibilização produtiva.
Estamos diante de um tipo de biopolítica que responsabiliza o
indivíduo pela gestão de sua vida, e aí incluem-se todas as suas
carências e necessidades, além é claro de sua condição de
empregabilidade, que é entendida nos termos neoliberais como a
capacidade de se manter empregável, isto é, de estar continuamente
engajado na formação contínua de novas competências e qualificações
que estejam em sintonia com as exigências de um mercado de trabalho
cada vez mais flexível.
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