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ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI
Professor do Mestrado em Educação
nas Ciências da UNIJUÍ - RS e da Universidade Johannes Kepler de
Linz (Áustria). Doutor em Ciências Econômicas e Sociais pela
Universidade de Osnabrück (Alemanha)

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A águia que vira galinha
depois que casa
Antônio Inácio Andrioli
“A
idéia desta história não é minha. Meu é só o jeito de contar. Sobre
uma águia que foi criada num galinheiro e foi aprendendo sobre o
jeito galináceo de ser, de botar ovos, de ciscar a terra, de comer
milho, de dormir em poleiros. E como todo aprendizado exige um
esquecimento, ela desaprendeu o vôo nas alturas, o ar puro da
montanha, a vista se perdendo no horizonte, o doce sentimento de
liberdade... E como ninguém lhe falasse sobre estas coisas e todas
as galinhas cacarejassem os mesmos catecismos, ela acabou por
acreditar que não passava de uma galinha com perturbação hormonal.
Tudo grande demais. Aquele bico curvo, sinal certo de acromegalia e
desejava muito que o seu cocô tivesse o mesmo cheiro certo do cocô
das galinhas. Um dia passou por lá um homem que vivera nas montanhas
e viu o vôo orgulhoso das águias. – O que faz você aqui? Ele
perguntou: – Este é o meu lugar, ela respondeu. Todo o mundo sabe
que galinhas vivem em galinheiros, ciscam o chão, botam ovos e
finalmente viram canja. Nada se perde, tudo se transforma, utilidade
total. – Mas você não é galinha, ele disse. É uma águia! – De jeito
nenhum. Eu nem sequer voar sei. Pra dizer a verdade, nem quero. A
altura me dá vertigem. É mais seguro ir andando passo a passo.E não
houve argumento que mudasse a cabeça da águia esquecida. Até que o
homem não mais agüentando aquela coisa triste de uma águia
transformada em galinha, agarrou a águia à força e a levou até o
alto de uma montanha, atirando-a bruscamente lá de cima do abismo. A
pobre água começou a cacarejar de terror, voando rasteira em bruscos
zig-zags. Mas depois, pouco a pouco, com tranqüila dignidade,
esticou o pescoço para cima e para frente e começou a plainar bela,
confiante e cada vez mais alto, até fundir-se no azul do firmamento.
Aí ela compreendeu enfim que seu nome não era galinha, mas águia.
Esta história foi escrita na África, um profeta dizendo aos seus
seguidores: – Vejam a que estado os brancos nos reduziram, águias
que andam como galinhas. É preciso aprender a voar de novo” (Rubem
Alves).
Diferente de tantas outras versões
reescritas para essa lenda, parte-se aqui de uma constatação
histórica: inúmeras águias viraram galinha depois que passaram a
dedicar-se inteiramente ao seu instinto reprodutivo, esquecendo-se
de voar mais alto. O mais impressionante não é a constatação; mais
forte parece a previsão fatal feita pelas galinhas para as águias de
que não haveria outro destino mais nobre para elas do que se
dedicarem a chocar ovos, ver seus filhos nascerem e contentarem-se
com a idéia de que a maior contribuição que podem dar ao mundo,
enquanto estão vivas, é preparar as águias pequenas a seguir o que
suas mães, avós, bisavós e todas as gerações antepassadas previam:
águia nasceu para ser galinha e seu instinto natural de procriar se
sobrepõe ao seu desejo de voar. O tempo lhes daria razão, afinal,
são tantas as histórias de águias que voaram alto na juventude e
deixaram seus vôos relatados e escritos, para servirem de substrato
para nostalgias presentes e futuras. O que importa, entretanto, é
que já não são mais águias e que toda águia que se casa com um galo,
tendencialmente, se transforma em galinha. Em seus inúmeros momentos
de justificação, os relatos da transformação chegam a ser dogmáticos
e apelativos: não se trataria de uma opção da águia, seria seu
instinto que a levaria a ser galinha. Sua dedicação em influenciar
as águias pequenas, entretanto, nega sua convicção naturalizada.
Afinal, se é por instinto que a transformação acontece, por que,
então, tanto esforço para convencer as águias? Por que tantos
rituais? Por que tantas recomendações e, principalmente, por que
tanto engajamento em prol da legitimação ideológica de algo que já
por si estaria dado e, se ainda nao fosse o caso, seria mera questão
de tempo? Mais absurda parece a condenação ao inferno das poucas
águias que insistem em voar alto, mesmo depois de velhas e, pasmem,
algumas delas mesmo depois de terem chocado seus ovos e cumprido a
suposta fatalidade de reproduzir galinhas! Por que a presença dessa
minoria de águias, que ainda vôam, incomoda tanto as galinhas,
ocupadas em chocar ovos e transmitir suas regras de incubação às
demais? Parece que as águias continuam desafiando as galinhas,
quando estas já passaram do tempo de virar galinhas, resistindo à
domesticação, ao trabalho exclusivo do lar ou, pior ainda, quando
depois de terem experimentado a sua fase chocadeira ainda não
desaprenderam a voar, nem esqueceram seu desejo de subir para além
das montanhas. Nessa hora, as galinhas parecem, elas mesmas, terem
esquecido suas dogmáticas lições relativas ao destino das águias, do
seu instinto natural em reproduzir. Passam a atacar as águias,
moralizando e condenando-as, não escondendo o seu profundo
sentimento de indignação com o comportamento desviante da minoria
que parece mais uma ameaça: e se as águias não fossem mais uma
minoria e sua existência influenciasse as demais a ponto de não
haver mais galinhas? “Que
horrível seria o mundo sem chocadeiras” reclamam elas.
“Como são egoístas
as águias, pensando apenas em si, ao invés de seguirem sua vocação
natural de procriarem como galinhas?” Mas, será que não seria mais
lógico o contrário, a versão das águias:
“o maior egoísmo é
o das galinhas que, em seu pretenso discurso de solidariedade com o
mundo, apenas procuram esconder seu desejo de garantir que haja
herdeiros para os bens acumulados pelos galos?” As galinhas chegam a
afirmar que com seus catecismos contribuem para a humanização.
Esquecem-se, no entanto, que a humanização é fruto de relações
sociais mais humanas e não da aplicação dos princípios da
reprodução. E se as relações sociais entre águias permitissem uma
maior humanização do que o cotidiano das galinhas chocadeiras? Nesse
caso, as galinhas deveriam se arrepender do tempo em que ficaram
presas aos seus ninhos e poderiam tentar, ao menos em seu pouco
tempo de vida ainda restante, reaprender a voar e reproduzir-se como
águias. Essa idéia assusta, incomoda e atordoa. Mais fácil parece
ser a inquisição das águias, a condenação das que voam e a fuga da
tentação de negarem a si mesmas e a sua tradição chocadeira. Em
tempos modernos, as águias continuam existindo e parecem ter
aumentado. As galinhas, acostumadas aos seus cacarejos, parecem cada
vez mais indignadas: o seu apelo ao instinto e à naturalização das
galinhas, assim como sua devoção às chocadeiras começaram a ser
abaladas. E, diferente das outras histórias sobre águias e galinhas,
são as galinhas que começam a perceber que o seu tempo já passou…
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