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EDGAR
INDALECIO SMANIOTTO
Filósofo, mestre em
Ciências Sociais e doutorando do programa de pós-graduação em
Ciências Sociais da UNESP –FFC Marília. Autor do livro: A
fantástica viagem imaginária de Augusto Emílio Zaluar: ensaio
sobre a representação do outro na antropologia e na ficção
científica brasileira. Rio de Janeiro: Editora Corifeu,
2007.
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H. G. Wells: a ficção
científica como romance social
Edgar Indalecio Smaniotto
Herbert
George Wells é um dos autores mais importantes da ficção científica.
Ele tratou vários temas que seriam mais tarde centrais nesse tipo de
literatura: a viagem no tempo [1],
a invasão alienígena [2], a
manipulação biológica [3], a
guerra total [4] e a
invisibilidade [5].
Também foi uma espécie de filósofo
político [6], como o
definia sua amiga socialista Beatrice Webb. A admiração por ele
levou os Webb a incluírem
Wells entre os “doze sábios” com os quais
fundaram, em 1902, o “The Co-Efficients”, em que ele teve um papel
importante. Os Webb consideravam a literatura, como praticada por
Wells, um meio indispensável de propagar as idéias socialistas [7].
Franzino e tuberculoso, Wells nasceu em
21 de setembro de 1866, filho de empregados domésticos que mais
tarde se tornaram comerciantes em Kent (Inglaterra). Aos trinta anos
decidiu abandonar o cargo de professor e se tornar escritor. Seu
fascínio pela ciência o levou para a ficção científica, gênero
difundido por Júlio Verne.
A fama lhe trouxe um convite para
filiar-se à Sociedade Fabiana, onde passou a defender a instituição
de um socialismo militante, em contraposição a um socialismo
acadêmico: “Devemos nos associar a alguma organização – falava
eu. – Devemos realizar coisas... Devemos sair pelas ruas. As pessoas
estão desinformadas.” (WELLS, 1990, p. 109), por isso se tornou
membro da Sociedade Fabiana. Mas os fabianos nunca tiveram a
pretensão de constituir um partido de massas. Contentavam-se em ser
um grupo pequeno e seleto, empenhado em educar e preparar a classe
média para o socialismo.
Publicavam grande quantidade de tratados
e panfletos denunciando a pobreza e as injustiças que imperavam nos
primeiros anos do século XX na Inglaterra. A solução para esses
males viria em breve, asseguravam, através de programas e medidas
governamentais de caráter paternalista. Antes, porém, era necessário
que se formasse um governo verdadeiramente democrático e que o povo
adquirisse consciência desses problemas.
Consideravam que os sindicatos deveriam
limitar sua atuação à defesa dos interesses econômicos da classe
operária nos processos de barganha coletiva. Não lhes competia
imiscuírem-se em questões políticas ou cometer atos de rebeldia. Em
verdade, não acreditavam que um movimento operário de bases amplas
pudesse produzir mudanças políticas. Confiavam em que os apelos
intelectuais acabariam modificando a opinião pública, e assim,
conseguiriam levá-la a eleger para o parlamento candidatos que
tivessem simpatias pelas idéias socialistas.
Incomodado com estes traços de comodismo
burguês que encontravam em muitos dos fabianos, Wells passou a se
dedicar exclusivamente à escrita e pregava a necessidade de uma
educação científica entre os socialistas, que eram até então poetas,
intelectuais aventureiros, professores e funcionários públicos. Ele
defendeu suas idéias nos fóruns da Sociological Society, do qual foi
membro fundador em 1903. Em 26 de fevereiro de 1906 ele apresentou
em um de seus encontros uma palestra com o título “The So-Called
Science of Sociology”, em que contestava as pretensões da sociologia
de ser uma ciência, para ele esta deveria ser literária e utópica.
Seriam sociólogos Platão, Morus, Bacon, Swift, Edgar Allan Poe e até
aquele Comte que criara uma utopia ocidental altamente pessoal.
Pessoas como Spencer e os Webb seriam no
máximo assistentes sociais e pseudocientistas criadores de confusão.
Wells mesmo, por falta de experiência em formar comissões e
organizar atividades políticas, não conseguiu seu intento. Sem
apoio, ele abandonou a Sociedade Fabiana em 1908, passando a fazer
severas críticas a esta sociedade. Vejamos as observações de George
Ponderove (personagem de um romance de Wells), um socialista
disposto a fazer uma carreira de ação política dentro desta
sociedade:
Depois de muitos sacrifícios, nós
descobrimos o escritório da Sociedade Fabiana, escondido num
porão de Clement’s Inn. Entramos e interrogamos um secretário de
ar desencorajador que se encontrava em frente ao fogo e que nos
questionou com severidade acerca de nossas intenções...
- Quantos membros há na Sociedade
Fabiana? ...
- Cerca de 700...
- Como – como estes aqui?
- Estes socialistas não têm sentido
de proporção – disse ele.
- O que você pode esperar deles?
(WELLS, 1990, p. 110-111).
A crítica aqui é explícita no sentido da
necessidade de tornar a Sociedade um movimento de massas e não um
‘grupelho’ de intelectuais incapazes de participação política, que
ficava a discutir e não agia politicamente.
Wells também se mostrou profético em seu
intento; em 1918 o trabalhismo repentinamente apareceu com 24 por
cento do total de votos, atingindo 37,5 em 1929, o que pôde medir
razoavelmente a consciência de classe crescente entre os britânicos
(HOBSBAWM, [S.D.], p.293). Wells certamente pretendia que esses
votos fossem dados a uma Sociedade Fabiana convertida em Partido
Político.
Wells tornara-se candidato ao
Parlamento, propagador, educador e enciclopedista, ardente
sustentador da idéia da Liga das Nações. Escreveu uma longa história
mundial, Resumo da História (1920). Dez anos mais tarde, com
a colaboração dos biólogos G. P. Wells (seu filho), e do Dr. Julian
Huxley, escreveu A Ciência da Vida, um vasto manual de
biologia para todos os interessados. Também escreveu uma volumosa
exposição da economia cotidiana, Trabalho, Riqueza e Felicidade
da Humanidade (1932).
Quando estourou a guerra de 1939-1945,
Wells foi provavelmente o pensador mais influente do mundo. Seu
Resumo da História foi traduzido em quase todas as línguas, e
vendeu 2 milhões de exemplares.
Podemos dividir as novelas de Wells,
basicamente, em três grupos. O primeiro consiste nos romances
científicos e outras fantasias. O segundo, em novelas de caráter ou
comédias sociais. E o terceiro, em novelas de idéias, dedicadas em
sua maioria à discussão de idéias e ao progresso humano.
A Guerra dos Mundos tem sua
história dividida em dois livros: o primeiro contando a invasão
marciana e o segundo como ficou a Terra sob seu domínio e como os
marcianos sucumbiram às bactérias. O livro é destinado a transmitir
o pânico e a humilhar os arrogantes vitorianos [8].
A humilhação começa no primeiro parágrafo:
Ninguém teria acreditado, nos
últimos anos do século XIX, que este mundo estava sendo
observado com atenção e bem de perto por inteligências maiores
que a do homem e, no entanto, tão mortais quanto a dele próprio;
que os homens, enquanto se ocupavam com diferentes problemas,
eram examinados e estudados, talvez tão minuciosamente quanto
alguém com um microscópio pode examinar as efêmeras criaturas
que pululam e se multiplicam numa gota d’ água. Com infinita
satisfação, os homens iam e vinham por este globo cuidando de
seus pequenos afazeres, serenos na certeza de seu império sobre
a matéria. É possível que os protozoários sob o microscópio ajam
do mesmo modo. (WELLS, 2000, p. 11)
Depois de afirmar que os marcianos
estavam nos estudando, Wells expôs os motivos para que eles tenham
decidido nos invadir. Na verdade, era a única alternativa de
sobrevivência marciana, uma vez que Marte era um mundo antigo e
agonizante rumo a um fim inevitável, tendo esgotado seus recursos
naturais. Entretanto não nos passa despercebido o fato de os
britânicos serem comparados a simples protozoários, tamanha a sua
inferioridade em relação aos marcianos.
Em outra parte do livro, um soldado
britânico diz que aquilo que estava havendo não era uma guerra,
afinal não existem guerras entre humanos e formigas, nós
simplesmente passamos por cima delas. Mas, infelizmente, somos
formigas comestíveis.
Os marcianos seriam cinzas com tons
marrons. Eles ainda teriam “olhos negros bem grandes” com
grande intensidade, não possuiriam narinas nem lábios, teriam uma
pele lustrosa, sem pêlos e uma grande cabeça. Comunicar-se-iam por
telepatia. Em vez de mãos e braços, teriam tentáculos, oito de cada
lado. Fica fácil identificá-los como polvos. As máquinas marcianas
seriam gigantes mecânicos andando sobre três longas pernas. A parte
superior, acima do tripé teriam a forma de disco. Este ‘monstro
mecânico’ ainda possuiria longos tentáculos metálicos, e estes seres
extraterrestres construiriam máquinas bizarras semelhantes à forma
de seu próprio corpo.
Talvez nada seja mais admirável para
um homem do que o curioso fato de estar ausente aquela que é a
forma dominante de quase todos os aparelhos mecânicos humanos –
a roda está ausente. Em todas as coisas que eles
trouxeram para a Terra não há vestígio nem sugestão de que usem
rodas. Seria de esperar que surgissem pelo menos na locomoção.
E, quanto a isso, é curioso notar que mesmo aqui na Terra a
natureza nunca precisou da roda, ou preferiu outros expedientes
para seu desenvolvimento. E os marcianos não somente desconhecem
(o que é incrível) ou dispensam a roda: em seus aparatos também
se faz um uso singularmente restrito do pivô fixo, com os
movimentos circulares em torno dele delimitados a um único
plano. (WELLS, 2000, p. 151)
Ao final da história, pouco antes que os
marcianos sucumbissem às bactérias terrestres, construíram máquinas
voadoras, mas não conseguiram sobreviver para usá-las. “Entre
outras coisas, a reportagem me reiterava algo em que não pude
acreditar naquele momento: que o “segredo de voar” tinha sido
descoberto. (WELLS, 2000, p. 200-201)
É um livro inspirado no colonialismo
britânico, sobre como os valores morais da avançada civilização
britânica condescendiam com o genocídio de um povo considerado
inferior. Atribui-se a inspiração para a história a notícias a
respeito da extinção dos nativos da Tasmânia (Austrália) [9]
pelos colonizadores ingleses que estabeleceram lá uma colônia penal.
Em ‘A Guerra dos Mundos’, Wells faz com que os britânicos sejam o
povo inferior a ser massacrado por marcianos [10]
mais avançados tecnologicamente e com valores morais questionáveis,
se não ausentes. A mensagem central não só deste como de todas as
histórias de Wells não é uma fantasia desvairada de alienígenas e
tecnologia, mas um ponto de vista crítico e até pessimista sobre a
própria humanidade. ‘A Guerra dos Mundos’ fala mais sobre nós, sobre
a humanidade do que sobre os marcianos.
Em ‘A Guerra dos Mundos’, H.G. Wells
compara os repulsivos marcianos a répteis, répteis que dispõem a seu
bel-prazer de uma raça de seres humanóides bípedes e frágeis. Em sua
invasão à Terra, os marcianos trazem consigo um certo número dessa
outra raça de alienígenas que lhes servem de nutrição.
Sua preferência [a dos marcianos]
inegável pelos homens como fonte de alimento é parcialmente
explicada pela natureza dos restos das vítimas que trouxeram
consigo de Marte como víveres. Essas criaturas, a julgar pelos
pequenos restos mirrados que caíram em mãos humanas, eram
bípedes com esqueletos inconsistentes e de siliciosos (quase
como os das esponjas siliciosas) e débil musculatura, com cerca
de dois metros de altura e cabeças redondas, eretas, com grandes
olhos em órbitas muito duras. Duas ou três delas parecem ter
sido trazidas em cada cilindro, e todas foram mortas antes de
chegarem à Terra. (WELLS, 2000, p. 147)
Porém, é importante notar que os
marcianos se nutriam de uma outra raça bípede, não simplesmente se
alimentavam. Os marcianos de Wells não tinham sistema digestivo. A
nutrição marciana consistia em injetar sangue fresco de outras
criaturas em seus corpos. Eles não comiam carne, mas se nutriam de
sangue. A crueldade suprema dos seres carnívoros no topo da cadeia
alimentar imaginados por Wells como vampirescos é a idealização
suprema da dominação, pois o que estava sendo sugado era a própria
essência do outro ser.
A elite britânica da época foi descrita
como vampiros, seres parasitas, mortos vivos, que se sustenta de
outros. Devemos nos lembrar que o Drácula, de Bram Stoker [11]
era um sucesso de venda na Inglaterra vitoriana, mas enquanto no
livro de Stoker os britânicos eram descritos na figura de Van
Helsing (uma mistura de professor, médico, advogado, filósofo e
cientista), e sua equipe de cavalheiros enfrentando vampiros em
países distantes:
Sob o comando unificador e
sacerdotal de Van Helsing, os homens da classe média da
Inglaterra vitoriana revigoram sua identidade cultural e sua
masculinidade primitiva nos valores sagrados que são reinvocados
contra a sublimidade da ameaça vampiresca. Em face à sexualidade
voluptuosa e violenta solta pelo vampiro decadentemente
licencioso, um senso vigoroso de valores patriarcais, burgueses
e familiares é instaurado. (Botting apud Rocque e
Teixeira, 2001, p. 31)
Na obra de Wells os britânicos mais bem
representados no papel de vampiros alienígenas marcianos, com uma
tecnologia superior, uma crítica perspicaz do autor ao imperialismo
britânico. Ao apresentar seus alienígenas no papel exercido pelos
britânicos em suas colônias, e os britânicos no papel exercido pelos
povos colonizados, Wells faz uma critica áspera ao suposto papel
civilizador da Grã-Bretanha.
O fato de os alienígenas serem
tecnologicamente superiores e ainda assim moralmente condenáveis
pode ser lido como uma critica inerente à ciência. O progresso do
conhecimento científico não traria consigo uma nova ética, mas
poderia até mesmo tornar as guerras exponencialmente mais
sangrentas, com a destruição de cidades inteiras, como fazem os
alienígenas no romance de Wells.
Além da critica social, a Guerra dos
Mundos também apresenta ligações com a novela de idéias,
basicamente no capítulo 7 da segunda parte (“O homem de Putney
Hill”), onde as inquietações filosóficas do autor são apresentadas
no discurso quase demente de um artilheiro do exército inglês que
quer construir uma nova civilização nos esgotos de Londres.
Os fracos, e os que se tornam fracos
à força de pensar demais, deságuam sempre numa religião do fazer
nada, muito piedosa e elevada, e se submetem à perseguição e à
vontade do Senhor. (WELLS, 2000, p. 147)
Wells continua afirmando que muitos
homens até aceitariam de bom grado virar bichinhos de estimação dos
marcianos, tudo para não precisarem lutar, afinal eles já são
estimação de um deus, por que não ser dos marcianos? Para ele, a
maioria das pessoas em sua vida moderna, indo e vindo de seus
empregos diariamente, sem sequer pensar no que fazem não seriam nada
mais que escravos.
Ele também fala sobre como a descoberta
de que nós temos companhia alienígena poderia minimizar nossas
diferenças aqui no pequeno planeta azul e criar um novo sentimento
de união. Não devemos esquecer que Wells foi um batalhador
incansável pela união dos seres humanos.
De todo o modo, esperando ou não
outra investida, nossas opiniões sobre o futuro da humanidade
devem ser amplamente modificadas por esses acontecimentos.
Aprendemos que não é possível considerar este planeta como uma
morada inviolável e segura para o ser humano: nunca poderemos
prever o bem ou o mal invisível que pode se abater
repentinamente sobre nós vindo do espaço. Pode ser que, no
desígnio maior do universo, essa invasão marciana tenha mesmo
sido afinal benéfica para os humanos; ela nos tirou desta serena
confiança no futuro que é a fonte mais fecunda da decadência,
trouxe incontáveis dons para a ciência e fez muito para promover
a concepção do bem estar comum da humanidade (WELLS, 2000, p.
206).
Apesar de compartilhar as idéias
socialistas do homem de Putney Hill quanto à questão da natureza e
do papel do governo, suas concepções diferiam radicalmente das de
Marx. Segundo Marx, o governo era um instrumento de coerção
controlado e utilizado pela classe dominante para perpetuar seus
privilégios, que eram inerentes ao sistema capitalista.
Já Wells considerava que, numa
democracia parlamentar baseada no sufrágio universal, o Estado era
uma instituição neutra que poderia ser ocupada e utilizada pela
maioria para reformar o sistema econômico e social. Ora, como em uma
economia capitalista a classe operária constituía a maioria, estavam
seguros de que, mediante reformas pequenas e graduais, os
privilégios das classes dominantes seriam abolidos e o socialismo
seria instaurado por meio da evolução pacífica ao invés da revolução
violenta.
Em “Antecipações”, publicado em
1901, ele chegou a defender a idéia de um Estado Mundial liderado
por uma elite de pessoas cultas e educadas. Essa elite visionária
tomaria controle das armas de guerra, pacificaria e unificaria o
mundo e criaria uma nova era de prosperidade indefinida, mas nunca a
uma revolução de proletários. Desta forma, qualquer um podia esposar
o socialismo, e a continuar a viver em completa segurança num nicho
confortável e pequeno-burguês da sociedade capitalista inglesa.
Desta forma, ao associar ficção
científica, comédia social e novela de idéias, Wells tentava
literarizar suas reflexões acerca da sociedade, tornando seus
romances cada vez mais sociológicos e os transformando em fonte de
propagação de suas idéias socialistas, segundo sua própria concepção
de romance. “...o moderno romance... é o único meio com que
podemos discutir a grande maioria dos problemas... que o
desenvolvimento social atual traz consigo” (WELLS apud
LEPENIES, 1996, p. 155).
Herbert George Wells não era um
pensador ou cientista, era um escritor criativo, um homem que se
achava um profeta e guia para um mundo melhor. Por vezes mostrava-se
um pessimista acerca do futuro da humanidade. Em A Máquina do
Tempo e Os Primeiros homens na Lua, desenvolve a idéia de
sociedades controladas pelo intelecto sendo levadas à decadência. Já
em “Antecipações”, um Estado Mundial liderado por uma elite
de pessoas cultas e educadas, constrói o paraíso sobre a Terra.
Em Tono Bungay [12],
ele defende o governo da maioria proletária ao invés de um grupo
elitista intelectual. Manteve um diálogo particular com Joseph
Stalin [13], que durou quase três
horas, e foi grande admirador dos progressos sociais soviéticos.
São idas e vindas no pensamento deste autor, que necessita ser mais
estudado aqui no Brasil [14]. Com
exceção de suas obras de ficção científica e o Resumo da História,
não temos quase nada de suas obras e artigos de cunho social e
socialista publicados no Brasil.
Referências
HOBSBAWM, Eric J. Mundos do
Trabalho: Novos Estudos sobre História Operária. Trad. Waldea
Barcellos e Sandra Bedran. Editora Paz e Terra: [S.D.] p.
293
LEPENIES, Walf.
As três culturas.
Trad. Maria Clara Cescato. São Paulo: Editora da Universidade de São
Paulo, 1996.
PEREIRA, Fabiana da Camara Gonçalves.
Fantástica Margem: O cânone e a ficção científica brasileira
. Dissertação de Mestrado. PUC – Rio de Janeiro, abril de 2005.
ROCQUE,
Lucia de La. TEIXEIRA,
Luiz Antonio. Frankenstein, de Mary Shelley, e Drácula, de Bram
Stoker: gênero e ciência na literatura. História, Ciências,
Saúde – Manguinhos, Vol. VIII (1), 10-34, mar. –jun. 2001.
WELLS, Herbert George.
A Guerra dos Mundos.
Trad. Marcos Bagno. São Paulo: Editora Nova Alexandria, 2000.
_____________________.
Tono-Bungay.
Trad. Mara Elizabeth. Rio de Janeiro:
Livraria Francisco Alves Editora, 1990.
Edgar
Indalecio Smaniotto é filósofo, mestre em Ciências Sociais e
doutorando do programa de pós-graduação em Ciências Sociais
da UNESP –FFC Marília. Autor do livro: A FANTÁSTICA
VIAGEM IMAGINÁRIA DE AUGUSTO EMÍLIO ZALUAR: ensaio sobre a
representação do outro na antropologia e na ficção
científica brasileira. Rio de Janeiro: Editora Corifeu,
2007. Contato:
edgarsmaniotto@gmail.com.
A
Máquina do Tempo.
[S.T.] Portugal / Mem Martins: Publicações Europa-América,
1992. (Coleção FC-Bolso nº 191). Versão cinematográfica: A
Máquina do Tempo (EUA, 2002), Direção de Simon Wells.
A
Guerra dos Mundos.
Trad. Marcos Bagno. São Paulo: Editora Nova Alexandria,
2000.
A Guerra dos Mundos (EUA, 1954), Direção de
Byron Haskin.
A
Ilha do Dr. Moreau.
[S.T.] Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora,
1983. (Coleção Mestres do Horror e da Fantasia). Versão
cinematográfica: A Ilha do Doutor Moreau (EUA, 1996),
Direção de John Frankenheimer.
O
Alimento dos Deuses.
[S.T.] São Paulo: Editora La Selva, 1964. (Coleção Espacial
nº 5). Versão cinematográfica: A fúria das feras atômicas
(EUA, 1976), Direção de Bert Gordon. Um novo título foi
dado na versão cinematográfica.
O Homem Invisível. [S.T.] Portugal / Mem Martins:
Publicações Europa-América, 1992. (Coleção FC-Bolso nº 190).
Versão cinematográfica: Homem Invisível (EUA, 1933), Direção
de James Whale.
Segundo Beatrice Webb, esposa de Sydney Webb, dois dos mais
prolíferos escritores da história do socialismo, H. G. Wells
fazia parte de um grupo de escritores ingleses que ela
denominava edwardians, juntamente com Arnold Bennett
e John Galsworthy. Eram aqueles que podiam ser considerados
representantes do romance sociológico. “Gostamos muito
dele [H. G. Wells], - é completamente autêntico e todo
inventividade, um especulador, uma espécie de jogador, mas
completamente consciente de que suas hipóteses não estão
comprovadas. Num certo sentido é um romancista estragado
pela escrita de romances, mas que no estado atual da
sociologia é útil tanto para Grdgrinds como para nós, porque
nos fornece generalizações livres que podemos utilizar como
instrumentos de pesquisa. E somos-lhe úteis também, porque
lhe oferecemos uma enorme quantidade de fatos cuidadosamente
peneirados e uma ampla experiência com a administração
pública.” (WEBB apud LEPENIES, 1996. Pág. 149).
Beatrice
Webb e Sydney Webb em uma de suas primeiras e mais
conhecidas obras, intitulada Industrial Democracy,
rejeitam a idéia de que os trabalhadores pudessem gerir
democraticamente suas próprias indústrias sob o socialismo.
Afirmavam que os trabalhadores não tinham nem a intenção nem
a capacidade de administrar empresas. Segundo eles, na
futura democracia industrial socialista, as indústrias
seriam controladas por administradores profissionais que,
por sua vez, seriam responsáveis perante a população, uma
vez que prestariam contas a um parlamento democraticamente
eleito, aos governos locais e às cooperativas de
consumidores. Rejeitaram também a idéia de que o socialismo
implicaria a transferência da propriedade de toda a
indústria para o governo nacional. A propriedade deveria ser
exercida tanto pelo governo nacional quanto pelas inúmeras
pequenas unidades administrativas locais ou regionais. O
alcance das atividades de cada empresa e a parcela da
população atingida por essas atividades determinariam,
segundo eles, o tipo de propriedade em que se enquadraria a
empresa. Na obra intitulada A Constitution for the
Socialist Commonwealth of Great Britain, propuseram a
criação de dois parlamentos distintos, ambos eleitos
democraticamente. O primeiro se ocuparia das questões
políticas, e o segundo cuidaria dos assuntos econômicos e
sociais. Sugeriam também a adoção de um sistema de governos
locais, baseados em unidades locais com limites geográficos
definidos. Os governos locais se combinariam de várias
maneiras para formar unidades administrativas encarregadas
de supervisionar e controlar. (Para um maior entendimento do
pensamento dos Webb, ver: LEPENIES, Walf O Romance Jamais
Escrito: Beatrice Webb. In: As Três Culturas. Trad.
Maria Clara Cescato. São Paulo: Editora da Universidade de
São Paulo, 1996. P. 115-145.)
Wells atingiu seu intento com tamanha destreza que a “Guerra
dos Mundos” viria mais tarde a causar pânico e desespero nos
Estados Unidos e no Brasil. No dia 30 de outubro de 1938,
Orson Well, apresenta na CBS uma adaptação radiofônica da
obra homônima de Wells. Mais de um milhão de americanos saem
às ruas em pânico, aterrorizados com as supostas notícias
que anunciavam uma invasão marciana e a destruição de Nova
York. A íntegra da transmissão foi publicada no Brasil.
Ver: HOWRAD, KOCB. A Guerra dos Mundos. In:
Antologia Cósmica – Primeiros contatos com seres
extraterrestres. Fausto Cunha (org.). Rio de Janeiro:
Livraria Francisco Alves Editora, 1981. Para uma análise
mais aprofundada deste caso, recomendo o livro do jornalista
Homero Fonseca, que fez um estudo a respeito em Viagem ao
planeta dos boatos (Rio de Janeiro, Record, 1996). Ou o
filme Radio Days (A Era do Rádio),
de 1987, no qual Woody Allen mostra diversos episódios
interligados __ entre eles a invasão marciana
preconizada por Welles __ pela presença constante
do rádio, que age poderosamente sobre os membros de uma
família judia no bairro do Queens nos anos 30 e 40. O mais
estranho é que em 22 de novembro de 1954 na cidade mineira
de Caratinga a transmissão radiofônica da mesma obra gerou
tanto tumulto e foi encarada com tanta seriedade que a
Aeronáutica chegou a enviar um grupo de oficiais em um C-47
20-53, para averiguar o acontecido, ao mesmo tempo em que
manteve outras aeronaves prontas para o combate. O fato
voltaria a se repetir em 30 de outubro de 1971 em São Luís
(Maranhão), chegando mesmo a mobilizar uma esquadrilha da
Aeronáutica. Para maiores informações ver: VALIM, Alexandre
Busko. Os marcianos estão chegando. Revista de
História da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro: Edições
Biblioteca Nacional, 2005 (04): p. 64-69. Todos estes casos
evidenciam a força da obra de Wells, e a credulidade e falta
de ceticismo em grande parte da população, seja americana ou
brasileira.
Entre os anos de 1815 (após a queda de Napoleão), e
praticamente até a Primeira Guerra Mundial, os grandes
conflitos armados ocorrerão distantes da Inglaterra. Estes
eram travados nas colônias, ou na periferia da Europa
(Guerra da Criméia, 1853), ou não envolviam diretamente a
Inglaterra (Guerra Franco-Prussiana, 1870). Wells critica
justamente esta posição distante dos Ingleses para com os
povos que estavam conquistando, atitude semelhante a dos
marcianos, que estavam travando uma guerra tão longe de seu
próprio mundo, quanto os ingleses em suas colônias.
Na época o interesse pela existência de outros mundos já se
encontrava bastante difundida, embora as pesquisa
astronômica estivesse voltada para a mecânica celeste e
astrometria. Mas em 1877, o astrônomo italiano Giovanni
Schiaparelli publicou um artigo notificando a existência de
canali na superfície marciana. Nos Estados Unidos um
erro de tradução do italiano para o inglês, disseminou a
idéia de que havia um sistema de canais artificiais em
Marte. Percival Lowell, defendia a idéia de que havia um
sistema de canais com a finalidade de trazer água dos pólos
para uma civilização marciana sedenta. Daí para eles
invadirem a Terra atrás de nossa água era uma questão de
tempo. Wells soube usar esta mitologia muito bem, afinal na
época ela era tão difundida quanto as modernas observações
de UFOs. Uma história mais detalhada pode ser verificada no
livro: A Conquista de Marte de Willy Ley (Rio de
Janeiro: Edições Bloch, 1967)
Pode-se dizer que Bram Stoker legitima a atitude dominadora
e imperialista inglesa, já que seus personagens vão à
Romênia libertar o seu povo do tirano local e ao mesmo tempo
prevenir ataques à “boa sociedade inglesa”. STOKER, Bram.
Drácula. Trad. David Jardim Junior. [s.c]: Ediouro,
[s.d].
Tono Bungay: Temos neste livro elementos de ficção
científica, tais como a experiência de George com sua
máquina voadora e seu destróier, assim como especulações
sobre a natureza radioativa do imaginário “quap”. A comédia
social é centralizada no tio Edward Ponderevo, ao tentar
junto com sua mulher adquirir a etiqueta da nobreza
britânica. Já a “novela de idéias” aparece quando Wells
comenta e mostra as mudanças sociais e as condições
comerciais na Inglaterra.
Diálogo recentemente publicado no Brasil.
Ver: ALTMAN, Fabio (org.). A
Arte da Entrevista. São Paulo: Boitempo Editora, 2004.
Ao que parece a estreia em cinemas brasileiros do filme
produzido por Steven Spielberg, A Guerra dos Mundos,
gerou pelo menos um interesse momentâneo pela obra de Wells.
Que na verdade pouco tem haver com o filme. Sendo a
adaptação dirigida por Byron Haskin e produzida por Georg
Pal, em 1954, a melhor já feita festa obra. Para maiores
detalhes acerca das adaptações cinematográficas da obra de
Wells, recomendo o artigo: NO CINEMA. Scientific
American – Exploradores do Futuro – H. G. Wells, São Paulo:
Segmento-Duetto, 2005 (02): p. 70-77.
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