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BEATRIZ
NUNES SANTOS E SILVA
Pedagoga da rede
Municipal de Uberlândia, Mestranda em Educação do Ensino
Superior (UNITRI-MG)
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Cinema e a sala de aula: um
caminho para a formação
Beatriz Nunes Santos e Silva
Este
estudo representa uma reflexão que surgiu de discussões da
disciplina Temas Específicos em Teorias e Práticas da Educação
Superior, que trouxe o cinema como momento de formação, assim,
debater como este meio de comunicação pode ajudar, a ampliar e
avançar na formação cultural do professor. A proposta surgiu com a
análise de um filme, em sua possibilidade de intervenção e auxílio
na construção do conhecimento, utilizando-se também, do diálogo com
autores que discutem sobre o tema. Procurou-se, também, enfocar a
voz dos alunos com suas observações e, finalmente, a (re)construção
do saber.
Estamos no século XXI, e a era da
informação é um fato consumado, a cada dia os homens estão mais
atentos aos fatos. É preciso, assim, pensar sobre como tem
acontecido a elaboração do conhecimento, uma vez que, a todo o
momento e em diferentes espaços (escola, família, clubes, igrejas),
a mídia tem exercido influência no processo de formação humana.
Neste sentido, Duarte (2004, p.213) observa que, hoje, a educação a
ser oferecida exige novos pressupostos, entre eles, aquele que
admite produção e a difusão de conhecimentos por textos compostos em
imagem-som e que possam ter legitimidade, confiabilidade e valor
epistemológico como de outras fontes.
Desse modo, a escola e seus
profissionais precisam repensar suas ações pedagógicas, uma vez que
as crianças, desde a hora em que se levantam, estão em contato
direto com as mais diferentes fontes de informação: rádio,
televisão, internet (seja em casa ou lan house), vêem novelas,
assistem a noticiários, jogam vídeo games, enfim, operam com as
diversas formas, têm opinião as mais diversas sobre os mais
diferentes assuntos e, ao chegarem à escola, estão ansiosos para
discutir e dar opiniões, mas esta muitas vezes, não se encontra
preparada para lidar com essa realidade. Porém, nem sempre, o
colégio se encontra aparelhado para atender à curiosidade dos
alunos.
Sabe-se que, por séculos, só os mestres
tinham acesso à informação, somente eles podiam transmitir o
conhecimento, mas, hoje, vivemos em uma sociedade em rede, ouvinte,
imagética. Houve difusão de novas tecnologias e ambientes virtuais
de aprendizagem, por isso, a necessidade de discutir outras
possibilidades de elaboração cognitiva. O mundo mudou, estamos em um
momento em que precisamos ter uma nova relação com as idéias e
promover discussões sobre a educação. Utilizar-se do cinema pode ser
um dos caminhos de reflexão crítica do pensamento em construção. Por
exemplo, o modo de vestir das crianças e jovens, expressões deste ou
daquele personagem que viram na TV e repetem sem parar, estas e
outras situações como a própria “Escola Múltipla Escolha” (Programa
Malhação da TV) as quais exerce inspiração direta nas atitudes dos
homens de hoje, que dirá dos estudantes.
O professor, como um dos grandes
mediadores do conhecimento, precisa compreender a dimensão de sua
responsabilidade ao veicular, com palavras, imagens e gestos, assim,
trazer para a sala de aula discussões de filmes, propagandas,
e-mails e outras fontes de comunicação audiovisual, o que pode ser
mais um recurso para articular a ação pedagógica, o conteúdo e os
novos apontamentos cognitivos.
O cinema, como um desses meios de
comunicação, pode auxiliar os alunos a expor suas idéias, seus
conflitos e, então, organizar valores para a própria formação
humana. Morin (2006) aponta que o cinema apresenta uma “linguagem
poética e literária que nos leva diretamente ao caráter mais
original da condição humana, pois, como disse Yves Bonnefoy, são as
palavras, com seu poder de antecipação, que nos distinguem da
condição animal (p.43)”. Já o estudioso Lopes (2004, p.191) observa
que a imagem cinematográfica impôs-se como meio de comunicação por
excelência nos mais variados planos de vida social, uma vez que,
hoje, todos podem ter acesso a essa mídia.
À medida que se propõe uma temática,
surgem questionamentos diversos, princípios se afloram com maior
liberdade e naturalidade, criando um ambiente de troca de
experiências, desenvolvimento de processos educativos e, também, de
competências e habilidades que educam nossa inteligência. Trabalhar
com o cinema é viabilizar o encontro da cultura, da estética, do
lazer, da ideologia, dos valores sociais, enfim, de reflexão do
passado e do presente, confundindo-se no cotidiano das pessoas.
A visão cinematográfica, como formação,
reforça a perspectiva educativa das discussões sobre temas
polêmicos, de dimensões que fazem ponte entre a emoção e a razão. O
professor, por meio de bons filmes, pode relacionar vida, cultura,
realidade, fantasia e motivação. Hoje, diversificar as aulas é
primordial para avançar em nossa reflexão crítica. Neste sentido, o
cinema procura um impacto ao agregar a possibilidade de desenvolver
múltiplas inteligências, que, segundo estudos de Gardner (1994), é
uma forma de trabalhar o conhecimento de forma cada vez mais
integrada, compartilhada e sensível, uma vez que “(...) não
investiga a construção da inteligência enquanto processo, mas
destaca o acabamento e as diversas gêneses possíveis para a
expressão inteligente” (apud Paggotti, 2005, p.21).
Portanto, cinema, saber e formação
compõem uma tríade que configura a presença de múltiplos olhares
para a construção de uma perspectiva de educação significativa, em
que ciência, prazer e emoção misturam na construção de magia,
memórias e verdades. Ligar a cultura sistematizada no âmbito escolar
à prática reflexiva do professor, à arte, à literatura, e ao
processo ensino-aprendizagem, de maneira motivadora, introspectiva e
prazerosa, com certeza, fará emergir um trabalho carregado de
valores que se projetam no repensar de concepções de mundo e
educação.
Morin (2006, p.44), em seu livro A
Cabeça Bem-Feita, observa que o século XXI é o século da imagem,
assim, segundo o autor, o romance e o cinema nos oferecem o que é
invisível nas ciências humanas, pois estas ocultam ou dissolvem os
caracteres existenciais, subjetivos, afetivos do ser humano. O filme
e o romance, por sua vez, põem à mostra as relações do ser humano
com o outro, com a sociedade e com o mundo. Trabalhar com o cinema é
considerar uma “nova- velha” linguagem, que viabiliza a comunicação
de diferentes saberes (curriculares, disciplinares, experienciais,
cinematográfico), que terminam por ser interligados. Assim sendo,
diminui-se o reducionismo instalado na sociedade, que tem afastado o
ser humano de uma visão geral dos fatos que acontecem na vida,
impedindo-o da busca de um ensino contextualizado.
Duarte (2002) menciona que a arte
cinematográfica exige entendimento:
Diferente da escrita, cuja
compreensão pressupõe domínio pleno de códigos e estruturas
gramaticais convencionados.A linguagem do cinema está ao alcance
de todos e não precisa ser ensinada, sobretudo em comunidades
audiovisuais...(...) Mas isso não significa que devamos deixar o
conhecimento da gramática cinematográfica para os especialistas.
Ao contrário, conhecer os sistemas significadores de que o
cinema se utiliza para dar sentido às suas narrativas aprimora
nossa competência para ver e nos permite usufruir melhor e mais
prazerosamente a experiência com filmes. (p.38).
A importância dessa vivência ultrapassa
o fascínio pela imagem, por utilizar-se da diversidade de suas
mensagens, do estreitar de relações, por difundir representações e
(re)-construir intervenções que venham anunciar ações futuras.
Quando o professor traz novas interlocuções com as idéias,
procurando integrar, de forma criativa e inovadora, os diferentes
espaços dentro da sala de aula, trazendo a oralidade, a escrita, o
audiovisual e a ilustração, tem-se a possibilidade de mostrar um
conteúdo que pode e deve ser reelaborado, flexibilizando no
currículo uma aprendizagem também, virtual.
Em contrapartida, os alunos têm
reclamado do tédio das aulas, de professores que ficam horas e horas
falando, que planejam aulas apenas recorrendo a leitura de textos
que, muitas vezes, não conseguem interligar com a vida profissional
e pessoal. Assim, o cinema pode ser uma ferramenta na fala do
professor e na relação dos textos com o cotidiano das pessoas.
É preciso ver, na sala de aula, um lócus
privilegiado, um ponto de partida em que se discutem todas as
dimensões interferentes da existência humana, e, dentre elas, o
cinema, mas, para isto, a escola e a educação, necessitam entendê-lo
e utilizar-se desta inovação como colaboradora e não como algo que
faça com que a ação do professor se torne obsoleta. Hoje, perguntas
inquietam a escola. O que é preciso para ter uma educação de
qualidade? O que fazer para que a sala de aula seja ambiente
prazeroso e de qualidade? Será o cinema o grande trunfo?
O cinema não é algo novo, mas, o que se
pretende é popularizar o seu uso e não deixar que o seu acesso,
principalmente, em ambientes públicos, seja restrito a um grupo de
pessoas. Fato que temos presenciado, quando observamos o monopólio
de redes, tornando difícil a sua acessibilidade para pessoas com
menor condição social. É urgente rever esta situação.
A escola, em contrapartida, ao conhecer
a riqueza da linguagem do cinema e aproveitar-se de forma
inteligente, da sua dinâmica de envolvimento, profundidade,
criticidade da realidade e investigação científica, demonstra, como
aponta Paulo Freire (1996, p.36), que ensinar exige decência e
boniteza, é preciso dar às artes, também, a oportunidade de promover
a transformação da curiosidade ingênua em epistemológica.
O filme pelo filme não conduz à
aprendizagem, esse não pode substituir o professor, mas, sim,
auxiliá-lo e ampliar a capacidade de entrelaçar temas no espaço e no
tempo, viabilizando interpretar o saber escolar e o saber do mundo.
Trazer para a sala de aula esse meio de
comunicação como forma de questionamentos de códigos é
mais uma ferramenta que permite aos educandos posicionar-se
ideologicamente, exigindo do professor estar atento a um constante
diálogo com outras culturas, ao contexto sócio-político, econômico,
enfim, estar sempre atualizado. Não pode ser um docente que trace
monólogos, ele precisa dar voz aos diferentes sujeitos, que se
inter-relacionam ao assistir a um filme. A discussão inicia-se com o
seu diretor, com sua visão de mundo, suas concepções, assim como
entender o período sócio-político em que se passa a história. É
preciso, também, pensar a temática, trazendo o pensamento de autores
que abordem sobre o problema, não se esquecendo de imprimir os
conhecimentos e valores que traz como docente, como também as
concepções que o aluno traz em sua bagagem de informação. Trabalhar
a expectativa do aluno, estabelecendo pontes pedagógicas de formação
é, como aponta Napolitano (2003).
Ajudar a escola a reencontrar a cultura
ao mesmo tempo cotidiana e elevada, pois o cinema é o campo no qual
a estética, o lazer, a ideologia e os valores sociais mais amplos
são sintetizados numa mesma obra de arte (p.12).
Harmonizar a relação de
ensino-aprendizagem, sociedade e mídia é, hoje, o grande desafio.
Vivemos em uma sociedade de ritmo acelerado, em que as imagens e
seus reflexos têm gerado efeitos positivos e negativos, uma vez que
explora em profusão o lado emocional das pessoas. Viabilizar, assim,
discussões educativas que se unam à afetividade e à razão pode
possibilitar caminhos de apoio à formação do pensamento humano e
científico. Almeida (2001, p.48) explica ser importante usara o
cinema na educação:
(...) porque traz para a escola
aquilo que ela se nega a ser e que poderia transformá-la em algo
vívido e fundamental: participante ativa da cultura e não
repetidora e divulgadora de conhecimentos massificados, muitas
vezes já deteriorados, defasados (...) (apud. Napolitano, 2003,
p.12)
Um bom exemplo de como trabalhar a
mensagem contida na arte cinematográfica é a película Morangos
Silvestres, do diretor Ingmar Bergman. É um belíssimo filme
sobre o tempo, a memória e o reencontro, que explora a vida e a
morte de um médico e professor aposentado. Sonhos, devaneios,
flashbacks conduzem-no a um mergulho no inconsciente, fazendo-o
perceber que seu temperamento áspero e distante impossibilita o
envolvimento afetivo com familiares e amigos, protegendo-o do
sofrimento e, por outro lado, isolando-o. A constatação da velhice e
solidão traz a presença iminente da morte, incitando-o a repensar
sua vida durante o percurso que faz até cidade de Lund. O
desencadeador dessa viagem introspectiva é o sonho que teve na noite
anterior à partida para Lund, onde irá receber uma homenagem com o
título honorário da Universidade. O filme retrata a presença de um
professor distante da realidade, que preferiu isolar-se por ter
dificuldades de estabelecer relações interpessoais. Mostra-nos um
“homem-professor” com suas marcas e conflitos, a influência familiar
na sua personalidade, mas, ao mesmo tempo, nos leva ao resgate que,
muitas vezes, precisamos fazer de nós mesmos.
Diante desse filme, que questões podem
ser concernentes à formação? Como utilizá-lo na educação? Mesmo não
sendo o professor um crítico de cinema, é possível incorporar
projetos escolares de forma significativa na sistematização da
educação?
Vejamos alguns pontos que podemos
abordar em sala de aula. O que desencadeia a viagem introspectiva do
médico? Qual o perfil desse professor? Como nós professores, temos
estimulado a viagem da aprendizagem de nossos alunos? No filme, quem
é Sara na vida do professor? Quem somos nós na vida de nossos
alunos? O que é o caixão, o relógio sem ponteiro, o homem oco que se
esvai no chão? Somos vida ou morte no processo de formação de
nossos alunos? O que é importante nas relações interpessoais para
que aconteça um mergulho de uma formação mais humanitária? Qual a
dimensão filosófica, sociológica e psicológica dos personagens e as
relações entre eles? O que é ser professor, já velho, em final de
carreira e que faz o balanço de sua vida, tanto amorosa como
profissional?
Todas essas perguntas expressam aspectos
esclarecedores e reflexivos, que conduzem à possibilidade de
trabalho interdisciplinar e transdisciplinar, uma vez que propiciam
inquietações pessoais tão fundamentais aos alunos e professores,
mostrando mais um caminho de autonomia e potencialização do saber.
Todavia o uso do filme não pode ser banalizado em nossas ações, para
que não se torne uma ação de deslumbramento, simplesmente para
deixar o tempo passar e “escamotear” as aulas.
Ampliar as nossas capacidades cognitivas
é um dos desafios que o cinema vem colocar em ação. Quando
perguntamos qual o uso possível deste ou daquele filme dentro da
nossa disciplina ou num trabalho interdisciplinar, aumentamos as
nossas próprias indagações, pois colocamos em “xeque” a nossa
competência de ver e, assim, acontece uma postura de reflexão sobre
nossa atuação, postura esta, tão recorrente nos dias atuais.
Quando o professor consegue integrar
investigações em sua postura docente, valoriza, sobretudo, a sua
postura pedagógica, principalmente por unir conhecimento científico,
práticas individuais e coletivas a uma proposta que vislumbre
“ciência para a vida”. Repensar, então, o papel do professor, do
aluno e da escola por meio do cinema é “uma prática social tão
importante, do ponto de vista da formação cultural e educacional das
pessoas, quanto a leitura de obras literárias, filosóficas,
sociológicas e tantas mais”. (Duarte, 2002, p.17).
O filme Morangos Silvestres é
apenas um referencial de como trabalhar com a formação, demonstrando
como envolver cada vez mais os protagonistas da educação: alunos e
professores.
Dessa forma, se a educação precisa
vivenciar novas intervenções de aprendizagem que tragam prazer,
alegria e conhecimento para o interior da escola, fica aqui uma
pergunta que precisa ecoar. Por que não em incluirmos no currículo
esse recurso de aprendizagem tão prazeroso?
Referências
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Belo Horizonte, Autêntica, 2002.
______. Documentários na Escola. In:
ROMANOWSKI, J.P.; MARTINS, P.L.O.; JUNQUEIRA, S.R.A. (orgs).
Conhecimento Local e Conhecimento Universal: diversidade, mídias
e tecnologias na educação. Curitiba, Champagnat,2004.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia:
saberes necessários á prática educativa. São Paulo. Paz e Terra,
1996.
LOPES, José de Souza Miguel Lopes.
Descolonizar o cinema? A Educação Agradece. In: ROMANOWSKI, J.P.;
MARTINS, P.L.O.; JUNQUEIRA, S.R.A. (orgs). Conhecimento Local e
Conhecimento Universal: diversidade, mídias e tecnologias na
educação. Curitiba, Champagnat,2004.
MORANGOS
SILVESTRES. Direção de Ingmar Bergman. Suécia, 1957, VHS, 91
minutos, preto e branco, legendado.
MORIN, Edgar. A Cabeça Bem-Feita:
repensar a reforma, reformar o pensamento. Tradução: Eloá Jacobina.
Rio de Janeiro, Bertand,2006.
NAPOLITANO, Marcos. Como usar o
cinema na sala de aula. São Paulo, Contexto, 2003.
PAGOTTI, A.W.; PAGOTTI, G.A. de G.
Inteligências e Aprendizagens: múltiplos estilos. Uberlândia,
EDIBRAS, 2005.
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