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KENNETH P.
SERBIN
Ph.D. Professor
Titular e Chefe do Departamento de História, Universidade de San
Diego (San Diego, Califórnia, USA) e ex-presidente especial da
Brazilian Studies Association (BRASA) para o exercício de
2008-2010. Artigo originalmente publicado em “Perfis Cruzados:
trajetórias e militância política no Brasil do século XX” (Rio
de Janeiro: Imago, 2002), organizado por Beatriz Kushnir,
Tradução de Rafael R. Ioris |
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Dom Hélder Câmara: o pai do
catolicismo progressista brasileiro
por Kenneth P. Serbin
Dom Hélder Pessôa Câmara foi um dos
maiores líderes do século XX. O diminuto mas ferrenho bispo
cearense, falecido em 1999, atingiu a idade de 90 anos durante uma
época complexa e cheia de conflitos porque não deixou de ser um
homem simples e pacífico. Diversos autores já escreveram a respeito
de vários aspectos da vida de Dom Hélder, mas, como no caso de Alceu
de Amoroso Lima, a história deste bispo abrange tantas facetas da
história brasileira, que sua biografia definitiva, a qual deveria
ser composta por inúmeros volumes, ainda está por ser escrita.
No mesmo estilo de Mahatma Gandhi e o líder norte-americano da luta
pelos direitos civis, Dr. Martin Luther King Jr., Dom Hélder lutou
pela paz através da promoção da justiça social. A trajetória que o
conduziu a essa abordagem de ação não foi fácil. Uma visão realista
e não hagiográfica de Dom Hélder deve levar em consideração sua
busca por uma filosofia política eficiente e dotada de sentido. O
próprio Dom Hélder já admitira, por exemplo, o equívoco do seu
envolvimento com autoritarismo durante os anos 30.
Sua militância posterior pela paz jamais pode ser tomada como meras
palavras vazias, pelo contrário, esta exigia o exercício diário de
valores básicos mas não sempre fáceis de serem praticados pela
maioria das pessoas: bondade, paciência, respeito, humildade, humor,
disposição para aprender com os mais jovens e os pobres, e, quando
necessário, silêncio. Dom Hélder simbolizou a face cristã e não
violenta da esquerda brasileira em um período em que muitos
estudantes e outros ativistas perderam a paciência e se voltaram ao
conflito armado como forma de combate do autoritarismo e efetuar a
transformação social. Mesmo após ter tido o muro de sua casa cravado
de balas de metralhadora e, o que é ainda pior, após o assassinato
de um dos seus jovens sacerdotes por um dos esquadrões da morte da
direita autoritária, Dom Hélder manteve sua posição de
não-violência. Várias das instâncias políticas de oposição
bem-sucedidas e originadas nos anos 60 e 70 podem ser vinculadas ao
seu trabalho: as comunidades eclesiais de base (CEBs), a Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a defesa pelos direitos
humanos e pela igualdade sócio-econômica e a prática da teologia da
libertação. A fé e ética de Dom Hélder anteciparam ainda inúmeros
outros importantes acontecimentos: a luta pela igualdade feminina, o
avanço dos organismos não-governamentais e o movimento em busca de
pluralidade e diversidade religiosa. Ao passo que Alceu foi
claramente o avô do movimento progressista católico, Dom Hélder foi
seu pai, ajudando no seu desenvolvimento no mais amplo sentido do
termo: uma abertura que visa não somente novas formas de vivenciar a
fé católica, mas também para a política e a vida em geral.
Para entender a atividade política de
Dom Hélder, é necessário que se examine seu universo religioso, uma
realidade que seria rejeitada por um revolucionário ateu, que,
contudo, admiraria o bispo por sua coragem em criticar o regime
militar de 1964; mas também uma realidade familiar para um outro
segmento importante da esquerda que derivou do Movimento de Ação
Católica sob a forma de grupos como a Juventude Operária Católica
(JOC), a Juventude Universitária Católica (JUC), e a Ação Popular.
Dom Hélder era um homem profundamente espiritualizado, quem, como
outros tantos brasileiros devotos, recebeu seus primeiros exemplos
de religiosidade de sua mãe, durante sua humilde infância em
Fortaleza.
Dom Hélder estudou no seminário de padres Vicentinos Franceses e
Holandeses, severos disciplinadores que tiveram um papel fundamental
na “Romanização” ou modernização conservadora do catolicismo
brasileiro que se estendeu da década de 1850 até a década de 1960,
período no qual a Igreja aumentou amplamente sua influência política
e social através da reestruturação de suas bases institucionais,
defesa da moralidade e subjugo da religiosidade popular pela visão
ortodoxa dos bispos. Com os padres Vicentinos, Dom Hélder aprendeu o
valor da obediência frente à hierarquia da Igreja, mas também do
questionamento da arbitrária repressão da criatividade. Como a
maioria dos sacerdotes brasileiros, Dom Hélder saiu do seminário com
uma educação refinada – com domínio do francês e latim, por exemplo
– mas ainda assim, com lacunas no que diz respeito ao conhecimento
das grandes questões mundiais e da realidade brasileira.
Embora com treinamento de padre diocesano, Dom Hélder assumiu um
perfil de frei, ou seja, de um membro de uma ordem religiosa (tais
como a dos Vicentinos), com suas regras, tarefas, espiritualidade e
ambiente fraternal.
Dom Hélder encontrou sua inspiração
maior nos ensinamentos e na vida de São Francisco, seu santo
favorito, cuja abnegação pessoal se assemelhava e ao mesmo tempo
minorizava os aspectos mais duros da vida no sertão nordestino.
“Irmão Francisco” era uma dos apelidos favoritos de Dom Hélder.
Com sua ternura, tolerância e um sorriso cativante, ele era talvez a
mais clara aproximação de um São Francisco brasileiro. Mais tarde,
Dom Hélder encontrou inspiração espiritual em outros grupos que se
identificavam com a experiência da pobreza, como por exemplo, os
irmãos e irmãs de Charles de Foucauld e os padres operários
franceses, que buscaram reaproximar a classe trabalhadora da Igreja
através do trabalho de subsistência nas fábricas. Dom Hélder e
outros religiosos de sua época adotaram uma espiritualidade da
pobreza e literalmente procuraram viver nesta.
Em Recife, por exemplo, Dom Hélder abandonou o palácio do bispo para
viver em uma pequena casa paroquial.
Dom Hélder possuía uma disciplina
espiritual e dedicação a Deus admiráveis. Ele abdicou dos prazeres
físicos e ofereceu seus sentimentos com respeito à atração feminina
a Deus, assim como, as vezes, jejuava até o ponto de desmaiar. Desde
sua ordenação em 1931, ele acordava todos os dias as 2 da manhã,
rezava, lia seu breviário, respondia sua correspondência, meditava a
respeito dos desafios do dia passado e escrevia poesia. Durante tais
vigílias, Dom Hélder escreveu mais que 7,000 poemas, conhecidos como
“Meditações do Padre José.”
Esta renúncia da realidade física acabou por atrair muitas pessoas a
Dom Hélder. “Era impossível não ser atraído por ele,” lembra Rose
Marie Muraro, quem trabalhou com Dom Hélder nos anos 40. “E todos
sabíamos que era um homem que quase não comia, não bebia, rezava o
tempo todo, não dormia e tinha um amor profundo!”
A espiritualidade profunda de Dom Hélder, assim como seu ascetismo,
lhe forneceram a capacidade de superar as adversidades da vida e da
política.
Dom Hélder era profundamente um homem da
Igreja. Embora defendesse a democratização das rígidas estruturas
hierárquicas da Igreja, ele sempre permaneceu fiel à instituição.
Mesmo muito tempo depois que a maioria dos padres tivesse parado de
vestir batina, o bispo continuou usando-o diariamente. Quando o
Cardeal Joseph Ratzinger, censor teológico de Roma e um dos maiores
críticos da teologia da libertação, apresentou um seminário no Rio
de Janeiro em 1990, Dom Hélder participou do evento, embora tivesse
visto grande parte de sua obra destruída pela intervenção de
autoridades do Vaticano na sua antiga arquidiocese de Olinda e
Recife.
Dom Hélder desenvolveu uma reconhecida
carreira política e passou por uma profunda reorientação ideológica
antes de se tornar um militante da paz e da justiça social. Como
seminarista, ele já havia demonstrado uma forte inclinação para a
política e admirava em especial as idéias do líder integralista
Jackson de Figueiredo, um convertido que havia fundado a influente
revista A Ordem e o importante Centro Dom Vital.
Após sua ordenação, Dom Hélder envolveu-se profundamente na
quasi-fascista Ação Integralista Brasileira (AIB), primeiro no
Ceará, onde promovera com sucesso o movimento, e posteriormente no
Rio de Janeiro, onde ele ocupou secretamente uma posição no supremo
conselho da AIB por ordem de Dom Sebastião Leme da Silveira Cintra,
cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro e aliado cuidadoso de Getúlio
Vargas. Dom Leme sentira a necessidade de apoiar discretamente os
Integralistas caso estes chegassem ao poder. Outros tantos membros
da Igreja participaram ou simpatizaram com a AIB dada sua oposição
dupla ao comunismo e ao capitalismo liberal. De modo significativo,
e talvez não de todo distinto aos estudantes brasileiros dos anos 60
e 70, o envolvimento do jovem Pe. Hélder com o Integralismo levou-o
à defesa do uso da violência em objetivos políticos.
Como tantos outros importantes intelectuais Integralistas, Dom
Hélder em última instância acabaria por rejeitar este movimento dada
a associação deste com a violência assim como com o Fascismo
europeu. Cabe ressaltar, porém, que estes mesmos intelectuais embora
tenham rejeitado o movimento com um todo, retiveram o seu fervor
nacionalista. Este grupo incluía Alceu e San Tiago Dantas, quem mais
tarde seria o Ministro das Relações Exteriores do presidente João
Goulart.
Alceu apresentou Dom Hélder à obra do filósofo católico francês
Jacques Maritain, onde o “humanismo integral” anti-autoritário, a
defesa da democracia e a aceitação do pluralismo religioso,
presentes nesta, influenciam uma inteira geração de religiosos e
intelectuais brasileiros que, mais tarde, tornar-se-iam promotores
da teologia da libertação.
Já no início de sua carreira, Dom Hélder
demonstrava um alta capacidade de liderança e organização, a qual
muitas vezes não é reconhecida, mas que foi muito importante para
sua subida na hierarquia. Dom Hélder auxiliou tanto Dom Leme quanto
o seu sucessor, Dom Jaime de Barros Câmara (que não possuía
parentesco com Dom Hélder). Em 1947, Dom Hélder começou a
reorganizar a estrutura da Ação Católica para assumir formas mais
especializadas tais como JOC e JUC, as quais rapidamente assumiram
uma importância política. Em 1952, com o respaldo do Vaticano, Dom
Hélder fundou a CNBB, uma das primeiras organizações do gênero
dentro do catolicismo mundial. A Conferência revitalizou a Igreja
brasileira e estimulou o interesse dos bispos para com problemas
sociais e econômicas. Em 1955, Pe. Hélder ajudou na criação do
Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), organização que
acabaria promovendo uma conscientização maior, dentro da estrutura
da Igreja, da importância da realidade Latino-Americana, assim como,
fornecendo uma estrutura de apoio para o surgimento da teologia da
libertação no final da década seguinte.
Dom Hélder foi consagrado como arcebispo
em 1955, mesmo ano quando ele organizou o XXXVI Congresso
Eucarístico Internacional (CEI). Este evento, ocorrido no Rio de
Janeiro e com apoio governamental, foi capaz de criar uma união
entre estado, forças armadas, comunidade empresarial, indústria
turística, classe trabalhadora e a Igreja como tal em torno de uma
campanha pelo desenvolvimento nacionalista. Desta forma, o evento
coroara o modelo corporativista de Neo-Cristandade e de caráter
triunfalista, que fora inicialmente proposto pelos padres Vicentinos
e implementado por Dom Leme. O CEI aumentou a influência de Dom
Hélder entre as elites sociais e empresariais e o projetou como o
mais dinâmico e querido bispo do Brasil. A partir de então, Dom
Hélder tornou-se um dos principais conselheiros de Juscelino
Kubitschek. O CEI teve o efeito adicional de fazer com que Dom
Hélder refletisse a respeito da crescente diferença sócio-econômica
entre as camadas ricas e pobres oriunda do corrente modelo de
desenvolvimento nacional. Conhecido internacionalmente como o “bispo
das favelas,” Dom Hélder intensificou os esforços da Igreja na
melhoria das condições de vida das comunidades carentes do Rio de
Janeiro através de obras tais como a Cruzada São Sebastião e o Banco
da Providência, e ainda pressionou o governo pela criação de
programas de assistência para as massas brasileiras.
Dom Hélder e a CNBB, por exemplo, foram extremamente importantes na
criação da Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste
(SUDENE), um ambicioso programa governamental que visava a promoção
do progresso e desenvolvimento industrial desta região.
Mais do que ideologia ou argúcia
organizacional, a crença profunda de Dom Hélder no povo brasileiro
definiu sua obra pela promoção da justiça social. Esta crença ficava
clara no seu desejo de delegar responsabilidades e tarefas. O bispo
se valia, de modo especial, da ajuda propiciada por mulheres.
Cecília Goulart Monteiro, Marina Bandeira, Agláia Peixoto, Maria
Luiza Jardim de Amarante, Zezita (Maria José Duperron Cavalcanti), a
futura intelectual feminista Rose Marie Muraro, e várias outras
componentes da Ação Católica, assim como voluntárias e funcionárias,
todas auxiliaram Dom Hélder ao longo de sua carreira. As seguidoras
mais jovens de Dom Hélder eram conhecidas como “Hélder’s Girls.”
“Dom Hélder foi realmente um dos primeiros a valorizar as mulheres,”
relembra Rose Marie Muraro. “Ele tinha grandes amigas, mas todo
mundo aceitava aquilo como uma coisa humana e importante, inclusive
esse convívio espiritual mais profundo com as mulheres. Ele não era
misógino!”
Alguns destes indivíduos acabariam por ocupar postos importantes
dentro da estrutura da Igreja. As mulheres foram especialmente
importantes durante a gestão de Dom Hélder como secretário geral da
CNBB (1952-1964). O relacionamento de Dom Hélder com a figura
feminina contrastava profundamente com a exploração de freiras e
leigas dentro de inúmeros setores da Igreja. A confiança de Dom
Hélder nos personagens femininos e leigos ainda há de ser equiparada
por alguém dentro da Igreja, a qual, como muitas outras instituições
brasileiras, continua sendo primordialmente uma estrutura patriarcal
que não atinge um grau de eficácia plena em suas ações dada a sua
recusa em se beneficiar plenamente do potencial profissional e de
liderança femininos.
A Ação Católica era o principal campo de
atuação leiga dentro da Igreja. Como seu assistente eclesiástico
entre 1952 e 1962, Dom Hélder coordenou a guinada dada pelo
movimento de uma ênfase inicial na espiritualidade, questões
institucionais e um tratamento paternalístico para com os leigos,
para uma vibrante multiplicidade de grupos cuja ação se estende por
áreas como a da alfabetização de adultos (tais como o Movimento de
Educação de Base, ou MEB), organização sindical, até a liderança
nacional do movimento estudantil, onde se destacaram indivíduos como
o sociólogo e militante social Herbert de Souza, o saudoso Betinho.
Durante esse período, a Ação Católica reafirmou de modo crescente a
relevância do personagem leigo em contraposição ao clero e assume
para si questões de relevância nacional. Por exemplo, em 1959,
estimulada pelas interpretações da obra de Maritain providas pelo
padre assistente de Recife, Pe. Almery Bezerra, a JUC desenvolveu
“um ideal histórico cristão para o povo brasileiro.” Esta plataforma
se centrava no subdesenvolvimento econômico brasileiro, criticava o
capitalismo por seus abusos anti-cristãos e aceitava o socialismo
como uma opção viável.
Talvez a mais alta expressão do apoio de
Dom Hélder ao movimento leigo ocorreu em 1964 em seu discurso de
posse com arcebispo de Olinda e Recife. Na presença de líderes
militares conservadores, Dom Hélder se valeu de palavras que
claramente definiam sua adoção pelo que a Igreja Latino-Americana,
15 anos mais tarde, se referiria como “opção preferencial pelos
pobres”: “De nada adiantará venerarmos belas imagens de Cristo, digo
mais, nem bastará que paremos diante do Pobre e nele reconheçamos a
face desfigurada do Salvador, se não identificarmos o Cristo na
criatura humana a ser arrancada do subdesenvolvimento. Por estranho
que a alguns pareça, afirmo que, no Nordeste, Cristo se chama Zé,
Antônio, Severino.”
Durante sua gestão na Ação Católica, Dom
Hélder tornou-se um forte advogado da reforma agrária. Juntamente
como outros bispos, ele provocou as primeiras discussões sérias
sobre o tema. De fato, Dom Hélder foi o verdadeiro autor de uma
famosa carta pastoral sobre reforma agrária publicada por Dom
Innocéncio Engelke, bispo de Campanha, Minas Gerais, em 1950.
A Igreja via a reforma agrária como uma forma de estancar o fluxo de
imigrantes para as cidades, o que resolveria o problema das favelas
e sustentaria a tradicional base da Igreja no campo. A demanda por
reforma agrária tornou-se um emblema da Igreja progressista e
conduziu à criação da Comissão Pastoral da Terra em 1975, e ainda
ressoa, em pleno século XXI, no Movimento Sem-Terra.
Dom Hélder emergiu como porta-voz do
mundo subdesenvolvido. Quando do Conselho Vaticano Segundo
(1962-1965), ele propagou de maneira bem-sucedida as noções de uma
“Igreja dos pobres” e da necessidade de corrigir as injustiças
sociais do mundo através de um diálogo Norte-Sul e de uma cooperação
internacional pelo desenvolvimento. Através da organização de
encontros informais de bispos reformistas, Dom Hélder desenvolveu
uma ação de bastidores para promover mudanças na organização
hierárquica e Eurocentrista da Igreja e para encorajar uma maior
participação dos leigos. Dom Hélder ainda trabalhou pela adoção, por
parte do Concílio, de um relacionamento ecumênico com outras
religiões e diálogo com outras ideologias, incluindo o Marxismo. Nas
palavras do Pe. José Oscar Beozzo, um dos historiadores mais bem
informados sobre a Igreja brasileira e um estudioso do Vaticano II,
o Concílio transformou Dom Hélder “do relativamente pouco conhecido
arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro, num dos personagens mais
influentes na cena internacional da Igreja contemporânea.”
Dom Hélder e outros bispos progressistas
avançaram as diretrizes definidas no Vaticano II quando do encontro
do CELAM em Medellín, Colômbia, em 1968. Os religiosos denunciaram a
“violência institucionalizada” e promoveram a criação das CEBs. As
declarações de Medellín fizeram com que, ao longo de todo o
continente Latino-Americano, inúmeros padres, freiras e agentes de
pastoral leigos converteram-se em ativistas políticos pela defesa
das populações pobres e em oposição ao autoritarismo. O regime
militar brasileiro considerou o documento de Medellín como
subversivo.
No entanto, Medellín fazia parte da estratégia anti-comunista da
Igreja.
Sua ênfase nos métodos pacíficos para a ação social era crucial para
esta estratégia. Com a radicalização de vários membros do clero, a
Igreja temia que estes se envolvessem em movimentos revolucionários
violentos. Na abertura da conferência, o Papa Paulo VI reforçou a
necessidade da não-violência; Dom Hélder, amigo do Papa por duas
décadas, assumiu esta perspectiva como sua.
Ao buscar aprimorar a Igreja, Dom Hélder
ajudou a alterar o rumo de uma das instituições mais antigas e
importantes da América Latina. Uma vez tida como um dos pilares do
status quo, nos anos 60 e 70, a Igreja passou a se ocupar de modo
crescente de questões ligadas à desigualdade social e à necessidade
de uma maior participação da sociedade dentro do processo político.
Dom Hélder simbolizou tais transformações, e juntamente com um
número de outros bispos progressistas lutou por uma alteração
radical das estruturas sociais e pelo estabelecimento de um
socialismo humanista de gênero Latino-Americano. Ao mesmo tempo, Dom
Hélder sempre esteve ciente de que a Igreja por si só não seria
capaz de criar ou dirigir um sistema social desta natureza. Este
somente seria levado a cabo através dos esforços da sociedade civil
e do processo político, e teria também que manter sua independência
frente a ambas as superpotências, capitalista e comunista. A Igreja
não deveria trocar a Neo-Cristandade por uma cristandade socialista.
Dom Hélder sabia da necessidade de
empregar ferramentas da modernidade para transmitir sua mensagem. O
Vaticano II conduziu de forma abrupta o catolicismo ao mundo
moderno. Contudo, mesmo antes do Concilio, Dom Hélder já havia se
dado conta do poder da mídia. Ele havia colaborado freqüentemente
com jornais e outras publicações já nos anos 30, e continuara a
publicar de modo regular desde então. No final dos anos 50, ele se
apresentava no horário nobre da televisão em um programa chamado
“Nas Trilhas de Deus”, o que ampliou ainda mais sua popularidade e
fez com que alguns conservadores passassem a rotulá-lo de “vedete.”
Dom Hélder também se apresentava em um programa diário de radio
chamado “O Pão Nosso de Cada Dia,” na Rádio Globo. Em 1959, Dom
Hélder organizou uma “demonstração de fé” na Sexta-Feira da Paixão,
a qual lotou o estádio do Maracanã com mais de 200 mil pessoas e foi
transmitida pela televisão e por uma cadeia nacional de rádio de 300
estações.
Eloqüente em sua maneira de falar, nos anos 60 70 Dom Hélder
capturou o imaginário dos jornalistas estrangeiros e cultivou com
estes relações cordiais. Por sua parte, os jornalistas ajudaram o
bispo a transmitir sua mensagem contra a injustiça no Terceiro
Mundo.
Após 1964, conservadores e oficiais do
regime militar, que antes haviam admirado Dom Hélder, passaram a
rotulá-lo como “comunista” e o “arcebispo vermelho.” Os
conservadores, naturalmente, já tinham suspeição pelo bispo dado seu
apoio à reforma agrária. Em 1963, ele fizera declarações que
claramente sinalizavam para uma ruptura com a elite. Dom Hélder
declarara que os ricos haviam causado o fracasso da Aliança para o
Progresso, um programa iniciado pelo presidente norte-americano John
F. Kennedy e que visava impedir o avanço do comunismo na América
Latina através de assistência econômica e reforma social.
Com base na pressão de Dom Hélder, a própria CNBB anunciou sua
própria declaração em defesa de reformas. Esta era uma das
declarações mais radicais na história da conferência. Dom Hélder se
envolvia cada vez mais nos esforços do presidente João Goulart pela
promoção das reformas de base e tornar-se-ia assim alvo de ataque do
áspero Carlos Lacerda por causa do seu apoio à conscientização dos
pobres praticada no MEB. A recusa de Dom Hélder em oferecer apoio às
tratativas em torno do iminente golpe contra o governo de João
Goulart reforçou a desilusão, por parte de muitos ex-amigos do bispo
de dentro da elite, com respeito ao mesmo.
Ao mesmo tempo, dentro do Vaticano II, Dom Hélder incomodava muitos
bispos de postura tradicionalista e conservadora, que defendiam a
preservação da hierarquia da Igreja.
A resposta dos bispos brasileiros foi a de expurgar Dom Hélder e os
progressistas da liderança da CNBB nas eleições de setembro de 1964.
A imprensa e intelectuais conservadores, tais como Gilberto Freyre,
passaram a combater Dom Hélder e por final iniciaram uma campanha
intensa de difamação do bispo.
Dom Hélder, na verdade, assumiu com
relação ao regime militar uma postura de deixar como está para ver
como fica. Ele quis manter canais abertos para o diálogo e uma
possível colaboração em prol das reformas sociais que ele e outros
progressistas tanto desejavam.
De maneira distinta a tantos membros da esquerda, Dom Hélder não
tinha preconceitos com relação aos militares e nem guardava rancor.
Ele era um pastor para todas as pessoas.
General Humberto de Alencar Castello Branco, o
primeiro presidente do regime militar, gostava do conterrâneo
cearense e mesmo após o golpe assistira a alguns dos sermões do
bispo.
Surpreendentemente, Dom Hélder permaneceu neutro no início da
vigência do Ato Institucional No. 5, o decreto militar de 13 de
dezembro de 1968 que consolidou a ditadura e suspendeu as liberdades
civis no país.
Embora aceitasse o diálogo com Marxismo e defendesse os direitos dos
prisioneiros políticos, Dom Hélder continuava a se opor ao
comunismo, mas não da forma truculenta e intolerante da direita.
Ele aspirava pela prevenção do comunismo através de sua própria
revolução social não-violenta e Católica.
Não obstante, o temor e ódio vigentes
durante a Guerra Fria cegaram ambas a direita e a esquerda quanto às
propostas políticas pacíficas e moderadas oferecidas por Dom Hélder.
A polarização política dos anos 60 e o conflito ideológico entre o
progressivismo católico e a doutrina de segurança nacional
brasileira minaram de modo significativo as relações, normalmente
cordiais, entre Igreja e Estado. Dom Hélder começou pois a
questionar seu modelo de Neo-Cristandade e a relação de colaboração
entre Igreja e Estado que ele mesmo havia simbolizado.
Dom Hélder se encontrava no bojo de
todos os acontecimentos da época, quando, um pouco antes do golpe de
64, ele foi notificado que seria transferido do Rio, onde seu
relacionamento com o conservador (e invejoso) bispo Dom Jaime havia
deteriorado muito, para São Luiz do Maranhão. Contudo, com a morte
súbita do arcebispo de Olinda e Recife, o destino de Dom Hélder foi
alterado e ele acabou por ser transferido para esta arquidiocese. No
meio dos anos 60, Recife era a capital do progressivismo político e
religioso do Nordeste (talvez de todo o Terceiro Mundo), o que
levava vários estrategistas Norte-Americanos a temer que aquela
região tornar-se-ia outra Cuba. É pois nesta mesma parte do país
onde o novo regime militar exerceu a pior repressão de todo o
período imediatamente posterior ao golpe. Dom Hélder ajudava aos
perseguidos ao mesmo tempo em que se manifestava contra as
injustiças do Nordeste. Castello Branco e outros moderados tentaram
reduzir as tensões do relacionamento com a Igreja, mas os militares
da linha dura continuaram com os ataques aos militantes católicos e
as críticas contra Dom Hélder, ignorando a ênfase dada pelo bispo à
prática da não-violência. Em maio de 1969, um dos esquadrões da
morte da direita, o Comando de Caça aos Comunistas, assassinou de
maneira brutal um dos padres jovens da arquidiocese de Dom Hélder, o
Pe. Antonio Henrique Pereira da Silva Neto. O próprio Dom Hélder
acabaria por ser minuciosamente investigado pelos serviços de
informação militar e policial, os quais acumularam amplos dossiês
sobre o bispo.
Durante o infame assassinato de Carlos Marighella e a prisão dos
freis dominicanos e outros padres, ocorridos em novembro de 1969, a
polícia política tentou vincular Dom Hélder ao movimento de oposição
armada, mas tais esforços não encontraram sucesso. Entre os detidos
se encontrava o Pe. Marcelo Carvalheira, um dos assessores de Dom
Hélder.
Da mesma forma, outro assessor, Pe.
Joseph Comblin, foi perseguido pelo regime com acusação de subversão
dado seu envolvimento na preparação da assembléia de Medellín. Em
1972, Comblin, de origem belga, seria impedido de retornar ao país
após um estada no exterior. Apesar do receio de ser assassinado, Dom
Hélder manteve a calma durante todo esse período de grandes
dificuldades.
Apesar das críticas constantemente
recebidas, por parte das forças conservadoras ao longo dos anos 60,
de que Dom Hélder estaria encorajando a violência com suas críticas
a respeito das desigualdades, Dom Hélder promovia a paz. As ações de
Che Guevara e do padre revolucionário Colombiano Camilo Torres,
assim como as de vários outros, todas aumentavam o apelo da
violência como a solução para os impasses políticos e de
desenvolvimento do Terceiro Mundo. Dom Hélder reconhecia a violência
inerente à estrutura social Latino-Americana, contudo, ele, ainda de
forma mais enfática, promovia a não-violência como a solução. Alguns
membros da esquerda acabariam por criticá-lo por sua postura
“pacifista” frente ao regime militar.
Em 1967, talvez de maneira ingênua, o bispo arquitetou um plano para
a formação de um terceiro partido político (Partido do
Desenvolvimento Integral), como alternativa ao Movimento Democrático
Brasileiro e à Aliança Renovadora Nacional, os dois partidos
sancionados pelo regime militar após a dissolução dos partidos
tradicionais empreendida em 1965. Ao passo que muitos brasileiros
das fileiras da esquerda se encontravam cada vez mais envolvidos na
resistência armada ao regime militar, Dom Hélder lançou oficialmente
em Medellín o movimento chamado “Ação, Justiça e Paz,” de inspiração
parcial nas propostas de Gandhi e Martin Luther King. Contudo, o
movimento não se expandiu além das esferas do clero dada a
polarização política crescente e a censura institucionalizada com a
decretação do AI-5.
Não obstante, estas iniciativas ajudaram a lançar as bases do
movimento de direitos humanos que, com base na Igreja, surgiria nos
anos 70.
Entre as maiores colaborações de Dom
Hélder em prol da paz, se destaca a denuncia da prática de tortura
por parte do regime militar. A decisão de assumir a postura de
denunciar tais práticas provavelmente foi a mais controversa de sua
vida. De 1964 até a abertura em 1979, Dom Hélder trabalhou em favor
da libertação dos prisioneiros políticos, os quais visitava. Em
1969, Dom Hélder denunciou publicamente a tortura cometida pelo
Departamento de Ordem e Política Social (DOPS) em Recife. Contudo,
até então o bispo não havia se pronunciado a respeito da tortura
quando fora do Brasil, onde ele era muito conhecido. Em maio de
1970, Dom Hélder fez algo inconcebível de acordo com os líderes
militares patrióticos do Brasil: durante um discurso proferido em
Paris e frente a milhares, ele denunciou a prática da tortura no
Brasil. O bispo mencionou especificamente o caso de Frei Tito de
Alencar Lima, um dos freis Dominicanos presos pelo regime e cujo
tratamento recebido pelas forças de segurança de São Paulo fora tão
brutal que acabaria por fazer com que o religioso tentasse cometer
suicídio. Mais tarde, banido do país, Frei Tito se matou perto de
Paris em 1974. O discurso detonou uma onda de críticas contra o
arcebispo. A partir de então, a ditadura proibiu qualquer menção
acerca do arcebispo por parte da mídia.
O regime também se valeu de forte pressão diplomática para evitar
que Dom Hélder ganhasse o Prêmio Nobel da Paz.
Burocratas do Vaticano, da mesma forma, tentaram restringir as ações
de Dom Hélder.
Neste momento, o bispo havia se tornado por demais de controverso
para que pudesse ser Cardeal, uma honra que ele claramente merecia
mas quanto a qual o regime fortemente se opunha.
Dom Hélder discretamente se retirou das atividades políticas
internas no Brasil e se concentrou em fazer discursos no exterior,
onde ele continuava a atrair atenção dada sua luta pelas causas da
justiça e paz. Em um encontro da liderança da Igreja em São Paulo, o
bispo passou o manto de defensor dos direitos humanos para Dom Paulo
Evaristo Arns, quem, durante os anos 70, se tornara o mais eloqüente
crítico, no ambiente interno do país, do uso da tortura pelo regime
militar. Somente em 1977 um jornal brasileiro viria novamente a
entrevistar o arcebispo de Olinda e Recife. Não obstante, Dom Hélder
havia ajudado a solidificar a nova posição da Igreja em favor dos
direitos humanos e feito com que estes se tornassem um tema nas
esferas da diplomacia e da política internacional.
Ao mesmo tempo em que as forças armadas
estrangulavam a democracia brasileira nos anos 70, Dom Hélder
discretamente coordenava importantes experiências de democracia
eclesial no Recife. Novamente o bispo exercitava seu estilo
delegante na administração da Arquidiocese de Olinda e Recife. O
conselho arquidiocesano, composto de leigos, padres e agentes de
pastoral, conduziam as ações da arquidiocese em conjunto a Dom
Hélder. Como exemplo, estes coordenadores estabeleceram uma rede de
CEBs, conhecida como “Encontro de Irmãos.”
Por todo o país, as CEBs empregavam a metodologia do
“ver-julgar-agir”, herdada da Ação Católica que fora dirigida por
Dom Hélder nos anos 50. Esta forma intuitiva de unir fé foi
revolucionária em uma Igreja que havia se valido, ao longo dos
séculos, do sistema dedutivo Tomista. Dom Hélder ainda organizaria a
Comissão Justiça e Paz com fins de examinar questões relacionadas
aos direitos humanos.
Com respeito ao treinamento ministrado
nos seminários, Dom Hélder coordenou, com a ajuda de outros bispo, a
implementação de uma das experiências mais radicais da Igreja da era
posterior ao Concilio Vaticano II: o estabelecimento do Seminário
Regional do Nordeste II (SERENE II). Ao invés de morarem no
seminário tradicional, reclusos do mundo, os estudantes do SERENE II
montavam residências conhecidas como “pequenas comunidades” nas
áreas pobres da região metropolitana, tais como o Morro da
Conceição. Alguns dos seminaristas do SERENE II fariam trabalho
pastoral na zona da cana, onde grandes usineiros ainda regiam suas
atividades como senhores de engenho do período colonial. Sob a
liderança do Pe. Comblin, outros se engajariam na “teologia da
enxada,” que treinava padres para trabalhar entre os sertanejos. Os
estudantes do SERENE II e outros seminaristas do Nordeste fizeram
seus estudos acadêmicos no Instituto Teológico do Recife (ITER), que
havia agregado um grupo ecumênico de professores e funcionários que
incluía ex-padres, agentes de pastoral de linha radical, e até
mesmo professoras tais como a Irmã Norte-Americana Janis Jordan, que
havia vivido na favela Dancin’ Days, e a controversa irmã e
escritora feminista Ivone Gebara. O ITER possuía recursos escassos e
funcionava em um prédio por cair, mas seus professores demonstravam
uma produtividade intelectual notável. O ITER ampliaria seu
currículo com fins de incluir cursos especiais para agentes de
pastoral e outros católicos de origem humilde que desejavam estudar
teologia e aplicar estes conhecimentos em suas comunidades. Desta
forma, Dom Hélder e os membros do ITER, ainda que em um contexto
localizado, acabariam por dar um fim ao monopólio teológico que
havia sido mantido dentro da Igreja como domínio exclusivo dos
homens ordenados e ao clericalismo que havia regido a Igreja ao
longo dos séculos.
Quando os militares deixaram o poder
central no país e Dom Hélder se aposentou como arcebispo em 1985, a
Igreja brasileira sentiu que seu papel como a “voz dos que não têm
voz”, termo cunhado por Dom Hélder, havia diminuído. A Igreja se
retraiu para uma posição mais conservadora, em parte como resultado
da pressão exercida nesse sentido pelo Papa João Paulo II, e em
parte porque a voz dos grupos populares se fazia ouvir através do
Partido dos Trabalhadores, do Partido do Movimento Democrático
Brasileiro, dos sindicatos livres, e de uma multiplicidade de
organizações não-governamentais e movimentos de base que haviam
surgido sob a proteção e amparo da Igreja. Mesmo que individualmente
o respeitasse, João Paulo II agiu para reverter muitas das inovações
que Dom Hélder e seus colegas haviam introduzido no Vaticano II e
nos anos 70. Ao passo que os brasileiros, e de maneira especial Dom
Hélder, tinham um aliado na figura do Papa Paulo VI, quem havia
apoiado a justiça social na sua controversa encíclica Populorum
Progressio e encorajado os bispos em Medellín, João Paulo II,
por sua parte, havia se concentrado em fazer com que o Ocidente
vencesse a Guerra Fria e queria, pois, uma abordagem menos radical
na solução dos problemas sociais Latino-Americanos.
O ataque mais direto do Vaticano contra
o catolicismo progressista ocorreu justamente na arquidiocese de
Olinda e Recife, onde o substituto de Dom Hélder, o conservador Dom
José Cardoso Sobrinho, desmantelou muitos dos programas inovadores
anteriormente instituídos, puniu vários padres progressistas e
suspendeu o Pe. Reginaldo Veloso, que havia coordenado a comunidade
católica no Morro da Conceição.
Em um atitude que no mínimo poderia ser considerada como insensível,
à luz do recente regime militar, Dom José convocaria a Polícia
Militar em várias ocasiões para ajudá-lo a implementar suas
políticas eclesiásticas contra grupos de leigos que protestavam com
respeito às mesmas. Não fossem tais atos suficientes, em 1989, o
Vaticano ordenou o fechamento do SERENE II e do ITER. Este foi um
dos momentos mais doloridos para Dom Hélder e para a história do
catolicismo progressista na América Latina.
Em meados dos anos 90, o Vaticano silenciaria a Irmã Yvone Gebara
por dois anos dadas suas posições controversas a respeito da Igreja
e a temática feminina. Embora essa punição excedesse a dada ao
teólogo da libertação Leonardo Boff, em 1985 e 1986, Irma Ivone não
se tornaria uma causa célebre como Boff, o que revela mais uma vez a
atitude patriarcal que continua a permear a Igreja assim como a
mídia no Brasil – uma atitude que Dom Hélder havia trabalhado tanto
para alterar. Ao longo de todos estes incidentes difíceis, Dom
Hélder mais uma vez manteve a calma e, diferentemente dos dias de
conflito contra o regime militar, raramente se pronunciou a respeito
dos mesmos.
* * * * *
Como a maioria dos bispos, Dom Hélder
era um político que estabelecera ligações com os ricos e poderosos.
Contudo, ele possuía o raro dom de ser atraente a todos os grupos,
incluindo estudantes, revolucionários e a mídia. Antes de 1964, até
mesmo conservadores gostavam de Dom Hélder. No bom sentido do termo,
ele era um religioso populista Latino-Americano, que capturava os
corações das pessoas através de seu carisma e fé. Sua luta em prol
do desenvolvimento Latino-Americano e dos direitos humanos definiria
de modo significativo o catolicismo da libertação no Brasil e em
toda a América Latina. Suas ações e palavras tiveram um impacto em
católicos e outras pessoas de fé na América do Norte, Europa e mais
além. Dom Hélder fez a transição de defensor da violência para
promotor da paz. Ele renunciou ainda as tentações muito mais
sedutoras de poder e honras eclesiásticas. Tivesse ele aceitado a
“entrar no esquema”, Dom Hélder poderia ter se tornado um cardeal,
e, tivesse ele articulado com os militares, talvez até mesmo o
arcebispo do Rio de Janeiro ou São Paulo. Ele rejeitou todas estas
possibilidades a fim de que pudesse se posicionar ao lados dos
pobres.
Ph.D.
Professor Titular e Chefe do Departamento de História,
Universidade de San Diego (San Diego, Califórnia, USA) e
ex-presidente especial da Brazilian Studies Association
(BRASA) para o exercício de 2008-2010. Artigo originalmente
publicado em “Perfis Cruzados: trajetórias e militância
política no Brasil do século XX” (Rio de Janeiro: Imago,
2002), organizado por Beatriz Kushnir, Tradução de Rafael R.
Ioris
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