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VANDA
FORTUNA SERAFIM
Mestranda do
Programa de Pós-Graduação em História – PPH/UEM. Integrante do
Grupo de Pesquisa em História Religiosa e das Religiões –
UEM/CNPq. Bolsista CAPES

SOLANGE RAMOS DE ANDRADE
Profa. Adjunta do Departamento
de História – UEM-PR; Professora do Programa de Pós-Graduação em
História – PPH/UEM. Coordenadora do Curso de Pós-Graduação
Lato Sensu História das Religiões – UEM/PR. Coordenadora
Nacional do GT História das Religiões e das Religiosidades –
ANPUH
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Possessão e histeria sob o
olhar de Nina Rodrigues
Vanda Fortuna Serafim
& Solange Ramos de Andrade
O
presente artigo provém de um Projeto de Iniciação Científica,
intitulado Deuses e hierofanias numa perspectiva “médico-científica”,
cujo objetivo remete-se a verificação da forma em que se constitui a
noção de deuses e hierofanias, dentro do que Nina Rodrigues
compreendia enquanto uma perspectiva médico - cientifica.
Nosso objetivo aqui se refere ao estudo da possessão sob o olhar de
Nina Rodrigues.
Optamos por trabalhar com Nina Rodrigues
(1862 – 1906), por ser considerado pioneiro nos estudos das crenças
religiosas dos afro-descendentes no Brasil. As fontes por nós
utilizadas são O animismo fetichista dos negros bahianos
(1900) e Os Africanos no Brasil (1932).
Em primeiro lugar faz-se necessário
expor o que seria, para Nina Rodrigues, uma perspectiva médico -
cientifica, pois acreditamos que é a partir dela que o médico
baiano elabora seu discurso a respeito da presença da possessão nas
religiões de tradição africana. Para tanto é preciso levar em
consideração a situação da medicina no período em que o médico
baiano se insere. Em fins do século XIX, a medicina no Brasil era
uma prática profissional em processo de construção. Enquanto os
médicos cariocas buscavam originalidade na descoberta de doenças
tropicais, os baianos buscavam originalidade no estudo do cruzamento
racial como nosso grande mal e ao mesmo tempo nossa diferença.
Enquanto aqueles buscavam combater as doenças, para estes a
miscigenação era a doença. Era a partir dela que se previa a
loucura, a degeneração e a criminalidade. (SCHWARCS, 1979).
Compreender o pensamento de Nina
Rodrigues pressupõe pensá-lo como parte do contexto em que está
inserido, considerando seus alinhamentos teóricos, alianças
políticas e atuação institucional. Sua atuação certamente obedecia a
injunções do momento, a interesses localizados e a própria situação
da ciência no período em que viveu.
Nesse sentido, é importante ressaltar
que, com o fim da escravidão, surgiram vários modelos e diversas
decorrências teóricas e o contexto em que Nina Rodrigues estava
inserido caracterizava-se pela necessidade de organização de um novo
projeto político para o Brasil. As teorias raciais apresentavam-se
enquanto modelo teórico viável desse jogo de interesses, pois, além
de substituir a mão-de-obra e conservar a hierarquia social era
preciso estabelecer critérios de diferenciação de cidadania. (SCHWARCS,
1979).
Apesar de suas implicações negativas, o
termo racial torna-se um argumento de sucesso para o estabelecimento
das diferenças sociais. Mas estas teorias são complexas, já que por
um lado justificam cientificamente organizações e hierarquias
tradicionais postas em questão e, por outro lado devido à
interpretação negativa da mestiçagem, inviabiliza um projeto social
que mal se iniciara. A partir desse paradoxo – aceitação ou não da
mestiçagem – se acomodaram decorrências teóricas como o
Darwinismo Social, adotando a suposta diferença entre raças e a
sua natureza hierárquica, mas sem problematizar a miscigenação; e o
Evolucionismo Social, sublinhando a noção de que as raças
humanas não permaneciam estagnadas, mas em constante evolução e
aperfeiçoamento, obliterando-se a idéia de que a humanidade era uma.
Os personagens dessa pesquisa são hoje
homens obscuros, homens de sciência. (SCHWARCS, 1979: 18),
que em fins do século XIX, nos lugares em que trabalhavam, abrigavam
uma ciência positivista e determinista, para, a partir dela, apontar
o futuro da nação. Eram cientistas políticos, pesquisadores,
literatos, acadêmicos, missionários que teriam que optar entre a
aceitação das teorias estrangeiras – que condenavam o cruzamento
racial – e a sua adaptação a uma política miscigenada. (SCHWARCS,
1979).
A luta pela qualificação profissional
foi um dos aspectos da atuação de Nina Rodrigues que o tornaram
conhecido em âmbito nacional. Seu desejo de impedir o acesso de
desqualificados ao exercício da medicina alcançou repercussões no
Rio de Janeiro e São Paulo. Outros fatores relevantes que mostram a
carreira burocrática de Nina Rodrigues seriam as relações que
mantinha com os candomblés que visitava com freqüência. Uma das
características da obra de Nina Rodrigues é a intervenção na
realidade social de seu tempo:
Para contrarrestar o argumento
excessivo do saber teórico das faculdades, era preciso
transformar os médicos em pesquisadores; para evitar o confronto
com o saber nascido da pesquisa médica em laboratórios criados
fora das faculdades, era preciso incorporá-los à Faculdade,
enfim para contornar a critica do saber médico como mera cópia
dos saberes europeus, era necessário criar um saber específico a
respeito da nossa circunstância, ainda que ele se legitimasse
com base em teorias européias. Esses pontos, ao mesmo tempo que
resumem o debate que ocorria no interior da ciência médica da
época, descrevem também as táticas de atuação de Nina Rodrigues
para a constituição da Medicina Legal. (CORRÊA, 2001: 105).
Diante do exposto, acreditamos ser
possível pensar Nina Rodrigues enquanto um especialista,
inserido dentro de um campo científico. Segundo Bourdieu
(2004), a noção de campo serve para designar um espaço
relativamente autônomo – um microcosmo dotado de leis próprias. Um
microcosmo que apesar de ser submetido a leis sociais, não escapa
das imposições do macrocosmo e dispõe de uma autonomia parcial mais
ou menos acentuada, comporta relações de força e dominação. Os
agentes (por agente entende-se especialistas) criam o espaço, o qual
só existe pelos agentes e suas relações objetivas. Nessas condições,
o que comanda os pontos de vista, as intervenções científicas, os
lugares de publicação e o tema que escolhido é a estrutura das
relações objetivas entre diferentes agentes que são os princípios de
campo.
O que define a estrutura do campo num
dado momento é a estrutura da distribuição do capital científico
entre os diferentes agentes engajados nesse campo. Cada campo
constitui uma força diferente e específica deste capital. O capital
científico é uma espécie particular de capital simbólico, o qual é
sempre fundado sobre os atos de conhecimento e reconhecimento, ou
seja, o reconhecimento atribuído pelo conjunto de pares concorrentes
no interior do próprio campo científico, até mesmo as próprias
citações que em comum, estão presentes nas obras. (BOURDIEU, 2004).
Bourdieu (2004), explica que os campos
são lugares de duas formas de poder que correspondem a duas espécies
de capital científico. Um poder temporal ou político, poder
institucional e institucionalizado que está ligado à ocupação de
posições importantes nas instituições científicas, direção de
laboratórios ou departamentos e ao poder sobre os meios de produção
e de reprodução que ela assegura. A outra forma de poder é o poder
específico, caracterizado por um prestígio pessoal mais ou menos
independente do precedente, segundo os campos e instituições, e que
repousa no reconhecimento pelos pares.
As duas espécies de capital científico
têm leis de acumulação diferentes. O capital científico puro
se adquire pelas contribuições reconhecidas ao progresso da ciência
e o capital científico da instituição se adquire por estratégias
políticas (especificas) que tem em comum o fato de todas exigirem
tempo – participação em banca, comissões, etc. – de modo que é
difícil dizer se sua acumulação é princípio ou resultado de um menor
êxito na acumulação da forma mais especifica e mais legitima do
capital cientifico.
Gostaríamos de atentar ao capital
cientifico da instituição, pois este é adquirido por Nina Rodrigues
pela posição que ocupa dentro do campo científico da medicina.
Todo o discurso teórico de Nina Rodrigues justificava a sua
participação na vida social a partir de uma suposição de
objetividade; trata-se de um discurso cientifico, isto é, verdadeiro
(CORRÊA, 2001: 91). Dessa maneira, podemos pensar Nina Rodrigues
dentro de determinado campo científico enquanto um
especialista, legitimado por seus pares ao mesmo tempo em que é
detentor de um discurso aceito pelos leigos. Direciona a si mesmo o
poder de dizer o que é ciência em virtude de sua autoridade médica,
legitimado pelo espaço ocupado pela medicina no Brasil neste
período. É desta forma que constitui sua perspectiva médico –
cientifica.
Apresentada essa perspectiva, é possível
agora, mostrar de que forma o discurso sobre a possessão nela se
insere. Em O animismo fetichista dos negros bahianos (1935),
Nina Rodrigues problematiza se seriam o feitiço, o vaticínio, as
possessões e os oráculos fetichistas, meras simulações dentro de
representações psicológicas. No entanto, ele defende que a
sinceridade dos negros fetichistas é garantida pela manifestação
anormal, a incontestável alienação passageira, que por ignorância
atribuem à intervenção sobrenatural do fetiche. Para Nina Rodrigues,
os oráculos fetichistas e as possessões de santo são estados de
sonambulismo com desdobramento ou substituição de personalidade.
Como o iniciado conhece as características do santo, adere à sua
personalidade. Ele crê que a natureza de tais fenômenos liga-se ao
estado mental da raça negra, a qual teria predisposição à histeria,
a ponto de chegarem a considerar seus sonhos como visões, sem
diferir o real do imaginário.
Nina Rodrigues pode ser enquadrado
dentro de uma das acepções para o culto moderno dos deuses fe(i)tiches
(LATOUR, 2002: 101), mas especificamente, o pensamento crítico.
Latour utiliza o sentido pejorativo das palavras fetiche e
culto, no intuito de mostrar que os modernos não se mostram
desprovidos de fetiche e de culto como eles imaginavam; muito menos
num grau acima da evolução intelectual humana como pensava o médico
baiano. Eles têm o culto mais estranho de todos: eles negam às
coisas que fabricam a autonomia que conferem às mesmas, ou negam
àqueles que as fabricam, a autonomia que estas conferem aos mesmos
(LATOUR, 2002:101).
Ao tentar encontrar respostas na
psiquiatria ou na sua visão biologizante para os estados de santo,
as possessões, os transes, Nina Rodrigues, desvia a atenção do ato
em si. Latour (2002) explica que o moderno não suporta a idéia de
ser superado pelo acontecimento, quer manter o domínio e encontrar a
fonte no sujeito humano, origem da ação. Nina Rodrigues estuda a
histeria na “raça” negra, para ele, ai estaria a origem da ação e
também no atraso do desenvolvimento intelectual do negro.
Como na possessão demoníaca, como na
manifestação espírita, o santo fetichista póde apoderar-se, sob
invocação especial, do pai de terreiro, ou ainda de qualquer
filho de santo, e por intermédio deles falar e predizer. A
pessoa em quem o santo se manifesta, que está ou cai de santo na
gíria do candomblé, não tem mais consciência dos seus atos, não
sabe o que diz, nem o que faz, porque quem falla e obra é o
santo que delle se apoderou. Por este motivo, desde que o santo
se manifesta, o individuo, que delle é portador, perde sua
personalidade terrestre e humana para adquirir, com todas as
honras que tem direito, a do deus que nelle se revela.
(RODRIGUES, 1935: 99-100).
Lewis (1977), ao tratar da tomada do
homem pela divindade, explica que são poucos os trabalhos que param
para considerar como a produção do êxtase religioso, pode se
relacionar com as circunstâncias sociais que as produzem; mas ao
contrário como é o caso da psiquiatria, suas abordagens são
geralmente distorcidas por suposições etnocêntricas sobre a
superioridade da sua própria religião.
Para Nina Rodrigues (1982), o momento
atual, transição do século XIX para o século XX, da evolução
religiosa no Brasil é evidente; na Bahia, a análise psicológica
facilmente a decompõe em áreas superpostas: A mais elevada, mas
extremamente tênue, está o monoteísmo católico, se por poucos
compreendidos, menos ainda praticados. Em segundo lugar, viria a
idolatria e a mitologia católica dos santos profissionais que
abrange a massa da população – brancos, mestiços e negros mais
inteligentes. Em seguida refere-se a mitologia jeje-iorubana, que
por meio da equivalência dos orixás africanos com santos católicos
tem possibilitado a conversão cristã dos negros crioulos. E
finalmente, o fetichismo estreito e inconvertido dos africanos das
tribos mais atrasadas, dos índios, negros crioulos e mestiços do
mesmo nível intelectual.
Segundo Lewis (1977), alguns
antropólogos consideram o papel social do sacerdote possuído e a
maneira que o êxtase religioso pode servir como base para a
autoridade de um líder carismático. Outros enfatizam a significação
da evasão de responsabilidade mortal implicada quando suas decisões
não são feitas pelos homens, mas por deuses que falam através de
suas bocas. Alguns frisaram o emprego de revelações extáticas para
conservar e fortalecer a ordem social existente; e outros também
mostraram como eles podem ser igualmente bem aplicados para
autorizar a inovação e mudanças.
Do mesmo modo Nina Rodrigues explica que
o pai de terreiro é o intérprete das ordens e dos desejos do
santo; é ele quem se comunica com o santo interpretando suas ordens
e desejos. Se os pedidos são públicos ocorrem durante a dança; se
são particulares ocorrem no Peji, sendo que neste caso, há espaço
para todos os abusos, pois muitos “pais de terreiro” sabem dar uma
interpretação conveniente aos interesses.
Segundo Lewis (1977) os estados de
transe – estado de dissociação, caracterizado pela falta de
movimento voluntário, e, frequentemente por automatismo de ato e
pensamento, representados pelos estados hipnóticos e mediúnicos –
podem ser imediatamente induzidos na maioria das pessoas normais por
uma série de estímulos, aplicados separadamente ou combinados.
Técnicas consagradas pelo uso incluem a ingestão de bebidas
alcoólicas, sugestão hipnótica, rápido aumento de ritmo
respiratório, inalação de fumaças e vapores, música e dança; e a
ingestão de drogas. Sem tais recursos os mesmos efeitos podem ser
produzidos, mas bem lentamente, devido à natureza dos meios
empregados, através de mortificações e privações, tais como jejum e
a contemplação ascética.
Nina Rodrigues mostra a utilização dos
seguintes métodos nos processos de iniciação. Banhos, fumigações,
ingestão substancias dotadas de virtudes especiaes, jejuns
prolongados, abstinências sexuaes, mortificações diversas, etc., são
meios de que soccorem sempre os feiticeiros de todos os tempos
(RODRIGUES, 1935: 110). E vê também a importância das danças nesse
processo e aponta a música como um dos fatores responsáveis pelo
estado de santo:
É preciso ter sido testemunha dos
trejeitos, das contorsões, dos movimentos desordenados e
violentos a que os negros se entregam nas suas dansas sagradas,
pór horas e horas seguidas, por dias e noites inteiras; é
preciso tel-as visto cobertas de suor copisissimo que as
companheiras ou prepostas especiaes enxugam de tempos a tempos
em grandes toalhas ou panos... (RODRIGUES, 1935: 110).
Lewis (1977) explica que há uma
predileção por parte dos espíritos que aparecem nos cultos
religiosos, pelas pessoas em estados menos privilegiados e
oprimidos. As mulheres, por exemplo, empregariam (consciente ou
inconscientemente) a possessão como um meio de insinuar seus
interesses e demandas diante da repressão masculina. Os cultos como
o hausa bori, que são associados com a prostituição, mulheres
divorciadas ou com casamento mal-sucedido, servem de refúgio a elas.
A motivação mais comum é a infertilidade feminina, são mulheres
cujos casamentos já não têm nada a lhe oferecer. È comum e
satisfatório à vaidade masculina interpretar a marcada predominância
das mulheres nos cultos de possessão, como reflexo inerente da
predisposição à histeria.
Mariza Corrêa (2001) explica que, no
período em que Nina Rodrigues se insere, histeria é usada
quase como sinônimo de mulher. A feiticeira e a histérica, a
criatura religiosa e a criatura médica, ambas possuídas por um poder
extra corporal ou demasiado corpóreo que as aproxima entre si e as
afasta do mundo dos homens, serviram por muito tempo como referência
para o discurso sobre a mulher. Ambas reaparecem no discurso de Nina
Rodrigues como formas exemplares de abstrações médico-teóricas.
Doença já domesticada pela medicina européia, tornada pública no
Brasil com as epidemias, a histeria foi tratada por Nina Rodrigues
em sua clínica particular. Também o impressionou desde os tempos em
que vivia em sua terra natal , quando andava pelas ruas e via
mulheres sendo carregadas por até duas pessoas, enquanto sofriam
ataques histéricos.
Ao estudar os estados de santo nos
candomblés da Bahia, Nina Rodrigues os classifica enquanto histeria;
polemizando com a visão de João Baptista Lacerda, diretor do Museu
Nacional, para o qual, a histeria se manifestaria apenas nas
mulheres brancas. Nina Rodrigues defendeu a possibilidade da
histeria se manifestar na mulher negra, instigando que se Lacerda
quisesse provas da histeria na “raça” negra, que viesse até a Bahia.
Criando uma igualdade entre ambas, Nina Rodrigues trazia também a
mulher negra para o âmbito do saber médico. Ao analisar a possessão
Nina Rodrigues privilegia as entrevistas com mulheres negras.
Nina Rodrigues também enfatiza a hipnose
e o sonambulismo, além da histeria no estado de santo, para
ele, o ambiente em que o sonâmbulo se encontra é essencial para
manter esse estado. Cita Pierre Janet que afirma o seguinte:
O somnambulismo é antes de tudo um
estado anormal, durante o qual se desenvolve uma nova fórma de
existência psycologica com sensações, imagens, lembranças que
lhe são próprias... O desdobramento da personalidade, tão
manifesto em certas grandes observações de dupla existência,
existe na realidade no mais simples somnambulismo. (RODRIGUES,
1935: 114).
De acordo com Nina Rodrigues, o iniciado
já conhece as características do santo. Ao cair em estado
sonambúlico as vestes usadas no culto lhe impõe a personalidade
do santo ou do deus e esse estado é caracterizado pela amnésia
completa ao despertar. Há uma forte discussão sobre a existência ou
não-existência da histeria na raça negra presente em Nina Rodrigues,
para o médico a histeria no negro é evidente entre os brasileiros.
Afirma já ter visto vários casos de histerias com pessoas de raça
negra e associa a histeria ao baixo desenvolvimento intelectual da
“raça” negra.
Exposto o modo como as possessões são
analisadas por Nina Rodrigues, é preciso ter em mente que nas
sociedades nas religiões caracterizadas pela crença nos espíritos, a
possessão por espíritos pode ser por eles normalmente aceita. A
realidade da possessão por espíritos constitui parte integrante do
sistema total de idéias e suposições religiosas. No entanto, Nina
Rodrigues é um homem de seu tempo e pensa a possessão com os
instrumentos teórico-metodológicos próprios de sua época. É a partir
de sua perspectiva médico - cientifica que cria um ideário a
respeito do que denomina possessões nas religiões afro-brasileiras.
Referências
BOURDIEU, Pierre. Os usos da ciência:
por uma sociologia clínica do campo científico. Trad. Denice Catani.
São Paulo, Unesp, 2004.
CORRÊA, Mariza. As ilusões da
liberdade: a Escola Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil. 2.ed.
Bragança Paulista, EDUSF, 2001.
LATOUR, Bruno. Reflexão sobre o culto
moderno dos deuses fe(i)tiches. Trad. Sandra Moreira. Bauru; São
Paulo, EDUSC, 2002.
LEWIS, Ioan M., Êxtase Religioso: um
estudo antropológico da possessão por espírito e do xamanismo.
São Paulo: Perspectiva, 1977.
RODRIGUES, Nina. O Animismo Fetichista
dos Negros Bahianos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1935.
RODRIGUES, Nina. Os africanos no
Brasil. 6.ed. São Paulo: Ed.Nacional; [Brasília]: Ed. Universidade
de Brasília, 1982.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo
das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil –
1870-1930. São Paulo: Ed. Nacional, 1979.
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História – PPH/UEM.
Integrante do Grupo de Pesquisa em História Religiosa e das
Religiões – UEM/CNPq. Bolsista CAPES.
Profa. Adjunta do Departamento de História – UEM-PR;
Professora do Programa de Pós-Graduação em História – PPH/UEM.
Coordenadora do Curso de Pós-Graduação Lato Sensu
História das Religiões – UEM/PR. Coordenadora Nacional do GT
História das Religiões e das Religiosidades – ANPUH.
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