RAIMUNDO SANTOS

Doutor em Ciências Políticas pela Universidad Nacional Autonoma de Mexico e professor adjunto IV da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

 

 

 

Crise econômica e eleição americana

Raimundo Santos*

 

O relatório apresentado por Walter Veltroni no encontro da Direção Nacional do Partido Democrático (PD), em 19 de dezembro passado, em Roma, constitui peça discursiva das mais emblemáticas da esquerda democrática destes nossos dias. O presidente do PD abre o texto afirmando que, para enfrentar a atual crise — “gerir a emergência, imaginando o futuro” —, necessita-se de “muita e boa política”.

Em que termos aquele dirigente nos apresenta a circunstância que ora vivemos? “As crises são fases de transição, duras e dolorosas, das quais não se sai como se entrou: na forma e no modo de produção e desenvolvimento, nas relações de forças sociais e políticas, nos modelos culturais, na hierarquia de valores.” A grande crise de 1929, sobretudo depois da Segunda Guerra, saímos com um grande compromisso entre capitalismo e democracia. Conhecemos o crescimento impulsionado pelo consumo de uma classe média em expansão (na qual entrava o mundo do trabalho, inclusive operário) e uma forte redução da desigualdade graças a políticas salariais generosas e a fortes ações redistributivistas públicas. Vimos então uma rápida expansão do Estado Social.

A crise do petróleo e a estagflação dos anos 1970, continua dizendo Veltroni em seu texto, obrigaram o Ocidente a mudar de rumo: fizeram-se grandes investimentos na inovação tecnológica; elevou-se a produtividade à custa dos postos de trabalho e do poder contratual dos sindicatos; a classe média se reduziu; as desigualdades voltaram a se alargar e a ascensão social se bloqueou, inclusive devido ao redimensionamento do Estado Social. Essa é a época em que se teoriza sobre a autossuficiência do mercado e se afirma o superpoder da finança sobre a economia real, “com graves consequências também para a democracia, forçada a renunciar a qualquer soberania sobre os fluxos de capital”. Conhecemos, então, uma fase de crescimento econômico ao preço de grandes desequilíbrios e elevação da desigualdade.

O autor também se refere aos anos subsequentes de globalização. Vimos novos protagonistas — “milhões de seres humanos” excluídos do desenvolvimento — saírem à superfície em busca de reconhecimento e lugar num mundo moderníssimo. Conhecemos, no século XXI, um desenvolvimento ao mesmo tempo impetuoso e insustentável. No plano global, tivemos um desenvolvimento marcado pelo debilitamento americano e a ascensão asiática; no plano ambiental, um desenvolvimento tensionado pelas consequências que a transferência do modelo ocidental aos países emergentes provoca no clima; no plano interno, o empobrecimento da classe média, em particular nos EUA, onde ela se endividaria buscando garantir casa, saúde e instrução. Essa é a época da pretensão americana de dirigir o mundo de modo unilateral, cujo paradoxo dramático se expressa na guerra contra o Iraque.

Veltroni resume o núcleo da sua narrativa dizendo que o “pântano iraquiano” e a crise financeira ora em curso despedaçaram a ilusão neoconservadora, dando passagem “a uma nova fase, a um novo paradigma de pensamento e a uma nova época política”.

Nessa circunstância complexa, o povo americano, “com muita clarividência” — celebra Veltroni como um primeiro grande evento positivo —, elegeu Barack Obama. Ao invés de fechar-se defensivamente, a América pôs-se caminho à frente, sinalizando possibilidades para um novo multilateralismo nas relações internacionais, um novo New Deal, com base na reconstrução da classe média, e uma nova fase de igualdade social. Mesmo ainda estando em curso os desdobramentos da vitória de Obama — registra o autor do relatório —, já cabe ao novo presidente abrir “simbolicamente” uma fase nova, “uma terceira fase do desenvolvimento humano”.

Assim, a partir do binômio representado pela crise financeira e pela eleição americana, Veltroni fala de um tempo promissor, dizendo que estamos diante de uma “extraordinária oportunidade e também de uma lição para aprender e meditar”. Segundo ele, na sociedade americana, a crise trouxe à tona o conflito social (por anos posto em segundo nível pelo uso ideológico das questões de raça, dos valores tradicionais, da segurança interna e externa), ativando o apoio ao programa eleitoral inovador de Obama. É como se a crise houvesse dissolvido a “névoa” que por três décadas levara setores populares e a classe média dos EUA a votar contra os próprios interesses e a favor de uma minoria privilegiada.

O porta-voz da esquerda italiana retém da eleição de Obama este último ponto como tema de valor mais universal: é possível mudar a correlação de forças nas sociedades de estruturação altamente complexa. Se um processo desse tipo abre caminho novo nos EUA, nada impede que também possa ocorrer em outras formações “ocidentalizadas”, aludindo-se aqui ao termo não-geográfico de Gramsci. A lição americana mostra que a condição para mudar a correlação de forças na sociedade consiste “em recolocar em primeiro plano, na competição política, a questão econômica e social, e oferecer a esta questão saída realista por meio de uma proposta de forte inovação política e programática”.

Com tal referência, Veltroni nos leva à questão da “vocação majoritária”, operando um redimensionamento radical da questão da hegemonia, tema outrora clássico na esquerda. Para ele, agora essa questão não mais se funda na presunção arrogante da autossuficiência. O ponto de partida de uma esquerda democrática que busca ser governo está na convicção de que as relações de forças eleitorais “não são um destino inelutável”, mas também podem ser alteradas em profundidade, “se mudar a oferta política por meio da inovação da proposta que apresentamos ao país”.

O dirigente se refere nesse ponto à Itália e deixa mais claro a nova visão não-atávica, ao dizer que o empenho para mudar a disposição de forças com base na política democrática exige recusar as teses da vocação “de direita” da sociedade italiana e do “insuperável caráter minoritário” da esquerda. Significa romper com qualquer ideia naturalizada da correlação de forças e com a ideia de que os reformistas e democratas estão condenados a recorrer à “manobra política” e ao “jogo da aliança” como seus únicos meios para obter consensos majoritários: “O Partido Democrático nasceu com base no pressuposto contrário. Uma profunda inovação política e programática pode mudar, até mesmo significativamente, a orientação eleitoral dos italianos”. Este desafio de reconquistar parte dos consensos sob hegemonia da direita (construindo-se “uma grande aliança na sociedade italiana, uma aliança com o país”) certamente passa por uma convergência política (“heterogênea”), construída não em termos de uma luta contra o adversário, segundo a velha fórmula novecentista de aliança entre “partidos de esquerda” e “partidos de centro”. Esta fórmula não só é um projeto “incompatível” com o PD (“que é um partido de centro-esquerda”), como se tornou “anacrônica” por não conter “nenhuma potencialidade inovadora”. A aliança a ser buscada é uma aliança para a inovação e a mudança, cuja credibilidade se afirma mediante testes de competência para governar. E isso só será possível, diz ainda, se o PD souber demonstrar “capacidade expansiva”, se não delegar a outros a tarefa de modificar as relações de forças políticas na sociedade italiana “por meio da mobilização de uma proposta renovadora e confiável”.

O relatório também descreve outros movimentos favoráveis forçando passagem nesta hora presente: “Com a crise da hegemonia do pensamento neoconservador, pode-se afirmar o primado da política sobre a força e, depois da crise do unilateralismo, pode-se afirmar o multilateralismo como única via eficaz para o diálogo entre os povos, a paz e um desenvolvimento equilibrado e sustentável”. Veltroni chama a atenção para duas grandes percepções que se afirmam nos tempos conflituosos de hoje. De um lado, os perigos que pesam sobre o meio ambiente vêm impondo uma visão qualitativa do desenvolvimento, que faz da pesquisa tecnológica e de novas fontes energéticas o setor básico de uma “nova revolução industrial”. De outro, cresce um segundo grande entendimento: o de que, para além da contraposição entre religião e razão, afirma-se a ideia de uma sociedade pós-secular, na qual a dimensão pública da fé religiosa é reconhecida e chamada a dar contribuição aos laços sociais e à vitalidade da democracia, desde que reconhecida a autonomia da política e a laicidade das instituições.

O PD se propõe ser ator relevante na cena italiana de hoje ao se reivindicar possuidor de um projeto inovador gestado quando se começou a perceber que o novo mundo em surgimento vulnerabilizava a velha cultura de esquerda do século XX, cancelando sua pretensão de autossuficiência. Tal circunstância exigia “um pensamento novo, novas categorias para ler a história e novo alfabeto para com ela dialogar”. Requerimentos indispensáveis para afirmar – assim resume Veltroni a nova utopia – o empenho do seu campo político-partidário por uma “sociedade aberta, livre e igual”, com o PD ostentando – em sua interação com outros protagonistas — completa e irrenunciável identidade com a meta da democracia, “o único sistema respeitoso da dignidade de todos os seres humanos”.

 


* Doutor em Ciências Políticas pela Universidad Nacional Autonoma de Mexico e professor adjunto IV da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

 

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