LUIZ ROSEMBERG FILHO

Diretor de cinema, escritor e artista plástico na cidade do Rio de Janeiro. Foi roteirista de Adyós General e Viva a Morte. Dirigiu Assuntina das Amérikas, Crônicas de um Industrial e O Santo e a Vedete – até hoje inédito nos cinemas brasileiros. Um dos cineastas que melhor simboliza a criatividade que resiste na cinematografia nacional, atualmente dirige curtas-metragens em formato digital “para não enlouquecer”

 

SINDOVAL AGUIAR

Sindoval Aguiar é mineiro e co-dirigiu dois longas, ao lado de Braz Sediak: Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja.

 

 

Leon Hirszman, um cineasta longe da periferia*

Luiz Rosemberg Filho* & Sindoval Aguiar**

 

Leon HirszmanRio de Janeiro – No capitalismo não tem gozo e sim o dinheiro, o poder, a prostituição ou a morte. É o que traz ao indivíduo sua referência e a satisfação com a sustentação da vida. O cerne da questão é a sua consciência na produção de vazios na terra, a sua própria vida passando pelas imagens. E fora do dinheiro, do poder e da prostituição o que existe? O nada na substituição do vazio. Sonhos sem sono na condensação do deslocamento amoroso. Não é à toa que sua única expressão é o silêncio de dentro para fora. Olha e não vê o que existe além do objeto. Mas carrega uma promessa de enlaçamento de felicidade depois da morte. Vive para morrer. E morre para ser feliz. Será? Leon Hirszman, com seus atores geniais, anuncia o nosso eterno apocalipse, pois parte de todos nós passa por São Bernardo.

Ontem a terra improdutiva. Hoje a produção de inutilidades, como se fosse possível “eu ser você 2, 3, 4...” O que importa é vender agregando o lucro ao mais-gozar dominante. Os abutres se divertem com a morte do saber. Afirma-se um fascismo como fim do sofrimento, como se isso fosse legitimado pelo prazer. Usam as leis e a religião, só que o gozo não satisfaz. O mais íntimo não pode estar circunscrito ao poder. Articula-se, então, a vida ao não-tempo da velocidade. A ordem é ser menor ou não ser nada. Produz-se então a mesmice, a repetição e a brutalidade das palavras. Reina a ignorância do não conhecer-te a ti mesmo. E a angústia e a solidão tornam-se insuportáveis. O fortíssimo plano final de Othon Bastos só, na mesa, com seus pensamentos, ultrapassa as fronteiras do belo, pensando para não morrer debruçado na finitude de seu poder. Continuou a vida toda, só.

A riqueza cinematográfica de São Bernardo é a sua ousadia e autenticidade em relação ao livro de Graciliano Ramos. Ambos chegam em contradições que só fomos ver e viver e pensar anos depois na cinematografia de Straub, via Brecht. Em pleno regime militar Leon Hirszman fez com Graciliano a política do possível, indo muito além do passadismo ou de um anti-capitalismo ingênuo enfatizado pela TV. Leon queria discutir e despertar o Brasil, despolitizado pelas elites. Fez um filme de idéias querendo entender o país. Anti-espetáculo, anti-modismo, anti-meloso... Leon Hirszman queria inserir-se na contra-mão do esvaziamento como referência da revolução burguesa. Sua proposta com Graciliano Ramos era pensar a terra e o humano ainda possível na imagem da doce e sensual Isabel Ribeiro.

Redescobrir São Bernardo deveria ser um esforço tanto da mídia como do próprio governo, que continua faturando com uma submissão pejorativa a um saber que não é o nosso, do cinema à TV. Leon Hirszman recria com Lauro Escorel, Caetano Veloso e seus dois atores principais, um dos mais belos momentos da nossa literatura e do nosso cinema. Enfatizando a terra seca que está dentro como único êxito do nosso eterno latifúndio. Abrindo parênteses nos permitimos enfatizar esse trabalho, num autêntico processo de desalienação do cinema realista. Ao valorizar o anti-espetáculo e o tempo subjetivo fechado sobre os personagens, Leon Hirszman fez avançar os caminhos do cinema brasileiro, pensado, revelando um Brasil rural não muito diferente dos tempos de Graciliano Ramos. Dramaticamente São Bernardo continua atual, moderno e conscientizador, sem resvalar no populismo em momento algum. Ora, em que a terra corrupta de ontem se difere da de hoje?

Séculos e séculos de latifúndio para efetivamente não mudar nada. E se a terra inspirou Graciliano Ramos, o filme de Leon Hirszman num diálogo apaixonante e profundo não espelhou mistificação alguma. Se ali estava o Brasil através de pungentes interpretações, estava também a dor de muitas gerações. O trabalho também questiona a opressão sobre o povo e o saber na ânsia de nos inquietar a todos nos recolocando no enigmático furacão da “terra em transe”, a fim de mantermos viva a presença de uma outra revolução de dentro para fora. São Bernardo segue sendo uma raiz modernizadora da construção precisa de um bom filme. E ainda hoje, mais significativo que toda essa porca produção televisiva de imitação de Hollywood. Leon Hirszman sempre foi sofisticadíssimo, vagando entre Marx, Freud e Walter Benjamin.

O seu personagem Paulo Honório passa-nos o seu desprazer na não-satisfação do viver. Sua única convicção é se conduzir rumo a um poder cuja única riqueza é o seu silêncio interno como sustentação da ordem. Mas no que cala dentro, instala o não-gozo fora. É um personagem menor diante da grandeza da terra e da história, e o seu valor de troca é a negação de toda e qualquer satisfação proporcionada pela vida. Se satisfaz em ter e não ter a mulher escolhida como esposa. Em ter e não ter o filho. Ter e não ter um casamento minimamente feliz... Ser contra o materialismo e a dialética é fácil. Delicado é entender o que isso representa como promessa de um mundo melhor. E diante de tanta m... que se vê hoje no nosso cinema, São Bernardo segue sendo um ato e um espaço de purificação. Terno, profundo, exuberante e doloroso é um movimento trágico-poético da nossa porca elite rural. Ainda assim, Leon Hirszman poetiza o seu olhar terapêutico. Obsessivo e determinado filma com honra o livro de Graciliano Ramos, dando materialidade às imagens na construção do nosso eterno pesadelo rural. Ao rechaçar todo e qualquer vínculo com o espetáculo (tão comum nos dias de hoje), dá vida às significações profundas no cinema brasileiro.

Ora, o Brasil é um país que já nasceu moderno pelas circunstâncias que o envolveram e que, até hoje nos acompanham: econômicas, políticas e culturais, estas definindo como sempre os cultos de domínios. Econômicos-religiosos, a suma do poder que tudo justifica! Mas justifica? A história do Ocidente, quando a cartilha não é muito modelada como agora, confirma isso. O controle absoluto e bárbaro para os avanços dos meios de produção. Mais de 300 anos de escravidão, mais de 300 anos de atraso da ótica de Gutemberg, pois nossa imprensa só chegou aqui com a fuga da Corte para a nossa Geena, como dizia Glauber: no Brasil alguma liberdade, só com sangue! E, até hoje, nossa Reforma Agrária, nem coisa de comunista é! Nossa modernidade é fetiche, como a felicidade do escravo é a de entrar na Casa Grande – sempre periferia. E o centro? Só aqueles como Leon Hirszman arriscam, mas pelas rupturas que somente a arte permite. Espaços impossíveis de serem fechados e muito difíceis de serem construídos.

Sob a eterna ótica logística da modernidade nosso cinema continua periferia, com fugas incríveis e maquiavélicas em busca do centro, empurrado pelas dúvidas, contradições e utopias, esta invenção de um cinema brasileiro. Velho, novo, moderno e roliudiano-televisivo: na realidade, pauloemiliano, este inesquecível lutador do cinema e de uma cultura orgânica para a libertação e que, felizmente, ainda não fizeram virar herói ou estátua, para o esquecimento. Paulo Emilio foi nosso inventor, o de um país de um cinema acima de qualquer suspeita!

O cinema de Leon Hriszman é um sonho que não pode morrer porque já virou realidade! Sonhamos também com ela. Sonhos e realidades que têm levado muito alto o nosso cinema e a nossa aventura de um cinema brasileiro, essa tentativa de uma representação invertida dessa eterna realidade. O que levava Leon Hirszman ao desespero de um estilo e de um rigor em todos os sentido como em São Bernardo, onde rompe com o formalismo de uma responsabilidade só literária, para avançar nas contradições, desacelerando a narrativa, construindo e desconstruindo em duas frentes: a das palavras e a das imagens. Uma luta que definia a sua linguagem cinematográfica talvez, ímpar, no cinema brasileiro. A solidão do artista. Seu compromisso ontológico, histórico, político e cultural, sem sublimar, carregando a tragédia: a noção de prazer e dor, tentando escapar do peso insaciável do poder e dos deuses nesta imolação do ser humano. Sem excluir nada. Mas consciente de que o bem e o mal, as palavras e as coisas, são um problema de todos nós e, para entendê-lo, temos que construir uma linguagem, uma invenção, como a de seu cinema onde a única presença de fato é a do ser humano. E da sua linguagem, como no genial Maioria Absoluta. Ou como minoria absoluta, a do individualismo e a da luta de classes.

Paulo Honório conquista tudo, destrói tudo e não possui nada: nem a si mesmo, pois é possuído por uma engrenagem maior, onde ele é só uma pequena peça descartável quando o poder desejar. Paulo Honório é vítima da reificação do homem que a modernidade acelerou pelo ter, pelo consumir e pelo não ter, o idiotizado e massificado pela cultura dos meios de produção.

Por outro lado, Madalena, sua mulher, desvinculada desse ser sem essência e não essencial, prisioneira como todos nós de uma estrutura, um não entendimento e de uma força para rompimentos, escapa com os elementos que a própria prisão lhe oferece, a violência ou a omissão e o conformismo que, inevitavelmente, levam à solução final. Pela espetacularização, esta compensação maldita dos meios de comunicação, principalmente, a televisão. Como no caso recente de Lindemberg e de Eloá, em São Paulo.

Madalena é bastante consciente e politizada. Morre para ela mesma. Esta união de Graciliano Ramos e Leon Hirszman , em São Bernardo, nas palavras e nas imagens, na vida e na morte foi mais do que feliz. Linguagem de mestres! Orgulho da literatura e do cinema. E que equipe afinada! Ficha técnica e artística de gigantes! Não seria um exemplo melhor a ser seguido? Ficasse o lixo com a televisão que sempre se alimentou disso. E as pérolas com o cinema!

 

* Diretor de cinema, escritor e artista plástico na cidade do Rio de Janeiro. Foi roteirista de Adyós General e Viva a Morte. Dirigiu Assuntina das Amérikas, Crônicas de um Industrial e O Santo e a Vedete – até hoje inédito nos cinemas brasileiros. Um dos cineastas que melhor simboliza a criatividade que resiste na cinematografia nacional, atualmente dirige curtas-metragens em formato digital “para não enlouquecer”.

** Sindoval Aguiar é mineiro e co-dirigiu dois longas, ao lado de Braz Sediak: Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja.

 

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Publicado originalmente em Via Política, 01 de fevereiro de 2008.

 

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