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NILDO
VIANA
Professor da UEG –
Universidade Estadual de Goiás e UFG – Universidade Federal de
Goiás; Doutor em Sociologia/UnB.
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Resenha:
Tragtenberg,
Maurício. A Revolução Russa. São Paulo, Faísca, 2007;
Tragtenberg, M.
A Revolução Russa. São Paulo, UNESP, 2007.
A Revolução Russa segundo
Maurício Tragtenberg
Nildo Viana
A Revolução Russa foi um dos
acontecimentos históricos mais importantes do século 20. Ela foi
palco de calorosos debates, análises, disputas, e acabou sendo fonte
inspiradora de lutas e ações políticas posteriores. A versão
dominante da Revolução Russa foi amplamente divulgada, sendo que a
versão dos vencidos foi relegada à marginalidade. No Brasil não foi
diferente. Aqueles que discutiram a Revolução Russa reproduziram a
versão oficial da historiografia e deixaram de lado as ricas
experiências proletárias e camponesas, o significado histórico
fundamental e revolucionário dos sovietes (conselhos operários), a
esquerda dissidente e suas críticas ao regime bolchevique
estabelecido. Uma rara exceção existiu no seio da intelectualidade
brasileira e foi representada por Maurício Tragtenberg, que fez
reemergir a perspectiva do proletariado no que se refere ao marxismo
e às lutas heróicas do proletariado. Assim, as duas reedições da
obra de Tragtenberg, A Revolução Russa [1],
é antes de tudo uma necessidade, mas também é uma brecha para que a
verdade sobre este acontecimento histórico reapareça.
Compreender a obra significa compreender
o autor. Da mesma forma, compreender o autor significa compreender a
obra. Maurício Tragtenberg foi um dos mais importantes sociólogos
brasileiros e exerceu influência sobre inúmeros intelectuais,
amigos, alunos. O sentido da vida e obra de Tragtenberg foi, a nosso
ver, a luta pela autogestão, e não, como alguns podem pensar, “uma
vida para as ciências humanas”. Tragtenberg nasceu em Erexim, Rio
Grande do Sul, no dia 4 de novembro de 1929. Morou algum tempo em
Porto Alegre e posteriormente mudou para São Paulo. Freqüentou o
Centro de Cultura Democrático, movimentos de jovens judeus, Partido
Comunista Brasileiro, Biblioteca Municipal de São Paulo, família
Abramo, Partido Socialista Brasileiro e Centro de Cultura Social, de
orientação anarquista. Desde os 10 anos lia Rosa Luxemburgo, Trotsky
e vários outros, pois tinha acesso a uma ampla bibliografia, cuja
origem era o acervo de familiares, bibliotecas, partidos, etc.
Manteve contato com intelectuais como Antônio Cândido, Azis Simão,
entre vários outros. Aliás, foi Antônio Cândido que lhe informa da
possibilidade para entrar na USP através da proposta de uma
monografia, desde que essa fosse aceita. A monografia, depois
publicada como livro (Planificação: Desafio do Século 20),
foi aprovada e assim ele passou a fazer parte da esfera acadêmica.
Na esfera acadêmica, produziu várias obras, com destaque para sua
tese Burocracia e Ideologia, além de diversos livros, bem
como prefácios de outras obras, organização de livros e artigos para
revistas e jornais. Chegou a ser colunista do jornal Notícias
Populares, visando atingir um público composto por trabalhadores.
Alguns temas foram recorrentes e
fundamentais em sua produção, tais como a questão da burocracia, a
obra de pensadores como Marx, Weber e Bakunin, a autogestão social,
as lutas operárias, a autonomia e auto-organização do proletariado e
campesinato, autores “marginais” ou “malditos” como Rosa Luxemburgo,
Makhaïsky, Korsch, Bordiga, Pannekoek, Gorter, etc.
A preocupação de Maurício Tragtenberg
com a burocracia se manifesta em sua primeira obra, a
monografia-livro Planificação: Desafio do Século 20, no qual
aborda a questão da burocracia, iniciando com uma discussão sobre
alienação, natureza humana e classes sociais, para encerrar com uma
análise do bolchevismo, da burocratização da Rússia e do capitalismo
de Estado. Ele encerra apresentando a alienação como sendo provocada
pela divisão social do trabalho e que a reintegração do homem na
humanidade e sua essência só pode ocorrer através do socialismo, que
realizaria a emancipação humana. Sua obra Burocracia e Ideologia,
oferece uma análise da formação e características das teorias gerais
da administração, abarcando um amplo espectro histórico (do modo de
produção asiático ao capitalismo) e ideológico (de Saint-Simon a Max
Weber). As teorias gerais da administração são consideradas por ele
como ideologias, formas de falsa consciência, representando os
interesses das classes dominantes, que são operacionais no nível
técnico e que mudam de acordo com a mudança nos processos econômicos
e sociais. O tema da burocracia é retomado em Administração,
Poder e Ideologia, que aborda o problema das grandes corporações
e questões como a co-gestão, o participacionismo e outras formas que
as grandes empresas utilizam para enquadrar e integrar os
trabalhadores. A crítica da burocracia continua em Sobre
Educação, Política e Sindicalismo, mas desta vez focalizando a
burocracia escolar e universitária.
Outro tema fundamental na obra de
Tragtenberg é o da educação libertária e da autogestão das lutas
operárias. A educação está presa nas malhas da burocracia, mas é um
processo contraditório, havendo brechas e possibilidades, lutas que
são definidoras da produção, apropriação e expropriação do saber.
Daí a presença em sua obra do tema da “pedagogia libertária” ou
“autogestão pedagógica”. Por isso ele analisava os educadores
libertários (Francisco Ferrer), e as experiências históricas (a
autogestão pedagógica na Espanha). Isto estaria ligado ao processo
de constituição de uma nova sociedade e, retomando Marx, entendia
que tal processo seria resultado da luta da classe operária, de sua
auto-educação e auto-organização. Segundo Tragtenberg, em
Reflexões sobre o Socialismo, apesar da tendência à
burocratização, a classe trabalhadora nega este processo criando
organizações horizontais, igualitárias, novas relações sociais. A
chave para entender a formação de uma nova sociedade está no
desenvolvimento destas formas de auto-organização do proletariado.
No seu processo de luta, de auto-organização e associação (comissões
de fábrica, comitês de greve, conselhos operários), se encontra o
embrião da futura sociedade autogerida. É aí que se encontra a razão
de sua crítica aos partidos e sindicatos, bem como sua oposição ao
capitalismo de Estado (“socialismo real”).
É neste contexto da produção teórica de
Tragtenberg que podemos compreender melhor o seu livro sobre a
Revolução Russa. Tragtenberg analisa a pré-história da Revolução,
analisando a Rússia Imperial, a evolução do czarismo, as rebeliões
camponesas, a igreja. Depois analisa a sociedade russa
pré-revolucionária, no qual apresenta um panorama das classes
sociais existentes neste período, os debates entre as tendências
políticas, e a Revolução de 1905 e o papel dos partidos políticos. O
processo da Revolução Russa é a parte seguinte, na qual aborda a
revolução camponesa na Ucrânia, a instauração do regime bolchevique,
a revolta de Kronstadt, a questão sindical e a Oposição Operária de
Alexandra Kollontai, os Sovietes e seu esvaziamento pelos
bolcheviques, e diversas questões postas no processo de luta de
classes na Rússia deste período (ditadura do proletariado, questão
nacional e colonial, assembléia constituinte).
É neste contexto que ele apresenta, na
parte final, a discussão sobre o partido político. Ele questiona o
centralismo democrático e aponta suas conseqüências. Segundo
Tragtenberg, “as revoluções que procuram mudar as relações de
propriedade e não somente as pessoas que governam, instaurando um
novo modo de produção, não são feitas por partidos, grupos ou
quadros, mas resultam das contradições sociais que mobilizam amplos
setores da sociedade”. O papel do Partido Bolchevique foi promover
uma contra-revolução. O partido passa a ser um estado burguês em
miniatura e defender o liderismo e centralismo. O partido reproduz a
mentalidade burocrática e cria ideologias para se justificar e
legitimar, isto, tal como a ideologia leninista da nulidade
operária. O partido assume o poder estatal e toma conta da
sociedade, realizando uma aliança entre a burguesia de Estado e a
tecnocracia, o que promove a implantação do capitalismo de Estado. O
substitucionismo apontado por Trotsky em seu período de juventude e
em polêmica com Lênin (O partido substitui a classe; o comitê
central substitui o partido; um ditador único substitui o comitê
central) se realiza na realidade concreta. O bolchevismo já era
ideologicamente o que se tornou praticamente a nível nacional, ou
seja, foi o promotor do capitalismo estatal. As ideologias e ações
do Partido Bolchevique confirmam a tese do substitucionismo: as
teses defendidas por Lênin (gestão individual das empresas) e
Trotsky (a militarização dos sindicatos) e a prática efetuada por
ambos (massacre na Ucrânia e em Kronstadt) são manifestações
concretas de algo que já estava em germe, em alguns casos, ou já
estavam desenvolvidas, mas sem aplicação prática.
Assim, Tragtenberg faz uma revisita ao
processo histórico da revolução russa partindo da perspectiva do
proletariado. Neste sentido, esta obra de Tragtenberg (mas não só
esta) mostra como a perspectiva do proletariado está presente na
análise histórica e na reconstituição histórica. Trata-se de uma
questão discutida na historiografia, mas sob a forma relativista e
geralmente com tendência individualista. A reconstituição de um
fenômeno histórico é realizada tendo por base as informações
existentes sobre ele, as ferramentas intelectuais e analíticas de
quem a faz, os valores, sentimentos, concepções e interesses do
mesmo, que estão na base da escolha e formação destas ferramentas
intelectuais.
A concepção cientificista segundo a qual
bastaria ter um instrumental metodológico e/ou uma abordagem
supostamente teórico-sistemática para dar conta da reconstituição do
fenômeno histórico é ilusória e nada tem de inocente. Esta concepção
revela uma perspectiva de classe, que está na sua base e também dos
“métodos” e “teorias” apresentados como a solução mágica para chegar
ao “conhecimento científico”, sendo, na verdade, construções
ideológicas, metafísicas e reificadas. O seu oposto, o relativismo,
já abandona a pretensão da verdade e se refugia em outras ideologias
metafísicas e imprecisas, fazendo do descompromisso ou do
compromisso duvidoso a sua máxima e seu guia. Assim consegue
disfarçar a perspectiva de classe que está na sua base.
Na obra de Tragtenberg, nenhuma destas
alternativas se encontra presente. A história da Revolução Russa é
apresentada em seu processo social de constituição, perpassado pela
luta de classes, pelos desdobramentos destas lutas, pelas formas
organizativas, intelectuais e ideológicas que assume, num processo
analítico que não apenas mostra as forças em luta, mas suas
debilidades e, principalmente, como o discurso dominante,
burocrático-bolchevista, é ideológico, uma falsa consciência
sistemática da realidade, e, ao mesmo tempo, eficaz, mobilizador e
legitimador da exploração do proletariado pela burocracia
metamorfoseada em burguesia de Estado.
Isto é perceptível, por exemplo, na
análise que ele faz do economista Preobrajenski. Este ideólogo
bolchevique irá escrever a obra “A Nova Ciência da Economia”,
na qual discute as leis gerais do capitalismo e do socialismo. Ele
produz a tese da “acumulação socialista primitiva”, na qual
existiria, tal como na época de surgimento do capitalismo existiu a
“acumulação primitiva de capital”, a pilhagem. Tragtenberg coloca
que, para Preobrajenski, “a acumulação socialista aparece de duas
formas: pela redução do salário dos operários e funcionários do
Estado ou à custa das rendas dos pequeno-burgueses e capitalistas.
Pelo controle dos impostos, o setor socialista poderá apropriar-se
da mais-valia do setor privado”.
Isto tem como conseqüência o reforço do
setor socialista da economia e do aparato partidário. Os setores que
seriam pilhados seriam, fundamentalmente, os do setor privado, que,
naquele momento, eram os camponeses e outros setores (dependendo do
momento histórico). A tese, já presente em Engels e Lênin, da
“segunda luta”, agora entre proletários e camponeses, é retomada e
serve como justificativa e legitimação da superexploração do
campesinato.
A questão da perspectiva de classe
aparece neste exato momento. Em primeiro lugar, o paralelo entre
revolução burguesa e proletária expressa uma perspectiva de classe
por parte de Preobrajenski. Suas teses apontam para confundir
revolução burguesa e revolução proletária, propriedade estatal com
“setor socialista”, acumulação primitiva de capital com produção de
excedente no socialismo, etc. Ora, a confusão, ou seja, a fusão de
duas coisas radicalmente diferentes é apenas a manifestação de uma
perspectiva de classe, burocrática, no qual um dos dois elementos é
destruído e permanece apenas na linguagem. O socialismo com
exploração, mais-valia, acumulação, pilhagem, aparato burocrático
centralizado, partido centralizado e gestor, não é nada mais do que
o capitalismo estatizado na prática que aparece como sendo o seu
contrário. Essa magia das palavras, porém, não é perceptível
imediatamente por alguém que não parte da perspectiva do
proletariado e é aqui que reside o problema da reconstituição
histórica e perspectiva de classe. Para alguém ler Preobrajenski e
perceber a confusão e seu significado, seria preciso possuir
valores, sentimentos e concepções antagônicos aos dele. Uma leitura
“neutra”, “objetiva”, fundada em determinados métodos e concepções,
realizada por portadores de determinados valores e sentimentos, não
ultrapassaria o “dado”, ou seja, o discurso de Preobrajenski, o que
significaria acreditar nele e tomar seu discurso em favor de um
capitalismo estatal como discurso em favor do socialismo.
Este não foi o caso de Tragtenberg, que
percebeu o caráter da obra de Preobrajenski e não só dele, mas
também de Lênin, Trotsky, Stálin e vários outros, revelando os
interesses de classe por detrás da legitimação do capitalismo
estatal. Assim, a obra de Tragtenberg tem como mérito partir da
perspectiva do proletariado e ao fazer isso revelar que por detrás
das produções intelectuais existe uma camada profunda, e, para
muitos, invisível, que é determinante no seu processo de produção.
Também é este elemento que permite ao
pesquisador reconhecer o valor e significado das iniciativas
proletárias e camponesas, tal como Tragtenberg faz quando analisa o
caso da Ucrânia, de Kronstadt e dos Sovietes. Os acontecimentos
históricos ganham visibilidade ao estarem envolvidos em um processo
que é o da auto-emancipação do proletariado e de outros grupos
explorados ou oprimidos e, assim, a vida e a morte não são apenas
possibilidades abstratas ou fatos registrados, e sim manifestação de
seres vivos, idéias, valores e sentimentos. O mesmo vale para as
obras culturais, os livros não são vistos apenas como coisas
materiais com textos escritos, mas como portadores de projetos,
interesses, valores, sentimentos, concepções. Os livros são
manifestações de seres humanos e se o livro é vazio, isto se deve ao
vazio de quem o escreveu.
Enfim, Maurício Tragtenberg vai além da
historiografia oficial e da história dos vencedores, por
compartilhar com o proletariado a mesma perspectiva. A sua obra
sobre a Revolução Russa, embora introdutória e resumida, reconta e
faz reviver a história de uma sociedade que esteve à beira da
transformação social e que perdeu a oportunidade, devido à derrota
dos explorados diante dos seus “representantes”. Também apresenta
uma lição metodológica, a de que o método não é algo reificado e
fora das relações sociais, separado de quem o escolhe, produz e/ou
usa. Desta forma, Tragtenberg recuperou a consciência teórica da
Revolução Russa e fez avançar a consciência da história.
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