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CLAUDETE
PAGOTTO
Mestrado em Ciências Sociais pela
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, doutoranda em
Ciências Sociais (UNICAMP) e professora do Centro
Universitário Fundação Santo André
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Resenha:
MENEZES, Maria Thereza C. G.
Economia Solidária: elementos para uma crítica marxista. Rio
de Janeiro, Gramma, 2007.
A ideologia política da economia solidária
Claudete Pagotto
Alguns dos mais expressivos formuladores
da noção de economia solidária são intelectuais de esquerda que,
embora sejam oriundos da resistência contra a ditadura, assumem as
premissas de uma “razão resignada” e são participantes de projetos
políticos conciliadores e funcionais à lógica neoliberal. Este é o
principal argumento da autora sobre, principalmente, a destinação
política das formulações desses intelectuais por atribuir
“credibilidade e plausibilidade” à noção de economia solidária
enquanto projeto político de “cunho salvacionista”, de “corte
conservador” e, que está em “sintonia com as recomendações dos
organismos internacionais que buscam legitimar a hegemonia
norte-americana”.
No livro da professora da UFF, resultado
da sua tese de doutoramento em Serviço Social, defendida em 2006 na
UFRJ, encontramos uma análise minuciosa da noção e da manifestação
dos projetos sociais “alternativos”, baseados na economia solidária,
que dão substância ao chamado “terceiro setor” no período que
compreende os governos de FHC e Lula.
Embora o contexto da pesquisa seja
contemporâneo, a autora nos remete, em muitos momentos da sua
análise, ao “anticapitalismo romântico” e ao “socialismo utópico,”
teorias formuladas no século XIX, mas que possuem elementos
fundamentais para compreensão do que é hoje a economia solidária.
Por exemplo, a emancipação da classe trabalhadora só é possível por
meio da generalização do sistema cooperativista, sem a necessidade
de processos de lutas sociais radicais, com apoio de políticas
sociais públicas e em um processo crescente de redução dos laços com
o Estado. Entretanto, o foco da sua análise não é somente
demonstrar esta conexão, mas trazer à luz um debate franco, crítico
e muito incisivo, com base nos elementos fundamentais da crítica
marxista, como de início aponta: “esta tese é legatária do
pensamento marxiano”.
Na Introdução antecipa-se a perspectiva
de que processos de focalização, de descentralização e de regressão
dos direitos do trabalho assalariado são constituintes do cenário da
economia solidária. Para a autora, a focalização e as formas
indiretas e “clandestinas” de subordinação do trabalho ao capital,
bem como o estímulo a projetos de geração de trabalho e renda, são
na sua essência processos de reprodução do valor, os quais buscam
inscrever a miséria nos mecanismos de microcrédito.
A economia solidária, sob a análise da
autora, expõe uma ideologia de combate à pobreza fundamentada por
intelectuais e com o aval do movimento sindical e das universidades
que, sob a lógica da mundialização do Capital traveste a noção de
autogestão com uma intenção humanizadora dotada de sentido, mas que
oculta processos e formas de precarização do trabalho.
Enquanto resultado da militância de seus
ideólogos, como exposto acima, é “uma forma de militância política
consentida pela ordem burguesa”, e mais, como uma “adaptação débil
da concepção de intelectual orgânico” e com o objetivo de
“aperfeiçoar o aparato público-estatal para idealmente humanizar o
capitalismo”.
No primeiro capítulo: A dinâmica da
mundialização do Capital e as políticas sociais alternativas de
proteção social a autora faz um percurso entre as conexões entre
o reformismo e o hibridismo existentes nas políticas sociais no
contexto neoliberal articulando-as com a revisão de autores
contemporâneos remetendo-os aos teóricos do socialismo e do
materialismo histórico. Ressalta, de modo geral, que “a economia
solidária exalta a moralidade da vida social e, enquanto projeto
político, ignora a história das principais conquistas dos movimentos
políticos do proletariado.”
Após discorrer brevemente sobre o
histórico da assistência social, que décadas atrás fora
universalizada, regulada e financiada pelo Estado, atualmente o que
se constata é um “rombo da previdência” com a participação do
capital privado, a autora busca demonstrar, com a análise da
previdência, os processos de desmonte do Estado do bem-estar social
articulando tal fato com a revisão conceitual dos intelectuais de
esquerda nos anos 1990 classificando-os como “pós-marxistas” ou
“esquerda não-marxista”, ou ainda de “socialistas
utópicos-românticos” que, de modo geral, se caracterizam por
possuir: ideologias de cunho alternativo; buscam desmontar a teoria
social marxiana, bem como dissolver as classes sociais; rejeitam a
perspectiva de revolução e, neste caso, o “capitalismo é
imperecível”. “Assim, as alternativas de ajustes e reajustes
políticos e econômicos devem ocorrer não na contestação da ordem
vigente, mas sim no interior da própria ordem burguesa”(MENEZES, p,
34).
A autora retoma elementos do movimento
de idéias pós-1848 que contrastam com as conotações de socialismo do
período anterior, ou seja, na primeira metade do século XIX, o
pensamento socialista e/ou cooperativo buscava alternativas aos
pressupostos individualistas do capitalismo e, sobretudo, às mazelas
sociais causadas pelo desemprego, por meio da elaboração ideal de
modelos de sociedade alternativos à vigente, geralmente baseados em
formas comunitárias, coletivistas e com participação democrática.
Posteriormente, esse pensamento desdobrou-se em várias vertentes
anarquistas, socialistas e social-cristãs.
A pluralidade que envolve o pensamento
socialista, deste período, possui conteúdos que passam pela
inspiração humanitária, religiosa e moralizadora da sociedade e,
sobretudo, pelo debate sobre os limites e possibilidades que
envolvem as experiências associativas no interior do desenvolvimento
do capitalismo industrial. Em suma, o debate e as lutas sociais
possuíam como eixo a necessidade do controle do trabalho pelos
trabalhadores e que “o ideário política dos trabalhadores no início
de suas organizações de classe ou quando, reivindicavam
ingenuamente, melhores condições de vida e trabalho” (MENEZES, p,36)
Na esteira desta retomada da
interpretação da realidade pelo viés do pensamento romântico e
utópico, as propostas alternativas na atualidade se apresentam como
“formas de resistência e luta pela vida” (Kraychete), “produzir para
viver”(Santos) e “espaços para a reprodução da vida” (Coraggio), se
dividem em: economia solidária, economia popular, economia popular e
solidária, socioeconomia solidária, economia dos setores populares e
economia do trabalho. Tais especificações serão abordadas, pela
autora, no capítulo III, destinado exclusivamente a discutir as
revisões conceituais sobre a economia solidária com enfoque no
pensamento de Paul Singer.
Entretanto, neste primeiro capítulo a
ênfase se dá num processo de revisão conceitual muito acentuado
entre autores que historicamente estiveram envolvidos em lutas
políticas importantes e colocaram sua vida em troca delas (Nanci
Valadares, Marcio Arruda, Jose Coraggio, para citar alguns), buscam
em pensadores como Braudel, Tocqueville, Lipovetsky, Arendt,
Boaventura Santos, Holloway, etc., a fundamentação necessária para
colocar os projetos alternativos na ordem do dia para a organização
dos movimentos sociais, das ONG’s , do terceiro setor e da economia
solidária. O foco da autora é sobre o rumo tomado por eles, ou seja,
os projetos ‘alternativos’ engendram uma
revisão conceitual e operativa da produção e da reprodução social no
capitalismo contemporâneo, a reprodução dos pobres e dos ‘excluídos’
se circunscreve, exclusivamente, à reprodução da vida e não do
sistema (MENEZES, p.37)
É importante ressaltar que no Brasil dos
anos 60 e 70 a militância social atuava sob restrições políticas
impostas pela ditadura militar com o objetivo de recriar espaços de
participação para os segmentos das classes média, média baixa e
subaternalizados. Ou seja, até os anos 1980 o contraponto das lutas
políticas era contra o Estado centralizador, contra as estruturas
verticais do sindicato e a não representatividade dos partidos
políticos. As bandeiras eram: o autogoverno, a autogestão e a
participação popular.
Segundo a autora, Nanci Valadares e
Rubem Cesar Fernandes faziam parte da vertente de esquerda
reformista que, nos anos 70 sugeriam a construção de uma sociedade
autônoma são, portanto, herdeiros da crítica romântica ao
capitalismo (anticapitalistas românticos, de Rousseau até
E.P.Thompson autores que protestaram contra a quantificação, a
mecanização e o desencantamento do mundo em nome de valores
culturais, sociais ou éticos, pro-capitalistas) (MENEZES, p, 59)
O “caráter novo e renovador” dos
projetos alternativos fundamentados pelos seus ideólogos concebem de
modo negativo o Estado, o público, o sindicalismo, a prática
política em geral e da partidária em particular, expõe um problema
no qual tanto a existência de classes antagônicas como as conquistas
obtidas pelos embates entre elas são, nesta perspectiva teórica
apontada como obsoletas (MENEZES, p. 62)
A partir da década de 1990, Souza Santos
inspirado por pensadores de “corte ultraliberal” combina a utopia
social de maio de 1968 com as questões ambientais e ecológicas
orientando a “teoria do desenvolvimento alternativo”. Segundo a
autora, estas perspectivas confirmam a retomada das idéias
anacrônicas do “anticapitalismo romântico”. Ou seja, suas idéias não
são contrárias ao ordenamento burguês, apostam na possibilidade de
um retorno a outras formas de produzir, o que significa um retorno
às formas pré-capitalistas de produção como uma tentativa de
inviabilizar e imobilizar as lutas sociais.
Ao fim do capítulo 1, a economia
solidária é desmistificada ao ser caracterizada como um processo que
vende a ilusão de que “outro mundo é possível”, sem abalar o sistema
capitalista possuindo duas principais intenções de ordem “ideopolítica”:
1) pensar a economia solidária como um gesto de humanidade,
beneficência, por parte dos intelectuais que, sensibilizados com a
pobreza, se dispõem a inventar um mundo alternativo com conteúdo
idílico para incluir os “desfiliados”. Utilizando-se do
pré-capitalismo como mecanismo de sobrevivência e ao mesmo tempo de
ampliação da democracia e da cidadania e 2) constitui um projeto
político associado ao engodo ideológico do empreendedorismo, que
transfere para o plano individual a solução para o desemprego.
No capítulo 2: “A ‘reconstrução’ do
conceito de Sociedade Civil e a construção do ‘terceiro setor’”
a autora parte da principal constatação de que as políticas de
proteção social sob a dinâmica da mundialização do capital,
discutidas no primeiro capítulo, se desdobra na “pobre polêmica que
caracteriza o terceiro setor”, ou seja, na desconstrução do conceito
de sociedade civil, deslocando a economia enquanto complexo fundante
da sociabilidade e da subjetividade para o campo do “mundo da vida”,
e configurando um sistema no qual a sociedade civil é entendida como
a “terceira esfera”(Avritzer, Arato e Cohen) e na celebração da
autonomia, da espontaneidade, do cotidiano da vida privada
(Habermas). Destaca-se o “primado da subjetividade e do papel dos
agentes sociais em suas lutas cotidianas”( MENEZES, p. 110)
A autonomia torna-se o elemento
fundamental para o entendimento das relações sociais, por isto a
importância da formação de redes sociais e culturais, por se
caracterizar como a “nova sociedade civil” (MENEZES, p.110). Tais
premissas dão a sustentação necessária para tornar a teoria social
marxiana ultrapassada, as quais para a autora “não é gratuita e nem
ocorre por acaso”:
O encaminhamento teórico dado pela
literatura pesquisada é convergente com a lógica da mundialização do
capital, mas, ao mesmo tempo, os especialistas reconhecem que os
resultados provocados Por esta mesma lógica, no ‘campo social’, têm
sido devastadores, como eloqüentes indicadores sociais negativos no
‘centro’ e na ‘periferia da nova ordem mundial.’(MENEZES,p.120)
A construção das teorias que legitimam o
“terceiro setor” coloca num segundo plano “a estrutura material e
contraditória do capitalismo” ocultando, portanto, os processos de
lutas de classes, embora busca de modo ilusório fundar um
contrapoder orientado por uma gestão participativa e autônoma frente
ao Estado, por meio das organizações sociais. Surgem neste arcabouço
teórico a “esquerda social”, “os novos movimentos sociais”, “espaços
de criação de direitos”, “Ong’s”. As experiências de trabalho
cooperativo podem se caracterizar como formas de terceirização da
prestação de serviços sociais. (MENEZES, p. 142)
A síntese do segundo capítulo está na
constatação de que o debate sobre a reconstrução da idéia de
sociedade civil e de “terceiro setor” está para além das intenções
dos projetos societários reformistas por circunscrever-se em um
projeto político, conforme citamos:
O “projeto político formulado no
interior do processo de reconceituação da noção de sociedade civil
está organizadamente imbricado com as premissas econômicas e sociais
determinadas pela mundialização do capital – flexibilização,
precarização do trabalho, informalidade, desregulamentação,
transferência da proteção social para o âmbito privado e, de
preferência, sob os cuidados do voluntariado – em sua relação com a
“questão social. ”( MENEZES, p. 147)
O capítulo 3: A “economia solidária”
de Paul Singer: uma revisão conceitual do socialismo possui a
peculiaridade de distinguir Paul Singer dos demais intelectuais
retratados nos capítulos anteriores, exatamente pelo escopo da “sua
economia solidária” que é a de viabilizar e constituir um “sociedade
socialista”(MENEZES,p.149). Embora se ressalte as divergências em
relação à Coraggio e Kraychete, para os quais, a unidade de produção
na economia solidária se define na “unidade doméstica” enquanto para
Singer são as “cooperativas”.( MENEZES, p.152)
A autora discorre brevemente sobre a
trajetória intelectual e política do autor escolhido para o debate
de seu livro, e coloca em confrontação suas premissas com a de
clássicos como Lênin, Marx, Engels, pois o autor busca justificar as
suas premissas sob a mesma ótica da “reconstrução da sociedade
civil”, com a peculiaridade de atribuir ao Estado o papel de
protagonista das transformações sociais. Além de enfatizar elementos
que expõe equívocos teóricos de Paul Singer numa perspectiva
revisionista.
O lado progressista da idéia de
“economia solidária”, se perde no cotidiano de trabalhadores cujo
incentivo é o sonho de consolidar, efetivamente, como produto de
seus trabalhos. A possibilidade de estabelecimento de um padrão de
produção capaz de reverter de modo efetivo as
condições materiais nas quais estão inseridas se restringe cada vez
mais. Reproduzem-se relações de produção à margem da lógica
mercantil em muitas situações sob condições precárias e
terceirizadas. Dissipam-se as possibilidades de que uma organização
social baseada na economia solidária contribua para o incremento da
organização política dos trabalhadores. E este livro sugere o
descortinar do entendimento de que as práticas sociais alternativas
sob o viés da economia solidária – parte do terceiro setor – sejam
tidas como parte de um projeto político “sustentado pela ilusão
própria da manipulação ideológica.” (MENEZES p,218).
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