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WALTER
PRAXEDES
Docente na
Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Ciências Sociais; Doutor em Educação
pela USP e co-autor de O Mercosul e a sociedade global (São
Paulo, Ática, 1998) e
Dom Hélder Câmara:
o profeta da paz (São Paulo, Editora
Contexto, 2008)
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Dom Hélder
Câmara, 100 anos
Walter Praxedes
 Ao
completar o centenário do nascimento de Dom Hélder Câmara, ocorrido
em 7 de fevereiro de 1909, faz-se oportuno e justo recordar alguns
momentos marcantes de sua trajetória e o testemunho de sua densa
religiosidade e do seu compromisso com os excluídos.
Nascido em Fortaleza, Ceará, no seio de uma influente família de
jornalistas, advogados, políticos e professoras, e na qual faltava
um padre para confirmar a tradição das famílias ilustres do início
do século, o jovem
Hélder Pessoa Câmara foi ordenado sacerdote em 1931, aos "22 anos e
meio". Desde o início, Hélder Câmara combinou o seu apostolado
com a ação política e,
já em 1932, a convite de
Plínio Salgado, ingressa
na Ação Integralista
Brasileira (AIB) –
versão tupiniquim do fascismo italiano –, tornando-se
o principal propagandista do movimento em seu estado.
A partir do final da década de 1930, o
então padre Hélder passou por um longo e demorado percurso de
conversão para as idéias democráticas e humanistas. O radicalismo
fascista dos integralistas tornou-se inconveniente até para um
regime ditatorial como o de Getúlio Vargas, que colocou a AIB na
ilegalidade. A Igreja Católica tinha um pacto informal de
colaboração com o Governo de Vargas e isso fez com que o Cardeal
Sebastião Leme, do Rio de Janeiro, na época a maior autoridade
eclesiástica no país, ordenasse o afastamento do jovem padre Hélder
Câmara da Ação Integralista Brasileira. Aqui é importante destacar
duas importantes contribuições intelectuais na vida do padre Hélder:
a leitura da obra Humanismo Integral, de Jacques Maritain, e
a convivência, no Rio de Janeiro, com o intelectual e líder leigo
Alceu Amoroso Lima, que também passava por uma transição para o
pensamento democrático.
Na década de 1940, o Brasil passava por
um intenso processo de industrialização e de urbanização, com
grandes ondas migratórias do campo para as cidades e, após o fim da
ditadura de Getúlio Vargas, em 1945, estava também democratizando a
sua vida política sob forte influência dos movimentos sociais e do
Partido Comunista nas áreas urbana e rural. Nesse cenário, a Igreja
Católica começava a se deparar com a expansão das denominações
protestantes, então, Padre Hélder Câmara propôs e organizou uma
vigorosa participação do laicato católico na vida política do país
através dos movimentos de Ação Católica, com ênfase nos específicos
para a juventude, a exemplo da Juventude Operária Católica (JOC) e
da Juventude Universitária Católica (JUC). Com isso,
ele conseguiu difundir entre os
católicos a idéia de uma missão temporal, de responsabilidade de
todos com o cuidado com as condições de vida, com a integridade dos
mais pobres, ao invés da preocupação exclusiva com a salvação da
alma dos fiéis, que caracterizava o ideário católico até então. De
acordo com as palavras de Thomás Bruneau:
Antes da ação da Igreja na
promoção da mudança social, houve a elaboração, por um grupo de
bispos, de uma ideologia que justificava e urgia tal atividade.
A formulação dessa ideologia resultou de um trabalho consciente
de Dom Hélder, a força propulsora que anima o setor progressista
da Igreja. Ele estava consciente de que qualquer instituição,
incluindo a Igreja, deve ter líderes que esbocem as linhas
mestras e estabeleçam objetivos. Era ele um desses líderes,
cercado de um grupo de uns dez outros bispos, duas ou três
vintenas de padres, e mais ou menos o mesmo número de leigos
jovens e ativos (1974, pág. 147).
Como explicitaria melhor nos encontros dos Prelados da Amazônia e do
Vale do São Francisco de 1952, muito longe de propor o caminho da
revolução social como solução para os problemas do país, Dom Hélder
defendia a colaboração entre a Igreja, os sindicatos rurais e o
Estado para a promoção de reformas sociais de base.
No mesmo período, agregou os bispos
brasileiros na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que
ele funda e comanda como Secretário Geral até 1964 e que viria a se
tornar a instituição de mais influência sobre a atualização da
inserção política e social da Igreja Católica no Brasil nos últimos
50 anos.
A condição de representante do
episcopado brasileiro, na época, levou Dom Hélder a apoiar o
Movimento de Educação de Base (MEB), ligado à CNBB e financiado pelo
Governo Federal, que se constituiu como uma iniciativa inédita dos
católicos no campo da educação popular. O objetivo do MEB não era
simplesmente alfabetizar o trabalhador rural, mas possibilitar uma
educação integral que desenvolvesse a consciência política, social e
religiosa dos participantes. Na formação dos educandos, deveria
ocorrer um processo de "conscientização" que começaria com a
alfabetização dos adultos através da valorização do código oral e da
cultura popular. Simultaneamente os participantes passariam a
interpretar a sua condição de vida como resultado das injustiças
existentes na estrutura da sociedade brasileira. O passo seguinte
seria a luta pela transformação da sociedade através da ação
comunitária dos trabalhadores.
Já
como arcebispo de Olinda e Recife e bem-relacionado com a cúpula
militar, que tomaria o poder no país após o golpe de 1964, assume
uma difícil posição de "neutralidade e expectativa" que o leva a se
encontrar várias vezes com os presidentes Castelo Branco e Costa e
Silva, visando "aparar as arestas" no relacionamento entre a Igreja
e o regime ditatorial, até passar a ser também perseguido em razão
da defesa que fazia dos presos políticos. Dom Hélder teve a coragem
de dizer “não” aos poderosos ao denunciar publicamente que o Regime
Militar promovia torturas e o extermínio físico de membros da
oposição ao governo. Sua atuação foi, de fato, heróica e destemida,
um exemplo extraordinário de um homem indignado com as
circunstâncias em que viviam os seus semelhantes em nosso país.
No
plano internacional, Dom Hélder contribuiria para a fundação do
Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) e, nos bastidores do
Concílio Vaticano II (1962-1965), trabalharia em favor de reformas
internas na Igreja Católica, mas procurando não entrar em confronto
com as orientações do Papa Paulo VI, com quem mantinha uma grande
amizade. Requisitado conferencista internacional, a defesa que fazia
pelos direitos humanos, pelo fim da exploração dos países pobres
pelos ricos e pela paz mundial valera-lhe inúmeros prêmios,
distinções e doutorados Honoris Causa, concedidos pelas mais
prestigiosas instituições mundiais, credenciando-o como candidato ao
Prêmio Nobel da Paz nos anos 1970.
Após ser cogitado pelo embaixador Charles Elbrick, dos Estados
Unidos, como um possível presidente do Brasil em uma virtual saída
civil à ditadura militar, os ocupantes do poder trataram de evitar o
crescimento do seu prestígio dentro e fora do país e conseguiram
inviabilizar sua candidatura ao Prêmio Nobel através de uma sigilosa
campanha que contou com a colaboração de empresários noruegueses e
brasileiros, dentre os quais os donos do jornal O Estado de São
Paulo, para influenciar na decisão do Comitê do Parlamento
Norueguês, responsável pela atribuição do prêmio. Para silenciá-lo,
o governo brasileiro proibiu que notícias a seu respeito fossem
veiculadas na imprensa. Vários de seus colaboradores foram
perseguidos, presos e torturados, um dos quais chegando a ser
barbaramente assassinado, o jovem padre Antonio Henrique Pereira
Neto, em um crime ainda não totalmente esclarecido.
Devido a uma trajetória polêmica e conturbada, vivenciada na
intersecção entre religiosidade e engajamento político, o
L'Osservatório Romano, órgão oficial do Vaticano, comparou Dom
Hélder Câmara a São Francisco de Assis, vendo-o como "um homem de
Deus, um homem de Cristo, um homem dos pobres...". Os adversários
ora o consideraram como um "defensor dos adeptos de Adolf Hitler no
Brasil", ora como um "Fidel Castro de batina".
Para o estudioso do catolicismo brasileiro Ralph Della Cava, "não
resta dúvida que Dom Hélder faz par com Getúlio Vargas como líder
político consumado" e, ao lado dos cardeais Arcoverde e Leme, "...
está entre os maiores líderes religiosos no Brasil dos últimos 100
anos” (Della Cava, 1975, pág. 34).
Foi
pelo seu exemplo de vida que Dom Hélder se tornou esta figura
emblemática inesquecível. O boicote que Dom Hélder sofreu por anos
por parte do regime militar brasileiro; o fato dele ter sido
preterido várias vezes para ganhar o Prêmio Nobel da Paz e até mesmo
o silenciamento que o Vaticano impôs sobre ele, restringindo suas
viagens internacionais e suas manifestações públicas, considero que
são episódios secundários diante da grandeza de sua obra e do seu
legado. Ele não deixou de fazer o que acreditava que fosse a sua
missão enquanto teve condições para isso e deixou-nos uma grande
herança, como a firmeza dos seus princípios, sempre combinada com
uma atitude totalmente aberta para o diálogo. Dom Hélder sabia onde
pretendia chegar com a sua voz e com o testemunho da sua vida e,
nesse sentido, ele pode ser considerado um grande estrategista, pois
usava a sua capacidade pessoal extraordinária para defender os
posicionamentos políticos mais democráticos e socialmente generosos.
Nessa empreitada, não podemos esquecer o seu incansável e
esperançoso esforço como religioso para reformar a Igreja de Cristo,
livrando-a dos compromissos com os poderosos e aproximando-a cada
vez mais das necessidades das camadas populares.
Dom Hélder faleceu em Recife no dia 27
de agosto de 1999. Como exemplo de vida nos deixou a sua capacidade
inigualável de dialogar e conviver com pessoas comuns, grupos
políticos e até religiosos que o consideravam como adversário.
Também transmitiu-nos sua firmeza para denunciar desmandos e para
propor mudanças sociais profundas, inclusive na estrutura da Igreja
Católica. Ao mesmo tempo, marcou-nos a sua serenidade na busca do
entendimento através de uma atuação política pacífica. Hoje, quando
propomos o respeito às diferenças e a tolerância nas relações
sociais, não estamos apresentando nenhuma novidade em relação ao
discurso e à prática de Dom Hélder nas décadas de 1960 e 1970. Esse
missionário soube preservar e transmitir valores que atualmente
animam os espíritos mais generosos e comprometidos com a construção
de uma sociedade justa, democrática e igualitária.
Referências
BRUNEAU, T. Catolicismo brasileiro em época de transição. São
Paulo, Loyola, 1974.
DELLA CAVA, Ralph. “Igreja e Estado no Brasil do século XX: sete
monografias recentes sobre o catolicismo brasileiro, 1916/1964”.
Estudos CEBRAP, nº 12, São Paulo, 1975, pp. 5-52.
PILETTI, N. e PRAXEDES, W. Dom Hélder Câmara: entre o poder e
a profecia. São Paulo, Ática, 1997.
PRAXEDES, W. Dom Hélder Câmara e a
educação popular no Brasil. Universidade de São Paulo, Faculdade
de Educação, São Paulo, 1997. Dissertação de mestrado.
SVERDRUP, J. Relatório sobre Dom Hélder Câmara. Prêmio Nobel
da Paz, 1970. Oslo, Grondahi e filho impressor, 1970.
WANDERLEY, L. E. Educar para transformar. Petrópolis, Vozes,
1984. |
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