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PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil


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Falácias acadêmicas, 5:
O mito do complô dos países ricos
contra o desenvolvimento dos países pobres
Paulo Roberto de
Almeida
1. A busca de
culpados (sempre deve existir algum...)
Dentre todos os
mitos já explorados e a serem examinados nesta avaliação serial dos
equívocos mais renitentes no meio acadêmico, nenhum parece tão
poderoso quanto o que pretende que os países ricos, que teriam
outrora alcançado o seu desenvolvimento graças a uma série de
políticas por eles hoje recusadas aos países emergentes, estariam
agora ativamente empenhados em impedir que esses países,
eufemisticamente ditos em desenvolvimento, possam galgar,
igualmente, a escada da prosperidade econômica e os degraus da
capacitação industrial e tecnológica, tornando-se, como eles,
desenvolvidos.
Continuemos, pois, o exame dos equívocos
selecionados nesta série
pela análise crítica de um dos exemplos mais notórios da “teoria
conspiratória da história”, a tese do complô dos ricos contra os
pobres, a presumida ação mancomunada dos desenvolvidos contra o
crescimento e o progresso material dos países pobres ou menos
desenvolvidos. O conjunto de “teses” defendidas pelos partidários do
que classifico desde já como mais uma falácia, não deixa de
apoiar-se em exemplos históricos que estariam aparentemente em linha
com os argumentos dos defensores dessa teoria conspiratória, em
especial no que se refere às políticas setoriais (industrial e
comercial, em especial) e à suposta ação clarividente do Estado
“empreendedor”.
2. Friedrich List:
versão século 21
O mais conhecido defensor contemporâneo
dessa teoria é o economista coreano, atualmente na Cambridge
University, Ha-Joon Chang, que se utiliza da famosa imagem forjada
pelo seu predecessor alemão de 150 anos atrás, Friedrich List, para
afirmar que os países ricos estão querendo “chutar a escada” que os
levou a ser o que hoje são. Este é, aliás, o título de um de seus
livros mais famosos.
Sua obra mais recente, Bad
Samarithans, também publicada no Brasil, segue na mesma linha.
Promovida pela Ordem dos Economistas do Brasil, a obra constituiu o
centro de atração de um seminário realizado em São Paulo, em janeiro
de 2009, sob a responsabilidade da Ordem e da Fundação Getúlio
Vargas, em torno de um programa de estudos focado na revisão do
pensamento econômico sobre o desenvolvimento.
Seguindo as idéias de
Chang, o coordenador da Escola de Economia
da FGV-SP, Paulo Gala, acredita que “as experiências de maior
sucesso observadas nos anos recentes, Coréia do Sul e Taiwan, nos
anos 70 e 80, e China e Índia nos 90, basearam-se justamente em
políticas contrárias às recomendações de Washington”.
Como já tratamos do problema do Consenso de Washington em ensaio
anterior desta série,
não iremos nos debruçar novamente sobre mais esse mito do pensamento
acadêmico. Mas caberia registrar os “seis mitos neoliberais” que
este professor brasileiro considera que vêm sendo propostos pelas
instituições símbolo da globalização capitalista e que, em sua
opinião, se revelaram incapazes de produzir os resultados
prometidos.
Os “seis mitos neoliberais”, vários
deles fictícios, seriam os seguintes: “1) os países ricos atualmente
alcançaram seu sucesso através de políticas comprometidas com o
livre mercado; 2) o neoliberalismo funciona; 3) uma globalização
neoliberal não pode e não deve ser interrompida; 4) o modelo
americano de capitalismo neoliberal representa o ideal, o qual todos
os países em desenvolvimento devem replicar; 5) o modelo do Leste
Asiático é idiossincrático, o modelo americano é universal; 6)
países em desenvolvimento precisam de disciplina fornecida pelas
instituições internacionais e por instituições politicamente
independentes (Banco Central, por exemplo)”.
Não vou agora rebater argumentos que são mistificadores, em sua
maior parte, inclusive porque o autor em nenhum momento traz
qualquer comprovação de que esse tipo de proposição simplista venha
sendo defendido pelas organizações “neoliberais” (eu apenas
recomendaria que ele lesse mais história do mundo, estudasse um
pouco mais de economia e observasse a realidade, simplesmente). Para
preservar o foco, vamos tratar aqui apenas dos argumentos centrados
sobre a “teoria do complô”, que constitui todo um capítulo na
história das falácias acadêmicas.
3. Uma história secreta do capitalismo?
O subtítulo do mais
recente livro de Ha-Joon Chang já constitui, por si só, uma prova
eloqüente em favor de uma tese, aliás, uma verdadeira teoria, muito
disseminada em certos meios acadêmicos. Colocada de maneira
simplista, mas nem por isso menos correta, essa tese diz mais ou
menos o seguinte: os países ricos – durante os momentos iniciais de
sua decolagem econômica, e na fase de consolidação do
desenvolvimento social – puderam exercer toda a latitude de
políticas econômicas: desde as mais liberais – quando podiam, ou
precisavam – até as mais protecionistas e subvencionistas – estas
últimas, de maneira mais intensa ou freqüente, e sem que alguma
entidade “ortodoxa”, do tipo do FMI ou o Banco Mundial, viesse lhes
dizer o que deveriam ou poderiam adotar como políticas
macroeconômicas e setoriais – até que puderam garantir para si um
processo de crescimento sustentado, marcado pela autonomia
tecnológica e a plena soberania sobre suas principais políticas
públicas.
Uma vez alcançado o
estágio em que se encontram, ou seja, de países líderes nas
classificações de prosperidade econômica e do avanço tecnológico,
eles se empenham todos – como se tivessem combinado tudo em algum
local secreto de planejamento de maldades capitalistas – em impedir
que países retardatários e os subdesenvolvidos, de maneira geral, os
imitem, copiem o que fizerem, enfim, que os alcancem, do alto de seu
progresso econômico e capacitação tecnológica. Numa reedição
prolongada da falácia original de List e, de maneira tão perversa
quanto calculada, os países ricos “chutam a escada” que permitiria
aos atrasados chegar onde eles chegaram; constroem, assim, um fosso
intransponível entre eles, um grupo pequeno de egoístas
desenvolvidos, e todo o resto do mundo, um imenso conjunto de
eternos condenados ao atraso e à pobreza (e, no mesmo movimento,
levados a transferir renda para os de “cima”, como agravante).
Trata-se de uma
caricatura, claro, mas apenas em parte. Vejamos a síntese que faz
seu principal defensor, e prefaciador, no Brasil, Luiz Carlos
Bresser Pereira, desse tipo de teoria propagada com maior
competência por Chang: “Em Maus Samaritanos, Ha-Joon Chang
faz uma crítica devastadora da teoria econômica
ortodoxa ou neoclássica ao mostrar que suas propostas de
política econômica são para uso externo, não
sendo utilizadas pelos países ricos que as
propagam” (p. xiii). Não contente em aderir à teoria conspiratória
da história, Bresser Pereira agrava o seu caso, insistindo na tese
do complô dos ricos contra os pobres seguidores infelizes do
terceiro mundo. Vejamos o que ele diz, numa reconstituição histórica
do processo de desenvolvimento econômico em escala mundial: “Desde a
Revolução Industrial a teoria econômica tem
sido um instrumento para justificar internamente o
capitalismo e para evitar que os demais
países que ficaram atrasados no seu processo de industrialização
também cresçam e lhes façam concorrência” (p. xiii). Trata-se, sem
dúvida alguma, de uma grave acusação a todos os teóricos da economia
ortodoxa ou neoclássica, que poderiam invocar, se fosse o caso, o
sentido moral de sua atividade, posto que transformados em simples
feitores de uma espécie de “colonização mental” conduzida a partir
de seus centros de estudo. Seria risível, se não fosse eticamente
questionável.
O professor da
FGV-SP parece apreciar piadas históricas, já que Bresser Pereira tem
prazer em reincidir na teoria: “A onda ideológica neoliberal que tem
início nos anos 1970 tem como uma de suas motivações essa
neutralização [dos concorrentes dos países em desenvolvimento], como
objetivo nunca confessado, e jamais plenamente consciente” (p. xiv).
Todos os elementos da teoria conspiratória estão presentes, posto
que, segundo Bresser, Chang não hesita em “criticar os ‘maus
samaritanos’ – os agentes dos países ricos e do neoliberalismo que
aconselham mal os países em desenvolvimento,
que afirmam estarem ajudando-os quando, de fato, estão criando
obstáculos ao seu desenvolvimento” (p. xv). Esses agentes seriam uma
combinação de professores adeptos da teoria neoclássica, os
funcionários e consultores das organizações
internacionais mais importantes na área econômica (FMI, BIRD,
OMC) e os representantes dos países ricos que conduzem programas de
ajuda e de cooperação técnica para os países pobres.
Mas não vale a pena
continuar a falar da tese principal por meio de intérpretes de
segunda mão; melhor ir direto ao original. Dois equívocos parecem
estar em causa na construção desse tipo de mito que recebeu a
poderosa contribuição de um economista que se lança de maneira
ousada (embora leviana) nos caminhos da história: (a) a falácia de
que os países ricos se tornaram o que eles são atualmente em virtude
de um conjunto racional de políticas direcionadas a tal objetivo,
aplicadas de forma sistemática e consciente, a despeito de
contrariarem o pensamento econômico liberal de sua época; (b) e
outra falácia, já pertencente à “teoria conspiratória da história”,
é a de que esses países têm-se empenhado, desde então, em impedir
que os pobres os alcancem, armando ardilosamente um complô para
obstar a que os atrasados cheguem ao topo da escada.
Esses dois
argumentos se baseiam numa leitura seletiva, incompleta e deformada
da história, e são incapazes de se sustentar pela lógica de
funcionamento do sistema capitalista (na verdade, da economia de
mercado), ou pelo seguimento da experiência concreta de diferentes
países engajados desde então no caminho do desenvolvimento, alguns
bem sucedidos, outros, infelizmente, não.
4. Políticas
estatais como fator de desenvolvimento?
Chang, tanto no seu
livro anterior, Chutando a Escada, como neste atual, Maus
Samaritanos, conta a mesma história, embora com argumentos
ligeiramente diferentes, mas por meio do mesmo uso seletivo dos
dados históricos. Na verdade, não é tanto da história que ele
pretende falar – inclusive porque não se trata de um historiador
econômico, nem, aliás, de um economista historiador – mas da
“história” presente, ou o que ele pretende por tal. Essa “história”
seria dominada pelas políticas neoliberais e pela imposição das
“regras do Consenso de Washington” aos países em desenvolvimento, o
que resultaria, assim segue a teoria do complô, em que estes não
possam o que antes fizeram os países ricos.
Todos sabem quais
são essas políticas e não seria preciso estender-se em demasia em
sua descrição: políticas macroeconômicas estáveis e responsáveis,
redução do peso do Estado, liberalização comercial e do regime de
investimentos estrangeiros, defesa dos contratos e dos direitos de
propriedade intelectual, banco central independente, etc. Existe em
vários setores críticos – mas que provavelmente nunca leram os
textos originais – uma grande confusão entre, de um lado, o que pode
ser eventualmente recomendado pelos conselheiros das instituições de
Bretton Woods e, de outro lado, as regras originais do economista
John Williamson, que detém o copyright – ou pelo menos os
moral rights – sobre o chamado Consenso de Washington. Este
“consenso”, em sua versão original, não compreendia nem a taxa de
câmbio fixa (ele recomendava flexível), nem a liberalização do setor
financeiro (ou dos movimentos de capitais, para ficar em algo mais
tangível).
Não é o caso de
dirimir essa confusão neste momento, tanto porque isto não parece
preocupar aqueles que criticam de maneira leviana as “regras” de
Washington, em primeiro lugar o próprio Chang. Sua principal missão
é a de desmantelar essas regras, posto que elas seriam prejudiciais
aos interesses atuais dos países em desenvolvimento. Usando mais
suas impressões do que a pesquisa histórica, Chang recomenda o
contrário: sua sugestão é a de que os países pobres façam aquilo que
ele imagina que os países hoje ricos teriam feito nas etapas
iniciais de crescimento e consolidação de seus processos de
autonomia tecnológica.
E quais seriam essas
políticas? Elas são muito diversas, obviamente, sendo que em alguns
casos sequer houver políticas claramente definidas ou implementadas
de maneira contínua segundo um plano pré-determinado. Mas Chang, em
sua leitura seletiva dos dados históricos, identifica basicamente
dois conjuntos de políticas que teriam sido usadas pelos países
ricos em sua caminhada racional para o desenvolvimento: políticas
industriais, do tipo “indústria infante” – tal como recomendado por
List e, antes dele, pelo Secretário americano do Tesouro, Alexander
Hamilton –, e comerciais. As principais medidas seriam o apoio
direto às indústrias nacionais na fase inicial de instalação, por
meio de subsídios, incentivos fiscais, proteção tarifária e outros
tipos de defesa comercial e dirigismo setorial. Ele é bastante
detalhista na coleta de medidas governamentais, ao longo do século
19 (e mesmo antes), que teriam sido mobilizadas para sustentar a
industrialização desses países. O resultado entusiasma os dirigistas
de várias épocas e de vários países, sobretudo aqueles que também
pretendem criticar o suposto complô dos ricos e dos “washingtonianos”.
O fato é que os
argumentos de Chang são distorcidos, seus “fatos” são incompletos e
falham, lamentavelmente, em estabelecer as relações causais efetivas
entre as medidas industrializantes apontadas por ele e o
desenvolvimento dos países considerados, processo necessariamente
mais complexo do que sua visão simplista da história. Ele não
considera uma série imensa de outros fatores institucionais – tal
como destacada por historiadores econômicos como Douglass North, por
exemplo – e passa completamente por cima dos fatores culturais e
educacionais que sustentaram – não apenas a industrialização, mas –
a transformação tecnológica abrangente que teve lugar em vários
desses países (alguns deles não necessariamente industriais, mas
“essencialmente agrícolas”, como Dinamarca e Nova Zelândia).
É, por outro lado,
igualmente simplificadora sua visão de que foram aquelas medidas
estatais que provocaram a industrialização e o crescimento
econômico; como se os países ricos tivessem “planejado”
racionalmente seu processo de desenvolvimento, por uma série de
medidas encadeadas no tempo, e estruturalmente integradas umas às
outras, todas elas com o objetivo expresso – e talvez
pré-determinado – de provocar essa modernização. Ele certamente não
considera a contraditória e muitas vezes improvisada colcha de
retalhos que constitui a trama da história real, na qual,
indivíduos, grupos de pressão, ideologias e, não menos importante,
reações defensivas ou “imitativas”, interagem de modo desordenado,
ao sabor das relações de forças que se estabelecem na sociedade,
para produzir um resultado que está longe de ser aquele desejado por
categorias específicas de atores sociais.
A história não é
certamente um livro branco, no qual governos supostamente
esclarecidos podem ditar ordens e regras para sua implementação
racional: ela é, bem mais, um pesado carro de bois que avança
lentamente por uma estrada esburacada, com interrupções e deslizes
que pouco têm de intencional ou planejado. Mesmo admitindo-se a
existência de políticas claras para favorecer este ou aquele
resultado antevisto – como costumam ser as medidas de subsídio
industrial, de proteção tarifária ou de apoio logístico – é muito
difícil ao honesto historiador econômico separar fatores estruturais
e contingentes no complexo processo de desenvolvimento dos países
atualmente ricos; a começar que eles não estavam desenhando
políticas de desenvolvimento e sim respondendo a impulsos que lhes
vinham de dentro e de fora, e nem sempre, aliás, pela mão dos
governos.
Haveria muito mais a
dizer sobre a peculiar leitura da história do professor Chang. Mas a
discussão poderia nos levar muito longe, no espaço limitado deste
ensaio. Bastaria, talvez, dizer isto: se o protecionismo comercial e
as políticas dirigidas em apoio ao setor industrial fossem o sucesso
que ele alega, nesse caso, os países da América Latina, que, durante
várias décadas, praticaram ambos em doses altamente concentradas,
deveriam ser hoje não apenas nações altamente industrializadas, como
tecnologicamente desenvolvidas, o que obviamente não é o caso. Por
outro lado, em sua própria Coréia natal, Chang deixa de ver todos os
fatores institucionais e educacionais que favoreceram o seu
desenvolvimento, e se concentra unicamente nas políticas
industrializantes e de cunho comercial, que teriam, supostamente,
impulsionado o crescimento e a transformação tecnológica. Em
conclusão, como economista, Chang pode até ter seu valor de mercado,
mas como historiador ele falha miseravelmente em comprovar as suas
teses.
5. A arte de
chutar escadas: uma fábula fabulosa
O que dizer, então,
da outra parte deste mito ridículo, que consiste em afirmar que os
países na vanguarda do progresso industrial atuam deliberadamente
para impedir outros de os seguirem na “escada” do desenvolvimento?
Essa tese é tão ridícula – como compete a uma “boa” teoria
conspiratória da história – que nem valeria o esforço de
desmenti-la, se não fosse a existência de tantos crédulos nos países
retardatários, sempre em busca de um bode expiatório para culpá-lo
pela sua industrialização deficiente ou seu desenvolvimento
insatisfatório. Mais uma vez Chang falha em trazer as “provas
históricas” desse tipo de argumento, e apenas avança as
recomendações dos atuais “conselheiros washingtonianos” como a
evidência de que os países ricos desejam manter todos os demais no
fundo do poço do não-desenvolvimento: para isso, eles “chutam a
escada”, num sentido metafórico, claro, pois a única coisa que fazem
seria recomendar políticas que inviabilizariam a “subida da escada”,
mantendo os retardatários na eterna dependência dos que estão no
topo.
Curioso que esses
mesmos “alpinistas industriais” investem nos retardatários, e não
apenas para contornar barreiras comerciais e outras restrições ao
capital estrangeiro, como sabemos por todos os exemplos dos
movimentos de capitais de risco na história econômica mundial. Mais
curioso ainda é que todo esse ardor obstrucionista não impediu os
Estados Unidos e a Alemanha, no século 19, e os demais países
avançados, na passagem da segunda revolução industrial – grosso modo
a partir dos anos 1870 – de galgarem eles também a escada da
industrialização e do desenvolvimento econômico. Seria por que a
história só começa, de verdade, quando as ex-colônias pretendem se
industrializar? Mas tanto o Japão “feudal”, como a Coréia “colonial”
desmentem a visão conspiratória do bloqueio dos ricos exercido
contra os pobres periféricos, como isso também é cabalmente
desmentido por outros exemplos atuais em outras regiões.
Certo, Chang e seus
seguidores poderiam argumentar que os “asiáticos” – que são os
exemplos que ele seguidamente invoca para comprovar a sua “teoria” –
justamente não seguiram as recomendações do Consenso de Washington e
por isso puderam se desenvolver com base em políticas ativas;
aquelas mesmas supostamente utilizadas outrora pelos países ricos e
que agora eles não mais recomendam aos retardatários (ao contrário,
buscam impedir por todos os meios). A história é, contudo, mais
complexa. Assim como Chang não conseguiu estabelecer relações de
causalidade entre as suas “políticas ativas” e o progresso
industrial e tecnológico nos países hoje ricos, ele tampouco
consegue provar de maneira cabal que são essas políticas que estão
na origem do desenvolvimento relativo dos países asiáticos.
O fato é que os
países de desenvolvimento rápido na Ásia – e também em algumas
outras regiões, como no Brasil, tempos atrás – conseguiram
“construir” condições institucionais que puderam atender,
eventualmente, a alguns dos “requerimentos” – talvez necessários,
mas certamente não suficientes – que os colocaram no caminho da
autonomia tecnológica e industrial; entre eles fatores de natureza
fiscal, tributária, logística e, acima de tudo, de cunho cultural e
educacional compatíveis com as “regras” do desenvolvimento. O
processo é certamente complexo e reduzi-lo a medidas de política
industrial ou comercial, quaisquer que sejam os méritos respectivos
dessas últimas, pode tornar impossível o ato de manter-se fiel ao
registro histórico e à realidade de determinadas experiências
concretas.
De resto, existem
tantos exemplos de sucesso quanto de fracasso na história da
industrialização contemporânea – como a Europa do Sul ou a América
Latina, até um período ainda recente da história econômica mundial –
e estes últimos, curiosamente, não são enfatizados por Chang em sua
“reconstituição” do desenvolvimento de uns e outros. O trabalho do
historiador – a fortiori do “planejador” de desenvolvimento,
também – envolve presumivelmente a consideração de todos os casos
relevantes, e não apenas os de sucesso. É verdade que aprendemos
tanto, ou mais, com os casos de fracasso – e mesmo com desastres
espetaculares – pois são eles que podem nos indicar a combinação
errada da “receita” do desenvolvimento – se é que ela existe –,
quando os fatores de sucesso podem ser múltiplos e difíceis de
determinar.
Como, aliás, indica
a história da própria humanidade – na qual a maior parte dos povos
ainda vegeta em baixos níveis de prosperidade e de bem-estar – o
mundo é feito bem mais de “fracassos” que de “sucessos”, ainda que
esses conceitos sejam altamente dúbios, para não dizer completamente
equivocados. Dos 35 a 40 bilhões de seres humanos que já viveram na
superfície do planeta, provavelmente um número muito reduzido,
equivalente, digamos, a 5% desse total, desfrutou, até hoje, de uma
esperança razoável de vida, com o gozo simultâneo de bons padrões de
alimentação e de bem estar. A afluência material – isto é, a
“libertação” da penúria, da fome e da doença – ainda é algo
relativamente “recente” na história da humanidade, correspondendo,
talvez, aos últimos dois ou três séculos de avanços na agricultura e
de progressos industriais.
Ao se questionarem “por que o mundo todo
não é desenvolvido?”,
os historiadores economistas acabam chegando aos verdadeiros fatores
de progresso material e de avanços tecnológicos que, longe de terem
sido provocados por “políticas industriais e comerciais”, têm a ver,
basicamente, com os ganhos de produtividade do trabalho humano ao
longo do tempo e em diferentes sociedades, aspecto eminentemente
vinculado ao desenvolvimento cultural, de modo geral, e à educação
básica e técnica, de modo particular. Estes são fatores que um
economista historiador – mas Chang não é um – deveria considerar na
avaliação das diferentes experiências nacionais de desenvolvimento,
não um aspecto, apenas, da ação governamental em favor deste ou
daquele ramo industrial.
Quanto ao complô dos
países ricos para “chutar a escada” dos retardatários, bem, ficou, é
verdade, faltando tratar desse “aspecto” da história com maior grau
de detalhe. Mas a crença é tão ridícula que me constrange ter de
levantar argumentos para derrubar hipótese tão fantasiosa. Para
começar, ela contraria a “lógica” – se alguma existe – da economia
de mercado (e do capitalismo, diriam alguns marxianos mais
razoáveis) que consiste em ampliar continuamente a “esfera da
acumulação” – para retomar esse linguajar barroco – e conectar os
mercados de forma contínua. Como já tinha explicado Marx em 1848, o
capital busca sempre derrubar barreiras feudais e muralhas de modos
de produção ancestrais, para instalar suas máquinas infernais, que
seriam teoricamente suscetíveis de submeter à sua dominação
implacável os povos de todo o mundo, ainda que convertidos em um
“exército industrial de reserva” (logicamente, para deprimir os
salários dos trabalhadores na pátria de origem do capital; para o
que mais seria?). Por que, nessas condições, desejaria o capital
restringir as possibilidades de desenvolvimento capitalista na
periferia? Deixo a resposta – se é que existe alguma, racional,
quero dizer – aos adeptos da teoria do bloqueio capitalista.
A rigor, essa tese
já era inoperante, inaplicável e “fantástica” na época do próprio
mentor de Chang, o economista alemão Friedrich List – que publicou
seu livro de economia política em meados do século 19 – e parece-me
que ela continua a ser tudo isso, 150 anos depois. De fato, a teoria
conspiratória não se sustenta, e só consegue desmoralizar seus
partidários, a menos, claro, que eles sejam imbuídos dessa crença
numa “história secreta do capitalismo”, que só consegue causar
frisson naqueles imbuídos do “secreto desejo” de enterrar o
(mal)dito sistema. A verdade é que, numa economia de mercado, que
combina diversos tipos de capitalismos, o processo de
desenvolvimento adota caminhos diversos, nenhum deles controlável
por alguma força social específica, e muito menos por governos ou
atores sociais estrangeiros. Nessas condições, imaginar que
capitalistas e burocratas do FMI e do Banco Mundial se reúnam na
calada da noite – ou talvez nas reuniões anuais do Fórum Econômico
Mundial – para encontrar maneiras de impedir países pobres de
ascender na escala do desenvolvimento, cozinhando para eles receitas
de não-desenvolvimento, acreditar nisso representa bem mais do que
defender alguma teoria conspiratória da história e redundaria,
simplesmente, em ofender a mais comezinha inteligência econômica
(além de fazer pouco caso, obviamente, da própria inteligência dos
burocratas e dirigentes de países pobres, ou pelo menos daqueles que
não foram “comprados” pelos primeiros).
Quem adota esse tipo
de postura – histórica ou econômica – também costuma enveredar por
outras teorias fantasiosas para explicar o sucesso de alguns e a
“derrota” de outros, posto que as teorias conspiratórias se
retro-alimentam e produzem, de contínuo, novas razões para velhos
fracassos, como, por exemplo, a persistente pobreza e a imensa
desigualdade na maior parte dos países latino-americanos. Muitos –
espera-se, ao menos, que este número seja decrescente – acreditam
que isso se deve à exploração imperialista e à existência de
estruturas capitalistas produtoras de miséria e de desigualdade; mas
eu não preciso antecipar o que penso a respeito, não é mesmo? (disso
tratarei em futuro ensaio). Os que assim “pensam” – se o verbo se
aplica – não estão apenas ofendendo a simples verdade dos fatos e
distorcendo a natureza do processo histórico; eles também estão
diminuindo suas próprias chances de ascenderem a uma explicação mais
consistente sobre as verdadeiras causas do atraso de alguns povos e
do progresso de outros. De certa forma, eles estão “chutando a
escada” que os levaria a um patamar superior de conhecimento.
Mas este parece ser
o destino de muitas falácias acadêmicas: baseadas num contato
superficial com a realidade, elas acabam desenvolvendo uma
explicação de “senso comum” que não é apenas redutora e simplista,
mas que se alimenta de suas próprias crenças equivocadas.
Até a próxima
falácia...
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