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CIBÉLIA
RENATA DA SILVA PIRES
Mestre em Filologia e Língua
Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora
do projeto de pesquisa da USP intitulado “Formação e expansão do
português paulista ao longo do Rio Tietê até o Mato Grosso a
partir do século XVI”, financiado pela FAPESP
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O uso da língua
geral e sua restrição na América portuguesa
Cibélia Renata da Silva Pires
O objetivo deste artigo é proporcionar a
discussão sobre a formação da chamada língua geral, também conhecida
como “língua franca”, e a política de imposição da língua portuguesa
levada a cabo pelo Marquês de Pombal através da Lei do Diretório dos
Índios (1757).
A proibição do uso da língua geral pelo
Reino acelerou o processo de expansão da língua portuguesa por todo
o território brasileiro, atestando também no plano lingüístico a
hegemonia portuguesa na colônia americana. O que foi nos mostrado
pela história social é que mesmo com a proibição do uso da “língua
franca” ou língua geral, esta continuou sendo utilizada como a
“língua caseira” falada principalmente pelos mamelucos ou
brasilíndios, sendo difundida mais tarde pelos bandeirantes que
penetraram no interior do Brasil à procura de índios e pedras
preciosas. Dessa variante lingüística, disseminada nos sertões pelos
bandeirantes, foi constituído o dialeto caipira que ainda hoje pode
ser encontrado em certas localidades do interior, principalmente em
São Paulo.
A formação e o uso da língua geral
De acordo com Rodrigues (2002), hoje, no
Brasil, falam-se cerca de 170 línguas indígenas, sendo que, na época
em que chegaram os primeiros colonizadores, esse número chegava a
ser o dobro do que é hoje. Vários fatores contribuíram para que esse
número fosse diminuindo dia após dia, dentre eles: desaparecimento
dos povos que a falavam através de campanhas de extermínio, doenças,
aculturação indígena entre outros.
Dentre as várias línguas indígenas,
faladas durante o período colonial, estava o Tupinambá, mais
conhecida como Tupi. Essa língua foi de tão grande importância nos
contatos entre portugueses e índios nos séculos XVI e XVII que se
expandiu junto com as bandeiras e teve influência lexical sobre a
língua portuguesa, a qual incorporou vários de seus vocábulos: “Já
tive muitas vezes ocasião de notar que, por toda parte onde
existiram índios, os europeus, destruindo-os, adotaram vários de
seus costumes e lhes tomaram muitas palavras da língua”
(Saint
Hilaire, 1974, p.72).
No início, os portugueses que aqui
chegaram vinham de regiões geográficas diferentes e pertenciam a
classes sociais distintas, falando, por isso, um português bem
diversificado e heterogêneo. Estudos de dialetologia portuguesa
apontam que não havia uma comunidade lingüística homogênea e que a
grande maioria era proveniente de algumas regiões específicas de
Portugal, como o Minho, Beira, Estremadura e Alentejo. Segundo
Mattos& Silva (2004, p.74), esses portugueses chegaram ao Brasil em
1500, mas continuaram a vir em ondas sucessivas, ora atingindo
momentos de pico como no período da corrida do ouro.
Havia no Brasil, nesta mesma época,
várias línguas indígenas relacionadas à base cultural de cada tribo.
Entre estas tribos, havia línguas que possuíam entre si certas
afinidades morfológicas, sintáticas e semânticas e, por causa deste
fenômeno, foi possível estabelecer um conjunto de relações ou
intercâmbio lingüístico através da adoção de uma língua comum. Deste
contato entre língua indígena e diversas variedades lingüísticas
regionais e sociais portuguesas foi criada uma língua “franca” para
que os colonizadores pudessem estabelecer um contato efetivo com os
índios que também não entendiam o português. Cada indígena falava
sua língua original com os membros do grupo e, quando em contato com
os portugueses ou outras tribos, utilizavam- se desta língua franca:
(...) Admitindo a afinidade troncal
tupi-guarani, cada indivíduo de cada tribo continuava com sua
língua para fins intratribais. Mas, para fins extratribais e
intertribais – poderosamente estimulados pela subversão trazida
pelo conquistador –, recorria à língua geral, que lhe era afim,
com o que se fazia bilíngüe na mesma, digamos, estrutura
linguageira. (Houaiss,
1992, p.80).
Essa língua popular, comum, usada por
índios, mestiços e portugueses, ficou conhecida na segunda metade do
século XVII como língua geral e deveria ser aprendida por escravos e
índios pelo menos para sua sobrevivência.
Como esta língua geral ocupou toda a
Costa Atlântica, é natural que houvesse variantes de uma língua
geral. Deste modo, no Maranhão e no Pará (século XVII),
constituiu-se, a partir do Tupinambá, a língua geral do Norte ou
língua geral amazônica. Essa foi a língua usada por tropas e missões
que estabeleceram núcleos de povoamento no vale amazônico durante os
séculos XVII e XVIII e que passou a ser usada não somente para
catequese, mas no convívio diário e nas relações sociais até o
século XIX, expandindo-se desde o vale amazônico até a fronteira com
o Peru, Colômbia, chegando até mesmo a lugares nunca habitados por
índios Tupi-Guarani. A língua geral amazônica, que no século XIX
recebeu o nome de Nheengatú, ainda hoje se mantém viva não só como
língua de comunicação, mas como língua materna, principalmente na
bacia do rio Negro.
Em São Paulo, com um pouco de diferença
da língua dos Tupinambás, com origem na língua dos índios Tupi de
São Vicente e alto rio Tietê, surgiu a chamada língua geral
paulista, que se expandiu durante o século XVII com o movimento das
Monções que, de São Paulo, seguiu com destino a Minas Gerais,
Cuiabá, Mato Grosso e Goiás e deixou sua marca no vocabulário das
pessoas e na toponímia dos lugares. Um exemplo disso é o próprio
nome da cidade de Piracicaba, cujo nome é de origem Tupi que, de
acordo com o dicionário Houaiss (2001) significa “Lugar aonde chegam
os peixes” e cuja localização se encontra na referida rota monçoeira.
Quanto à influência do tupi-guarani
sobre o português, Ribeiro (1946) afirma que isso se deu, por meio
direto, no vocabulário relativo à fauna, flora e, por meio indireto,
sobre a língua portuguesa nos seus diversos campos fonético,
fonológico, sintático e semântico. O autor não explica o que seria
esta “influência indireta”, mas é muito claro quando afirma que o
“dialeto dos bandeirantes”, ou por ele também chamado de “dialeto
histórico”, se dissolveu no linguajar típico das populações roceiras
de São Paulo, Minas, Goiás, Mato Grosso e Paraná.
Assim, por todo o hinterland
brasileiro foi difundido um português arcaico que, em contato com a
língua tupi, transformou-se em uma língua franca que, supostamente,
deu origem ao nosso dialeto caipira que ainda hoje é falado em
alguns dos diversos núcleos fundados durante o período de incursões
bandeirantes e rotas monçoeiras.
A repressão à língua geral e a
formação do dialeto caipira
A nova situação política e econômica em
Portugal no século XVIII e as repercussões da ideologia iluminista
na mentalidade portuguesa, conduziram a administração pombalina a
uma nova orientação pedagógica, cujos reflexos chegaram até a sua
colônia americana.
Durante o reinado de D. José I
(1750-1777), seu ministro, o Marquês de Pombal, deu seqüência às
reformas do período anterior,
fazendo então uma modernização do ensino, bem como de seus métodos,
apoiando-se no método de Verney (Soares,
2005). Durante este período, a Companhia de Jesus já não dispunha
mais do monopólio do ensino e, em 1757, a atuação de Pombal na
América foi implacável com a criação da lei que extinguia o uso da
língua geral.
Segundo dados mostrados na pesquisa
feita por Mariani (2004, p.145), o Marquês de Pombal expulsou os
religiosos do território brasileiro para evitar a possibilidade de
constituição de um estado jesuítico, com uma língua própria, em
terras da Coroa portuguesa, justamente pelo fato de os jesuítas
priorizarem a língua brasílica em sua catequese e por terem o
domínio sobre um grande número de índios. Quem chama a atenção para
este fato é o governador do Grão-Pará, Francisco Mendonça Furtado,
irmão do Marquês de Pombal, em correspondência datada de 8/2/1754,
em que denuncia o domínio dos jesuítas em todo o estado e sugere ao
rei que lhes tire todas as fazendas que possuem e que os mande para
os seus conventos, dando liberdade aos índios.
A Lei do Diretório dos Índios (1757) foi
justamente o resultado deste conflito e foi através deste
instrumento político e legislativo de dominação lingüística que os
índios passaram a ser convertidos e adotaram o português como seu
idioma. O português institucionalizado, fixado pela gramática e
ensinado em sua forma escrita, sendo difundido pela colônia,
assegurou a Portugal sua unidade e identidade como nação, trazendo a
idéia de uma língua homogênea e estável. A idéia de homogeneidade
lingüística representava a hegemonia portuguesa na colônia, pois era
a língua da elite administrativa e das autoridades jurídicas e
eclesiásticas:
(...) foi necessário um ato
político-jurídico o já mencionado Diretório dos Índios – para
institucionalizar, oficializar de modo impositivo que era essa,
e apenas essa, a língua que deveria ser falada, ensinada e
escrita, exatamente nos moldes da gramática portuguesa vigente
na Corte (Mariani,
2004, p.33).
A língua portuguesa foi se consolidando
a partir da segunda metade do século XVIII, com a ajuda da Lei do
Diretório dos Índios (1757) de inspiração pombalina, que proibia o
uso da língua geral e acelerava o processo de expansão da língua
portuguesa por todo o território brasileiro. Este processo de
expansão já havia começado de maneira lenta com a literatura desde o
século XVI. Desde então, através do trabalho conjunto da expressão
literária, proibição do uso da língua geral e ensino sistemático da
língua portuguesa nas escolas, esta língua ganhou o reconhecimento
de língua nacional, e oficial devido à sua difusão por todo o
território brasileiro:
A literatura desempenhou papel
saliente nesse processo de imposição cultural, bastando lembrar
que os cronistas, historiadores, oradores e poetas dos primeiros
séculos eram quase todos sacerdotes, juristas, funcionários,
militares, senhores de terras – obviamente identificados aos
valores sancionados da civilização metropolitana. Para eles as
letras deviam exprimir a religião imposta aos primitivos e as
normas políticas encarnadas na Monarquia; mas mesmo quando
desprovidas de aspecto ideológico ostensivo, seriam uma forma de
disciplina mental da Europa, que deveria ser aplicada ao meio
rústico a modo de instrução e defesa da civilização (Candido,
1987, p.166).
Com a política linguageira de Pombal e a
expulsão dos jesuítas do Brasil, foi criada a primeira rede de
ensino sem base católica em que o ensino de língua portuguesa passa
a ser obrigatório. No entanto, poucas pessoas podiam freqüentar as
escolas, o que leva ao raciocínio de que, nos lares, em reuniões
informais, e no dia-a-dia esta língua geral continuava a ser falada:
O que nos conta a história social é
que mesmo depois da proibição do uso da língua geral pelo reino,
em 1757, por força da política levada a cabo pelo Marquês de
Pombal em favor do uso obrigatório da língua portuguesa, durante
todo o século XVIII os brasilíndios ou mamelucos paulistas
falavam duas vezes mais a dita língua geral do que o português.
Este, por lei, era a língua oficial, a da administração, do
comércio, e por isso, a língua das cidades, aprendida na escola.
A língua geral era a língua caseira, instrumento de comunicação
do cotidiano (Santiago-Almeida,
2000, p.26).
Mas, com o tempo, em fins do século
XVIII e início do século XIX, o português falado no Brasil foi
impondo-se sobre as línguas gerais:
O discurso do colonizador
justifica-se e valoriza suas próprias ações visando ao
povoamento e à defesa de uma terra conquistada, ao mesmo tempo
em que silencia sobre as lutas pela imposição e/ou preservação
das identidades. É um discurso que se impõe pela força e pela
escrita, ou melhor, impõe-se com a força institucionalizadora de
uma língua escrita gramaticalizada que traz consigo uma memória,
a memória do colonizador sobre a sua própria história e sobre a
sua própria língua (Mariani,
2004, p.24)
A Lei do Diretório dos Índios,
estabelecendo o uso obrigatório da língua portuguesa e proibindo o
uso da língua geral, fez com que esta se refugiasse no interior de
São Paulo, sendo transmitida pela oralidade e sem o controle da
escolarização sistemática, dando origem ao chamado dialeto caipira (Elia,
1979, p.189). Este, devido ao isolamento em que vivia a
população interiorana, pôde conservar muitos de seus arcaísmos;
porém, a tradição escolar, bem como os contatos com a cidade e os
meios de comunicação têm papel fundamental como agente na
homogeneização da língua portuguesa e estes fatores podem ser os
responsáveis pelo futuro desaparecimento do dialeto caipira:
Devemos, no entanto, lembrar-nos que
o dialeto caipira, com a alfabetização, com a intensa migração
interna, com a influência do rádio e com a civilização, vai
perdendo dia a dia, tornando-se cada vez mais restrita a sua
área geográfica própria, embora seja fácil averiguar que seu
influxo se irradiou muito por todo sertão brasileiro (Melo,
1975, p.70).
O chamado dialeto caipira que, como já
foi dito anteriormente, foi constituído a partir da língua geral, é
a fala de uma população interiorana que durante muito tempo se
manteve isolada dos contatos com os centros urbanos. Por ser este
dialeto falado por pessoas com pouca ou nenhuma escolaridade, ele
tem sido amplamente estigmatizado. No entanto, estudos lingüísticos
recentes de Naro & Scherre (2007), baseados em resultados de
pesquisa sociolingüística laboviana e na pesquisa dialetológica
portuguesa apontam que certos aspectos lingüísticos presentes no
chamado dialeto caipira e apontados como sendo errados pela
gramática normativa, podem ser encontrados nos textos pré-clássicos,
anterior à presença da língua portuguesa no Brasil.
De acordo com o resultado dessas
pesquisas e, tomando como base o estudo de Amaral (1920), podemos
concluir que no dialeto caipira encontram-se palavras e estruturas
lingüísticas que eram empregadas em textos escritos arcaicos e
medievais e que, apesar de serem consideradas “erradas” pela norma
padrão atual, em épocas passadas eram as únicas formas consideradas
“corretas”.
Referências
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RIBEIRO, Joaquim. Folklore dos
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Mestre em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de
São Paulo (USP) e pesquisadora do projeto de pesquisa da USP
intitulado “Formação e expansão do português paulista ao
longo do Rio Tietê até o Mato Grosso a partir do século
XVI”, financiado pela FAPESP.
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