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JACQUELINE DE FÁTIMA DOS
SANTOS MORAIS
Docente da Faculdade
de Formação de Professores da UERJ e do CAp-UERJ
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Alfabetização no Brasil: ainda um desafio
Jacqueline de Fátima dos Santos
Morais
A temática da alfabetização encontra-se
na pauta de discussão de importantes fóruns, órgãos e instâncias no
Brasil ... mas esse interesse não representa uma novidade, bem o
sabemos. Ao mirarmos em direção à história da educação nacional
vamos encontrar pistas sobre como o tema vem sendo tratado há muito
neste país. Saviani (2002) nos lembra que em 15 de outubro de 1827
foi promulgada a primeira Lei que determinava a criação de
escolas de primeiras letras. É em alusão a importância dessa
data que temos comemorado o dia do professor. A referida lei
estabelecia que nas escolas criadas, os professores ensinariam a
ler, escrever, as quatro operações de aritmética, prática de
quebrados, decimais e proporções, as noções mais gerais de geometria
prática, a gramática da língua nacional, os princípios de moral
cristã e de doutrina da religião católica e apostólica romana
proporcionadas à compreensão dos meninos. Este regulamento, no
entanto, não garantiu na prática a instalação de escolas elementares
em todas as cidades, vilas e lugares populosos como se
propunha. Em 1834 um Ato Adicional à Constituição do Império
desobrigou o governo central de cuidar das escolas primárias e
secundárias, transferindo essa incumbência aos governos provinciais.
O resultado, afirma ainda Saviani, foi a falta de investimentos na
abertura de escolas e o adiamento da alfabetização da população
Brasileira. Vemos assim que a tematização da alfabetização e a
ausência de ações sérias e concretas em favor da aprendizagem da
leitura e da escrita da população não é algo novo neste país.
Mais recentemente temos visto, lido e
discutido a respeito dos baixos índices de aprendizagem da leitura e
da escrita no Brasil indicados pelo SAEB (Sistema de Avaliação do
Ensino Básico). Os dados de 2003 e divulgados em 2004 apontam que
55,4% dos alunos que participaram deste processo de avaliação teriam
apresentado sérios problemas de leitura. Destes, 18,7% estariam em
nível 'muito crítico' pois "não desenvolveram habilidades de
leitura mínimas condizentes com quatro anos de escolarização; não
foram alfabetizados adequadamente; não conseguem responder os itens
da prova" (p.34).
Outro dado que chama a atenção quando da
discussão sobre aprendizagem escolar é a classificação do Brasil no
PISA - Programa Internacional de Avaliação de Estudantes. Produzido
pela OCDE - Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico,
nosso país ficou no ano de 2000 classificado em último lugar dentre
os 32 países avaliados. Em 2006, quando novamente o PISA foi
aplicado, a realidade se manteve muito próxima. A avaliação das
habilidades de 400 mil alunos em 57 países culminou com a
classificação do Brasil no quarto pior lugar no ranking.
Assim, vivemos em um tempo complexo:
rico em produção de discursos e provocações teóricas mas pobre em
alternativas que de fato contribuam para o fim das desigualdades no
campo da alfabetização. Em geral os saberes produzidos no campo da
pesquisa não tem sido capazes de reverter a configuração deste
quadro. Mas por quê?
Inúmeras pesquisas, artigos, planos,
projetos, programas, experiências tem buscado entender as razões do
chamado fracasso no que se refere à aprendizagem da leitura e
escrita. Os debates, em geral, resultam no apontamento da culpa
dividida em dois pólos. De um lado as famílias, vistas como
descomprometidas com a educação de seus filhos, e as crianças,
tomadas como desinteressadas e carentes culturalmente – o que
dificultaria ou mesmo inviabilizaria o ensino eficiente. De outro
lado temos a culpabilização da escola nas figuras ora da professora,
apontada como desatualizada ou tradicional, ora dos métodos de
ensino, afirmados como retrógrados ou inadequados. O problema desta
análise é que redunda numa simplificação do objeto em questão. Neste
rol de culpados o que temos é a inexistência da figura das
políticas públicas como elemento partícipe da produção do chamado
fracasso escolar. A maneira reducionista como é tratado o tema
invisibiliza parte de sua complexidade. E assim, compromete a
possibilidade de encontrarmos pistas para sua superação.
Assim, poderíamos nos perguntar diante
dos dados resultantes das inúmeras pesquisas (oficiais ou não): quem
são os alunos que estão fracassando de forma tão brutal na escola?
Quem constitui a parcela dos que foram muito bem nos diferentes
sistemas de avaliação? E os que foram muito mal, quem são? O
fracasso ou o sucesso escolar são distribuídos de maneira
equivalente entre as diferentes camadas sociais?
As perguntas parecem ficar no ar quando
olhamos apenas os dados estatísticos isolados da conjuntura mais
ampla. É preciso olhar os dados e a história do fracasso escolar
à contrapelo, como nos convida Benjamin (1996) para, quem sabe,
desconfiar das conclusões a que chegam o SAEB e o PISA: a de que o
fracasso é culpa de quem está na escola. É preciso desnaturalizar
nosso olhar para nos perguntarmos, como Freire (2001) sempre fez:
a serviço de que e de quem fazemos o que fazemos em educação?
Tenho defendido que é preciso
compreender o fracasso escolar de maneira mais complexa (MORIN:1995),
o que supõe vê-lo como a produção de um fracasso social, e
não como resultado de um malogro individual. Para isso basta
olharmos aqueles que não aprendem a ler e escrever - são, em sua
grande maioria, oriundos das camadas mais pobres da população. Isso
significa que o fracasso escolar não está distribuído
democraticamente por todos os segmentos da população mas se encontra
concentrado em um mesmo grupo social. Sempre o mesmo grupo.
Coincidentemente os mais pobres.
Numa sociedade onde ler e escrever
representa poder, aqueles que não sabem interpretar um texto ou
registrar por escrito suas próprias palavras acabam por ser
subalternizados (LANDER, 2005). Falar de analfabetismo,
portanto, seja ele produzido no interior das escolas ou fora delas,
é falar de uma injustiça social. Falar de analfabetismo é denunciar
as injustiças que produzem a desigualdade pois não cabe
fatalisticamente cruzar os braços (FREIRE,2003:98).
Segundo dados divulgados pelo MEC quase
a totalidade das crianças em idade escolar encontram-se matriculadas
em instituições de ensino, sejam estas públicas ou privadas. Dados
do senso escolar de 2001 davam conta de que eram 55 milhões o número
de matrículas nas quase 218 mil escolas distribuídas em 5.560
municípios brasileiros. Hoje se fala em mais de 57 milhões
matriculados em todos os níveis de ensino. Apesar disso, não
temos visto uma relação direta entre quantidade e qualidade, entre
matrícula e permanência na escola, entre estar na escola e aprender
na escola.
Alfabetizar todos continua a ser um
projeto e um desafio. E este desafio não é apenas para a professora
ou para a criança. Este é um desafio coletivo. Planetário. Ou
deveria ser. No entanto existem no mundo cerca de 113 milhões de
crianças fora da escola. Por que não nos inquieta esse número?
Talvez por esquecermos que atrás destes números há nomes: Helena,
Pedro, Tereza, Luiz, Raquel, Sonia, João, Flavia, Amanda... Os
números escondem sujeitos reais, pessoas que possuem sonhos e
vontades.
Outro dado que nos parece importante
quando pensamos em alfabetização se refere ao estudo chamado
“Geografia da Educação Brasileira 2001”, divulgado somente em 2003
pelo Inep[†].
Este estudo afirma que do total de alunos que ingressam na série
inicial do ensino fundamental, em média 60% não concluem o ensino
médio. De cada 100 crianças que entram na 1ª série do ensino
fundamental, por volta de 41 não terminam a 8ª série. Outro
importante dado diz respeito à distorção série idade. Este mesmo
estudo do Inep mostra que cerca de 39 % dos alunos matriculados têm
idade superior àquela esperada como regular na série que está.
Não é sem razão que em 2000 foi assinada
a Declaração do Milênio, aprovada
pelas Nações Unidas em setembro daquele ano. O Brasil, em conjunto
com 191 países-membros da ONU, assinou um pacto e estabeleceu um
compromisso compartilhado de atingir oito metas prioritárias
para o milênio. A segunda destas metas é “atingir o ensino básico
universal”, para superar, em todo o mundo, o drama do analfabetismo.
O compromisso destes países é atingir as oito metas até o ano de
2015, por meio de ações concretas dos governos e da sociedade. Outra
ação estabelecida pela ONU foi tornar o dia oito de janeiro o “dia
mundial da alfabetização”. Não há o que comemorar neste dia mas há
muito que lembrar e fazer. O Governo Federal resolveu começar
através de uma estratégia mais fácil e que tem se revelado
historicamente menos eficaz: controlando o produto da alfabetização
mediante a aplicação de uma prova.
No ano de 2008 nos deparamos na
televisão com inúmeras inserções de uma propaganda na televisão
direcionada a professores alfabetizadores de todo o país. Nela vemos
uma menina de olhar esperto que diz o seguinte texto:
- Oi, o meu nome é Ana Clara. Eu
estou na segunda série. Eu já sei ler e escrever, mas o que vai
dizer se eu aprendi mesmo... é a provinha Brasil. Ela vai
avaliar o aprendizado do aluno e da turma. As meninas já estão
prontas, mas os meninos... também é claro! Professora, vamos
fazer a Provinha Brasil?
Poderíamos aprofundar muitos aspectos a
partir deste texto, como por exemplo a alusão a diferenças de gênero
(no texto as meninas são apontadas como sendo mais
preparadas que meninos) ou a autoridade que a menina
confere a prova de atestar seu real conhecimento sobre leitura e
escrita pois, apesar da garota afirmar que já sabe ler e escrever,
o que vai dizer se eu aprendi mesmo... é a provinha Brasil.
Deixo o aprofundamento sobre esse discurso para outro trabalho.
Gostaria de me ater a dois elementos referentes não a esse
comercial, mas um primeiro alusivos à idéia da Provinha Brasil como
parte de ação oficial eficaz e o outro ligado aos discursos
argumentativos produzidos em favor desta ação.
Primeiramente é preciso dizer que a
Provinha Brasil foi elaborada pelo Instituto Nacional de Estudos e
Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em conjunto com a SEB
(Secretaria de Educação Básica). Dentre os argumentos utilizados
pelo MEC na busca pela legitimidade deste sistema de avaliação, e
que podemos localizar acessando o site do MEC, temos: Que é um
instrumento de auto-avaliação que o MEC oferece aos gestores do
ensino fundamental e aos professores.
Assim nos perguntamos: como pode um
instrumento de auto-avaliação de educandos ser ao mesmo tempo
um instrumento de avaliação do sistema? Como uma prova pode
se reverter em ferramenta de auto-avaliação de professoras e
professores?
No documento encontramos o seguinte
texto: ...um dos objetivos do teste é identificar possíveis
dificuldades das crianças em fase de alfabetização e corrigi-las,
para que elas não cheguem às séries mais avançadas sem ter
consolidadas as habilidades da leitura e da escrita. A partir
deste trecho nos interrogamos: como haverá correções? Haverá
investimento material nas escolas? Na formação de professores? Como
resultados de uma prova aplicada a alunos pode provocar mudanças em
ações escolares? Sabendo que medições através de provas são
situações freqüentes nas escolas, em que esta prova se diferenciaria
de outras já aplicadas?
Em outro trecho podemos ler que a
provinha Brasil possui caráter não obrigatório e que gestores,
diretores e professores vão poder escolher o melhor momento de
aplicá-la. Perguntamos-nos assim: que prova tem, nas escolas,
caráter facultativo? Que alunos, ao se recusarem a fazer os testes
escolares, são respeitados em sua vontade? Que professores não criam
estratégias, e dentre elas estratégias punitivas, que redundam na
aceitação por parte dos alunos dos tais testes e provas? Não seria
assim também com os professores?
Dentro desse conjunto de questões,
podemos ainda nos perguntar: porque a utilização do termo
provinha no lugar de prova? O que o uso do diminutivo
revela? Garcia denuncia que prova ou provinha não importa pois
pressupõe nota ou conceito, aprovação ou reprovação,
reclassificação... (2008:571).
Desta forma, adverte ainda Garcia
(2008:566) é preciso refletir crítica e coletivamente sobre as
conseqüências sociais, culturais e políticas na vida de quem passa
pela escola e dela sai, tantas vezes ao final do tempo de
escolaridade obrigatória, sem sequer saber ler e escrever. Mais
uma vez encontramos a idéia de que alfabetizar implica compromisso
político muito mais que mero empenho técnico ou metodológico. Para
que, para quem, por que alfabetizamos? Estas são perguntas
fundamentais e que apontam concepções epistemológicas que são, como
já nos dissera antes Freire (1997), políticas. As opções
metodológicas são decorrência daquelas.
Alfabetizar não é ensinar a decodificar
letras em sons, apesar de ser ainda uma concepção hegemônica.
Estamos nos alfabetizando permanentemente, se entendermos
alfabetização no sentido que lhe dá Paulo Freire: leitura do mundo
que implica leitura da palavra. E leitura da palavra que provoca e
amplia leitura do mundo.Como afirmam Morais e Araújo (2007) A
alfabetização representa, sem dúvida, uma das questões sociais
fundamentais em sociedades letradas, especialmente, por suas
implicações político-econômicas.
A falta de políticas educacionais sérias
que caminhem para além da mera constatação dos problemas mas que
apontem propostas para superação dos aspectos que produzem o
fracasso, parece estar longe de acontecer. De tão repetido, parece
uma velha retórica, desgastada pelo tempo e pelos modismos... mas é
preciso continuar a dizer que necessitamos garantir uma escola de
qualidade para as crianças e jovens, especialmente aqueles das
camadas mais pobres da população. Dizer que é preciso resolver as
más condições físicas das escolas; a falta de professores, a
ausência de segurança; a falta de bibliotecas não só nas escolares,
como públicas nas cidades; a falta de conservação dos prédios
escolares, as dificuldades de acesso aos bens culturais presentes na
cidade.
A interdição que as classes populares
vivem ao processo de apropriação da leitura e da escrita encontra
interface com múltiplas interdições mas isso não significa que
aceitem passivamente. Pelo contrário, a História do Brasil é repleta
de exemplos que assinalam as formas de resistência encontradas pela
população em sua busca pelo direito ao saber. Morais e Araújo (2007)
elencam alguns movimentos de luta, deixando claro que os embates
pela educação de qualidade para todos não se constitui como uma
bandeira recente, mas representa uma luta histórica: desde as
associações de operárias do século XIX, passando pelas escolas
anarquistas do início do século XX, por toda a riqueza dos
movimentos de cultura popular e de educação de base nos anos 50 e 60
e, mais recentemente, pelo movimento das escolas comunitárias que se
espalhou por várias regiões do Brasil.
Por outro lado, temos visto nos
noticiários de televisão mães que passam dias e madrugadas à porta
de escolas públicas, em filas intermináveis, a fim de garantir uma
vaga para seus filhos ou filhas. Também essa ação representa forma
de resistência e luta do povo pela educação de seus filhos. A
formação de filas em muitas das escolas públicas brasileiras, mostra
que apesar de todo o discurso sobre a falência do ensino público, a
população acredita neste espaço e investe em suas possibilidades.
Não é sem razão que na educação básica 87% dos alunos estão
matriculados em escolas pertencentes à rede pública de ensino,
segundo o MEC. Esta é uma das provas de que as classes populares
possuem o que Marília Spósito chama de ilusão fecunda. Na explicação
de Garcia esta ilusão é fecunda porque:
(...) embora nada garanta que a
escolaridade seja caminho certo para a melhoria de vida, a luta
coletiva pelo direito à escola, entre outros direitos
historicamente negados, potencializa as classes populares para a
conquista de uma cidadania ativa, para a autonomia, indicando
avanços no sentido da democratização da sociedade. (GARCIA,
2000, p.12)
A aposta que as famílias fazem na
educação de seus filhos mostra que a escola é vista como lugar de
potencialização e não apenas, como querem alguns, lugar de
discriminação e exclusão. Neste sentido poderíamos nos perguntar: a
quem interessa que a escola seja vista apenas como lugar de produção
de fracasso escolar? A quem interessa a produção de pesquisas e a
divulgação de dados que apontam as classes populares como culpadas
de seu próprio fracasso? A quem interessa a fabricação de
investigações que resultam na subalternização dos saberes das
classes populares?
SAEB, Provinha Brasil, PISA, ENEM...
afinal, o que tem mudado na escola a partir do resultado desses
sistemas de avaliação?
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Sinopse Estatística da Educação Básica: Censo Escolar.
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacionais.
Brasília, Inep, 2001
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