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MÁRIO
MAESTRI
Historiador e professor do Curso de
História e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS

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A Guerra
contra o Paraguai
História e
Historiografia: da instauração à restauração historiográfica
[1871-2002] – parte III
Mário Maestri
Hiato
sem repercussão
Em 1995,
o historiador mato-grossense Jorge Luiz Prata de Sousa defendeu na
Universidade Nacional Autónoma de México dissertação de mestrado
versando sobre o “mito brasileiro sobre os voluntários da
pátria”, publicada em 1996. Escravidão ou morte: os
escravos brasileiros na Guerra do Paraguai constitui trabalho
revisionista extemporâneo, de alto nível acadêmico.
Após argutas páginas de crítica da historiografia
nacional-patriótica posterior à guerra e à República, destaca a
importância das apologias sobre o “voluntariado” na construção das
narrativas do Exército como expressão da nacionalidade.
Apologias como as de Paulo de Queiroz Duarte, em Os Voluntários
da Pátria na Guerra do Paraguai: “E o apelo do Imperador,
endereçado ao voluntariado, teve profunda ressonância na alma de
seus súditos [...] o entusiasmo popular extravasou em transportes
patrióticos, enchendo as ruas e praças das principais cidades do
país de considerável multidão, vibrando de fé na justiça da causa,
pronta a cerrar fileiras em torno do Imperador. [...] A causa
nacional passou a empolgar a alma do povo [...].”
Narrativas retóricas nacional-patrióticas que praticamente
obscureceram o caráter fortemente coercitivo do recrutamento. O
autor lembra que foi efetivamente a resistência dos homens livres em
se alistarem, apesar das vantagens oferecidas, sob a pressão
estatal, que levou à decisão imperial de comprar e incorporar
cativos ao Exército e à Armada, como assinalado.
Apoiando-se sobretudo no estudo das cartas de alforria concedidas no
Rio de Janeiro, explicita as contradições que dificultaram o
arrolamento: a luta dos grandes proprietários pelo controle da
mão-de-obra servil; as duras condições de existência e o racismo
[“preconceitos sociais”] nas forças armadas; o caráter elitista da
Guarda Nacional; o uso político do recrutamento; o alto preço médio
dos cativos vendidos ao Estado [quase dois contos de réis]; a
deserção sistemática sobretudo dos recrutados e substitutos; o
caráter pré-nacional do Estado escravista, etc.
Demonstra igualmente a pouca confiabilidade dos dados gerais
administrativos sobre o recrutamento de cativos, sugerindo estudos
através do levantamento nacional das cartas de alforrias, com o
objetivo de elucidação qualitativa e quantitativa geral desse
processo. Em forma geral, Escravidão ou morte: os escravos
brasileiros na Guerra do Paraguai foi semi-ignorada, quando da
discussão sobre o tema.
A
grande mídia
Em 9 de novembro de 1997, o caderno
Mais, da Folha de São Paulo, ressaltava a necessidade do
restauracionismo historiográfico sobre a Guerra contra o Paraguai em
artigos coordenados por R. Bonalume Neto – “Novas lições do
Paraguai”. A operação jornalística escancarava o viés ideológico em
sua chamada: “Historiadores revêem a tese de que o país de
Solano López teria sido uma Cuba [Sic] do século 19 derrotada pela
aliança militar do Brasil com a Argentina e o Uruguai [sic].” A
matéria, afirmava que o Brasil teria conhecido “rolo compressor
ideológico [sic] nos últimos anos do regime [sic] de 64,
principalmente graças a dois best sellers desse
nacional-populismo revisionista, As veias abertas da América
Latina, do uruguaio Eduardo Galeano, [...], e Genocídio
Americano: A Guerra do Paraguai”, de J.J. Chiavenatto.
Nesse então, os principais trabalhos
acadêmicos restauracionistas eram o livro de Ricardo Salles e
sobretudo o segundo ensaio de Doratioto, obras sintéticas de escasso
alcance de público. Assinaram os artigos encomendados José Murilo de
Carvalho e Pedro Paulo Soares; André Amaral de Toral; Francisco
Doratioto; Guido Rodríguez Alcalá; Marco Antônio Villa e, prova de
pluralismo da iniciativa, León Pomer, que tentava explicar,
mais uma vez, o sentido de sua proposta sobre o imperialismo na
Grande Guerra.
Salvo
engano, a intervenção da grande imprensa na orientação ideológica da
historiografia brasileira não foi ainda estudada. Essas publicações,
com centenas de milhares de exemplares, possuem enorme poder de
legitimação-deslegitimação da produção cultural. A historiadora
sul-matogrossense Ana Paula Squinelo registrou a influência direta
daqueles artigos na sua posterior decisão de abordar a Guerra, em
dissertação de mestrado de cunho restauracionista, de 2001.
Em A
guerra do Paraguai, essa desconhecida: ensino, memória e
história de um conflito secular, essa autora propõe três períodos
para a historiografia nacional sobre a Guerra, não explicando as
razões e origens mais profundas dos mesmos: um primeiro, dos anos
1920 a 1960, de visão “patriótica”, como nas obras do general
Augusto Tasso Fragoso [1869-1945] e José Francisco da Rocha Pombo
[1857-1933]; um segundo, desde 1960, de “visão ‘imperialista’ do
litígio, com destaque para Chiavenatto e Pomer e, finalmente, um
terceiro, a partir de 1980, de estudos “inovadores e menos
tendenciosos [sic]”.
O
interessante trabalho sintetiza a incapacidade restauracionista de
superar as contradições apontadas pela análise de literatura que a
autora investiga, até então pouco utilizada, com destaque para a
produção paraguaia. Sem empreender sínteses explicativas, Squinelo
limita-se quase à apresentação das diversas narrativas, lado a lado,
ou à corroboração da tese da guerra como devida à formação das
nações do Plata, que enseja a absolvição tendencial de
responsabilidades. Critica fortemente às apresentações revisionistas
esquemáticas e simplistas dos livros didáticos, sem propor superação
para a esse literatura, a não ser sugestões da associação – às
narrativas áulica sobre os “grandes homens” – do estudo das “pessoas
simples” no conflito.
Em 2000,
sob o patrocínio do Instituo Histórico e Geográfico de Mato Grosso
do Sul, o engenheiro-agrônomo Acyr Vaz Guimarães [1919-2005],
sócio-correspondente da Academia de História Militar Terrestre do
Brasil, publicou A guerra do Paraguai: verdades e mentiras,
trabalho pára-historiográfico, no qual, “em 214 pontos”, propõe-se a
desmentir Chiavenatto, com destaque para a já tradicional
comprovação da não participação inglesa no confronto. O livro
retoma e potencia as grandes propostas da historiografia
nacional-patriótico e registra a visão da alta oficialidade do
Exército brasileiro da luta contra o revisionismo sobre a Guerra
como parte do combate ao “comunismo” no Brasil.
Vinte
e cinco anos mais tarde
Em 2002
e 2004, foram publicados dois ambiciosos trabalhos gerais
restauracionistas, de diversa qualidade e repercussão. Em 2004, o
coronel do Exército Maya Pedrosa, que viveu no Paraguai, publicou
A catástrofe dos erros: razões e emoções na Guerra contra o
Paraguai, na coleção Biblioteca do Exército, que dirigira, resposta
explícita às “apreciações pessimistas e iconoclastas” marxistas
“sobre o passado nacional, marcando o desprestígio de seus
estadistas, diplomatas, soldados e do povo brasileiro que foi lutar
na guerra”.
Na
“Introdução”, o oficial registra a enorme admiração pelo livro
Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai, do
historiador Francisco Doratioto, lançado dois anos antes. Reconhece
que, após aquele trabalho, “continuar em frente [com seu livro]
talvez” fosse “temerário.
Não apenas devido ao limite do nosso presente trabalho, analisamos
Maldita guerra, já que segue linhas gerais concorrentes ao de
Maya Pedrosa, em um elevado nível de qualidade, excelência e
erudição, que o qualificou como obra paradigmático do restauro
historiográfico sobre o conflito, finalmente plenamente consolidado.
Esse
extenso trabalho, de quase quinhentas páginas de texto, publicado
ricamente pela prestigiosa Companhia da Letras, como nos trabalhos
anteriores, critica em forma explícita o revisionismo paraguaio,
brasileiro e latino-americano, propondo realizar nova e mais
equilibrada leitura dos fatos. Uma intimidade do autor nascida de
mais de uma década de pesquisa explicita-se na valiosa revisão
bibliográfica e documental, que o torna obra referência e
imprescindível ao estudo da questão. Entretanto, o autor não cita e
não discute trabalhos referencias da produção marxista e
americanista revisionista argentina sobre a Guerra como os de
Milciades Peña, Enrique Rivera, Eduardo Luis Duhalde, etc. Não
utiliza igualmente o importante trabalho de Raul de Andrada e Silva.
Uma das
singularidades do conflito no Plata fora antepor três nações –
Argentina, Brasil e Paraguai – que conheciam formações sociais
diversas, realidade já intuída por analistas coevos mais sensíveis e
analisado, com sensibilidade, no que se refere ao Paraguai, pelo
trabalho já citado de Raul de Andrada e Silva.
A historiografia revisionista avançara o conhecimento histórico
sobre a Grande Guerra ao propor a necessidade da elucidação do
caráter das sociedades em luta, em geral, e do Paraguai, em
especial, desenvolvendo tal proposta, em forma bastante substancial,
sobretudo no relativo à Argentina.
Unidade social e nacional
Nos anos
1860, tencionada fortemente pelas contradições entre a oligarquia
bonaerense e as províncias, a Argentina conhecia diversas relações
de trabalho livre e preparava-se para empreender a “Guerra do
Deserto” [1878-79], contra a população nativa dos pampas
meridionais. No Brasil, vigia a produção escravista e outras
relações sociais de produção subordinadas − colonos-camponeses,
pequenos plantadores, caboclos, nativos, etc. Ambos os países
assentavam-se na propriedade privada dos meios de produção, em
sociedade de cunho largamente liberal e livre-cambista.
Seguindo os autores revisionistas, Doratioto propõe que o "Estado
guarani" era "dono" [sic] de quase 90% do território nacional",
controlando uns "80% do comércio interno e externo".
Em
minuciosa análise política, diplomática e militar dos sucessos, em
clara regressão em relação ao revisionismo, não contextualiza as
sociedades em questão, sobretudo quanto às referidas raízes
escravistas do Império e à singularidade da sociedade paraguaia, que
permitiu forte acumulação original de capitais pelo Estado e acesso
tendencial da população camponesa à terra. Apesar de utilizar "país"
e "nação guarani" como sinônimos de Paraguai, não aborda as
eventuais decorrências da coesão étnico-cultural de população
camponesa de origem guarani, com raízes históricas comunitárias e
missioneiras, que desbordava as fronteiras nacionais – Mato Groso,
Misiones, Corrientes, etc.
A clara
homogeneização das nações em luta, liquida a possibilidade da
compreensão de elementos fundamentais, como os sugeridos por Salles
em relação ao Brasil e Andrada e Silva, em relação ao Paraguai. O
que resulta no uso anacrônico geral de categorias como "povo",
"cidadão", "opinião pública" para a sociedade escravista brasileira,
na qual grande parte da população encontrava-se objetiva e
subjetivamente à margem de comunidade cidadã que se
restringia a uma parcela diminuta da população livre, em geralmente
branca – ou tida como tal.
Na sua
literatura sobre a guerra, como foi comum na literatura dessa época,
Taunay refere-se quase exclusivamente aos oficiais. Em uma das
poucas referências mais diretas a subalternos, anota: “Ao nos
separarmos no Tacuaral, tive a preocupação diária do rancho que não
é pequena em campanha até que se acerte com um camarada que entenda
um pouco de lidar com panelas. Sofri e não pouco, já por não ter
preparo algum para organizar o meu rancho, já por me haver tocado
para camarada um legítimo palerma, medraço e avelhacado, quando não
refinado tratante.”
Já assinalamos a indignação de Benjamin Constant com a qualidade
do soldado brasileiro e as considerações de Caxias e outros
altos oficiais sobre os mesmos, como veremos a seguir.
Fanatismo & Repressão
A
abordagem sobretudo política impossibilita explicação essencial da
belicosidade paraguaia e da letargia brasileira. Sem superar
essa contradição, radicaliza a explicação da tenacidade guarani,
apresentada em 1996, como produto da fanatização e de controle
policial, em mais uma restauração das visões nacional-patrióticas.
"Apesar dessa situação, quase não havia deserção nas fileiras
paraguaias, devido ao clima de terror imposto por Solano López, que
estendia a punição a familiares e companheiros do desertor. Ademais,
proibiu-se aos soldados ou oficiais paraguaios ficarem sós na
vanguarda, por temor que desertassem."
Explicação da marcialidade como produto do fanatismo e ação policial
que contradita com uma nação com Estado, exército e meios de
comunicação rústicos e, portanto, propícios à deserção de soldados
eventualmente tiranizados. Tese que não explica a rearticulação
permanente da resistência, após as grandes derrotas da Dezembrada,
com ênfase na reagrupação nos sertões, após López ter perdido o
controle do aparelho estatal. Foram os exércitos brasileiros e
argentinos que conheceram deserções permanentes, ininterruptas e
relevantes, pululando durante a guerra nos quilombos brasileiros
quase mais desertores do que cativos. Anos após a
Guerra, Taunay anotava que, em 1869, reinava o desânimo nas tropas
imperiais e significativa vontade entre oficiais de encetar
negociações de paz, pois ponderavam que “o povo paraguaio tão
completamente [identificado] com o seu chefe, seria necessário dar
cabo do último homem para alcançar a pessoa do ditador”.
O autor
deduz a origem e a evolução do conflito da personalidade de López,
sobre quem lança a responsabilidade da guerra, em outra restauração
da historiografia imperial e republicana de Estado, apesar de
apresentar corretamente o confronto como tendencialmente inevitável,
devido à procura da nação paraguaia de autonomia nacional e a
negativa dos governos brasileiro e argentino de concedê-la.
Radicalizando tendência presente no ensaio de 1996, a personalização
da história resulta no elogio apologético das lideranças da Tríplice
Aliança − Pedro II, Mitre, Caxias, Osório, etc. − e tenaz
diabolização do dirigente máximo paraguaio.
Como na
literatura nacional-patriótica, Francisco Solano López é apostrofado
como “ditador quase caricato”, “ambicioso”, “tirânico”, “quase
desequilibrado”. Desqualificação pessoal extensiva igualmente a
Elise Lynch, descrita e tratada como “cortesã de luxo”, ao igual do
praticado pelos ideólogos do Império e da Argentina liberal mitrista.
E, nesse estrada, o autor, sem peias, identifica Francisco Solano
López, em singular modernização, a Hitler, ingênua personificação
moderna da violência da sociedade de classes na história. Para tal,
propõe como "identidade entre os dois ditadores" o fato de terem,
Hitler e López, ambos, usado jovens e velhos em desesperada
resistência final que comprometeria seus países. A aproximação é
anacrônica e esquece que foram os objetivos e as práticas
que desqualificaram o nazismo, e não a resistência inexorável com
jovens e velhos armados, utilizada licitamente pela resistência da
população soviética e do gueto de Varsóvia contra as forças
nazi-fascista.
A
retórica desabonadora estende-se às classes dominantes, aos oficias
e aos soldados paraguaios, apresentados dedicados sistematicamente
ao massacre, ao estupro e ao roubo, ainda que se convenha que, em
certos momentos, os aliados procedessem de igual modo.
Realidade em confronto com a anotada por Taunay, como assinalado.
Sugere que o conflito foi o choque entre o Brasil, nação monárquica,
constitucional e liberal – liberalismo considerado qualidade –, e o
Paraguai, Estado despótico, autocrático e atrasado, outra tese
apologética, durante e após a guerra, como já proposto.
Gigante acorrentado
Seguindo
essa linha de análise, não registra que o Paraguai era país de
homens livres, com enorme quantidade de camponeses pequenos
proprietários ou com acesso à terra, onde as comunidades nativas
tinham suas terras respeitadas, enquanto o Brasil era fortemente
nação de escravizados e escravizadores. Fato essencial para a
compreensão da dificuldade do Gigante Acorrentado em estabelecer
arrolamento nacional de combatentes, contra o Liliput emancipado,
que galvanizou à exaustão sua população fortemente camponesa no
combate. Nesse sentido, não pelas razões em geral assinaladas, o
Paraguai era mais avançado socialmente do que o Brasil.
Nesse
sentido, quando do confronto, Juan Bautista Alberdi lembrava:
“[...] [o povo paraguaio] ha respondido sosteniendo a su gobierno,
con más ardor y constancia, a medida que le veía más debilitado y
más desarmado de los medios de oprimir, y a medida que veía a su
enemigo mas internado en el país y más capaz de proteger la
impunidad de toda insurrección. El Paraguay ha probado de eso modo
al Brasil que su obediencia no es la del esclavo, sino la del pueblo
que quiere ser libre del extranjero.”
O autor
não discute a possibilidade da longa duração dos combates dever-se
ao confronto desigual entre Estado escravista e nação de homens
livres, ameaçada na sua independência, desequilíbrio superado apenas
pela abismal desproporção de recursos, em homens e meios, em favor
do Império, com enorme destaque para a marinha. Determinação dos
combates pela essência escravista do Estado brasileiro percebida por
Caxias, ainda que não entendida. O velho verdugo de cativos da
Balaiada e da Farroupilha referiu-se a essa realidade ao execrar a
qualidade militar dos libertos, "homens que não compreendem o que é
pátria, sociedade e família, que se consideram ainda escravos, que
apenas mudaram de senhor".
Apreciação compartida pelo coronel José Antonio Corrêa da Câmara
[1824-1893, segundo visconde de Pelotas, que explicou o fracasso de
assalto à posição paraguaia por "nossos soldados de infantaria"
serem "os negros mais infames deste mundo, que chegam a ter medo até
do inimigo que foge".
Esqueciam os oficiais negreiros que os negros pusilânimes, no
Paraguai, sob a bandeira escravocrata do Império, foram os mais
valorosos soldados de José Artigas [1764-1850], no Uruguai, sob a
bandeira da luta pela liberdade e pela terra. Saltando as questões
estruturais ao conflito, termina assumindo tom e conteúdo
nacional-patriótico, propondo que os verdadeiros “heróis”
aliancistas seriam "os [combatentes] que viveram" nas duras
condições de Tuiuti, "durante dois anos, sem desertar ou pretextar
doença".
Desqualificação inaceitável de atos individuais socialmente
positivos de milhares de soldados brasileiros, argentinos e
uruguaios que obedeceram ao sábio preceito plebeu de que, se "Deus é
grande, o mato é maior", escafedendo-se de guerra das classes
dominantes, lutada, como sempre, pelos subalternizados, em prol da
opressão de povo irmão. Restringido a descrição a uma
indiscutivelmente rica e valiosa narrativa política, diplomática e
militar, explicando as suas origens e dinâmicas a partir da ação de
protagonistas ilustres, o autor jamais se debruça sobre os grandes
sujeitos dos acontecimentos estudados, realizando em uma enorme
hipérbole, restauração da velha historiografia nacional-patriótica.
Retorno às trincheiras
Maldita guerra:
Nova história da
Guerra do Paraguai, de Francisco Doratioto, na sua
parcialidade, constitui sobretudo uma narrativa dos sucessos no
Prata de 1864-1870 desde os ponto de vista do Estado nacional
brasileiro, ou seja, dos interesses gerais de seus classes
dominantes, com um respeito apenas diplomático para o antagonista do
Império. Todos os atos e as razões do Império são justificados ou
apresentados sob a melhor luz, usando-se para tal fortemente os
recursos da narrativa.
Mais do
que relatar os fatos, defende o ponto de vista do Império. Tamanha é
a identificação nacional nesse relato que, ao contrário, deveria se
sobrepor aos apriorismos patrióticos para alçar-se ao nível da
historiografia científica, necessariamente supranacional, que o
autor termina se incluindo entre os segmentos estatais do Império:
“A troca de representantes brasileiros no Paraguai, no período
pré-guerra, e seu isolamento da sociedade local impediram-nos [sic]
de bem conhecer a realidade paraguaia.”
Perpassa
a interpretação do conflito visão relativista da história das
nações, onde todos os interesses nacionais, igualmente
pertinentes, resolvem-se em confrontos estranhos à margem de
qualquer moralidade. “Aqui não há ‘bandidos’ ou ‘mocinhos’,
como quer o revisionismo infantil [sic], mas sim interesses. A
guerra era vista por diferentes ópticas: para Solano López era a
oportunidade de colocar seu país como potência regional e ter acesso
ao mar pelo porto de Montevidéu [...]; para Bartolomé Mitre era a
forma de consolidar o Estado centralizado argentino [...]; para os
blancos, o apoio militar paraguaio [...] viabilizaria impedir
que seus dois vizinhos continuassem a intervir no Uruguai; para o
Império, a guerra contra o Paraguai não era esperada [sic], nem
desejada [sic], mas iniciada, pensou-se que a vitória brasileira
seria rápida e poria fim ao litígio fronteiriço entre os dois países
e às ameaças à livre navegação, e permitiria depor Solano López.”
No
tribunal da história, onde se julga a partir dos direitos dos povos,
há, sim, o certo e o errado, o justo e o injusto. Nos anos
1860, o Paraguai tinha todo o direito de ter garantido o livre
acesso ao mar, de ter resolvidas as questões de fronteira por
arbitragem e de ter respeitado o seu governo, enquanto o Uruguai
possuía, igualmente, o direito de ter sua autonomia nacional
intocada pelos poderosos vizinhos e que os criadores rio-grandense
respeitassem as leis do país. Ao desobedecerem a esses direitos
nacionais, o Estado imperial e argentino se comportaram, naquela
ocasião, como Estados bandidos, segundo a categoria usada.
IV.
Conclusões: por uma história dos povos
A
narrativa memorialista brasileira sobre o grande confronto produziu
“narrativas de trincheiras” que tiveram como grandes protagonistas a
oficialidade e as forças militares imperiais na defesa dos brios
e da honra da nação agredida. Na República, essa produção
desdobrou-se em estudos de vocação historiográfica que retomaram o
ponto de vista do Estado imperial para consolidar proposta do
caráter prometéico das elites nacionais, com destaque para a
oficialidade, na defesa dos valores da nação, sempre
vista como agredida, jamais como agressora.
Durante
a Guerra, intelectuais sobretudo argentinos questionaram
profundamente as explicações apologéticas do Império e da Argentina
liberal mitrista. A partir do início do século passado, revisionismo
paraguaio impugnou as teses da historiografia das nações vitoriosas
propondo o caráter avançado da nação paraguaia, da agressão
promovida pela Inglaterra e pela Tríplice Aliança, elevando Solano
López a herói nacional. A partir de 1950, sobretudo na Argentina,
historiografia revisionista latino-americanista, marxista e
marxista-revolucionária procurou superar a ótica de “trincheira”
nacional-patriótica, perseguindo leitura de todo o campo de batalha,
desde o ponto de vista dos povos envolvidos no conflito, vítimas de
drama que definiu, apenas em alguns casos, como produto da vontade
imperialista inglesa.
Surgida
à margem das instituições acadêmicas, nos seus avanços e limitações,
o revisionismo historiográfico brasileiro sobre a Guerra do
Paraguai, que retomou em forma muito limitada as conquistas da
crítica revisionista anterior argentina e paraguaia, expressou as
necessidades subjetivas do movimento social sul-americano em
ebulição de uma leitura que interpretasse a história a partir dos
interesses dos povos, e não de suas classes dominantes. A necessária
superação do revisionismo brasileiro foi frustrada pela dissolução
das condições históricas que o haviam gerado, com a vitória da
contra-revolução neoliberal de fins dos anos 1980.
No novo
contexto, no Brasil, a crítica acadêmica e para-acadêmica impugnou
sumariamente a revisão empreendida da literatura nacional-patriótica
imperial e republicana. A produção revisionista brasileira não teve
suas contradições superadas, sendo apenas deslegitimada através da
crítica sumária da tese do “imperialismo inglês”, de alguns de seus
trabalhos e sobretudo dos lapsos do estudo de J.J. Chiavenatto.
Importantes trabalhos revisionistas nacionais e sobretudo
internacionais não foram sequer integrados à discussão, que se
centrou em construção caricata daquela rica produção
historiográfica.
A mera
negação das negações revisionistas da historiografia
nacional-patriótica brasileira, pelo restauracionismo nacional,
ensejou retorno essencial à “historiografia de trincheira”, expresso
na culpabilização de Solano López pelo conflito; nas narrativas
preciosistas dos feitos militares, desde a ótica do Estado
brasileiro; no elogio aos grandes chefes militares aliancistas; na
despreocupação com a análise do caráter das sociedades postas em
confronto, importante chave para a compreensão do comportamento dos
combatentes imperiais, argentinos e paraguaios, etc.
Na
superação de tal situação, impõe-se estudos que elucidem a
genealogia da historiografia da guerra do Paraguai, no que se refere
às narrativas nacional-patrióticas e, sobretudo, aos trabalhos
revisionistas, com destaque para o sentido profundo e para a
influência na produção historiográfica da crítica argentina do
período da Guerra; do revisionismo paraguaio, do início do século;
dos estudos argentinos dos anos 1950.
Impõe-se, sobretudo, estudos que desvelem, do ponto de vista dos
povos, os objetivos essenciais da ação dos governos das nações
envolvidas no confronto. Que elucidem a natureza do Estado paraguaio
e os processos de acumulação por ele ensejado, através do controle
público das terras e do comércio exterior. Que expliquem as razões e
os sentidos da adesão da população paraguaia a Solano López,
sobretudo na defesa dos territórios nacionais invadidos. Que
apresente leitura dos acontecimentos que supere a visão da ação das
massas a partir da intervenção, positiva ou negativa, de personagens
providenciais, explicando, ao contrário, as características
individuais dos líderes [carisma; inovação; indecisão, etc.] a
partir das forças e interesses sociais profundos.
A
análise estrutural das condições de vida, objetivos e aspirações das
classes populares e escravizadas brasileiras, associada ao estudo da
realidade que conheceram sob as forças armadas imperiais,
contribuirá também para que finalmente se revele segredos que as
narrativas nacional-patrióticas, tradicionais ou restauradas, teimam
em esconder, como a defecção de fato das tropas imperiais com o
sucesso dos combates, devido ao estranhamento com os objetivos da
guerra.
Impõe-se igualmente elucidação da
extensão da espoliação a que o nação paraguaia foi submetida,
diretamente, quando e após a ocupação militar brasileira, ao ter sua
população dizimada; ao pagar dívida militar para o Brasil até 1943;
ao perder “as terras em litígio” com o Brasil, “na fronteira com
Mato Grosso” e importante porção do “Chaco ocidental para a
Argentina”, permanecendo sob semi-tutela do Estado brasileiro por
muito longos anos.
Trabalho apresentado no V Encuentro Anual del CEL. “La
Guerra del Paraguay: historiografías, representaciones,
contextos”. Buenos Aires – 3 de novembro de 2008. Mesa
Historiografia: Francisco Doratioto (Instituto Río Branco);
Mario Maestri (PPGH - UPF);
Laura Reali
(U. Paris VII)
Cf. também: Mendes, Fábio Faria. A economia moral do
recrutamento militar no Império brasileiro.
Parte inferior do formulário.
Revista Brasileira de Ciências Sociais - vol. 13 n.
38, São Paulo, Oct. 1998.
Folha de São Paulo, caderno Mais!, domingo, 9 de novembro de
1997, pag 5; ver, também, em Cf. Ricardo Bonalume
Neto.“Novas lições do Paraguai”. /www1.folha.uol.com.br/fol/
brasil500 /histpar_1.htm
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versão para imprimir (arquivo em pdf)
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