RUDÁ
RICCI
Sociólogo, Doutor em Ciências
Sociais. Coordenador do
Instituto
Cultiva, Professor da Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais/Brasil e membro do
Fórum
Brasil do Orçamento
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Salam?
Rudá Ricci

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Muitas dúvidas
A invasão e genocídio desfechado
pelo governo de Israel na Faixa de Gaza deixam um rastro de dúvidas
sobre a real motivação desta iniciativa e até mesmo a natureza do
uso da força como afirmação do Estado Nacional neste início de
século XXI.
Há motivações históricas em
relação a este movimento de expansão do Estado de Israel, sob o
pretexto da segurança nacional. Logo após a fundação de Israel, em
maio de 1948, teve início a expulsão de 750 mil palestinos que feriu
várias resoluções da ONU, num movimento simultâneo de destruição de
vilas palestinas e construção de colônias de ocupação. Em 1967,
Israel construiu um muro de apartheid, no lastro da Guerra dos Seis
Dias. O “ataque preventivo” contra o Egito, liderado por Mosh Dayan,
era o início do uso corrente deste argumento pelo Estado de Israel.
Um Estado de natureza militarizada, que naquele momento lutava
contra a Síria, Egito, Jordânia, Iraque e os palestinos da Faixa de
Gaza. Havia, de fato, uma forte movimentação de exércitos árabes nas
fronteiras com Israel e o Egito bloqueou o Golfo de Aqba. Mas ali se
forjava a ascensão da direita nacionalista israelita, que estaria
consolidada dez anos depois. Se a paz com o Egito, ocorrida em 1979,
poderia ter gerado alguma ilusão em relação à ação militar
preventiva de Israel, a invasão do Líbano em 1982 e a caça à OLP
pareciam indicar os contornos da ideologia de guerra para afirmação
de Israel. Não que não houvesse reação de parte da sociedade civil
israelita. O movimento Refuseniks, formado por jovens que se
recusaram (e se recusam) a prestar serviço militar ou militares que
se recusam a bombardear regiões ocupadas, indica uma clara
resistência no interior do país. Refusenik significa
“recusa”.
Há, ainda, ações isoladas como
a orquestra de jovens músicos árabes e israelenses,
dirigida por Daniel Baremboim. Conheci uma interessante experiência
desenvolvida pelo psicólogo Yaacov Hecht, que dirige o Institute for
Democratic Education (IDE), apoiada pelos princípios e experiência
de Janusz Korczak. Trata-se de importante programa de educação para
a paz, organizada a partir da premissa da autogestão dos
equipamentos educacionais. Em 1987, a Associação Janusz Korczak de
Israel apoiou a criação da Escola Democrática de Hadera que, mais
tarde, criou o IDE. Desde sua criação, o IDE desenvolve projetos em
centenas de escolas e cooperou na formação de vinte e cinco escolas
democráticas no país. Nos últimos anos, o IDE tem atuado junto a
doze governos municipais para programas de desenvolvimento
sustentável regional, mobilizando todas as escolas locais bem como
os demais serviços públicos.
Existe resistência à guerra, portanto,
no interior de Israel. Mas não consegue afetar a ideologia da
guerra, que parece enraizada na própria história de surgimento e
formatação de Israel.
Em 1978, parte dos arquivos
oficiais de Israel se tornou público (arquivos das tropas de choque/Palmach,
diário do primeiro-ministro David Ben-Gurion, arquivos do Conselho
de Ministros, entre outros). Três meses antes da guerra de 1948, o
primeiro-ministro Ben-Gurion escrevia para Moshe Sharett que já
havia condições para a ocupação da Palestina. Durante a ocupação de
48, escrevia em seu diário: “nós estabeleceremos um
Estado cristão no Líbano (…) nós faremos a Cisjordânia em pedaços,
bombardearemos a sua capital, destruiremos o seu exército (…)
deixaremos a Síria de joelhos (…) nossa aviação atacará Port Said,
Alexandria e o Cairo, e isto para vingar nossos ancestrais oprimidos
pelos egípcios e pelos assírios nos tempos bíblicos (…)”. Todos
estes registros são relatados no livro do historiador israelense
Ilan Pappe, “The ethnic cleasing of Palestine”, publicado em 2006. A
tese do autor, como se percebe no título de sue livro, é que desde
sempre Israel alimentou-se da ideologia da purificação étnica da
região. Naquele momento, os judeus representavam 58% da população
instalada (ao lado de uma população de 405 mil árabes) o que exigia
espaço para formar o futuro Estado. Daí Haim Weizmann criar o slogan
“tornar a Palestina tão judia quanto a América é americana e a
Inglaterra é inglesa”. Desde 1938, quando da proposição britânica da
criação de um Estado judeu, Gurion exigia a “transferência
obrigatória”.
A ideologia da purificação étnica, que
transforma Israel num Estado Militarizado envolve religiosos e
ultranacionalistas judeus. Ao redor de 6% da população de Israel
(pouco mais de 400 mil pessoas) sonham com a “Grande Israel”. E os
discursos dos representantes do Hamas (que, ao contrário do Fatah,
não aceita a existência do Estado de Israel) auxiliam na constante
propagação desta “solução” para a paz na região. É fato, ainda, que
apoios internacionais injetaram recursos na Palestina que
ultrapassam o total investido no Plano Marshal. Assim, alimenta-se a
interpretação, em Israel, que as lideranças da Faixa de Gaza teriam
mera motivação militar, de ataque e destruição da sua nação, e não a
defesa e construção de uma comunidade árabe. Um argumento instável
porque o temor atual do surgimento de uma segunda frente de guerra,
ao norte, a partir da quebra de acordo de cessar fogo com o
Hizbollah, é comentada por todos israelitas. Lembremos que o
Hizbollah foi criado em 1982, em meio a um ataque similar ao atual,
quando Israel massacrou ao redor de três mil civis do campo de
refugiados de Chatila e Sabra, no sul do Líbano.
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A guerra como afirmação de
um Estado
Permanece, a partir daí, a dúvida
sobre a persistência do uso da guerra para afirmação de um Estado
nacional. Huntington em seu “Choque de Civilizações” teria sugerido
que os confrontos do século XXI seriam motivados pelos choques
culturais, mais especificamente, de cunho religioso. Criou uma
classificação cultural-religiosa do mundo, identificando sete
civilizações distintas. Sua tese adota um nítido viés racista.
Separa a civilização ocidental da latino-americana, por esta última,
segundo sua argumentação, ser mais católica, comunitária e
irracional que a européia e norte-americana. Enfim, sua tese é quase
uma justificativa e não uma explicação. O que nos remete à
permanência do racismo e do uso da violência como afirmação de
Estados nacionais.
A pergunta parece pertinente. Não
parece que tal proposição seja um resquício a ser enfraquecido com o
tempo, com a troca de Bush por Obama ou pela emergência do
keynesianismo frente à crise mundial. Ao contrário, o chefe de
gabinete do governo Obama é Rahm Israel Emanuel. Emanuel é
congressista por Illinois e chefe do grupo
parlamentar democrata na Câmara dos Representantes. Amigo íntimo de
Barack Obama, foi conselheiro do ex-Presidente Bill Clinton de 1993
até 1998. Clinton tinha outros assessores que foram considerados por
forças israelenses como muito favoráveis à Palestina (casos de
Zbigniew Brzezinski e Robert Malley). Muitos grupos palestinos
contestaram esta indicação. Emanuel é filho de um emigrante
israelita membro do "Etzel", grupo clandestino ultranacionalista
judeu que lutou contra as tropas britânicas antes da criação do
Estado de Israel em 1948. O chefe de gabinete de Obama apoiou Israel
durante a Guerra do Golfo, quando foi voluntário no exército
israelense. Notícias veiculadas na grande imprensa dos EUA afirmam
que é um mediador nas relações do congresso com a AIPAC (American
Israel Public Affairs Committee), lobby sobre o qual pesam acusações
sobre defesa de extermínio seletivo de lideranças palestinas.
Enfim, o racismo parece incrustado no
complexo gabinete formado por Barack Obama.
A questão de fundo parece se localizar
na fragilidade e crise do Conselho de Segurança da ONU. O veto dos
EUA e de Israel à criação do Estado Palestino debela o próprio papel
mediador da ONU. A agonia ficou mais patente com a fala do
presidente da União Européia que afirmou que “a ação de Israel é
defensiva”, ou seja, a reprodução fiel do discurso de Israel. A
ofensiva atual de Israel remete ao fracasso da Liga das Nações.
Assim como a crise econômica mundial
colocou por terra a crença na auto-regulação do mercado, a guerra no
Oriente Médio parece gritar pela criação de um instrumento regulador
das relações políticas entre nações. Esta guerra tem como passado a
mão visível da intervenção dos EUA e a mão invisível da Europa na
fabricação ou desenho de países da região (caso do Iraque e
Jordânia, pela Inglaterra; ou Síria e Líbano, pela França; além da
criação de Israel e do virtual Estado da Palestina).
Enfim, a guerra entre nações – fim da
política – e o realismo frio e calculista que o funda, debelam
qualquer valor humanista porque o considera frágil, abstrato e
a-histórico. A crise aberta do “realismo” econômico ultra-liberal
não se espraiou, ainda, para o mundo político. Vivemos sob a égide
da força e violência, muito mais que da astúcia, parafraseando
Maquiavel. E não há como promover o humanismo pela força.
Como nos ensina Edward Said, o humanismo
é uma forma de vontade e ação humanas, não um sistema ou força
impessoal. É um valor emancipatório porque crítico, de
autocompreensão e de administração dos desejos mais recônditos.
Portanto, é reflexivo e rejeita clichês.
E é justamente daí que nasce a força do
“realismo” bélico. Porque tal realismo é fundado na simplificação (a
higienização social é uma simplificação das identidades e
realizações humanas), no clichê de fácil comoção das massas. O
clichê, na política, tem por efeito o reflexo condicionado que, como
o pareamento de Pavlov, gera uma ação que independe da relação entre
causa e efeito. A ação é impensada, é puro reflexo emocional,
marcado por uma vaga lembrança. Na política, normalmente fomenta o
populismo ou o totalitarismo (ambos mobilizadores da sociedade).
De fato, o uso da guerra como
convencimento eleitoral (como ocorre no caso das eleições em Israel)
ou como fomento à indústria (como ocorre no caso da forte crise
enfrentada pelos EUA, que atingiu o emprego de 2,6 milhões de
norte-americanos em 2008) é o fim da criatividade política e da
razão de Estado como fundamento humanista.
A guerra provocada por Israel é ainda
uma incógnita. O certo é que as motivações explícitas e racionais
escondem outras tantas inconfessáveis e que, nas últimas duas
décadas, motivaram grandes erros em nome do Estado nacional.
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