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HENRIQUE RATTNER
Professor na Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade da USP (FEA/USP); e na pós-graduação no
Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Fundador do Programa
LEAD Brasil e da
ABDL - Associação
Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças

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Guerra dos
cem anos
Henrique Rattner
FEA/USP
A
História da humanidade no último milénio pode ser lida como uma
sucessão interminável de guerras, invasões, destruições e massacres,
particularmente no continente europeu. O início do século XI, foi
marcado pelas primeiras cruzadas que se estenderam até o século XIV,
tendo como objetivo assegurar o domínio cristão sobre os lugares
sagrados da Palestina, controlados então pelos muçulmanos. No
caminho à Terra Santa, os cruzados massacraram judeus, cristãos e
muçulmanos, com extrema brutalidade, movidos pela cobiça de riquezas
arrancadas das vítimas, mais do que pelo conflito para conquistar a
Terra Santa.
Nos
séculos XI a XIII, as populações viveram sob a constante ameaça de
invasões das hordas mongóis, lideradas por Genghis Khan e,
posteriormente, seu neto Kublai Lhan, cujos guerreiros chegaram até
o mar Báltico. No século XII, surgiram as tribos guerreiras
seljúcidas, vindos do Turcmenistão, para conquistar um vasto
território que se estendeu da Ásia Menor e a Mesopotâmia até
Bizâncio. Aos turcos seljúcidas seguiram os Otomanos que continuaram
a expansão por meio de um poderoso exército de cavaleiros bem
armados que conquistou os Bálcãs, os países do Mediterrâneo até o
norte da África e chegaram por duas vezes até às portas de Viena
(1527 e 1683), último baluarte da civilização ocidental. Embora
derrotados pelas tropas do império dos Habsburgos, ajudados pelos
polonêses, os turcos mantiveram sob sua dominação os países dos
Bálcãs, até o século XIX.
Do
lado ocidental, entre 1340 e 1450, França e Inglaterra travaram
inúmeras batalhas, devido às tentativas dos reis inglêses de dominar
extensas províncias francêsas, como a Bretanha, Gascogne e
Normandia.
Durante o século XVII, a guerra dos Trinta Anos entre os reis
católicos e protestantes devastou a Europa Central e o conflito
terminou somente com o Tratado de Westphalia, assinado na cidade de
Muenster, do qual originou se a Europa moderna dos estados
nacionais.
Nos
séculos XIX e XX, na luta pela hegemonia continental, França e
Alemanha enfrentaram se em três guerras sangrentas. A primeira, de
1870-1871, terminou com a derrota das tropas francesas e a anexação
de Alsace e Lorraine pela Alemanha. No fim da primeira guerra
mundial (1014-1018) que ceifou a vida de milhões de soldados dos
dois lados, o mesmo território voltou à soberania francesa. A
hecatombe da segunda guerra mundial (1939-1945), com dezenas de
milhões de vítimas entre soldados e civis restituiu o território
disputado à França mas, dos escombros da guerra mais devastadora
germinou a idéia da associação entre os dois países, sob a liderança
de Konrad Adenauer e Guy Mollet, da qual se originou a Comunidade de
Carvão e Aço, o Mercado Comum Europeu e, finalmente, a União Européa.
Louvando se nesses antecedentes históricos, seria possível
extrapolar para o atual conflito entre Israel e os palestinos que,
também, já dura mais de cem anos?
No
dia 18 de janeiro de 2009, a mídia anunciou a declaração por Israel
de uma trégua temporária em Gaza, com um cessar-fogo condicionado à
reciprocidade do Hamas que prontamente rejeitou a proposta. Embora
declarada unilateralmente por Israel, os EUA e o Egito que
negociaram o cessar-fogo, confirmaram uma reunião que deve
demonstrar o apoio da comunidade internacional à iniciativa. Nesta
reunião, prevista para os próximos dias em Sharm el Sheikh no Egito,
participarão lideres de Estados como a França, Alemanha, Inglaterra,
Turquia, Itália, a República Tcheca que exerce atualmente a
presidência da Comunidade Européia, o secretário das Nações Unidas
Ban Ki Mon e o presidente da ANP – Autoridade Nacional Palestina,
Mahmoud Abbas. O comunicado não menciona a presença de
representantes do Hamas que não é reconhecido pela comunidade
internacional. Concomitantemente, anunciou se um acordo assinado
entre os EUA e Israel contra o rearmamento do Hamas. Esse acordo
assinado em Washington D.C., pela secretária norte americana
Condoleezza Rice e a chanceler israelense Tzipi Livni estabelece a
cooperação entre os dois países, caso Israel aceite o cessar fogo na
Faixa de Gaza.
O
desarmamento do Hamas constitui a principal exigência de Israel para
sustar a ofensiva que durou três semanas e custou a vida de mais de
1200 palestinos, entre civis e combatentes do Hamas. O acordo
estabelece também o bloqueio dos túneis na fronteira entre a Faixa
de Gaza e o Egito que foram usados para o contrabando de armas e,
também, de combustíveis e alimentos. O texto coloca o patrulhamento
da fronteira com o Egito como condição indispensável, para cuja
concretização pede a colaboração da OTAN – Organização do Tratado do
Atlântico do Norte. A assinatura da trégua entre as duas partes em
conflito seria seguida de negociações para por fim ao bloqueio de
Gaza e o envio de monitores internacionais para a fronteira.
O
lider do Hamas, Khaled Meshal, exilado na Síria, teria oferecido uma
trégua, renovável por um ano e condicionada à retirada das tropas
israelenses de Gaza e o levantamento do bloqueio do território. O
Egito e os observadores internacionais usarão equipamentos modernos,
fornecidos pelos EUA, para detectar infiltrações de armas.
Seria este o primeiro passo em direção à paz e, assim, ao fim do
conflito que já dura, cem anos?
No
começo do século XX, os “pioneiros” – fundadores das primeiras
colônias e fazendas coletivistas, criaram grupos armados de defesa (Hashomer)
para proteger-se contra os ataques de árabes. O movimento
irredentista árabe, hostil à expansão das colônias judaicas em
terras compradas dos “effendis”, proprietários ausentes que viviam
nas cidades de Beirut e Damasco. Em 1929, ocorreram vários ataques a
assentamentos judaicos e nas cidades de Hebron e Jerusalém.
Em
1935-36, novos ataques noturnos contra as fazendas coletivistas
(Kibutzim) contra os quais a polícia britânica se mostrou incapaz de
agir e reprimi-las. Uma comissão inglesa chefiada por Lord Peel,
publicou um
“Livro Branco” em que
recomendava ao parlamento a proibição da imigração judaica para
aplacar a ira dos palestinos. Estes foram incitados para a luta pelo
“Mufti” – autoridade religiosa máxima – de Jerusalém, que durante a
segunda guerra mundial procurou asilo na Alemanha nazista.
Pouco tempo depois, no fim da segunda guerra mundial, a Grã Bretanha
resolveu devolver o mandato de proteção sobre a Palestina às Nações
Unidas, que em Assembléia Geral em novembro de 1947, decidiram pela
partilha em dois estados. Esta decisão foi rejeitada pelos países
árabes, enquanto os judeus proclamaram, em 15 de maio de 1948, a sua
independência e a criação do estado de Israel. A segunda metade do
século XX foi uma sequência interminável de conflitos – 1948, 1956,
1967, 1973, 1982, 2006 e o atual, de 2008. Nos intervalos, houve
inúmeros atentados a bomba, assaltos e as “Intifadas” que causaram
vítimas dos dois lados e levaram à evicção de mais palestinos de
suas terras, tornando-os eternos párias, precariamente abrigados em
campos de refugiados, nos países vizinhos. Apesar de inúmeras
tentativas diplomáticas para resolvera questão do Estado palestino,
essas fracassaram pela intransigência dos lideres dos dois lados,
apesar do reconhecimento de Israel por Yasser Arafat, lider da OLP –
Organização para a Libertação da Palestina – e o abandono
oficialmente do objetivo de “jogar os judeus ao mar”.
A
operação militar israelense de dezembro último configura a quarta
vez que Israel invade a Faixa de Gaza. A primeira, em 1948, na
guerra de independência; a segunda, em 1956, quando junto com a
França e a Inglaterra invadiram Gaza para recapturar o Canal de
Suez, nacionalizado por Nasser. Em 1967, durante a guerra de seis
dias, ocorreu outra invasão que levou à ocupação do território por
38 anos, até a retirada unilateral comandada por Ariel Sharon, em
2005. O confronto atual foi detonado pelos bombardeios diários de
colônias israelenses situadas na fronteira, por foguetes Quassam de
pequeno alcance cuja eliminação seria um dos objetivos principais da
ação militar. Ficou patente que o governo de Israel cedeu às
pressões crescentes da opinião pública, às vésperas de eleições
gerais para o parlamento, marcadas para fevereiro próximo e cujos
resultados terão grande impacto na futura política israelense.
Deve-se ter em mente que, ao longo dos últimos anos, sobretudo
durante o governo exercido pelo “Likud”, cresceram as pressões para
ocupar mais terras dos árabes, abandonadas ou conquistadas durante
os conflitos, e alimentadas pelo sonho de Israel nas fronteiras
bíblicas, defendido pelos extremistas da direita e pelos ortodoxos
religiosos.
As
sucessivas insurreições (“Intifadas”) nos anos oitenta e a mais
violenta, de 2001-2003, desfizeram a ilusão de poder manter os
palestinos submissos à dominação de Israel e apontaram para a
necessidade de se chegar a um acordo de paz final, com a criação de
um Estado palestino, a negociação da retirada dos assentamentos
implantados na Cisjordânia, a partilha, considerada por muitos
israelenses como sacrilégio, de Jerusalém e o estabelecimento de
fronteiras seguras garantidas internacionalmente.
Apesar da disposição e do apoio dos países árabes a uma solução
negociada, comprometendo se a reconhecer Israel e a estabelecer
relações diplomáticas com o Estado judeu em troca do retorno às
fronteiras pré 1967 e a criação de um Estado palestino, as
resistências internas dos dois lados são muito grandes. A recusa de
Hamas de reconhecer Israel e de lutar pela libertação de toda a
Palestina, tem impedido um avanço na direção de um tratado de paz,
garantido pelas Nações Unidas, os países árabes e as potências
ocidentais.
Em
2002, a Liga Árabe reunida em Beirut, formalizou uma proposta de
normalização das relações diplomáticas e comerciais em troca da
retirada de Israel dos territórios ocupados em 1967, que foi
rejeitada pelo então governo de Israel, sob a chefia de Ariel
Sharon.
A
recusa de Israel fortaleceu o Hamas em detrimento da facção mais
moderada, o Fatah, que acabou expulsa da Faixa de Gaza pelo grupo
mais radical e intransigente, o Hamas.
Tanto na guerra no Libano contra o Hezbollah – o “partido de deus”,
em 2006, quanto no conflito atual em Gaza, os combatentes têm
desenvolvido uma tática militar contra a qual os bombardeios da
força aérea e da artilharia pesada têm se mostrado pouco eficiente.
Por outro lado, um combate de guerrilhas, defendendo cada casa e
edifício, entrincheirando se em túneis subterrâneos, teria um
elevado custo em vidas de soldados, inaceitável pela população de
Israel.
Continuando a mandar foguetes Quassam contra assentamentos
israelenses, respondidos por pesados bombardeios da força aérea, tem
criado uma situação em que ambos os lados são ansiosos por uma
trégua, mesmo temporária, na expectativa de estabelecer negociações
que possam levar à criação do Estado Palestino e a celebração da
paz.
O
Hamas, a exemplo do mundo árabe, estava dividido quanto ao “como”
terminar conflito. Tal como Israel, o Hamas procurou obter o máximo
de ganhos políticos com o desfecho da guerra. Mas, enquanto os
combatentes dentro da Faixa mandaram sinais urgentes para terminar
rapidamente o banho de sangue, seus líderes no exílio insistiram na
continuação da luta , até a consecução de suas exigências. A pressão
externa de países que apoiaram a mediação do Egito para conseguir a
aceitação dos termos da trégua que deixaria o Hamas no controle do
território, embora sem condições de continuar a guerra, prevaleceram
sobre os grupos mais intransigentes. Tanto o Egito quanto a Turquia
esforçaram se para convencer Khaled Menshal, o lider do Hamas
asilado na Síria, a diminuir suas reivindicações, tendo em vista a
situação catastrófica em Gaza. Os esforços diplomáticos visam uma
trégua de vários dias, seguida por amplas conversações para resolver
as questões sobre o controle das fronteiras e um cessar fogo de
longa duração. Essa mudança para uma posição mais moderada do Hamas
é devida à percepção de que sua tática de ganhar mais apoio
internacional, incluindo do Egito, não produziu os efeitos
esperados. O conflito revelou também a divisão entre os países da
região, ficando por um lado a Arábia Saudita, o Egito e a ANP, que
acusaram o Hamas de agir no interesse do Irã, Síria e do Hezbollah.
Essa tensão entre os árabes explica a chamada da intermediação da
Turquia que mantém relações com Israel e o Hamas. Tal como o
Hezbollah que cantou vitória no confronto com Israel em 2006, no sul
do Libano, também o Hamas poderia declarar se vitorioso, embora as
opções estratégicas continuam com as forças de defesa de Israel.
Indubitavelmente, o
presidente Barack Obama que tomou posse em 20 de janeiro de 2009, a
ONU e os países árabes devem exercer todo seu poder de influência
para conseguir uma solução pacífica desse conflito que se arrasta há
mais de cem anos. |
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