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Israel só provou a Força – não a Razão
David Grossman
Como
o par de raposas na história bíblica de Sansão, amarradas por suas
caudas e com uma tocha em fogo entre elas, assim Israel e os
palestinos – apesar das diferentes forças – arrastam-se um ao outro.
Mesmo quando nos esforçamos muito para nos libertar, queimamos
aqueles que estão amarrados a nós – parceiros de infortúnio – e
também nos queimamos.
E assim, em meio à onda de ufanismos
nacionalistas que está varrendo o país, não faria mal recordar que
no final das contas, esta última operação em Gaza foi só mais uma
parada numa rota pontilhada de fogo, violência e ódio.
Por mais satisfeitos que os israelenses
possam estar por terem sido corrigidas fraquezas técnicas que nos
surpreenderam na Segunda Guerra do Líbano, precisamos prestar
atenção em uma outra voz que diz: os sucessos do Exército de Israel
no confronto com o Hamas não provam ter sido correto embarcar numa
campanha tão massiva. E certamente não existe justificativa para a
forma com que Israel operou no decorrer da luta. Essas ações
militares apenas confirmam que Israel é mais forte do que o Hamas e
que, sob certas condições, pode ser também impiedoso e cruel.
Quando as armas silenciarem totalmente,
e a imagem completa da matança e destruição for conhecida, na medida
em que forem vencidos até os mais sofisticados mecanismos de defesa
psicológica dos israelenses, talvez algum tipo de lição se fixe nos
nossos cérebros. Talvez então possamos finalmente entender o quão
profunda e fundamentalmente as nossas ações nesta região têm sido
mal-orientadas, antiéticas, imbecis e, acima de tudo, responsáveis –
repetidamente – por alimentar as chamas que nos consomem.
Obviamente, os palestinos não podem ser
absolvidos por seus crimes e erros. Isto
seria equivalente a diminuí-los e ser condescendentes,
como se não fossem adultos maduros com suas próprias mentes,
responsáveis por suas próprias decisões e equívocos. Os habitantes
da Faixa de Gaza podem ter sido, de várias maneiras, "estrangulados"
por Israel, mas certamente teriam outras opções para protestar ou
para chamar atenção para sua miséria, diferentes de lançar milhares
de foguetes contra civis inocentes em Israel.
Não podemos esquecer disso. Não podemos
perdoá-los e aceitar naturalmente que sempre que eles se sintam mais
fortes, a violência seja sua única resposta, a que adotem quase
automaticamente.
Mas, mesmo quando os palestinos agem com
violência indiscriminada, quando usam terroristas suicidas e
foguetes Qassam, Israel continua mais forte do que eles, e podemos
ter um impacto tremendo sobre o nível de violência do conflito como
um todo – e portanto em acalmá-lo e até levá-lo a um fim. O atual
confronto não mostrou ninguém no governo israelense que mostrasse,
de maneira consciente e responsável, sensibilidade ao significado
crítico desse aspecto do conflito.
Não existe solução militar!
Um dia, afinal, iremos curar as feridas
que infligimos hoje. Mas, como este dia chegará, se não entendermos
que o nosso poder militar não pode ser o principal instrumento para
abrir para nós um caminho nesta região?
Como irá este dia chegar se não
conseguimos entender como é grave a responsabilidade que repousa
sobre os nossos ombros, pelas profundas marcas em nossas inevitáveis
relações, passadas e futuras, com os palestinos na Cisjordânia,
Faixa de Gaza e na Galiléia?
Quando se dissiparem as nuvens de fumaça
colorida dos discursos dos políticos sobre uma vitória estrondosa e
decisiva; quando descobrirmos o que realmente conquistamos com esta
operação e o quão longe isto está do que precisamos para ter aqui
uma vida normal...
Quando finalmente admitirmos que um país
inteiro ansiosamente se deixou hipnotizar, porque tanto precisava
acreditar que Gaza iria curar sua psicose do Líbano [1]
...
Talvez então acertemos as contas com
aqueles que, de quando em quando, incitam a população de Israel,
embalando-a num frenesi de arrogância e na euforia da força.
Com aqueles que nos ensinaram ao longo
dos anos a desdenhar da fé na paz e em qualquer esperança por
mudança nas nossas relações com os árabes. Aqueles que nos
convenceram de que os árabes só entendem a força e que esta é a
única língua que podemos usar com eles.
E por termos falado com os palestinos
por tanto tempo nesta língua – e só nesta língua – esquecemos que
existem outras línguas para se falar com seres humanos, mesmo com
inimigos, mesmo com adversários amargos como o Hamas – línguas que
são tão nossas quanto a dos tanques e aviões.
Nós precisamos falar com os palestinos.
Esta é a conclusão mais importante de mais uma rodada de
carnificina. Precisamos falar, também, com aqueles que não
reconhecem o nosso direito de existir aqui.
Em vez de ignorar o Hamas, agiríamos
melhor agora aproveitando imediatamente a nova realidade que foi
criada. Iniciando um diálogo com eles, que nos permita chegar a um
acordo com todo o povo palestino.
Precisamos falar com eles e começar a
reconhecer que a realidade não é a história hermética que nós –
assim como os palestinos – temos nos contado por gerações. A
realidade não é apenas a história em que estamos trancados, composta
em boa medida de fantasias, sonhos impossíveis e pesadelos.
Precisamos falar com eles e criar,
dentro desta realidade trancada e surda, a
própria possibilidade de se falar. Nós precisamos criar esta
alternativa, hoje tão ridicularizada e amaldiçoada, que dentro da
tempestade da guerra quase não teve lugar, esperança ou seguidores.
Nós precisamos
falar com eles, como parte de uma estratégia objetiva. Precisamos
promover a conversa, insistir na conversa e não deixar que ninguém
nos silencie. Precisamos falar. Mesmo que o diálogo se mostre inútil
no início, nossa teimosia contribuirá muito mais para a nossa
segurança do que centenas de aviões despejando bombas numa cidade e
em seus habitantes.
Precisamos
falar, a partir da visão terrível desta devastação, ao perceber que
o mal de que somos capazes de infligir uns aos outros, cada um do
seu jeito, é tão gigantesco, destrutivo e sem sentido, que se a ele
nos rendermos e aceitarmos sua lógica, ele nos acabará destruindo a
todos.
Precisamos
falar, porque o que aconteceu na Faixa de Gaza nas últimas semanas é
um espelho no qual nós, em Israel, vemos o reflexo do nosso próprio
rosto – um rosto que, se estivéssemos olhando de fora ou o víssemos
em outra gente – nos deixaria
horrorizado.
Porque essa
nossa “vitória” não é real, e a guerra em Gaza não cicatrizou o
ponto que tanto precisa ser curado. Apenas expôs mais profundamente
os equívocos trágicos e intermináveis que já fizemos ao percorrer o
nosso caminho.
Este texto foi publicado pelo jornal israelense Haaretz e
traduzido por
MOISÉS STORCH para a Revista Espaço
Acadêmico. Leia
outros
artigos de DAVID GROSSMAN, que marcaram a evolução do
campo da paz em Israel na última década, traduzidos e
publicados em português pelos Amigos Brasileiros do PAZ
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