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Finkelstein, ou
o bumerangue como instrumento de análise
Franklin Goldgrub
A
operação militar israelense em Gaza trouxe mais uma vez à tona o
debate acerca da legitimidade do Estado judeu. Visto que os críticos
do sionismo têm dificuldade em negar a responsabilidade do Hamas
pelo atual episódio do centenário conflito, a discussão se desloca
para a questão da existência de Israel, abrangendo temas como o da
sua origem e as conseqüências da guerra de 1948.
Um dos mais celebrados teóricos do
anti-sionismo, Norman Finkelstein, menos pelo teor de seus
argumentos do que pela veemência com que os divulga e defende,
empreende em “Imagem e realidade do conflito Israel-Palestina"
[1] uma tentativa de desautorizar o projeto sionista, recorrendo
à argumentação desenvolvida por Yosef Gorny em
Zionism
and the Arabs, 1882-1948: A Study of Ideology [2]
[O sionismo e os árabes, 1882-1948: Um estudo sobre Ideologia].
Finkelstein recomenda o livro de Gorny como “...o mais autorizado
estudo até hoje publicado sobre o período crucial em que o movimento
sionista fez seus primeiros contatos com a população árabe da
Palestina, lutou contra ela e acabou levando a melhor”.
Gorny
divide a “ideologia sionista” em três vertentes, política,
trabalhista e cultural. Apesar das respectivas diferenças, todas
teriam em comum a exigência de uma maioria judaica na terra
novamente prometida. Assim, segundo Gorny, o lado pragmático do
sionismo teria prevalecido sobre o idealismo de alguns de seus
defensores. Em última análise, o sionismo político teria convencido
tanto a esquerda como a intelectualidade judaica humanista a aceitar
as metas de um programa nacionalista em detrimento das preocupações
com os interesses da população árabe nativa.
O
pecado original do movimento criado por Hertzl se deveria ao seu
nacionalismo, que na visão de
Gorny se
contraporia ao “ideal democrático” derivado das bases filosóficas
responsáveis pelo ideário da Revolução Francesa. Sem dar-se ao
trabalho de discutir minimamente a notável complexidade do terremoto
social de 1789 que inaugurou a grande divisão ideológica responsável
pelas concepções políticas contemporâneas, Gorny opõe ao famoso lema
revolucionário (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) aquilo que chama
de nacionalismo romântico [3],
concepção segundo a qual “...vínculos mais profundos da mesma
forma "natural" uniam certos indivíduos e excluíam outros”. A
conclusão não poderia ser outra senão a de que o sionismo, enquanto
movimento nacionalista, resultaria da “...suposta falência do
ideal democrático”.
O
modelo do sionismo, segundo Finkelstein, poderia ser encontrado no “pangermanismo”,
definido pela exigência de que “(...) todas as pessoas de raça,
sangue e ascendência alemãs, onde quer que vivessem e qualquer que
fosse o Estado a que pertencessem, deviam lealdade primeiro que tudo
à Alemanha e deveriam tornar-se cidadãos do Estado alemão, sua
verdadeira pátria (...)”.
Assim
como o livro de Gorny havia recebido o generoso aval de Finkelstein
(“o mais autorizado estudo”), a frase acima citada é de Hans
Kohn, “(...) provavelmente a mais eminente autoridade em
nacionalismo moderno (...)”, elogio seguido de um acréscimo
revelador “(ele próprio um sionista a certa altura)”.
O recurso ao
argumento de autoridade, no caso autoridade suposta derivar da
origem étnica ou de uma ex-filiação política, é comum em Finkelstein.
A atribuição de prestígio (“...a mais eminente autoridade em
nacionalismo moderno”) [4]
tampouco é rara. O critério é compartilhado por aqueles que
consideram especialmente significativa a crítica ao sionismo quando
feita por um judeu. O raciocínio é expresso explícita ou
implicitamente da seguinte forma: “Se até um judeu critica
Israel, então...”
Curiosamente, a recíproca não é verdadeira. Os usuários do argumento
“se até um judeu” jamais extrairão qualquer implicação acerca
de não judeus (como Pilar Rahola) se posicionarem favoravelmente ao
Estado sionista. Efetivamente, é impossível encontrar em Finkelstein
e similares um raciocínio como “...se um não judeu (ou um não
sionista) considera legítima a existência de Israel, então...”
O
próximo passo da argumentação desenvolvida por Finkelstein é
verdadeiramente acrobático. Amparado na associação entre
pangermanismo e sionismo, derivada da analogia proposta por Hans
Kohn (que tampouco é objeto de qualquer análise ou discussão),
Finkelstein proclama a entente entre sionismo e
anti-semitismo. O argumento, de uma originalidade a toda prova,
considera que “... a análise sionista da questão judaica
replicava o raciocínio do anti-semitismo” e tem por implicação
que “O sionismo político não pretendia combater o anti-semitismo
- que na melhor das hipóteses era encarado como um empreendimento
quixotesco - mas chegar a um
modus vivendi com ele”.
Sem temer a
figura lógica da contradição em termos, Finkelstein supõe então uma
espécie de “internacional nacionalista”, unindo os diversos
movimentos fundados no ethos da origem comum. A valorização
da identidade étnica teria o dom de compatibilizar nada menos do que
o anti-semitismo típico das sociedades européias durante as crises
da transição [5]
com seu alvo mais conspícuo, os judeus.
O
louvável destemor finkelsteiniano se estende da lógica à história. O
raciocínio segundo o qual o anti-semitismo seria encarado pelos
judeus como “na melhor das hipóteses (...) um
empreendimento quixotesco” contradiz evidências incontroversas,
simbolizadas por fenômenos tão conhecidos e emblemáticos como o
libelo de sangue, o pogrom e a Inquisição, perante os quais é
difícil entender como um judeu manteria a bem humorada atitude da
nonchalance. Se o adjetivo “quixotesco” metaforiza um
empreendimento irrealizável, dificilmente alguma utopia terá se
aproximado tanto da sua concretização como o extermínio (ou “na
melhor das hipóteses” a expulsão) de judeus, que a história
européia, da era medieval à contemporaneidade, ilustra fartamente.
Finkelstein é
muito conhecido por sua atenuação do Holocausto [6].
A descrição da atitude judaica perante o anti-semitismo como
irrelevância que não deve ser levada a sério é mais uma manifestação
da desenvoltura com que trata as evidências contrárias a suas teses.
Nas mãos de Finkelstein a história se torna uma matéria flexível,
perfeitamente moldável segundo as conveniências.
A
surpreendente afirmação, encaixada entre travessões, ao melhor
estilo en passant, sem qualquer argumentação de apoio, chega
ao requinte de postular a convivência pacífica entre o sionismo
político e o anti-semitismo... Historiadores de todas as correntes
são unânimes em atribuir a emergência do sionismo político à
decepção com o liberalismo europeu [7],
que havia fracassado em relação à judeofobia. Efetivamente, o apelo
da emigração a Israel foi primeiramente acolhido pelos judeus da
Europa Oriental, que enfrentavam uma onda crescente de perseguições
e massacres, associadas às tensões sociais resultantes da transição
de uma sociedade predominantemente agrária, cuja classe dominante
era a aristocracia, para o modo de produção industrial-capitalista.
Finkelstein estaria em terreno mais sólido se afirmasse que o
anti-semitismo foi um dos principais fatores (embora não o único)
subjacentes ao surgimento e à força adquirida pela idéia sionista.
As
afirmações acima referidas bastariam para por em dúvida a
confiabilidade de Finkelstein enquanto comentarista de fatos e
processos históricos. Mais do que isso, o respectivo teor afeta a
credibilidade mínima que um autor deve ser capaz de suscitar para
ser levado a sério.
Não é
necessário ter dons proféticos para perceber a que finalidade
servirá um argumento tão incomum: assim como o revólver que é
mostrado no primeiro ato será inevitavelmente usado no final da
peça, Finkelstein pretende fazer do sionismo o pendant da
xenofobia européia face aos próprios judeus.
Pode-se ver
nesse raciocínio — o conluio entre anti-semitismo e sionismo — a
antecipação e o fundamento das inúmeras e recorrentes comparações
entre Israel e nazismo, analogia inevitável no discurso dos regimes
ditatoriais árabes e da militância esquerdista (ou
pseudo-esquerdista). Pode-se dizer que o autor de “Imagem e
realidade...” é o patrono, consciente ou não, da iconografia
onipresente tanto na mídia progressista como na imprensa oficial [8]
do mundo árabe/muçulmano.
Toda
exacerbação do conflito costuma desencadear a procissão de
cartoons simbiotizando a estrela de David com a cruz gamada, à
qual não raramente se soma a figura de um Cristo palestino
crucificado por soldados israelenses. A perspectiva freudiana não
deixaria de perceber aí um exemplo notável de condensação, unindo
exemplarmente os grandes temas desenvolvidos pela judeofobia ao
longo dos séculos.
A compreensão
das origens do sionismo político, porém, não requer complexas
elocubrações teóricas nem contorcionismos lógicos do gênero. Hertzl
representou a tomada de consciência de que o humanismo derivado dos
ideais da revolução burguesa [9]
não era capaz de estender o seu manto protetor àqueles citoyens
que também eram, desafortunadamente, judeus... Ou seja,
citoyens com um sinal menos ao lado. A constatação de que o
preconceito sobrevivera aos anticorpos dos ideais republicanos
constituiu a base do sionismo laico contemporâneo, diferenciando-o
do sionismo religioso, presente desde sempre na tradição judaica.
Na
contramão da argumentação de Finkelstein, Gorny et alia,
pode-se entender o sionismo político como a maneira pela qual os
judeus conseguiram incluir-se na Declaração Universal dos Direitos
do Homem... à revelia de seus virtuosos guardiães, entre cujos
descendentes zelotas como Finkelstein e Chomsky ocupam um lugar de
destaque.
O que
aconteceu com o citoyen descendente dos assassinos de Cristo
repetir-se-ia com o tovarich perfidamente apegado aos trinta
dinheiros, século e meio depois, na União Soviética. A freqüente
comparação entre as revoluções burguesa e proletária raramente
inclui o tratamento que ambas dispensaram às minorias, omissão
típica das hagiografias políticas. Entretanto, trata-se de uma
verdadeira pedra de toque para por à prova o tão alardeado humanismo
das utopias.
Humanismo do
qual não se vê como o terror robespierriano e o terror stalinista
poderiam ser exemplos encomiáveis. Mas já sabemos que o famoso
preceito maquiavélico (no duplo sentido do termo), “o fim justifica
os meios" [10],
constitui o argumento por excelência daqueles que procuram conciliar
a pureza dos ideais com a sordidez das práticas...
Chega-se assim ao âmago da questão. Finkelstein, Gorny, Kohn,
Chomsky, e em geral os autores pertencentes ao campo do
anti-sionismo militante professam o que poderia ser chamado de
atitude universalista, em grande medida amparada nos ideais do
iluminismo (revolução francesa), que antecederam e prepararam o
caminho para a ética marxista.
O
universalismo se quer inerentemente igualitário e se considera como
porta-voz autorizado da exigência de justiça. A partir desse ângulo,
o internacionalismo representaria o conjunto da humanidade em
oposição ao nacionalismo, paladino de interesses particulares. Em
relação à luta de classes, a burguesia, minoritária e privilegiada,
deveria ser extinta, em benefício da classe trabalhadora,
majoritária. A oposição está presente até mesmo nas denominações
“bolchevique’ e “menchevique”.
No
código particular da esquerda (ou de certa esquerda?), os conceitos
“universal”, “maioria”, “internacional” e “igualdade” foram
associados à virtude, enquanto seus opostos, “particular”,
“minoria”, “nacional” e “diferença” passaram a ser condenados como
egoísmo, individualismo, busca de privilégio e injustiça.
Infelizmente, tanto a lógica como a história prodigalizam evidências
que questionam esses raciocínios aparentemente inabaláveis.
O judaísmo
sempre foi minoritário e nesse sentido manteve uma identidade
própria que o situou em posição marginal perante as exigências
uniformizantes das três grandes correntes universalistas da história
ocidental: o cristianismo, a democracia liberal burguesa [11]
e o comunismo. (Que também poderiam ser referidas pelos termos:
feudalismo, capitalismo e estatização).
Tanto
o cristianismo como o liberalismo econômico e o comunismo
preconizaram a igualdade de direitos (quer perante a divindade, o
mercado ou o partido do proletariado). Menos notado é que essa
igualdade é oferecida exclusivamente aos fiéis de determinada
religião, aos adeptos dos valores professados em determinada
forma de Estado-nação e aos militantes de determinada
concepção política.
Ou seja, e
conforme a célebre boutade orwelliana em ‘A Revolução dos
Bichos’, há os iguais e os “mais iguais”. Dos judeus pode-se
dizer que sempre foram os “menos iguais”. Desnecessário exibir
provas. Basta citar a Inquisição, os pogroms, Dreyfus, a atitude das
democracias ocidentais perante o nazismo [12],
o “complô dos médicos judeus” e os judeus do silêncio (que deram
origem à expressão “prisioneiros de Sion” na ex-URSS). Esse
inventário hiper-condensado serve para ilustrar à condição nada
confortável (o eufemismo ofende menos) dessa minoria, tanto perante
a teologia cristã como face aos três poderes da democracia
representativa e os comitês centrais do partido comunista.
Se for
acrescido a esse quadro a condição de “dhimmi” (palavra árabe
significando “acordo” e que designava a imposição da cidadania de
segunda classe aos não muçulmanos, categoria quase exclusivamente
constituída por judeus nas nações árabes), pode-se entender sem
grande dificuldade a popularidade da “ideologia sionista”.
O
credo universalista, ao contrário do que dizem seus entusiastas,
está longe de expressar na prática as virtudes da caridade, da
tolerância, da igualdade de oportunidades, da solidariedade e da
justiça social, expressas nos respectivos princípios e programas.
Reciprocamente, nem todo nacionalismo é excludente, beligerante e
xenófobo.
A
teoria do anti-sionismo, fundamentada na oposição
universal/particular, maioria/minoria,
internacionalismo/nacionalismo, se já é totalmente questionável
enquanto modelo construído ad hoc para condenar Israel a
partir de um critério pretensamente ético, falha completamente
quando se passa do terreno teórico-ideológico à história das
relações entre judeus e árabes no Oriente Médio.
Quer
se refira à época anterior à partilha, promulgada pela ONU em 1948,
quer à etapa subseqüente, a suposição de que a presença judaica
teria por implicação a expulsão ou a subordinação da população árabe
é frontalmente contrária à realidade.
Finkelstein
escreveu uma crítica contundente ao livro “Desde tempos
imemoriais...”, de Joan Peters. Uma das principais teses de
Peters é que a maioria da população árabe radicada em Israel por
ocasião da partilha não era autóctone mas procedia das regiões
vizinhas ao “Lar Judeu" [13].
Embora
os números de Peters sejam incomprováveis e provavelmente exagerados
(os ingleses não mantinham, et pour cause, estatísticas
referentes ao ingresso de emigrantes pelas fronteiras terrestres, ao
contrário do controle estrito exercido sobre o desembarque no porto
de Haifa), não há como negar que a infra-estrutura econômica criada
pelo trabalho e pelo investimento dos pioneiros sionistas pôs em
marcha um movimento populacional em direção às regiões desenvolvidas
pelos emigrantes judeus.
Portanto, se
a famosa frase “uma terra sem povo para um povo sem terra” não é
100% correta, faz-se preciso reconhecer que está bem mais próxima da
realidade do que a suposição de que os judeus tomaram a terra dos
árabes. Todos os testemunhos demonstram que os territórios
correspondentes a Israel e à Jordânia atuais eram parcamente
habitados devido às condições (ou à falta de) oferecidas pelo
Império Otomano. No final do século XIX, segundo o último censo
disponível, havia 250 mil habitantes na região (inclusive a atual
Cisjordânia). Já em 1948, após meio século de presença judaica, a
população árabe, somente na região atribuída aos judeus pela
partilha, era estimada em 600 mil pessoas, o que é totalmente
incompatível com a idéia da substituição da população árabe pelos
emigrantes. Hoje a população de Israel chega a sete milhões, dos
quais 20% são constituídos pela etnia árabe, e isso apesar do êxodo
de 1948 [14].
Na
época anterior à partilha, a maior densidade demográfica da
população árabe coincidia com a maior densidade demográfica da
população judaica, ou seja, havia mais árabes onde havia mais
judeus. Bastaria esse dado para inviabilizar totalmente a tese do
antagonismo entre as presenças judaica e árabe.
Não
somente em virtude das facilidades concedidas à emigração árabe e
das correspondentes dificuldades impostas à emigração judaica por
parte da administração britânica, mas também devido à história
trágica da diáspora judaica, quer no ocidente cristão ou no oriente
islâmico, a preocupação com o estabelecimento de uma maioria judaica
em Israel é mais do que compreensível.
Essa
diretriz, porém, não se expressou por atitudes anti-democráticas nem
discriminatórias. Ela não teve nem tem por conseqüência a expulsão
de não judeus mas, bem diferentemente, se limita a promover o
incentivo à emigração de judeus, o que é aliás o direito de qualquer
Estado-nação — Alemanha, Itália e Espanha também favorecem o retorno
de descendentes que emigraram durante os anos de penúria, embora a
história desses povos não registre perseguições ou discriminação.
Mais
do que surpreendente, é de causar perplexidade a convicção com que
Finkelstein dirige a Israel críticas tão desprovidas de qualquer
fundamento. Elas são negadas desde a simples constatação de que a
composição da população israelense revela características
multiculturais que dificilmente têm paralelo em qualquer
estado-nação contemporâneo. Em Israel convivem judeus, árabes
muçulmanos e cristãos, drusos, baha’is, circassianos, beduínos, há
liberdade de culto e de associação, exercício pleno de cidadania
independentemente da origem étnica.
As
críticas dirigidas a um Estado judeu tão flagrantemente ecumênico
poderiam ser aplicadas sem qualquer restrição aos vizinhos de
Israel... e também, sem dúvida, à organização política daqueles que
Finkelstein considera como as vítimas eletivas da opressão
israelense. A Autoridade Palestina bem como os países árabes em
geral praticam uma política judenrein claríssima e a sua
xenofobia é mais do que conhecida.
As
dificuldades de convivência entre judeus e árabes nos primeiros anos
do século XX, quando ocorreram as primeiras ondas migratórias,
devem-se à diversidade das respectivas culturas. As causas dessas
dificuldades são tão compreensíveis como superáveis. Se as mesmas se
transformaram em hostilidade aberta, isso se deve, segundo todas as
evidências, à incitação do clero muçulmano, responsável pelos
ataques e massacres cometidos pela população árabe. Por outro lado,
além das dificuldades de comunicação entre as duas comunidades houve
(e há) igualmente cooperação e entendimento. A convivência entre
árabes e judeus, tanto durante as primeiras décadas do século XX
como atualmente, escapa à camisa de força do esquema ideológico
elaborado tortuosamente pelos anti-sionistas.
A
verdadeira oposição deu-se entre as elites árabes e os recém
chegados. O respectivo motivo também é facilmente compreensível. Os
judeus europeus trouxeram à região práticas econômicas e políticas
que não poderiam senão ser vistas como ameaçadoras pelas camadas
dominantes de uma sociedade em estado semi-feudal.
Esse é
o fator determinante da beligerância árabe/muçulmana em relação aos
judeus. Vale tanto para as etapas iniciais do sionismo como em
relação à atualidade. Se for aplicado o enfoque proposto por Max
Weber para compreender as relações entre estrutura sócio-econômica e
religião, dificilmente se chegará a outra conclusão senão a de que o
islamismo representa a ideologia beligerante característica de
sociedades em que a guerra constitui a atividade econômica
preponderante, largamente prioritária em relação ao que o ocidente
define como produtividade.
Nesse
sentido, as sociedades árabes/islâmicas evocam o feudalismo europeu.
A indústria extrativista do petróleo deu a esses regimes o substrato
necessário à respectiva sobrevida. O processo é semelhante ao que
fez com que a península ibérica se mantivesse refratária à revolução
industrial, no início da era moderna, graças à exploração dos
recursos naturais oriundos das colônias. A ironia é que as ditaduras
do Oriente Médio respiram graças às sociedades industriais que
representam a antítese de seus valores.
De resto,
toda a argumentação desenvolvida por Finkelstein, eventualmente
apoiada por Gorny e Kohn, é de uma fragilidade extrema. A identidade
judaica, bem como suas expressões religiosas e não religiosas e o
respectivo efeito nos judeus [15], precede de séculos ou milênios o
nacionalismo europeu. O sionismo político está infinitamente mais
ligado ao sionismo religioso, que o precedeu e o acompanha (apesar
do incessante confronto entre ambos), do que ao pan-germanismo. O
“internacionalismo” ou “transnacionalismo”, devida e/ou
indevidamente atribuído aos judeus, é muitíssimo anterior e tem
bases muito mais extensas — religiosas e culturais — do que as do
modelo dicotômico suposto por Gorny.
Evocando a anedota do passarinho, do gato e da vaca, pode-se dizer
que nem todo nacionalismo é beligerante (ou nem toda beligerância é
nacionalista) e nem todo universalismo é humanista (ou nem todo
humanismo é universalista). Quando se quer defender uma tese tão
contrária à lógica e às evidências, é recomendável esconder com mais
cuidado a própria indigência intelectual.
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