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VALÉRIA
SALLES
Mestre em Planejamento e
Desenvolvimento Social pela Universidade da Cidade do Cabo,
África do Sul e licenciada em Geografia e Meio Ambiente. Desde
1989 é consultora independente para o desenvolvimento em
diversas áreas (meio ambiente e poluição industrial, segurança
alimentar, desenvolvimento regional e rural, educação, saúde,
educação política, formação em lideranças), e em diferentes
países (além do Brasil, África do Sul, Alemanha, Angola,
Moçambique, Tanzania). |
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Henrique Rattner: o pensador do desenvolvimento
Entrevista de Henrique Rattner
* a Valéria Salles
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São Paulo, 1º de Maio de 2008
VS:
Como apareceu o interesse pelas questões do desenvolvimento na sua
vida?
HR:
Tem um pouco a ver com a minha história de vida. Crescer num
ambiente muito pobre, por um lado, mas por outro num momento
histórico muito dinâmico que foram os dez anos de governo socialista
na cidade de Viena. No resto do país eram os cristãos-democratas,
mas Viena era conhecida como das rotes Wien, a Viena
Vermelha.
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Viena Vermelha (1918-1934), uma experiência de socialismo
municipal, liderado pelo Partido Socialista Austríaco (SDAP),
que objetivou a mudança física e cultural da cidade para
transformar a classe trabalhadora no “povo novo”, através de
moradias de baixo custo, educação, lazer e esportes. |
Daí, em
todos os dias 1º. de Maio centenas de milhares de pessoas saíam às
ruas cantando canções contra a guerra, canções socialistas e aquilo
tudo me impressionou. Me impressionou também por outro lado o estudo
na escola pública gratuita de muito boa qualidade o que ajudou a
despertar meu interesse pelo mundo, que já existia provavelmente,
mas que foi estimulado pelo que ouvi e pelo que pude ler, porque a
escola tinha uma excelente biblioteca.
De modo
que desde os 12-13 anos eu sonhei com coisas do mundo, do mundo
lá fora. Não tinha idéia das dimensões, sabia geografia. O
primeiro livro que comprei foi um Atlas, assim pequeno, para saber
onde é que estão os países. Por sinal ainda tenho este Atlas, tem
mais de 50 anos.
Neste
tempo, quando terminei a escola, estava a questão “o que fazer?”.
Não podia continuar a estudar porque não tinha dinheiro. O ginásio,
a partir do segundo ciclo, era pago. Sem esperança de qualquer
possibilidade, meu pai queria fazer de mim um sapateiro. Como ele
era um sapateiro, ia ter um ajudante barato. Eu fui estudar e
aprender sapataria na prática, durante um ano. Digo estudar porque
pela lei qualquer aprendiz devia frequentar uma vez por semana a
escola profissional. Para não ter alguém que só tivesse a habilidade
manual mas que também compreendesse os materiais e os processos.
Então isto abriu também o meu mundo, mas eu diria que este mundo era
muito reduzido. A vida na sapataria e não muito mais, a não ser a
possibilidade de frequentar o Movimento Juvenil de Escoteiros, e no
qual se discutiam os problemas do mundo, da sociedade, se
recomendavam livros já mais avançados, livros anti-militaristas,
anti-guerra, famosos escritores naquela época eram Upton Sinclair, o
Jack London, Bernard Traven, todos eles tinham um fundo social
bastante importante, cujos relatos configuravam um pouco a minha
cabeça, no sentido de procurar me colocar no mundo, na busca, vamos
dizer, de relações mais justas, mais equilibradas entre as pessoas.
Eu não sabia muito bem como, mas acompanhava, por exemplo, naqueles
anos, o processo de Moscou pela imprensa. E fiquei muito desconfiado
desde então de toda esta história, de tudo o que a imprensa cristã
publicava, tanto sobre o regime soviético quanto o que publicava
sobre Trotsky, parecia tudo farinha do mesmo saco.
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A
série de julgamentos dos opositores de Stalin entre 1936 e
1938 na União Soviética ficou conhecida como os Processos de
Moscou. Eles resultaram na execução de todos os membros do
Comitê Central do Partido Bolchevique à exceção do próprio
Stalin. Leon Trotsky, também membro do Comitê Central, foi
condenado à revelia e assassinado em 1940 no México. |
Este
interesse pelo que era, e o que depois viria a ser, a
Quarta Internacional, ficou despertado quando eu tinha uns 14 anos.
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A
Quarta Internacional foi criada por Trotsky quando o
fascismo e o militarismo cresciam na Europa, para se opor ao
capitalismo através da união do todos os trabalhadores. |
Marcou
então toda uma busca de informações, através de leituras, através de
discussões, embora nem todos os companheiros do Movimento
compartilhassem desta visão que eu chamaria de esquerda. Eles
eram mais filhos da classe média e o que eles pensavam era que eles
iriam para a então Palestina, iam construir o lar nacional e tinham
a visão Sionista. Não queria eu discordar mas eu achava que o mundo
não se explicava só por isso.
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Sionismo, como uma ideologia, afirma que judeus constituem
um povo ou nação como qualquer outro e que assim devem estar
ligados a um único território. |
Aconteceu
que depois da entrada dos nazistas na Áustria, em 1938, eu adoeci.
Fiquei durante um mês e meio hospitalizado entre um lado e outro da
vida, e quando saí consegui ainda me juntar ao grupo que já tinha
viajado para a Palestina, e recebi o visto para poder imigrar. E foi
na hora H porque logo depois estavam fechadas todas as fronteiras,
ninguém podia mais sair, sem ter o visto, sobretudo. E daí aconteceu
tudo o que aconteceu, inclusive com membros da minha família, meus
parentes.
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Nazismo e comunismo eram duas forças em competição na
Alemanha após a I Guerra Mundial. Capitalistas e
conservadores temiam que os Comunistas assumissem o poder e
não confiavam nos partidos sócio-democratas para lhes fazer
frente. Depois de Mussolini assumir o poder na Itália em
1922 e destruir o movimento anarquista e comunista, o
nazismo parecia uma opção realista. Historiadores dizem que
o elemento racista e anti-semítico não existia antes de
Hitler, que adotou este discurso para ganhar popularidade
entre as massas, uma vez que este preconceito já era
popularmente comum. |
A vida lá
no Kibutz foi uma experiência inédita, dificilmente imaginável. Eu
tinha 15 anos, trabalhando no campo, dirigindo um trator,
participando de discussões, aprendendo a história, a geografia e ao
mesmo tempo mantendo o interesse pela política internacional.
VS: Até
que ponto havia interesse em discussões políticas entre seus
companheiros?
HR:
Não com todos, mas havia um grupo que compartilhava as mesmas
idéias, que eu chamaria de esquerdistas. Depois então veio a guerra.
O que fazer durante a guerra? Você vai lutar do lado dos
imperialistas, dos ingleses? Ou você vai ficar parado diante do
avanço dos nazistas, o que a gente sabia que seria o fim? Então era
um desafio muito grande, adotar uma postura coerente comigo mesmo e
perante os outros que faziam pressão para que eu me alistasse no
exército inglês, que constituiu uma Brigada Auxiliar de combatentes.
Mas eu consegui, através de uma série de empregos que eu procurei e
em que fui aceito, trabalhar como mecânico em estaleiros para
consertar navios que foram danificados nas batalhas marítimas;
depois trabalhei nas oficinas do exéricto inglês para consertar
tanques que também foram estraçalhados pelos tanques do General
Rommel lá no deserto da Líbia, e finalmente consegui me alistar na
Marinha Mercante, com o objetivo de poder sair e estabelecer
contatos pelo mundo afora. Sempre pensando naquilo que viria a ser o
mundo depois da guerra. Tentando imaginar de que forma se daria a
chamada Revolução, a transformação da sociedade capitalista, uma
sociedade irracional, que levava à guerra e a crises econômicas,
numa sociedade socialista, igualitária, humanista. Mas obviamente
eram mais questões do que eu podia responder. O importante era
ter as questões naquela época. As respostas vieram aos poucos ao
longo de toda a minha vida, e muitas outras respostas eu ainda
continuo a procurar.
VS: E
estas questões eram mais de cunho filosófico-teórico ou você era um
perguntador pragmático?
HR:
O primeiro desafio era conhecer mais e melhor. Portanto, percebi a
minha inedequação, deficiência do ponto de vista de poder elaborar
explicações mais sólidas. Daí a minha procura e a minha preocupação
em estudar. Eu tinha parado de estudar com 14 anos e no fim da
Guerra em 1946 eu tinha 21. Já estava casado, com um filho, mas
ainda assim tinha a idéia de voltar a estudar, esta não me abandonou
nunca. Consegui porque meus pais que se tinham refugiado na Suíça me
conseguiram um visto de turista e eu fui em 1946 para a Suíça
visitá-los, pensando que ia conseguir ficar lá e estudar como os
meus dois irmãos menores que tinham estudado no Instituto de
Psicologia. Não foi possível, eles não quiseram me dar o visto, eu
continuei minha viagem para Paris, tentando encontrar emprego. Não
consegui, porque estava tudo destruído, continuei para Bruxelas, e
lá consegui um emprego. Por dois anos trabalhei por lá, sempre com a
idéia: como ia entrar para uma escola superior?
A
oportunidade apareceu no Instituto de Ensino Superior, Institut des
Hautes Études de Belgique. Tinha um departamento que se chamava
Escola de Ergologia. Seleção e orientação profissional, estes eram
os cursos que a Escola oferecia. Mas como entrar se eu não tinha
documentos do segundo ciclo? Eles ofereciam a oportunidade de
prestar um exame de maturidade. Eu prestei. Meu Francês era ainda
meio claudicante, mas prestei e fui aprovado. Cursei e terminei o
Curso de Psicologia Aplicada à Seleção e Orientação Profissional. O
primeiro passo. Mas não me satisfez no sentido do mundo,
porque a Psicologia trata dos indivíduos e eu sempre pensei que o
principal problema era como conduzir as massas, a população, os
trabalhadores, enfim, movimentos sociais. Como fazer esta transição?
Na Bélgica
eu não teria tido muita oportunidade de progredir porque estava
preso a este tema, a este Diploma de Psicologia. Meus pais tinham
nesse meio tempo emigrado para o Brasil e insistiram que também
fôssemos, para ajudá-los. E em 1951 decidimos também emigrar para o
Brasil.
Chegamos
em 1951, para uma adaptação, uma aculturação, porque eu tinha
nascido na língua alemã, tinha aprendido a língua hebraica na
Palestina, tinha aprendido a língua Inglesa na Marinha Mercante, e
agora depois de aprender o Francês na Bélgica, ao chegar ao Brasil
tinha que aprender o Português. Eu tenho facilidade para línguas até
hoje e não me arrependo, mas foi uma luta, porque você tem que
construir não só as palavras mas toda uma visão do Cosmo, baseada
numa determinada língua, história, cultura, tradições. Mas me
agradou. Eu penso que cresci através destas provações.
Aqui no
Brasil, para poder sobreviver com a família, não podia trabalhar
como mecânico. Porque o salário que me ofereciam, apesar de ser
maior que o salário médio do brasileiro, porque eu era um
especialista em motores diesel, não daria para pagar o aluguel, sem
falar do resto. Então eu fui procurar emprego como professor de
Hebraico. Eu não tinha formação pedagógica, mas tinha um jeito para
ensinar. Havia falta de professores. E o Hebraico eu dominava mais
do que razoavelmente. Fui contratado. E ganhava com as aulas de
Hebraico 5 ou 6 vezes o que teria ganho como operário. E também me
dava a oportunidade de conhecer outras pessoas, entrar em outros
círculos, ser convidado para uma série de tarefas o que de certa
forma era um progresso na carreira. Então me sentia muito à vontade.
Fui nesta
época convidado para dirigir uma colônia de férias de 100 crianças,
de diferentes escolas. Dei conta muito bem do recado porque as mães
que vinham visitar a colônia para ver como estava tudo, se os filhos
não choravam, ficavam encantadas. Havia lá duas senhoras que eram
diretoras de uma instituição que se chama Lar das Crianças, uma
casa para crianças órfãs e semi-órfãs, ou em situação precária
porque os pais se separavam, enfim, as senhoras me convidaram para
ser diretor desta Casa. Um outro salto, mas ainda na área da
educação. Foi muito boa esta experiência humana com essas crianças
sofridas, porque cada uma queria a atenção do “pai” substituto, que
eu na melhor das possibilidades tentei ser. A tal ponto que até meus
filhos dizem que eu sempre tive mais tempo para os outros “filhos”
do que para eles.
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O
Lar das Crianças foi fundado em 1937. Atende a crianças,
jovens e famílias em situação de vulnerabilidade, seja pela
carência emocional, social e / ou econômica. Atualmente,
atende cerca de 250 crianças e jovens a partir dos 3 anos de
idade até o seu encaminhamento profissional. As crianças
recebem alimentação, assistência médica, odontológica,
psicológica, fonoaudiológica e pedagógica no período diurno
e todas retornam para suas casas no final do dia. |
Outra
coisa que foi muito favorável nesta experiência era que de manhã as
crianças iam para a escola. Elas estudavam fora da instituição, em
escolas públicas, porque elas tinham que conhecer a vida em
sociedade. Esta parte da manhã eu podia aproveitar para estudar. Eu
queria entrar na faculdade. Uma das minhas alunas de Hebraico, no
curso noturno, era já assistente na Faculdade de Filosofia da USP, e
ela arranjou um encontro com o Florestan Fernandes. E conversando
com o Florestan sobre o que me interessava, quais os autores que eu
tinha lido. Falei de Erich Fromm... Bom, ele disse, vamos ver o que
dá para fazer. Mas afinal para entrar na Faculdade precisava também
ter o certificado de conclusão do segundo ciclo, e eu não tinha. No
Ministério da Educação me diziam então você vai e faz o “colegial”.
Eu já tinha na época 28 anos e não ia sentar no banco para fazer o
colegial. Daí o Florestan foi comigo para a Secretaria da Faculdade
de Filosofia e procurando nos estatutos da Faculdade, encontraram lá
que havia a possibilidade de admissão ao vestibular quando o
candidato “demonstrar notório saber”. Mas este “notório saber”, em
que consistia? Elaborar uma monografia. Eu então elaborei uma
monografia com o meu Português ainda em desenvolvimento, mas o tema
era um tema próximo meu, e era sobre as condições de vida do
trabalhador na indústria pesada. Esta monografia foi submetida a uma
banca, fui aprovado, prestei o vestibular, e entrei em primeiro
lugar nas Ciências Sociais.
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A
Faculdade de Filosofia (hoje Faculdade de Filosofia, Letras
e Ciências Humanas) da USP nasce em 1934, como pólo
centralizador das atividades da recém-criada Universidade de
São Paulo e torna-se um núcleo de pesquisadores brasileiros
em diversas áreas do conhecimento. Nos anos 60 foi foco de
um intenso movimento estudantil e intelectual de oposição ao
regime militar instalado em 1964. |
Então eu
trabalhava até as 6 da noite, corria para pegar o bonde ou o ônibus,
porque o Lar das Crianças era no Alto da Boa Vista, em Santo Amaro.
15 quilômetros. Lá, quando chegava na parada, tinha uma escada de
132 degraus. E eu subia correndo para chegar às 7 horas, quando
começavam as aulas, porque o professor Antonio Cândido, que era meu
professor de Sociologia, não gostava quando a gente atrasava. Eu
trabalhava o dia todo, à noite estudava e nos fins de semana tinha
que fazer as leituras e os trabalhos que o curso exigia, porque as
Ciências Sociais eram um curso muito puxado. Eu tinha um nome a
defender porque tinha entrado em primeiro lugar, na frente de
cabeças brilhantes que hoje são intelectuais de primeira grandeza:
Roberto Schwartz, Michael Loewy, grande politólogo, então eu não
podia fazer feio. Quatro anos depois, concluí o curso.
Quando
terminei o curso, emendei imediatamente para elaborar a monografia
de mestrado. Um pouco antes de terminar a monografia, fui convidado
pela Fundação Getúlio Vargas para trabalhar como pesquisador no
Centro de Pesquisas. Um pouco depois, me pediram que desse o curso
de introdução à Sociologia, e um ano depois me convidaram para dar
aulas na Faculdade de Filosofia no Curso de Economia Política. Como
consegui manter tantos empregos ao mesmo tempo? Não sei. Pela manhã
trabalhava na FGV, à noite dava aulas e à tarde me dedicava ao Lar
das Crianças. Isto foi entre 1963 e 67.
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Fundada em 1944, a Fundação Getulio Vargas preparava pessoal
qualificado para a administração pública e privada. Mais
tarde, expandiu seu foco de atuação ao campo das ciências
sociais, e também da pesquisa e da informação. Hoje é centro
de qualidade e de excelência. |
No
primeiro de Abril de 1964, eu fui assinar o contrato de professor de
Economia Política. Claro, na Faculdade a gente sentia de imediato o
clima pesado. Houve uma noite em que cercaram todo o Campus da USP,
tiraram os documentos de todos na Faculdade e nos retiveram para
isto e aquilo até as 4 da madrugada. Entre os ilustres colegas
estavam o Sérgio Buarque de Holanda, o Florestan Fernandes, porque
era a primeira entrada dos militares no Campus. Outras se seguiriam.
Eu estava
muito envolvido nos trabalhos acadêmicos do mestrado, que estava
terminando, quando eu entrei como docente na Filosofia, em 1964. Meu
trabalho era sobre as disparidades regionais, era isso que me
atraía. As disparidades entre São Paulo desenvolvida e o Nordeste
pobre. A partir daí começa mesmo o meu interesse pela sociedade
brasileira e seus problemas. Que eu tentei pensar nestas várias
décadas de trabalhos, começando pela questão econômica. Atrasos pela
falta de investimento, falta de capitais e de infra-estrutura.
Enfim, esta era a visão que prendia a minha atenção e que exigia uma
elaboração que eu achei que devia procurar nas outras áreas de
conhecimento: a sociologia política, a antropologia. Mas eu já
estava trabalhando no tema do meu doutorado, que era sobre
concentração industrial em São Paulo e uma continuação deste tema de
disparidades, e que depois foi publicado em livro pela FGV. Em 1968
defendi minha tese e virei doutor, um progresso razoável desde que
havia chegado ao Brasil. Mas comecei a perceber que não estava dando
conta do recado. O Lar das Crianças, a Getúlio Vargas, o Centro de
Pesquisas, os cursos da USP, e eu tinha uma certa ambição de
publicar também, e daí resolvi me afastar do Lar das Crianças. Achei
que já não cabiam tantas tarefas na mesma pessoa e eu queria seguir
a minha ambição, a minha vontade de ampliar meus horizontes.
Isto eu
consegui porque fui convidado a ser professor num curso de
preparação da AUI – Associação Universitária Interamericana. Esta
instituição levava bolsistas para os Estados Unidos e eu dava os
cursos preparatórios aqui em São Paulo. Lá em Harvard eu fazia a
transliteração do que dizia o David Riesman, o Henry Kissinger, e
outras estrelas de primeira grandeza, discutindo com os estudantes.
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A
AUI foi criada por Mildred Sage e Patricia Bildner em 1962
visando identificar futuros líderes políticos, sociais e
empresariais no Brasil e complementar a sua formação com
uma visão da sociedade americana. A formação começava com
um curso de 3 meses na Escola de Sociologia e Política de
São Paulo e terminava com um curso em Harvard, nos Estados
Unidos. |
VS: Mas
havia espaço político para uma “transliteração” crítica?
HR:
Para tratar dos meus temas, a urbanização, a industrialização, as
desigualdades regionais, não senti uma opressão direta. Claro que
depois, em 1969, quando as coisas ficaram mais difíceis, tinha na
minha classe estudantes que vinham me advertir: olha, toma cuidado
com o que você diz porque tem aqui vários informantes do DOPS aqui.
Mas eu achei que as coisas que eu estava dizendo eram tão concretas,
tão reais, que dificilmente eles poderiam encontrar como me pegar. O
que não quer dizer que depois não me pegaram.
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“DOPS” significa Departamento de Ordem Política e Social.
Foi criado para manter o controle do cidadão e vigiar as
manifestações políticas durante o regime militar pós-64. O
DOPS perseguia, acima de tudo, as atividades intelectuais,
sociais, políticas e partidárias de cunho alegadamente
comunista. |
Eu fui
três vezes para a Harvard Summer School, e já havia recebido vários
convites para falar em conferências, congressos, seminários aqui no
Brasil e lá fora. Eu então começava a construir um cenário mais
amplo para as minhas atividades, para as minhas “falas”, as minhas
reflexões. No último ano em que acompanhei a turma para a Harvard
Summer School, em 1970, eu estabeleci contato no MIT (Massachusetts
Institute of Technology) e consegui lá uma bolsa de um ano para
estudos de pós-doutorado. Eu estudei planejamento urbano regional.
Eu depois trouxe para cá os conhecimentos da organização, os
conhecimentos das pessoas capazes de pensar as cidades não como o
caos mas como algo que poderia ser ordenado, planificado, um
conceito que ainda não existia no Brasil. Por isto tive facilidade
de obter a bolsa. Realmente estudei, embora ninguém me obrigasse. As
condições eram: você faz o que quer, estuda, pesquisa, e uma vez a
cada dois ou três meses faz uma palestra para seus colegas, que
neste caso eram 15, outros bolsistas de outros países, inclusive o
Milton Santos, que foi meu colega, e que ficou amigo desde então.
Nos
últimos 2 ou 3 meses do MIT eu tinha sido convidado por eles para
coordenar um seminário sobre transferência de tecnologia. Estudei,
escrevi um paper, coordenei o seminário e trouxe pra cá, além do
planejamento urbano regional, as idéias de desenvolvimento
tecnológico. A tecnologia como variável praticamente independente e
importante para o desenvolvimento. Então você vê a evolução do meu
pensamento: psicologia, para a sociologia, para a economia política,
para o planejamento urbano e a política científica-tecnológica.
Estas actividades, os papers que escrevi, as palestras que eu dei,
os seminários que coordenei, me deram asas realmente. Eu fui
convidado para viajar para todos os países da América do Sul,
primeiro, para dar seminários de uma semana. Podia escolher os meus
assistentes, e eu era o coordenador do curso e a gente oferecia este
curso sistematicamente nas melhores escolas de administração,
patrocinado pelo CLADEA – o Conselho Latino Americano de Escolas de
Administração.
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CLADEA é uma cooperação entre escolas de administração
pública e privada que conta com mais de 140 escolas
afiliadas na América Latina, do Norte, Europa e Oceania. |
Meu nome
então ficou conhecido num círculo mais amplo. Num dos seminários
estava presente o representante do IDRC – International Development
Research Center – eu penso que até hoje o IDRC financia pesquisa em
países em desenvolvimento –, que me convidou para ser coordenador de
um outro projeto literalmente milionário em termos de recursos e que
ia envolver 5 ou 6 países da América do Sul, em volta do mesmo tema,
que era Gestão Tecnológica na Indústria de Alimentos. Eu coordenei,
foi publicado o relatório em livro. Depois fui convidado para (a
Universidade de) Sussex, que era a sede do IDRC na Europa; fui
convidado para Cornell, nos Estados Unidos; fui convidado outra vez
para Sussex; recebi uma bolsa do Governo Japonês para estudar quase
um ano em Tóquio no Institute of Developing Economies, que foi
também muito importante para mim, além do prazer estético da cultura
japonesa, que é inegável.
Mas eu
então já tinha um nome feito. Aqui, na América Latina, nos Estados
unidos, no Canadá. Por isso em 1973 eu organizei na Faculdade
Getúlio Vargas um seminário internacional sobre tecnologia, que era
um tema novo no Brasil. Convidei conferencistas internacionais e
nacionais, Roberto Campos era um dos conferencistas. O seminário foi
um sucesso, e teve a participação de mais de 120 empresários e
executivos que queriam ouvir e aprender sobre a tecnologia, o que
era, e sobre a transferência de tecnologia. Este seminário
transcorreu tranquilamente, e daí eu parti para algo mais ousado.
Era 1974,
depois do segundo choque do petróleo, e eu imaginei que um seminário
de cabeças pensantes sobre o destino do mundo dada a crise do
petróleo e tudo que estava envolvido seria algo que iria cativar as
atenções e interesse dos homens de negócios, dos acadêmicos, dos
alunos. Então propus um seminário internacional, também na Getúlio
Vargas, sobre a crise da ordem mundial. Também foi publicado um
livro, com as contribuições do Fernando Henrique (Cardoso) e de
outros que vieram como debatedores. Os que vieram para fazer as
exposições eram professores de fama internacional. Chamei as
melhores cabeças que eu conhecia. O Bresser Pereira, o Octávio Ianni,
o Fernando Henrique Cardoso, o Hélio Jaguaribe, enfim, toda esta
turma.
Eu já
havia imprimido os folders com os nomes dos conferencistas, o
programa, a taxa de inscrição, quando fui chamado para o DOPS. Eu
decidi ir, tinha que ir, mas decidi que um dos diretores – havia
três diretores na GV (Fundação Getúlio Vargas) – fosse comigo porque
aquele não era um empreendimento pessoal, era da instituição. A
instituição tinha endossado, o Conselho tinha aprovado, então fomos
lá para o DOPS. Várias pessoas já haviam me dito “olha, está
brincando com fogo, fazer este debate amplo, lá no auditório”. Quem
me entrevistou lá no DOPS foi o atual senador Romeu Tuma, que era
diretor geral do DOPS, uma figura meio sinistra. Então nos
interrogaram: aquelas questões pra quê, por que,
como a gente ia controlar os alunos etc, e o Tuma assim naquele
jeito meio malicioso, “olha, eu posso fazer você confessar tudo o
que eu quiser. Mas eu vou deixar isso para o pessoal do Segundo
Exército”.
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Romeu Tuma foi chefe do DOPS. Durante a sua gestão, muitos
opositores do regime foram torturados e mortos. Sua última
atuação como policial antes de se dedicar integralmente a
vida política foi executar o mais procurado operador do
tráfico de drogas da época, Antônio José Nicolau, o "Toninho
Turco", em 1995. |
Então,
encerrada a sessão, voltamos para a escola. Depois, uma turma do
Segundo Exército, do DOI-CODI, chegou na escola procurando o
Professor Rattner. Outra vez eu chamei o vice-diretor e lá fomos
para o Segundo Exército. Nós nos sentamos os dois e em volta de nós
4 ou 5 coronéis, os famigerados coronéis. E fomos submetidos a um
interrogatório que não foi muito diferente do outro. O que podiam
perguntar? O programa estava impresso, aberto. Queriam fazer pressão
e pegar a gente com alguma coisa. “Como íamos controlar os alunos?”
Nós perguntávamos, “mas por que controlar os alunos?” E eles “Ah,
eles vão se manifestar”. E nós dissemos “alunos da FGV, que pagam
uma anuidade considerável, e executivos, qual era o problema? E o
seminário é algo que vai projetar a escola e até o Brasil no mundo”
, porque ninguém ainda tinha pensado como tudo ia evoluir. Lá se
foram 3 ou 4 horas deste tipo de conversa, mas no final parece que
eles se deram por satisfeitos.
No carro
de volta para a escola, o sargento que dirigia disse “Como estou
contente de poder vos levar de volta, porque muitas vezes trago mas
não levo de volta as pessoas que vêm”. Então pode imaginar o que a
gente sentia. O seminário também foi um sucesso, temos o livro
publicado, com todas as contribuições. Novamente, isto me abriu
novas portas, para novas áreas, novas instituições, participações em
outros seminários. Na esfera nacional, na FINEP, na Secretaria de
Planejamento do Estado (SP), eu era uma presença constante, sendo
consultor, chamado para fazer palestras, ser debatedor.
VS: E
como você via a possibilidade de “desenvolvimento” na nossa situação
política, não democrática?
HR:
Nos meus escritos está bastante claro meu pensamento de que não
bastava fazer crescer o produto mas que era necessário também
distribuí-lo. Isto sem atacar o dono do poder, mas tentando passar a
mensagem de que deveria haver uma política de distribuição de renda,
uma política social que incorporasse aquela parte marginal da
população. Mas sem dúvida isto poderia ser tomado como hostil ao
regime. É um balançar na corda, dizer as coisas que precisavam ser
ditas, mas procurando me apresentar como alguém que apresentava
análises objectivas, reconhecidas pelas instituições científicas e
tecnológicas do país e também fora do país.
O ideal
seria a sociedade em que os indivíduos não seriam meros objetos das
benesses dos poderosos e dos ricos mas que pudessem se tornar
sujeitos do seu próprio destino. Isto eu coloquei nos meus vários
textos ao longo das décadas. Isto é um processo histórico, que não
acontece de repente. Nos países chamados desenvolvidos,
industrializados, para chegar no estágio em que hoje estão, a
democracia, entre aspas, porque nem sempre são tão democratas quanto
pregam, levou 200 anos, com não sei quantos golpes, revoluções,
guerras mundiais, crises econômicas, das quais emergiram sociedades
que se aproximam mais deste ideal de uma sociedade mais aberta, mais
democrática, mais justa. Estou aqui pensando especificamente nos
países nórdicos e europeus que depois da guerra introduziram o
conceito e a prática do estado de bem estar. Acesso gratuito a
serviços de saúde, educação, o seguro desemprego. Alguns países
avançaram neste sentido, que eu chamaria de auto-afirmação do
indivíduo como sujeito da história e com capacidade de participar do
processo decisório. Esta é uma idéia que talvez nem sempre seja
claramente elaborada, mas sempre subjacente a todos os programas em
que eu me envolvi.
Todas as
oportunidades que eu tive me permitiram passar a minha mensagem.
Falando de tecnologia, mas dizendo que a tecnologia é um meio e não
é neutra, que ela apresenta uma relação de forças entre os
proprietários dos meios de produção e aqueles que são obrigados a se
utilizar destes meios. Tudo isso foi um processo de amadurecimento,
e chegou um ponto quando eu já me sentia mais seguro que fui
convidado para assumir a direção do LEAD. Isto foi mais ou menos em
1990 ou 91.
Antes
disso, eu já tinha deslocado meu interesse, meus estudos e
pesquisas, para a área do meio ambiente. Isto coincidiu com a minha
nomeação pelo Reitor da Universidade de São Paulo para coordenador
do primeiro curso de pós-graduação em Ciências Ambientais aqui no
Brasil. Organizei o curso, fiz a primeira seleção, e o curso até
hoje continua. O PROCAM funciona nas Colmeias da USP e tem um corpo
docente multidisciplinar, desde o começo. Eu chamei professores da
Biologia, da Saúde Pública, da Economia, da Sociologia para compor
uma visão integrada do que seria o Meio Ambiente. Desde o início o
Meio Ambiente para nós não era apenas o “verde”, o ecológico, mas
era o conjunto da sociedade. Esta foi a visão que eu tentei
introduzir e que eu desenvolvi e elaborei em algo mais coerente e
mais cientificamente fundamentado nas minhas palestras.
Num dos
seminários da USP, um seminário internacional, veio o Al Binger, que
me chamou no gabinete do reitor, conversou comigo, explicou o que
estava fazendo, colocou à disposição 70 mil dólares, o que não era
pouco dinheiro. Eu disse, precisamos livros, literatura sobre meio
ambiente, sobre todas as ciências afins. Ele disse “você vai ouvir
de mim”. Passaram-se 6 meses e eu recebi um convite para vir a Nova
Iorque, na Rockefeller Foundation. E lá me convidaram oficialmente
para assumir a direcção do LEAD e da ABDL no Brasil.
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A
rede do LEAD – Leadership for Environment and Development
tem mais de 2000 associados e presença em mais de 90 países.
No Brasil, a ABDL – Associação Brasileira para o
Desenvolvimento de Lideranças articula lideranças por meio
de programas e ações de maneira sistêmica em três
componentes: formação, comunicação e mobilização. |
O programa
já estava na cabeça do presidente e na cabeça do Al Binger, que
sempre era meio errático. Ele não sabia muito bem o que e como
seria, mas era um homem de grande iniciativa e ação. Me lembro às
vezes de coisas estranhas, parece que ele queria convencer que ele
era coisas que não era. Mas a partir daí começa o LEAD, que é uma
nova fase na minha atividade acadêmica. Pouco tempo depois eu me
aposentei compulsoriamente da FEA-USP o que me deixou com mais empo
e espaço para os projetos de pesquisa e também para me preparar
devidamente para o LEAD, uma coisa nova, cada turma com os seus
problemas, com seus desafios. Conceitualmente o programa ainda não
existia. E o problema era que eu não tinha colaboradores capazes de
elaborar o conceito. Eu tinha 4 co-faculties que eram bem
pagos, recebiam prêmios em dólares por mês como co-faculties
mas não produziam nada. Vinham para o treinamento, falar uma tarde,
uma manhã, sobre um tema, discutiam, e era tudo.
Todo o
ônus de elaborar concept papers, ilustrar e trazer
bibliografia, ficou comigo. O que não era pouco trabalho como podes
imaginar, mas do qual certamente não me arrependo. Porque o único
regional programme director que elaborou, escreveu , e que
muitas vezes desafiava o Al Binger, antes e depois dos seminários,
numa forma de troca de idéias, fui eu. Infelizmente às vezes ele
tomava como ofensa pessoal porque eu ousava discordar, mas eu não
tinha como não discordar de certas coisas.
VS:
Você via o LEAD como uma possibilidade prática de criar uma massa
crítica para catalisar transformações?
HR:
Penso que sim, ao longo das 7 turmas que eu acompanhei penso que a
seleção foi bem conduzida. Foram selecionados elementos que tinham
compromisso com seja o meio ambiente, sejam questões sociais, sejam
questões políticas, e que poderiam através da interação no LEAD e
depois do LEAD, repassar aquilo que tinham aprendido para
multiplicar para aqueles que devem “carregar Atlas nos ombros”, que
devem carregar a tarefa de transformação da sociedade. Esta era a
minha visão. Claro que havia variações de uma turma para outra e
dentro de cada turma. Mas em geral eu penso que naquela época foi o
caminho mais certo para mim. O LEAD era um novo desafio: de âmbito
internacional, sua ambição de ser projeto global, com os maiores
países do mundo em termos de população, Nigéria, Indonésia, etc, eu
achei que era uma nova plataforma para eu desenvolver as minhas
idéias e contribuir para que algo se fizesse em termos de meio
ambiente - também depois da Rio 92 – algo em termos de transformação
social, porque já estávamos na época da “democracia”, e algo também
em termos de estabelecer uma rede internacional de pessoas que
comungavam das mesmas idéias, dos mesmos ideais e das mesmas
aspirações.
|
Rio 92: II Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente
e Desenvolvimento Humano. O principal tema foi o
desenvolvimento sustentável. Contou com a presença de cerca
de 117 chefes de Estado e cerca de 22 mil pessoas,
pertencentes a mais de 9 mil organizações
não-governamentais. Uma série de convenções, acordos e
protocolos foram firmados durante a conferência. A Agenda
21, por exemplo, compromete as nações signatárias a adotar
métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência
econômica, criando um Fundo para o Meio Ambiente. |
Eu
acredito que na medida do que foi humanamente possível, porque se
podia dizer que muito mais poderia ter sido feito, eu me considerava
realizado e passei tranquilo pelas pressões do Al Binger que não
esquecia os meus desafios. Ele também dizia “mas você já tem 70
anos, tem que se aposentar”. Daí eu chamei o Rubinho (Rubens Born)
para assumir a direção. Eu fiquei lá na ABDL, mas não parado. Eu
fiquei durante quatro anos com a Fundação Kellogs que tinha me
chamado como international advisor para o Kellogs
International Leadership Programme, também viajando para diversos
lugares pelo mundo. Eles eram menos abertos que o LEAD, tinham uma
visão muito clara do que queriam. Eles selecionavam os bolsistas com
base no trabalho institucional que desenvolviam, davam para cada
fellow uma certa soma para melhorar a instituição, e ponto. Nas
reuniões internacionais era difícil passar a idéia de que era
preciso haver mais discussões sobre os problemas políticos, sociais,
ambientais, culurais, enfim as diferenças de um país, de um
continente para outro. Eu acho que fiz este papel na Kellogs também,
o que me deixou muito satisfeito, tenho um belo diploma de
reconhecimento do meu trabalho. Fiz também muitos amigos entre os
fellows: 20 espalhados pelos países africanos, 20 espalhados pelos
EUA e 20 da América Latina. É difícil manter o contato mas alguns
continuam a se corresponder comigo e de vez em quando dão sinal de
que estão atuando mais ou menos dentro do espírito que a gente
procurou transmitir.
VS: Na
minha experiência, a maioria das capacitações em liderança estão
orientadas para formar elites. Como o senhor vê isso?
HR:
Entende-se liderança como o gestor, o gerente, aquele que é capaz de
organizar as coisas, e não aquele que tem a preocupação de resolver
os problemas humanos. No Brasil, eu conheço dois programas que
tiveram esta preocupação humanista: o Prolides e o Pronord. Outros
imitam o modelo norte-americano: leadership and management,
tanto na USP como em outras instituições. O conceito “líder” é
chamariz para aqueles que se querem destacar, e se difundiu bastante
embora o conteúdo tenha deixado a desejar. Por isso achei importante
escrever as minhas experiências, as minhas análises, as minhas
críticas. Aquele livro “Liderança para uma Sociedade Sustentável”
reflete a experiência do LEAD. O outro, mais tarde, “Mercosul e Alca”,
relaciona-se com a experiência do Prolides. Sobre o Pronord ainda
não escrevi porque daí já comecei a escrever outras coisas. Estava
ocupado em organizar uma coletânea “Brasil: 500 anos”, em que
convidei pessoas como o Tarso Genro, o José Goldemberg, nomes
famosos, cada um com seu capítulo. São 20 capítulos sobre o passado,
o presente, e as perspectivas de futuro.
A partir
do momento em que não havia mais nem Prolides nem Pronorde eu tinha
um público virtual de não sei quantos mil leitores, através da
Revista do Espaço Acadêmico (www.espacoacademico.com.br). A Revista
aparece mensalmente, tem um número cada vez maior de colaboradores,
mas eu sou colunista, tenho minha coluna desde que começou há quatro
anos atrás. É uma forma de manter contato porque recebo consultas,
pedidos de indicação de bibliografia, e às vezes perguntas que eu
percebo que são de um estudante imaturo que gostaria que eu desse
respostas prontas e fizesse seu trabalho. Eu apóio, digo onde
encontrar as referências, “na internet você descobre”.
VS:
Durante a escolarização e no espaço acadêmico brasileiro existe um
esforço para a criação de líderes?
HR:
No tempo em que o Fernando Henrique Cardoso era presidente, e o
Bresser Pereira era Ministro da Administração, ele criou lá em
Brasília o curso de gestores, a Escola Nacional de Administração
Pública -ENAP, que usou muitas das experiências do LEAD. A ENAP
formava “gestores”, alguns dos quais chegaram de fato a ocupar
lugares como secretários de Estado, prefeituras e outros cargos. Mas
como não era de minha seara, eu não entrei nos detalhes do trabalho.
O Instituto Paulo Freire (o Moacir Cadotti é o presidente, um amigo)
quer trabalhar o legado freiriano, divulgar a mensagem, mas não tem
um programa de formação de lideranças. Eu diria que se está
esperando o momento histórico para se lançar novamente. Eu acho que
faz falta, um tipo de instituição, um programa, que poderia ser mais
informal mas que transmita elementos que ajudem os indivíduos
interessados, capazes, competentes, identificados com a causa social
a obter informações e a transmitir e aplicar na prática. Faz falta.
Se eu tivesse um pouco mais forças e não oscilasse entre o hospital
e a casa, quem sabe? Talvez eu me anime a procurar pessoas que se
identificam com a causa social. Porque hoje a situação é diferente,
não há mais esta abundância de recursos para qualquer idéia que
pareça razoavelmente lógica ser financiada e implementada. Das ONGs
brasileiras, algumas fazem um trabalho muito valioso, mas nesta área
particularmente de capacitação e preparação ideológica - porque é
uma questão de ideologia , de identificação com a população e não
com o estrato social que são os meus amigos, os meus cupinchas -
não existe quase nada, isto se perdeu.
A meu ver,
somos parte de um ciclo histórico que tem as fases de declínio mas
nada impede que a qualquer momento surja um novo ciclo de
efervescência social, como foi em 68 na Universidade de Paris.
|
A
universidade de Paris nos anos 60 tornou-se um centro
mundial de difusão do socialismo, do marxismo, do comunismo,
do anarquismo e do antiamericanismo, superando a própria
Universidade Patrice Lumumba, que fora criada
especificamente para esse fim em Moscou no início da mesma
década. A França sofreu as conseqüências dessa política
quando suas estruturas se viram ameaçadas pelo levante
estudantil de 1968, que desencadeou uma onda de rebeldia
estudantil ao redor do mundo. |
Como eu
disse, Viena para mim foi marcante para toda a minha vida. Imagine
centenas de pessoas, em geral jovens, de 20 a 30 anos, com bandeiras
vermelhas, e cantando canções revolucionárias. Era não apenas o
aspecto visual, estético, mas esta força que emanava desta massa.
Agora, a verdade é que também durante o nazismo, o pouco que eu vi
de Março a Setembro de 1938, a capacidade de mobilização e a força
da massa que gritava em uníssono “Heil Hitler. Ein Volk, ein Reich,
ein Führer”, é o outro lado da mobilização das massas. A gente tem
que continuar a pensar os processos históricos, educacionais,
inclusive o substrato filosófico, para mobilizar sim, mas não para
que o indivíduo perca a sua identidade dentro da massa. Esta é uma
tarefa que certamente é dos educadores.
VS:
Crescentemente, os “fatos” são mediatizados e apresentados já
digeridos, explicados, rotulados, codificados, deixando pouco espaço
para a reflexão, a pesquisa rigorosa ou mesmo para a simples
curiosidade. Como escapar da mainstream media?
HR:
Sobre isso eu tenho dois volumes que são coletâneas de textos meus
que estão agora com os editores. Um, é “Meio Ambiente e Tecnologia
no Século XXI”, e outro ao qual eu dei um nome meio enigmático, “A
parábola da ponte”. Eu descrevo a situação de incerteza, de
insegurança, em que hoje a maioria dos indivíduos se movimenta. Não
sabem o que acontece, não entendem as forças tanto em nível global
quanto em nível local que atuam, que reprimem, enfim esta situação
que é característica de nossa época. Daí eu extrapolo para outra
época histórica em que houve este tipo de insegurança e incerteza e
como foi superado e também qual poderia ser o projeto para o futuro.
Mas deixo a pergunta no ar: quem somos, aonde vamos, de onde viemos?
Estas são as três perguntas existenciais que eu acho que qualquer
jovem quando chega a certo ponto de maturidade deve se colocar, deve
se interrogar. E a verdade é que não tem resposta.
É aí que
eu uso a parábola da ponte. Quando os discípulos dos mestres
cabalísticos do século XVI -XVII interrogaram os mestres “Qual é o
sentido da vida?, o que somos neste mundo?”, os mestres conseguiram
sair-se pela tangente com a parábola: “o mundo todo é uma ponte. De
onde ela vem? Não sabemos. Aonde ela nos leva? Tampouco sabemos”.
Daí entro eu: mas viver, cumprir a missão essencial é atravessar a
ponte. No sentido simbólico é criar condições para que cada um possa
se realizar, atravessar a ponte, construir pontes mais amplas do que
as que existem, que só têm lugar para uns poucos privilegiados.
VS:
Humanidade como atributo do “homem” é um conceito universal?
HR:
A espécie humana é uma só. Indistintamente. Independente da
religião, da cor, da situação social. Mas a verdade é que a “ponte”
de hoje é muito restrita aos privilegiados. Mas isto é contra o
sentido da história, da evolução e do significado do que seria uma
vida profícua, uma vida que deixa marcas para a posteridade. “Nós”
somos todos os seres humanos. E trato e tenho tratado a todos assim.
Um privilégio meu: ter podido dialogar com Indus, com Chineses, com
Japoneses, Mongóis, Tibetanos, Nigerianos, Russos... Mas sei que a
maioria de “nós” nem chega a se interrogar sobre isso. E este é o
primeiro passo. E quando colocamos esta questão filosófica, poucas
pessoas podem responder porque falta na educação esta variante
humanística, que desde pequeno educa, ensina e orienta para a
cooperação, para a solidariedade, para a necessidade de se juntarem
as forças e considerar o outro como igual mas com direito às
diferenças. Estas são coisas relativamente simples mas que hoje
escapam à maioria não só das pessoas mas também infelizmente também
à maioria das escolas. Pelo menos nas Universidades, até o ponto em
que eu conheço, não se fala disso. Na escola básica depende muito do
talento, da personalidade dos mestres. Ainda tem gente que faz
milagres em condições muito adversas. Mas em geral, como diretriz, a
visão humanística não existe.
VS: O
que guarda o futuro?
HR:
Existem algumas possibilidades de reagrupamento, reorganização.Um
exemplo de explicação teórica apareceu no Instituto Santa Fé, nos
EUA que oferece bolsas, como as que eu tive no Japão e no MIT, para
pesquisadores de grande projeção. Em qualquer ciência. Lá eles
trabalham vários temas mas têm como foco o chamado caos, que existe
tanto no Universo mas sobretudo na vida, tanto no sentido biológico
quanto social. Uma das idéias que foram desenvolvidas é que a
evolução de sistemas complexos leva a situações que são próximas ao
caos. Forças que puxam uma para cada lado, sem que haja um princípio
disciplinador, ordenador. Uma hipótese a ser pensada e verificada é
que neste caos surgem nas áreas fronteiriças, nas bordas, novas
formas de organização sejam de células orgânicas, sejam de formas
virtuais pelo computador, sejam de grupos sociais que retomam o
caminho de reconstrução social e política. Esta elaboração teórica
mostra como continua a haver avanços científicos em áreas
específicas, nas ciências da computação e suas aplicações, na área
da biotecnologia. Assim, podemos dizer, que há espaços na periferia
dos sistemas para iniciar transformações.
O Fórum
Social Mundial foi, para mim, um esforço de reorganização a partir
do caos. Que depois alcançou dimensões não mais possíveis de serem
controladas, 150 mil pessoas. Então resolveram distribuir
regionalmente, mas o importante é que a idéia germine e que a partir
dessa idéia haja tentativas concretas de organização da produção, da
distribuição. Por exemplo, o Paul Singer dirige no Ministério do
Trabalho o Programa de Economia Solidária. Dentro desta economia
globalizada, oligopolizada, este movimento pode parecer ínfimo, mas
também pode ser considerado como uma semente de reconstrução nas
bordas do sistema. Um exemplo são as empresas que foram abandonadas
porque faliram ou que iam falir e que foram assumidas pelos
trabalhadores que se organizaram, começaram a discutir os problemas
que eram comuns a todos, estabelecendo normas de distribuição do
excedente e outras normas discutidas participativamente, enfim uma
nova forma de organização do trabalho. É uma possibilildade de
organização social que dispensa a competição, que dispensa a
irracionalidade de precisar ser melhor, ou mais famoso, ou mais rico
do que o outro.
|
O
Fórum Social Mundial é um espaço de encontro de movimentos
sociais, redes, ONGs e outras organizações da sociedade
civil que se opõem ao neo-liberalismo e a um mundo dominado
pelo capital ou outras formas de imperialismo. Desde 2001,
procura construir alternativas eficazes para as políticas
neo-liberais, através do debate de idéias de forma
democrática, da formulação de propostas, e da troca de
experiências. |
Não é este
a meu ver o sentido da história. Nós queremos que o mundo esteja
aberto para todos, que cada um possa dar o seu quinhão, a sua
contribuição. Isto exige um esforço de organização, de
aprofundamento teórico, mas é uma possibilidade concreta. Eu posso
confirmar através da minha experiência concreta, porque vivi alguns
anos no kibutz. Os kibutzin eram uma tentativa, se vista em
retrospectiva, inédita na história, de organizar a vida social e do
trabalho de forma mais justa e equitativa, com decisões plenárias,
com um nível de igualdade não alcançado em qualquer outro sistema. A
experiência falhou por causa da pressão pela abertura dos portos,
pela entrada de capitais, pela política neo-liberal, um outro
capítulo da história. A história não anda em caminhos retos. A
experiência foi relativamente bem sucedida. Ainda hoje, entre as
centenas de kibutzin que existiam, alguns continuam nos mesmos
princípios, e conseguem se manter dentro desta economia de mercado.
Existem experiências, e elas precisam ser conhecidas,
sistematizadas, analisadas, estudadas e transmitidas como uma
tentativa de reconstrução às bordas do caos.
VS:
Para encerrar, gostaria de propor um exercício. Qual é a crítica do
homem que o senhor é hoje ao pensador do desenvolvimento Henrique
Rattner?
HR:
Sempre achei que eu estava fazendo o que estava ao meu alcance. Isto
exigiu um esforço às vezes muito grande, mas que trouxe gratificação
e recompensas na realilzação de tarefas que eu considerava
importantes e essenciais. Não somente para mim. Teria sido talvez
mais folgado se ficasse “Schuster, bleib bei deinen Leisten” [em
tradução livre: conforme-se ao seu destino; em tradução literal:
sapateiro, amolde-se à sua forma].
Como eu
ousei não me conformar, caber na minha “forma”, eu construí uma vida
que para mim foi satisfatória, em que deixo alguma coisa para meus
filhos; meus filhos no sentido amplo que, como eu digo, são uma
comunidade espalhada pelo mundo afora. E você, o que gostaria de
deixar para seus filhos como patrimônio?
VS:
Qual seria o meu legado? Eu estou na mesma ponte que o senhor, mas
eu sinto que o meu legado principal vai ser muito mais “amoroso” do
que “intelectual”. O meu trabalho como facilitadora é, neste
sentido, muito freiriano. Só acredito numa educação “amorosa”. E a
palavra “amor” não tem muito reconhecimento acadêmico. Quando me
perguntaram na entrevista de seleção para o LEAD qual era a minha
visão do futuro, do desenvolvimento, me lembro que eu disse “não
sei, quero construir o futuro de forma conjunta, não tenho projeto
individual”. Mas esta é uma meia verdade, porque eu acredito que a
minha visão do futuro envolve principalmente a segurança humana para
que cada um possa realizar a sua potencialidade. E foi esse o recado
que tentei passar para todos os meus “filhos”.
HR:
Cada um, com sua personalidade, se manifesta, se expressa, faz acto
de presença de uma forma diferente. Você também está na ponte.
*
Henrique Rattner
é pós-doutorado em Planejamento Urbano e Regional (MIT/EUA),
mestre em Sociologia (USP), doutorado em Economia Política
(USP) e licenciado em Ciências Sociais. Professor convidado
para ministrar a disciplina Meio Ambiente e Sociedade na
abertura do curso MBA de Gestão Estratégica em Meio Ambiente
da FIPT. Foi Consultor do Instituto de Pesquisas
Tecnológicas IPT, na Divisão de Economia e Engenharia de
Sistemas, de 2004 a 2006. É professor titular aposentado da
Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio
Vargas (São Paulo) e Faculdade de Economia e Administração
(USP) e Professor Emérito da ECEME (Escola de Comando e
Estado Maior do Exército). Foi coordenador dos Programas
LEAD, Prolides e Pronord da ABDL – Programas de Liderança e
Desenvolvimento Sustentável no âmbito internacional, no
Mercosul e no Nordeste. Foi diretor do Lar das Crianças da
Congregação Israelita Paulista (1955-1967); diretor técnico
(voluntário) do CIAM – Centro Israelita de Assistência ao
Menor; Presidente por dois mandatos ( 1998 – 2002) da AJKB –
Associação Janusz Korczak do Brasil; pesquisador-visitante
no Instituto de Economias em Desenvolvimento em Tóquio,
Japão (1976); na Universidade de Cornell/EUA (1976) e no
SPRU Science Policy Research Unit da Universidade de Sussex
na Inglaterra (1976 e 1978). Foi coordenador do NAMA –
Núcleo de Pesquisas em Economia, Sociedade e Meio Ambiente,
coordenador de pesquisas e consultor de instituições
nacionais (CNPq, FINEP, MCT, SEPLAN/SP, SENAI, SEBRAE e IPT)
e internacionais UNU, UNESCO, Banco Mundial. Professor
convidado para iniciar módulo sobre Meio Ambiente e
Sociedade no MBA Gestão Estratégica em Meio Ambiente, do
Instituto de Pesquisas Econômicas/IPT em 2005. Publicou mais
de 20 livros e mais de 300 artigos em revistas e jornais,
nas áreas de política científica e tecnológica, economia e
de desenvolvimento sustentável.
**
Valéria Salles
é Mestre em Planejamento e Desenvolvimento Social pela
Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul e licenciada
em Geografia e Meio Ambiente. Desde 1989 é consultora
independente para o desenvolvimento em diversas áreas (meio
ambiente e poluição industrial, segurança alimentar,
desenvolvimento regional e rural, educação, saúde, educação
política, formação em lideranças), e em diferentes países
(além do Brasil, África do Sul, Alemanha, Angola,
Moçambique, Tanzania). Sua especialidade é a facilitação e
liderança de processos participativos de planejamento,
gestão, monitoria e avaliação. Como tal, é parte da equipa
de desenvolvimento, com a Universidade de Witswatersrand, em
Joanesburgo, África do Sul, de um mestrado à distância em
finanças da educação para participantes de países africanos.
Desde 1996, vive na África Austral, e presta serviços a
diversas organizações de cunho internacional, tanto
governamentais como GTZ, InWEnt, DANIDA, quanto
não-governamentais, como Pão para o Mundo, Federação Mundial
Luterana, Fundação Friedrich Ebert e Oxfam. Publicou
diversos trabalhos na área do meio ambiente e gestão
participativa. Valéria é associada da 4ª. Turma do LEAD /
Brasil. Neste momento, vive em Dar es Salaam, na Tanzania,
com seu marido. Tem quatro filhos que vivem no Brasil.
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