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EVA PAULINO BUENO
Eva Paulino
Bueno é paranaense de Cafeara. Morou em Maringá até 1975, e se
graduou em Letras pela UEM (1975). Tem mestrado em Língua
Inglesa pela UFRJ (1986), e Ph. D. em Hispanic Languages and
Literatures pela Universidade de Pittsburgh (1991). Atualmente é
professora de Espanhol e Português na St. Mary’s University, em
San Antonio, Texas. É autora de vários livros e artigos sobre
literatura brasileira, cultura popular, e estudos da mulher. Seu
livro mais recente é uma enciclopédia, Latin American Women
Writers, An Encyclopedia (Routledge).
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Observando Obama: as duas primeiras semanas
Eva P. Bueno
É
bem possível que o mundo inteiro — ou pelo menos as partes que têm
jornais e televisão e rádio — ouviu falar da posse do novo
presidente americano. É bem possível que, de maneira geral, o mundo
inteiro teve um suspiro de alívio ao ver que a cerimônia ocorreu sem
maiores problemas.
Nas semanas precedentes ao dia 20 de janeiro, se ouvia falar de
complôs para causar problemas, ataques ao presidente, à multidão. E
a segurança em Washington foi redobrada.
Mas nos dias anteriores à posse, o país
estava em um estado de euforia. Menos a governadora do Alaska, que
apareceu na televisão dizendo da sua “decepção.” Mas isto não
surpreende a ninguém, claro, porque ela ficou conhecida durante a
campanha como alguém que dava muitas “bolas fora”. Até o então
presidente George Bush, e o candidato republicano derrotado por
Obama, John McCain, falaram da importância da eleição do primeiro
afro-americano para a presidência. De fato, tal detalhe não pode ser
esquecido.
Depois de muitas lutas, muitos anos de
continuada opressão, mesmo depois das marchas pelos direitos
humanos, muitos afro-descendentes ainda não têm acesso a escolas de
qualidade, tratamentos médicos de qualidade, posições profissionais
de futuro e sofrem perseguição nas mãos da polícia.
Mas, a julgar pela feição da multidão de mais de um milhão e meio de
pessoas que foi ao Mall na cidade de Washington para testemunhar a
tomada de posse, a eleição de Barack Obama não foi um feito
histórico somente para as pessoas de origem africana. De fato, caras
de todas as cores e idades se congregaram. Logicamente, as câmeras
se concentraram nas famílias negras, que contavam que haviam trazido
até os bebezinhos para que eles pudessem dizer aos seus netos que
haviam estado presentes nesta ocasião. Mas havia gente de todas as
partes, inclusive americanos que voltaram à terra natal para
presenciar a cerimônia, assim como estrangeiros que vieram
participar do momento histórico.
O clima era de festa. Não só em
Washington DC, mas em todo o país. Em muitas cidades, as prefeituras
colocaram telões em praça pública, ou em clubes, ou outros
edifícios. Em minha universidade, a União de Estudantes montou dois
telões, e muitos professores foram com seus estudantes assistir a
posse. Houve sorrisos, houve lágrimas e muita celebração. De fato,
este foi o maior dia com ar de feriado que presenciei neste país nos
últimos 20 anos. É possível que até alguns republicanos ficaram
contentes, afinal, como disse uma pessoa entrevistada, “nós
realmente mostramos ao mundo como vão as relações raciais neste
país.”
Em resumo, o país estava se felicitando pela eleição do primeiro
negro ao posto de presidente e, tenho certeza, muitos se felicitaram
pela derrota do partido que nos deu a infernal dupla dinâmica George
W. Bush e Dick Chenney.
Mas a festa — ainda que durasse pela
noite adentro, com os dez bailes na cidade de Washington — acabou. O
dia 21 de janeiro foi dia de trabalho. O novo presidente tinha que
se enfrentar aos problemas gigantescos que vieram com o emprego.
No topo da sua agenda, se encontra a
questão da economia americana. Graças aos desmandos republicanos, à
imensa irresponsabilidade dos chefões de Wall Street, e à tolice das
pessoas que se dedicaram a gastar mais do que tinham, a duas guerras
que estão consumindo bilhões todos os meses, o país está num
atoleiro. (Esperamos que não seja areia movediça.) Barack Obama já
tinha começado o trabalho de seu governo há mais de um mês, com o
seu time de transição entrando em todas as áreas do governo Bush
para certificar-se que no dia 21 tudo já estaria correndo de acordo.
Mas a agenda de Obama tem outros itens
muito importantes além da economia. Aqui estão alguns dos mais
visíveis e urgentes: Afeganistão, Índia. Irã, Iraque, Israel,
Palestina e Paquistão.
E, sem esquecermos que a Rússia continua
sendo regida pelo ditador disfarçado e manejador de marionetes,
Vladimir Putin, e que continua fazendo pressões para todo lado, com
medo de perder sua influência na região, ganhando adeptos entre os
desiludidos com os Estados Unidos dos últimos vinte anos, e ainda
mantendo seus adeptos entre os que, não importa o que os Estados
Unidos façam, estão contra.
Nestes primeiros dias, a imprensa está
em cima do novo presidente praticamente o dia inteiro.
Todas as palavras que saem da boca de Barack Obama estão sendo
medidas, pesadas, discutidas. Isto é natural, porque, de todas as
maneiras, não o conhecemos o suficiente. Sabemos do seu passado,
sabemos da sua formação e de suas intenções, mas o desenrolar das
ações, não só aqui mas no mundo inteiro, vai determinar muito do seu
governo. Para termos uma idéia do que ele pensa, aqui estão duas
ações iniciais que chamam a atenção. Seu primeiro ato: assinar uma
ordem executiva para fechar o infame campo de prisioneiros na baía
de Guantánamo, para onde foram levados todos os suspeitos de haverem
participados no ataque de 11 de setembro de 2001, ou de serem
“combatentes inimigos.” Este ato expressa o repúdio de Obama à
política Bush.
E, no dia 29 de janeiro, ele assinou a lei encorajando o pagamento
equitativo para as mulheres.
Ele também foi ao Congresso falar com os
republicanos e pedir sua participação e ajuda na aprovação de um
estímulo financeiro de 900 bilhões de dólares. Embora os deputados
republicanos tenham votado contra a medida, pelo menos se disseram
impressionados pelo fato de o presidente falar com eles. Não é
muito, mas já é um bom começo. Mas os problemas com o restante do
mundo continuam.
Por exemplo, o que fazer para que a
Índia e o Paquistão — dois países com bombas nucleares — se sentem à
mesa de negociações e resolvam suas diferenças de maneira pacífica?
A questão da região de Caxemira, que pertence à Índia, mas que tem
uma população muçulmana em sua maioria, não pode deixar de ser
levantada. A questão da pobreza e da opressão dos muçulmanos dentro
da Índia também tem que ser resolvida, da mesma maneira que o
terrorismo contra a população indiana (como o que ocorreu em Mumbai
em fins de 2008) precisa ser eliminado. Como fazer para que estes
países que foram formados através de forças coloniais, e cujas
diferenças religiosas foram uma vez usadas para mantê-los separados
e inimigos, hoje deixem de ser o motivo para seus ataques?
E o que fazer com o Afeganistão?
Aumentar o número de tropas? Tentar “pacificar” um país que na
realidade é um conglomerado de clãs regidos por chefes regionais e
que praticamente derrotou todos os invasores desde Napoleão? Os
Estados Unidos deveriam simplesmente sair de lá e permitir que o
Taliban voltasse com toda a força, pronto para eliminar em praça
pública todos os que se manifestaram contra eles, e que executassem
mulheres que ousaram sair à rua sem o véu de corpo inteiro?
Ou talvez Obama deva simplesmente
retirar todas as tropas do Iraque, e deixar que o país se
auto-defenda, se auto-reorganize, e que se Deus quiser, os últimos 6
anos de guerra e ocupação sejam esquecidos, e os civis mortos
durante esta campanha sejam esquecidos, e o regime de terror de
Saddam Hussein seja esquecido e que somente aquele par de sapatos
atirados na cara de Bush sejam lembrados e celebrados?
E tem, logicamente, a questão do
conflito em Gaza. Mais de mil civis foram mortos, não só pelas
bombas que vieram do céu, mas também pelos agentes químicos que
queimaram pessoas vivas e também pelos soldados que entraram em
casas e atiraram nas pessoas—homens, mulheres, crianças, velhos—que
se refugiavam, todos juntos, dentro de um quarto da casa. Muitos
viram seus pais, suas mães, seus filhos e seus irmãos executados à
queima roupa, diante de todos, e seu crime era serem palestinos,
pobres e morarem em Gaza. Que fazer com Israel que não quer e não
pode arriscar que os países árabes se juntem para destruir o país?
Mas por que foi mesmo que eles começaram esta guerra?? O que
realmente nós temos que ver com isto??
Por estas alturas, o que se sente nos
Estados Unidos é um cansaço de tantas guerras, tantas agonias no
mundo inteiro, dos desmandos bushianos que nos levaram à beira deste
abismo financeiro e este sentimento de desconfiança no sistema
econômico que o país criou.
Para Obama, no fim do dia, deve restar o
imenso peso da responsabilidade por um país que não se encontra em
uma situação econômica tão ruim desde a grande depressão dos anos
30, e mais tantas guerras em todo o mundo. Porque, como vemos na
história, quando Roosevelt propôs o “New Deal”, o país tinha só um
problema fenomenal: a economia. Desta vez, Obama tem que fazer uma
cirurgia do coração a este paciente que está sangrando por várias
feridas abertas em várias partes do corpo. Não foi por casualidade
que ele escolheu um livro de peso histórico e religioso sobre o qual
fazer o juramento da posse: a bíblia que pertenceu ao presidente
Lincoln.
Mas, apesar de tudo, apesar da
incerteza, ao fim destes primeiros 15 dias do governo Obama, o
otimismo continua. Ou pelo menos a esperança. Sabemos que ele
escolheu um grupo de assessores de primeira linha, gente que não
necessariamente concorda com ele em tudo (como os assessores de
Bush), mas gente que quer muito ajudar a resolver estes problemas e
assegurar ao povo do país – e por que não, o povo do mundo inteiro –
que eles não são um bando de cowboys loucos com revólveres
carregados pendendo na cintura. Barack Obama disse durante sua
campanha, e renova a mesma promessa agora, que vai optar sempre pela
diplomacia. Neste sentido, já enviou vários representantes do
governo para as regiões do mundo em que sente que existe urgência de
conversa, discussão de diferenças, aproximação de pessoas. Já é uma
grande diferença da posição bushiana, que era de que “ou você está
comigo, ou está contra mim, e vai agüentar as conseqüências.”
Há tanto que fazer. Mas Barack Obama não
pode fazer tudo sozinho. E o momento não é para apontar culpados e
bodes expiatórios.
O mundo se encontra em grave crise tanto militar, como econômica,
como ecológica. Se bem que se pode argumentar que o governo de Bush
foi responsável por remover a pedra que estava segurando a represa,
agora vemos que um governo sozinho, ou um país sozinho, não pode
resolver tudo.
Se a presidência de Barack Obama vai
resolver alguma coisa, a primeira é que os Estados Unidos não podem
resolver os problemas do mundo. Nenhum país pode. Ou trabalhamos
todos juntos nesta crise, ou então a situação vai somente piorar
para todos.
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