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JOÃO FÁBIO
BERTONHA
Doutor
em História, Professor
do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá/PR
e Pesquisador do CNPq.
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O fim da era Bush e Obama: uma nova era para
os Estados Unidos, sua política externa e sua sociedade?
Parte 1
João Fábio Bertonha
Escrevo
estas linhas numa fria tarde em Madrid, no dia da posse do novo
presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. A televisão espanhola
transmite a cerimônia, realmente impressionante, e a sensação que se
passa, na mídia européia, é de imenso alívio pelo fim da
administração Bush e o começo de uma nova era. Parece razoável supor
que, salvo exceções pontuais, o mesmo sentimento se repete em todo o
planeta.
O alívio pelo fim da era Bush é, a meu
ver, totalmente compreensível. Em quase todas as administrações, por
mais que não apreciemos a ideologia de quem está no poder ou
avaliemos negativamente seu governo como um todo, sempre é possível
encontrar um ponto positivo, algo que valha a pena elogiar. No caso
de George W. Bush, com a possível exceção do aumento da ajuda para
combater a AIDS na África, pouco resta a comemorar. Alguns
historiadores norte-americanos dizem que ele será considerado o
segundo pior presidente da história do país, perdendo apenas para o
presidente Buchanan, que não conseguiu apagar o incêndio que levou à
guerra civil no século XIX e é tradicionalmente o “pior” imbatível.
Estas avaliações mudam, claro, com o tempo, mas, hoje, é difícil não
concordar com eles.
Na minha avaliação, há uma explicação
para os desastrosos oito anos de Walter W. Bush na Casa Branca. Em
casa e no exterior, ele seguiu o pior das tradições republicanas e
conservadoras americanas, ao mesmo tempo em que renegou o que elas
têm de melhor. Uma combinação que, a meu ver, ajuda a explicar esse
período lamentável que foi sua administração.
Sua política ambiental ou trabalhista,
por exemplo, foi a típica republicana, com o torpedeamento de todas
as iniciativas para tentar diminuir a dependência americana do
petróleo ou de alternativas energeticamente mais eficientes e menos
poluentes, assim como de quaisquer benefícios ou proteção aos
trabalhadores. Alguma coisa foi feita no tocante ao etanol, mas
muito pouco. Não colocar empecilhos à iniciativa individual e,
especialmente, às empresas, é um dos dogmas dos republicanos e
liberais e não espanta que isso tenha acontecido.
Bush também não se preocupou em atacar
outros problemas internos dos EUA, como a crescente desigualdade
entre ricos e pobres; um sistema educacional que, apesar das ilhas
de excelência que lideram a ciência mundial, está ficando para trás
dos outros países desenvolvidos; a questão da imigração e, acima de
tudo, o problema da saúde e sua acessibilidade aos mais pobres.
Claro que nem que sua administração
quisesse poderia equacionar todos estes problemas. O que incomoda em
Bush é que ele nem sequer tentou. Fiel, neste ponto, à tradição
republicana e liberal de considerar que a natureza pouco importa
frente aos lucros e que todos devem ser capazes de pagar pela sua
educação ou tratamento médico (e que, se não puderem, azar), não se
mexeu em nada e os problemas continuam. Eu estava nos EUA durante a
campanha, aliás, e não havia tema mais candente na TV do que a do
tratamento médico, pois, sendo a saúde quase que totalmente privada
e caríssima, ficar doente lá é impraticável. Para os americanos, um
sistema de saúde como o europeu, apesar dos seus problemas, seria um
sonho. A indiferença de Bush frente ao problema da saúde (ou quando
do furacão Katrina) é emblemática de como a direita republicana vê
os pobres.
Na política, por outro lado, sua
administração não respeitou o “outro lado” da doutrina liberal, ou
seja, aquela que defende os direitos individuais das pessoas e o
Estado de direito. Graças à comoção do 11-9, várias leis
inimagináveis em outras épocas foram aprovadas, fortalecendo o poder
do Executivo e das agências de segurança. Ao mesmo tempo, a moral da
direita cristã adquiriu nova força e, apesar de não conquistar o
país, passou a incomodar os que não compartilhavam daqueles ideais e
atrapalhar o avanço da ciência. Não vamos dizer que se instaurou uma
ditadura no país, pois suas próprias tradições democráticas não o
permitiriam. Mas houve um apelo à paranóia e ao desrespeito a lei,
que permitiu Guantánamo e Abu Ghiraid.
Aliás, como assustava e assusta ver o
clima de paranóia em emissoras pró-Bush como Fox News e como
impressiona, negativamente, chegar aos EUA hoje e não ver mais os
agentes da imigração, mas os do Department of Homeland Security,
com um uso de termos que lembra Estados autoritários, o que não é o
caso dos EUA. Uma mudança só explicável pelo 11-9 e por um grande
desejo de poder e maior controle das pessoas pelo governo Bush. Até
certo ponto, compreensível e justificável, mas, dentro da tradição
liberal, no mínimo espantoso ou hipócrita.
Sua política econômica também foi a
típica republicana, mas só até certo ponto. Sua ênfase sempre foi o
corte de impostos, especialmente dos mais ricos, a espera que a
cornucópia deles se enchesse e derramasse prosperidade em toda a
sociedade. Irritante, aliás, ver o candidato John Cain (de resto,
uma figura respeitável) responder qualquer pergunta sobre soluções
para a crise econômica com o mantra do corte de impostos. Em alguns
casos, diminuir a carga tributária pode ser necessário e até justo,
mas não pode ser a resposta para todo e qualquer problema. Além
disso, o principal defeito dessa teoria é que a cornucópia dos ricos
nunca enche o suficiente, o que gera concentração de renda e muito
menos crescimento e prosperidade do que seria possível.
Ao mesmo tempo, outra parte do credo
liberal, que prevê um Estado enxuto e com as contas em dia
justamente para não atrapalhar o andamento dos mercados, foi
esquecida. Cortes foram feitos em despesas sociais, mas
insuficientes para compensar a diminuição das receitas e uma
explosão de gastos na área militar e em segurança. Alguns desses
gastos seriam até justificáveis, mas não no nível que chegaram.
Como resultado, um presidente que
deveria, em teoria, diminuir o tamanho do Estado e perseguir o
equilíbrio fiscal, o aumentou em certas áreas e fez o superávit dos
anos Clinton se tornar um enorme déficit. O que realmente salva os
EUA é que, como o dólar é moeda de reserva mundial, eles podem
imprimir montanhas dele para pagar as suas despesas e exportá-lo
para o resto do mundo. Dessa forma, eles enviam sua inflação
potencial para fora e conseguem sustentar seus déficits público e
comercial. Mas isso não poderá durar para sempre e Bush só piorou o
problema, já antigo.
Onde Bush seguiu fielmente a cartilha
liberal foi em não permitir nenhuma regulamentação dos mercados,
como se fazer isto fosse a chegada do comunismo na América. Os
mercados financeiros norte-americanos sempre foram dos mais
desregulamentados do mundo e uma tradição do país não vigiá-los
demais. Mas havia alguns mecanismos, desde os anos Roosevelt e
antes, que poderiam ter sido usados para impedir problemas maiores,
mas isso não aconteceu. Culpa exclusiva da administração Bush? Não,
pois até o governo Clinton, embarcando na onda neoliberal, já havia
renunciado a um papel mais ativo na regulamentação do mercado
financeiro. Mas Bush e sua equipe conseguiram piorar ainda mais as
coisas ao acreditarem, ou fingir acreditar, que os mercados se
auto-regulamentam e que ninguém precisa fazer nada para evitar
crises como a atual.
Em última instância, na verdade, os
liberais que defendem esta proposição não estão cem por cento
errados. Em alguns casos, intervenções estatais podem atrapalhar o
equilíbrio dos mercados (e parece que algumas iniciativas do governo
Clinton em apoiar a compra de imóveis pelos mais pobres se
encaixariam nessa categoria, ainda que sejam secundárias na
explicação do atual colapso) e os mercados são sim capazes de se
auto-regular. Vejamos a crise atual. Se deixarmos que as forças de
mercado atuem, empresas, bancos e pessoas que fizeram escolhas
erradas quebrarão ou morrerão de fome e outras empresas, bancos e
pessoas, mais espertas ou sortudas, crescerão e tomarão seu lugar,
numa “destruição criativa”. Depois de um período de turbulência e
sofrimento, virá uma nova fase, de crescimento.
Este é realmente um padrão do
capitalismo, cujas fases de crescimento parecem ser regularmente
sucedidas por crises de superprodução e especulação que culminam num
colapso geral, o qual rearticula as forças econômicas para o
recomeço. Não seria diferente desta vez e não será o fim do sistema.
O problema central é que as empresas não querem quebrar, as pessoas
não desejam perder seus empregos e morrer de fome e os governos não
aceitam pagar o preço político dessa reacomodação.
Assim, todos correm em busca do Estado e
dos fundos públicos, o que, pela doutrina liberal, é um completo
absurdo. E, realmente, é a socialização dos prejuízos quando os
lucros do passado foram apenas privados. Mas, para o conjunto da
sociedade, acaba sendo o mal menor, e, nesta hora, todo mundo
esquece os pruridos ideológicos que foram úteis em outros momentos e
corre em busca de socorro. Teria sido muito mais econômico e menos
doloroso não permitir que as coisas tivessem chegado a este ponto e
mais regulamentação talvez não tivesse impedido o problema, mas, no
mínimo, poderia tê-lo aliviado.
Na política externa, faço a mesma
avaliação que fiz sobre a interna. Em alguns pontos, a tradição
republicana foi seguida. Em outros, esquecida, numa combinação
desastrosa para o mundo e para os Estados Unidos.
A tradição republicana e liberal defende
o livre comércio como forma de desenvolver e aproximar os povos e o
máximo de realismo possível, ou seja, uma defesa intransigente dos
interesses nacionais dos EUA, sem grandes remorsos ou dúvidas, e
aplicação dos recursos nacionais apenas quando estes estão em jogo.
Mesmo sem entrarmos na discussão sobre
as vantagens ou não do livre comércio para o desenvolvimento, o que
já fiz em outros espaços, podemos ver como Bush seguiu este mantra.
Mas o fez seguindo a tradicional hipocrisia que é a característica
do comércio internacional. Ou seja, quando havia vantagens
potenciais para os EUA, o comércio devia ser livre. Mas, se a
vantagem era do outro lado ou havia a necessidade de agradar algum
aliado político interno, protecionismo era aceitável. Um jogo duplo
que nem de longe é exclusivo dos republicanos (os democratas,
normalmente, são ainda mais protecionistas), da administração Bush
ou dos EUA, mas que ele continuou a seguir.
Ele também seguiu a tradição republicana
de uso da força sem hesitação quando necessário. Mas a combinou com
elementos que os antigos republicanos não aprovariam e nem
aprovaram, como o total desprezo pelos aliados e amigos, num
unilateralismo radical que diminuiu muito o prestígio dos EUA no
mundo.
Além disso, ele permitiu que a política
externa fosse influenciada por pensadores conservadores que, bem
longe do padrão tradicional republicano, quiseram fazer guerra por
ideais, para mudar o mundo pela força. O resultado é a guerra do
Iraque, que trouxe benefícios ao mundo (como a eliminação do odioso
regime Hussein), mas não colaborou realmente para eliminar a ameaça
do terrorismo e representa um vespeiro dentro do qual os EUA não
precisavam ter entrado e não sabem como sair.
A desarticulação mundial da rede
terrorista de Osama Bin Laden e a Guerra do Afeganistão
provavelmente se classificariam dentro do padrão de uma guerra de
defesa contra um inimigo real e é mais justificável, pelo que não
espanta que tenha sido apoiada inclusive pelos democratas e pelos
aliados de Washington ao redor do mundo. O problema é que o Iraque
desviou o foco e a guerra lá também se arrasta, em mais um passivo
do governo Bush.
Em resumo, combinando o pior da tradição
republicana e liberal e rompendo com o que de melhor há nessa
tradição, Bush conseguiu fazer o que parecia impossível, ou seja,
levar boa parte do povo americano ao desânimo, a economia mundial a
uma severa crise e o país ao pior momento de sua história em termos
de prestígio internacional. Uma herança horrível para oito anos que
pareciam que nunca iam terminar.
Mas, na verdade, talvez ele tenha
deixado algo bom. Sem o 11-9 e Bin Laden, as chances de Bush se
reeleger em 2004 teriam sido mínimas. Do mesmo modo, sem o desastre
de Bush, a eleição de Obama em 2008 também seria quase impossível.
Seus dotes como político, capaz de derrotar a máquina política dos
Clinton e, depois, a força da direita cristã e de outros inimigos
dos democratas, são inegáveis. Seu carisma e habilidade em se
apresentar como o iniciador de uma nova era e como o candidato de
todos os americanos, e não apenas dos negros, também são
impressionantes. Mas, em 2000 e menos ainda em anos anteriores,
provavelmente não seria suficiente para levá-lo à Casa Branca. Um
mundo alternativo em que Al Gore tivesse vencido a eleição de 2000
(como, na realidade, venceu, se lembrarmos da provável fraude na
Flórida) teria sido bem melhor, mas, nesse mundo, um fenômeno como
Obama não teria acontecido. Resta agora verificar como o novo
presidente vai lidar com o imenso passivo e os grandes desafios
deixados por Bush, o que tentarei indicar no próximo artigo. |
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